Jerry Maguire (1996)

Por André Dick

O diretor Cameron Crowe vinha de uma juventude trabalhando como repórter de música da Rolling Stone quando teve um roteiro seu filmado por Amy Heckerling em Picardias estudantis. Em Digam o que quiserem, ele estreou como diretor, mostrando uma história interessante sobre um jovem (John Cusack) que se apaixonava por uma colega de escola, enfrentando uma situação inusitada quando o pai dela se envolvia em problemas. Seu segundo passo foi o curioso Vida de solteiro, situado na cena grunge de Seattle dos anos 90; Finalmente, em 1996, ele deu o passo adiante em sua trajetória com Jerry Maguire. Indicado aos Oscars de melhor filme, roteiro original, ator (Tom Cruise) e edição e que proporcionou a estatueta de melhor coadjuvante ao ótimo Cuba Gooding Jr. Seu diretor, Cameron Crowe, já havia prestado uma homenagem à juventude descompromissada em Vida de solteiro e acerta, neste filme, no coração juvenil americano, com uma história ao mesmo tempo simples e exagerada (spoilers a partir daqui).

O agente esportivo Jerry Maguire (Cruise) redige um manual endereçado aos colegas de profissão, em que pede que os atletas em geral sejam mais valorizados. A princípio aplaudido, ele logo é despedido de sua agência por um colega inescrupuloso, Bob Sugar (Jay Mohr), que acaba roubando também sua agenda de esportistas que agencia. Na despedida do emprego, uma moça, Dorothy Boyd (Renée Zellweger) decide acompanhar Maguire em carreira solo. Namorado de Avery Bishop (Kelly Preston), uma mulher ambiciosa, o cliente que lhe resta é um jogador de futebol americano Rod Tidwell (Cuba), mas ainda tenta se manter agente de  Frank “Cush” Cushman (Jerry O’Connell), influenciado por seu pai, Matthew (Beau Bridges). Mãe solteira, Dorothy vai se interessar por Maguire e, a partir daí, o filme se torna, além de bem-humorado, romântico. O filho de Dorothy, Raymond (Jonathan Lipnicki) começa a gostar de Maguire como o pai que lhe faltava. No entanto, a irmã de?Dorothy, Laurel (Bonnie Hunt), está com receio do envolvimento dela com o novo chefe.

Ela costuma se reunir com amigas em sua sala de casa para falar sobre problemas que tiveram com seus parceiros – e Maguire parece como um intruso nesse cenário. Afogado em dívidas, ele é traído várias vezes, mas sabe que tem o perfil da superação.  Com intervalos pop, muito bem feito. Maguire e Dorothy se aproximam de Rod e sua mulher, Marcee (Regina King), tornando-se amigos e dividindo os problemas.
Jerry Maguire possui quase todos os elementos da filmografia de Crowe, cada vez mais usuais em Quase famosos, Compramos um zoológico e Sob o mesmo céu. Mesmo não sendo o melhor personagem de Cruise no cinema (que continua sendo Ron Kovic, de Nascido em 4 de julho), Maguire ainda assim é uma composição interessante que dá valor especial a esta obra de Crowe. Sua parceria com Zellweger, além disso, é muito boa, e funciona principalmente nos momentos de comicidade, auxiliado, às vezes, por uma ótima Regina King. No mesmo caminho, o trabalho de fotografia de Janusz Kamiński, hoje habitual colaborador de Steven Spielberg, faz uma mescla entre a iluminação de manhãs e uma atmosfera acolhedora noturna, quando, por exemplo, Maguire se prepara para ir a um restaurante com Dorothy. São momentos que Crowe sublinha com sua insuspeita em mostrar um mundo positivo, mesmo com personagens em meio a dificuldades. Cada um deles vai tentando estabelecer relações em meio a um cenário no qual os valores determinam seguir um rumo diferente, porém Crowe nunca perde de vista a humanidade investida em pequenas ações e gentilezas que movem a narrativa.

Em meio a isso, cresce o dueto de Cruise com Cuba Gooding Jr., um dos mais expressivos da década de 90 – principalmente manifestos em diálogos sobre a superação e especialmente nos bastidores de um comercial do jogador.. Há uma notável agilidade na maneira como Crowe utiliza esse personagem para visualizar o sonho americano, reproduzido tanto por Maguire como agente quanto por Rod como jogador e Dorothy como uma mulher que pretende criar independência estabelecendo laços. Há um romantismo dos anos 99 na história que em parte se perdeu a partir deste século, muitas vezes ingênuo, mas nunca menos do que autêntico. Crowe também possui uma tendência a relatar histórias otimistas, como mostra com o universo do rock em Quase famosos, sempre fazendo seus personagens atuarem com um elo de ligação muito claro com seu público.

