Eden (2014)

Por André Dick

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Há inúmeros filmes com a temática musical de fundo, inclusive mostrando uma determinada cena. Cameron Crowe é especialista nesse gênero, o que demonstra em Vida de solteiro, sobre o grunge em Seattle, e Quase famosos, sobre as bandas de rock dos anos 70. Mostrando os mesmos anos 70, temos também The Runaways, sobre o grupo homônimo, e Control, uma cinebiografia em preto e branco de Ian Curtis. Ainda há aqueles filmes que retratam astros tentando se manter depois que o sucesso já diminuiu, como a subestimada comédia romântica Letra e música, traduzindo a influência da música dos anos 80, ou sobre um determinado músico, no caso de Johnny & June, o compositor Johnny Cash, em grande atuação de Joaquin Phoenix.
Eden talvez seja o filme que melhor reproduza a sensação de um músico dividido entre a noite, na qual se abriga, e o dia, no qual tenta apenas conservar os relacionamentos iniciados à noite. Ele surge na persona de Paul Vallée (Félix de Givry), segundo entrevistas o alter ego do irmão da diretora Mia Hansen-Løve, Sven, que coescreveu o roteiro. Ela decidiu contar sua história de forma enviesada, mostrando envolvimento com a house-music e a música eletrônica no mesmo período em que estava surgindo o Daft Punk, nas figuras dos DJs Thomas (Vincent Lacoste) e Guy-Man (Arnaud Azoulay). A cena que começava a emergir em Paris incluía festas em navios ancorados e o que se convencionou chamar de French Touch. Para isso, Vallée se reuniu com o amigo Stan (Hugo Conzelmann), também músico, formando o Cheers, e o desenhista Cyril (Roman Kolinka), que desenhava para sua carreira ao mesmo tempo que criava histórias, e o amigo Arnaud (Vincent Macaigne).

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Conhecido como o filme que trataria do Daft Punk, Eden certamente não se restringe a isso. Nascida no início dos anos 80, Hansen-Løve, depois de Os pais de meus filhos e Adeus, primeiro amor, comprova ser uma cineasta claramente contemporânea: ela não está interessada em tecer elos óbvios entre os personagens, deixando a cargo do espectador selecionar uma narrativa das imagens. Nesse sentido, na primeira parte da história, intitulada “Paradise Garage”, vamos percebendo o interesse de Vallée por Louise (Pauline Etienne), sua relação com uma nova-iorquina, Julia (Greta Gerwig), seus desentendimentos com a mãe (Arsinée Khanjian). Todos esses relacionamentos vão se baseando em jogos aleatórios de montagem, em que cada um vai surgindo sem exatamente chamar a atenção para a sua presença.
O personagem de Vallée nunca se sente completo porque todos parecem estar de passagem – e Hansen-Løve consegue, por meio dessa sensibilidade de visão, colocar o espectador em meio a uma sensação de desamparo. Trata-se de um personagem pouco previsível, e Hansen-Løve mostra seu sonho de ser DJ e de tocar num clube lotado à noite como algo que faz parte de sua tentativa de esquecer não apenas uma vida com compromissos e sua vida acadêmica. No entanto, de forma paradoxal, ao agir dessa maneira Valeé sente exatamente falta do compromisso. Isso se manifesta na relação com Louise e Julia, das quais não consegue se desprender, mesmo que elas venham junto com o fluxo de sua vida conturbada.
Mais do que um filme sobre a cena musical registrada, Eden é retrata as perdas diante de um cenário que parece eterno e pode se mostrar, no fim das contas, efêmero. São notas desiludidas de uma cineasta que viveu o período por meio do envolvimento do irmão, o corroteirista, e tem um apreço por esta história adequado a seu tratamento para o retrato de tal círculo. Esta análise do que não é visto como espetacular no momento de sua criação ganha um diálogo com a presença de Arnaud, que mostra aos amigos o filme Showgirls, de Paul Verhoeven, bastante criticado à época de seu lançamento e que foi adquirindo, com o passar dos anos, um status de cult.

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É como se esses personagens, embora não tão considerados, fossem também parte da memória particular das pessoas. Se a trilha sonora traz composições como “One more time”, do Daft Punk, o que fica é justamente essa tentativa de o artista compor músicas entre a alegria e a melancolia, como diz Vallée em determinado momento. Associado a Inside Llewyn Davis por alguns, Eden é um filme que captura realmente a sensação de um período, e não se associa apenas a uma galeria de arte, com a obra dos irmãos Coen.
Há uma necessidade um pouco deslocada de Hansen-Løve separar o que considera alta e baixa cultura (a literatura e a música, neste caso), quando as artes, na verdade, se completam (o nome do personagem central lembra Paul Valéry), mas ela inegavelmente faz uma obra completamente imersiva. Talvez o espectador não seja especial admirador desse gênero musical (como é o meu caso); dito isso, ele traz a atmosfera exata de um lugar em que esta música soa, muito em razão do trabalho de fotografia de Denis Lenoir, e sabe, como Kechiche, em Azul é a cor mais quente, deixar o fluxo da narrativa levar seus personagens, embora sem a mesma sucessão de diálogos. Toda a parte do filme passada em Nova York, sobretudo no conhecido MoMA PS1, espaço para DJs, possui uma montagem ágil e, ao mesmo tempo, reflexiva, quando coloca os personagens de Vallée e Louise numa legítima crise de relacionamento, sem nenhuma espécie de exagero ou comedimento por parte de Hansen-Løve.
Não chegamos a ter simpatia especial pelas figuras apresentadas, mantendo-nos a distância; ainda assim, elas soam tão reais que essa distância parece diminuir, sugerindo uma proximidade. Isso proporciona uma sensação de passagem da juventude para a vida adulta de forma um tanto amarga – de qualquer modo, excepcional. Como Azul é a cor mais quente, a narrativa também utiliza saltos temporais, que pegam o espectador desprevenido e, não tendo visto soluções anteriores para as questões, acumula-se uma espécie de desapontamento temporal, sendo, por isso, a narrativa um pouco melancólica. Para isso, a atuação de Givry, central, é excelente, no entanto não ficam longe Kolinka, Etienne e Gerwig, bastante convincente como a amante americana de Paul. Não lembro de outra visão da juventude tão despretensiosa e impactante nos últimos anos, exceto, sob outro enfoque, As vantagens de ser invisívelEden tem uma noção muito grande de seu espaço e de sua passagem de anos, além de ver com nostalgia um período em que apenas alguns se destacaram, não diminuindo a importância de quem ajudou a fazer uma determinada cena. É uma obra em que os sentimentos são trabalhados de forma quase inexpressiva para que possam criar um impacto ainda maior no espectador que aceita a proposta de Hansen-Løve.

Eden, FRA, 2014 Diretor: Mia Hansen-Løve Elenco: Félix de Givry, Pauline Etienne, Vincent Macaigne, Roman Kolinka, Hugo Conzelmann, Zita Hanrot, Vincent Lacoste, Arnaud Azoulay, Paul Spera, Hugo Bienvenu, Sébastien Chassagne, Laurent Cazanave, Sigrid Bouaziz, Léa Rougeron, Olivia Ross, Pierre-François Garel, Claire Tran, Arsinée Khanjian, Greta Gerwig, Brady Corbet Roteiro: Mia Hansen-Løve, Sven Hansen-Løve Fotografia: Denis Lenoir Produção: Charles Gillibert Duração: 131 min. Distribuidora: Imovision Estúdio: CG Cinéma

Cotação 5 estrelas

 

Enquanto somos jovens (2015)

Por André Dick

Enquanto somos jovens

O olhar do diretor Noah Baumbach sempre esteve voltado para os conflitos marcados pela passagem da juventude para a vida adulta, ou mesmo por adultos tentando se adaptar ao seu presente, sem nunca conseguirem se desligar do passado. Embora as experiências no roteiro com Wes Anderson não tragam exatamente esses temas, em A vida marinha com Steve Zissou e O fantástico sr. Raposo, eles estão presentes em filmes que o próprio Baumbach dirigiu. Depois de uma estreia nos anos 90, com Tempo de decisão, ele dirigiu o ótimo A lula e a baleia, sobre uma família procurando elos de ligação, e em seguida Margot e o casamento, com Nicole Kidman, e certamente seu filme mais subestimado, Greenberg (que recebeu no Brasil o título lamentável O solteirão), com Ben Stiller. Depois das boas críticas com Frances Ha, estrelado por Greta Gerwig, sua namorada, que está no seu próximo filme, Mistress America, a ser lançado também este ano, Baumbach retomou sua parceria com Stiller neste Enquanto somos jovens. A princípio, é compreensível por que este filme não está recebendo a mesma atenção de Frances Ha: ele não tem a mesma estrela ingênua à frente do elenco, e a história é mais amarga, assim como Greenberg e Margot e o casamento.
Josh (Stiller) e Cornelia Svhrebnick (Naomi Watts) formam um casal em Nova York. Enquanto busca equilibrar o desejo inconsciente de ter filhos, Josh tenta completar um documentário sobre o intelectual Ira Mandelstam (Peter Yarrow) e dá aulas na universidade Dois ouvintes, Jamie (Adam Driver) e Darby Massey (Amanda Seyfried), se anunciam e Jamie, especificamente, diz ser admirador do documentário que ele realizou anteriormente, assim como do sogro dele, Leslie Breitbart (Charles Grodin). A relação conflituosa entre Josh e Cornelia se mostra ainda mais forte quando eles estabelecem uma amizade com esse casal. Jamie agrada a Josh não apenas pela juventude, como valorizar, ao mesmo tempo, Cidadão Kane e Rocky III, e se surpreende  quando o objetivo de Darby é trabalhar com o ramo de sorvetes. O que lhe agrada é o aparente descompromisso do casal.

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Há um clima bastante importado de alguns filmes de Woody Allen, não apenas pelo cenário de Nova York, como também pelos diálogos que remetem ao próprio cinema e à literatura. No entanto, onde Allen tenta tornar seus personagens mais agradáveis, não acontece o mesmo com Baumbach. Sua predileção é colocar seus personagens em conflitos às vezes por detalhes insignificantes, e busca não apenas o humor nisso, como também um misto de inveja e de sede de um indivíduo se sobrepor o outro. Em Frances Ha, era interessante como Baumbach mostrava sua protagonista sempre com graves problemas, porém sem aprofundar exatamente essa melancolia. O mesmo acontece em Enquanto somos jovens: os personagens nitidamente não estão felizes, embora queiram estar. Mais do que em Greenberg e Frances Ha, não há um simples encantamento com a possibilidade de se manter jovem: em Enquanto somos jovens, Josh e Cornelia se mostram desamparados, por não conseguirem mais agir como pessoas jovens, tentando pensar no futuro, mesmo com a ligação mantida com o casal Fletcher (Adam Horovitz) e Marina (Maria Dizzia).
Isso leva à citação de Henrik Ibsen, de The Master Builder, que abre o filme e remete à possibilidade de os jovens entrarem na vida de alguém mais velho para, sem outra palavra, bagunçá-la. Baumbach utiliza esta citação de Ibsen para realizar o que Woody Allen realizou em Crimes e pecados. Naquele filme, Allen interpretava um personagem que fazia um documentário sobre o cunhado, interpretado por Alan Alda. Aqui, em determinado ponto, quando Josh se mostra confiante em dividir seus planos e interesses com Jamie, ele passa também a querer participar do documentário imaginado pelo amigo. Isso acaba produzindo um clima de competição, enquanto Darby leva Cornelia a aulas de hip-hop. Há conflitos de geração muito interessantes expostos por Baumbach de forma até discreta, como aqueles que se relacionam com as tecnologias (uso de celulares, por exemplo) e a tentativa de soar como o outro mais jovem (quando Josh resolve usar chapéu como Jamie). Essa tentativa de se adaptar a um novo tempo parece um assunto óbvio, no entanto Baumbach tem talento ao costurá-lo de acordo com as interpretações e diferentes nuances que os personagens vão mostrando. Ele, de certo modo, expande a segunda metade de Frances Ha – a dificuldade de a personagem lidar com a solidão – num retrato de um casal chegando à meia-idade com um certo desespero existencial de não ter conseguido, de maneira completa, o que mais queria.

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Com isso, também há sequências divertidas, como a reunião, em determinado momento, dos casais e a tentativa de provarem Josh e Cornelia provarem que gostam um do outro. O tema da paternidade também dialoga com Distante nós vamos, de Sam Mendes, um filme quase esquecido de 2009, em que o casal viajava à procura de um lugar adequado para se estabelecer – enquanto a mulher está esperando um filho. Assim como lá, há uma sensação permanente de melancolia na reação desses pares, e enquanto Josh e Cornelia vão se afastando do seu casal de amigos com a mesma idade, que já tem um bebê, vai ficando mais claro o que eles realmente querem em suas vidas. Baumbach não trabalha isso distante de elementos evidentes de humor, no entanto enlaça tudo com uma sensação de despedida da juventude.
O que pode diminuir a intensidade de Enquanto somos jovens é justamente a sua tentativa de colocar Adam Driver como um ator capaz de atuar tanto quanto o personagem principal; impressiona como Driver ainda não consegue ser efetivo num papel mais extenso. Enquanto Stiller e Watts formam um casal cujos conflitos são convincentes, Seyfried se sente um pouco deslocada justamente em razão de Driver, ocupando quase todas as cenas em que eles dividem. O ex-Beastie Boys Horovitz tem uma boa interpretação, complementando bem as cenas em que divide com Stiller ou Watts, sempre levando Enquanto somos jovens para essa sensação de compromisso da vida adulta, ou tentativa de se afastar dele. Mas é Grodin que, além da excelência como ator, que faz costurar um pouco melhor a terceira parte da narrativa, um pouco inferior às demais, quando Baumbach pretende investigar a questão do que seria verdade ou não na realização de um documentário. Aqui, é possível sentir um pensamento quase conceitual do diretor; no entanto, isto é evidente no filme que o inspirou, o já referido Crimes e pecados e, mesmo um tanto deslocado da atmosfera geral da narrativa, indica a proposta de Enquanto somos jovens: a ingenuidade e o descompromisso da juventude podem esconder os mesmos dilemas da vida adulta.

While we’re young, EUA, 2015 Diretor: Noah Baumbach Elenco: Ben Stiller, Naomi Watts, Adam Driver, Amanda Seyfried, Charles Grodin, Brady Corbet, Adam Horowitz, Maria Dizzia  Roteiro: Noah Baumbach Fotografia: Sam Levy Trilha Sonora: James Murphy Produção: Eli Bush, Lila Yacoub, Noah Baumbach, Scott Rudin Duração: 97 min. Distribuidora: Mares Filmes Estúdio: Scott Rudin Productions

Cotação 3 estrelas e meia 

Força maior (2014)

Por André Dick

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Uma família sorridente posando para uma foto num cenário gelado, com figurino e equipamentos para esquiar é o que inicialmente pode sintetizar a procura pelo estudo de como ela pode ser vista dessa maneira e de outra, nos bastidores. O espectador certamente está num cenário que se mostra atrativo e agradável, no entanto, quando tudo pode escapar ao previsto é que se pode construir uma história a ser vista não apenas por sua paisagem externa, como também pelo que guarda de mais encoberto. Força maior, o indicado para o Oscar pela Suécia, mas que não chegou à lista de finalistas, é um cinema cada vez mais raro de se encontrar: não existe, aqui, um centésimo do movimento que vemos em Relatos selvagens, porém tudo pode ser uma justificativa para algo que está se movimentado de outro modo.
Por isso, embora tenha uma premissa parecida com a de Planeta solitário, Força maior é um filme bastante original. Ele apresenta um casal, Tomas (Johannes Bah Kuhnke) e Ebba (Lisa Loven Kongsli), que passa por uma determinada situação capaz de colocar seu relacionamento em dúvida. Eles estão de férias num hotel dos Alpes franceses com seus filhos, Harry (Vincent Wettergren) e Vera (Clara Wetterngren), à procura de tranquilidade – porém, nada ficará tranquilo. E nenhum deles conseguirá exatamente se esconder, como mostra o zelador (Johannes Moustos). É interessante como esse hotel parece retratar a mesma perfeição que vemos na foto de família, com uma simetria calculada, e todos os encontros parecem divertidos o suficiente para esconder que, na verdade, não são. Quando Tomas e Ebba encontram uma amiga, Charlotte (Karin Myrenberg) disposta a encontrar vários amores e viver um casamento sem limites programados, sente-se a tensão no ar. Tudo o que é vivido por eles se torna uma espécie de corrente de ar que não pode mais ser escondida.

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Se a direção de Ruben Östlund parece, em alguns momentos, com a de Michael Haneke, como já indicaram, parece que em alguns momentos ele opta pela corrosão de Woody Allen (via Bergman) ao mostrar o relacionamento entre Tomas e Ebba. Não é algo fácil: Kongsli não se mostra uma atriz exatamente simpática, de acordo com o papel, enquanto Kuhnke tem um misto de frieza com receio de manifestar de qualquer emoção (e ainda assim, em alguns momentos, engraçado, talvez por sua fisionomia lembrar a de Jason Sudeikis). Ebba, já no início, parece uma personagem insegura, não mais, no entanto, do que Tomas. Esses são personagens cortados por qualquer relação, e a maneira como são filmados sempre traz algum elemento constrangido diante da maneira como se expõem. A mulher adota uma visão do acontecimento (que retrata o que aconteceu), enquanto o homem tenta criar saídas para o comportamento que não pode explicar. Diante disso, Força maior joga com possíveis verdades e o interesse que cada um tem em contar a sua versão para afirmar sua posição diante do casamento.
Isso torna a obra de Östlund provocativa na medida certa: ele não mostra exatamente uma faceta interessante para homens e mulheres, e críticas que apontam o filme com elementos de misoginia não veem, na exatamente, a figura que está sendo exposta do homem. Estamos diante de uma análise devastadora sobre a figura dele como força protetora e cuja masculinidade nunca pode, socialmente, ser contestada, principalmente em termos de coragem, enfrentamento e persuasão. Nesse sentido, Força maior parte de um acontecimento ameaçador da natureza para mostrar o desequilíbrio das relações, e o quanto um determinado instante pode ser acompanhado apenas pelo instinto momentâneo, assim como uma simples conversa entre pessoas pode expor toda uma relação.

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No início, parece haver algo de esquemático na condução dessa história, um tanto irregular, principalmente nos primeiros 25 minutos, mas aos poucos, sobretudo quando o casal recebe o amigo Mats (Kristofer Hivju), acompanhado de uma afiada Fanny (Fanni Metelius), a história é conduzida para um ambiente interno; mesmo o fato de o casal estar entre dois andares (nunca se mostrando nem o piso de cima nem o de baixo) lembra que ele parece comprimido por uma situação que foge a eles, como a própria natureza. Logo em seguida ao encontro deles com Tomas e Ebba, Mats, desta vez, é colocada à prova por Fanny, na sua relação com a ex-mulher e os filhos. As mulheres de Força maior exigem um comportamento que os homens enfocados não estão dispostos a seguir. De forma inútil. Quando Tomas e Mats se sentam em cadeiras ao ar livre, e parecem sofrer um leve assédio, logo Östlund os chama à realidade. Daí para Tomas se perder é um passo.
É difícil encontrar outro filme – e passado quase completamente num hotel – que utilize o cenário de maneira tão simbólica: dentro do espaço de um hotel, é possível lembrar de O iluminado. Os temas ainda são os mesmos da peça de Stephen King adaptada por Kubrick: como os pais podem dar segurança aos filhos se eles não se sentem certos de que poderão fazer isso. Há elementos psicológicos de todos os tipos nas discussões acaloradas de Força maior, e eles são reunidos com um toque que, apesar de ter influência de Bergman e Haneke, sustentam uma visão de mundo talvez mais aberta ao otimismo, apesar do amargo que ronda a maioria das sequências. Östlund está filmando, por meio de um acontecimento, o desaparecimento de uma família e o surgimento de outra, capaz de estabelecer um parâmetro para os relacionamentos.

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A analogia entre o casal no banheiro e as tempestades de gelo parece um pouco preestabelecida pelo roteiro e ainda assim o diretor Östlund desperta uma espécie de humor em razão também da trilha sonora. Força maior, ao contrário do que seu marketing possivelmente indique, discute, acima de tudo, as nebulosas relações, e os simbolismos ao longo da narrativa parecem se fechar com o isso, a exemplo de quando Tomas e Mats estão solitários no alto da montanha falando de terapias passadas ou nunca realizadas. Do elenco, excelente, quem se destaca é Kristofer Hivju, trazendo um humor necessário ao prosseguimento da trama, embora Kuhnke não fique em segundo plano e Kongsli faça uma esposa abalada com a situação bastante verossímil. Esse elenco oferece a sustentação, junto com a fotografia irretocável de Fredrik Wenzel, para a narrativa de Östlund, ao mesmo tempo que confere aos atritos entre homens e mulheres uma interessante perspectiva. Trata-se de uma obra que possui uma etapa final ainda mais memorável, por todo o cuidado que Östlund traça a partir de seus personagens e de como eles podem se encontrar verdadeiramente por meio daquilo que consideram estar perdendo. Além de ser um dos grandes momentos do cinema em 2014, é aí que reside a atratividade de Força maior: ser, de fato, uma obra sobre finalmente reconhecer uma coisa pelo que se é, depois de efetivamente nunca entendê-la.

Force majeure, Suécia/Noruega/Dinamarca, 2014 Diretor: Ruben Östlund Elenco: Johannes Bah Kuhnke, Lisa Loven Kongsli, Vincent Wettergren, Clara Wettergren, Kristofer Hivju, Fanni Metelius, Brady Corbet, Karin Myrenberg  Roteiro: Ruben Östlund Fotografia: Fredrik Wenzel Trilha Sonora: Ola Fløttum Produção: Erik Hemmendorff, Marie Kjellson Duração: 118 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Plattform Produktion

Cotação 4 estrelas e meia