Jerry Maguire, EUA, 1996 Diretor: Cameron Crowe  Elenco: Tom Cruise, Cuba Gooding Jr, Renée Zellweger, Kelly Preston, Regina King, Jerry O’Connell, Jay Mohr, Bonnie Hunt, (Jonathan Lipnicki, Beau Bridges Roteiro: Cameron Crowe Fotografia: Janusz Kamiński Trilha Sonora: Nancy Wilson Produção: Cameron Crowe, James L. Brooks, Laurence Mark, Richard Sakai Duração: 139 min. Estúdio: TriStar Pictures, Gracie Films, Vinyl Films Distribuidora: Sony Pictures Releasing

Carros 3 (2017)

Por André Dick

Esta terceira parte de Carros surge logo depois de um longo período de desconfiança em relação à qualidade de seu episódio anterior (de 2011, enquanto o original é de 2006), com direção de um estreante, Brian Fee, ex-integrante do departamento de arte da Pixar, para a qual contribuiu nos filmes anteriores e em Ratatouille e Wall-E. Trata-se da nova parceria entre a Pixar e os estúdios Disney, procurando atualizar uma franquia já desgastada para muitos, embora as crianças gostem muito dela – e já perdi o número de vezes em que comprei de presente para meu sobrinho algum livro da série, mesmo anos depois do segundo filme, de seis anos atrás. Desta vez, a temporada da Piston Cup traz como atração o duelo entre Lightning McQueen (Owen Wilson), visto como uma lenda, e um novo carro possante, Jackson Storm (Armie Hammer). Storm faz parte de uma nova geração que utiliza tecnologia de ponta para conseguir atingir o melhor nível nas corridas. Com isso, os da antiga geração vão sendo demitidos ou se aposentam.
Depois de um grave acidente, McQueen relembra do antigo mentor, Doc Hudson (cuja voz era de Paul Newman) e constata para sua namorada Sally Carrera (Bonnie Hunt) que não quer se aposentar como ele. Decide começar a treinar novamente.

Rusty (Tom Magliozzi) e Dusty (Ray Magliozzi), os proprietários da equipe de corrida de McQueen, o enviam para um novo centro de corridas, onde ele conhece seu novo proprietário, Sterling (Nathan Fillion), que o coloca para trabalhar com a treinadora Cruz Ramirez (Cristela Alonzo). Logo, no entanto, ele entra em conflito pelos métodos empregados.
McQueen propõe uma saída para seu novo chefe e pretende voltar à competição para tentar consegui-la. A fim de obter ajuda, o antigo carro chama seu amigo Mater (Larry the Cable Guy) e volta para sua cidade natal, Thomasville, onde reencontra Smokey (Chris Cooper) e outros conhecidos. O roteiro de Kiel Murray, Bob Peterson e Mike Rich costura essas mudanças de espaço de maneira interessante e elege Thomasville não apenas como o reduto de McQueen, como também a representação da cidade quase esquecida em relação aos centros urbanos onde o personagem central precisa estar para que possa novamente revitalizar sua maneira de agir. Storm representa a tecnologia dos grandes centros, mas McQueen pretende estar com a natureza para recuperar sua força. Naturalmente, a imagem do carro sempre está associada a um mercado de rivalidade, e esses três filmes representam isso, no entanto sem nunca deixar de lado os seus bastidores, o mais interessante para o espectador.

Carros 3 não teve a recepção de outros da Pixar considerados ótimos, a exemplo de Divertida mente, Wall-E e Up. Trata-se, na verdade, de outra peça subestimada do estúdio, assim como o ótimo Universidade Monstros e o injustamente esquecido O bom dinossauro. Assim como este tratava da infância, Carros 3 trata do envelhecimento de maneira indireta, fazendo uma ligação entre as corridas e o amadurecimento de modo talvez não imaginado antes na franquia. McQueen é um personagem aparentemente simples, mas aqui sua volta às origens e ao seu mestre (e a voz de Paul Newman novamente é reproduzida) desenha toda uma existência voltada às corridas que ele não quer deixar de lado e, ao mesmo tempo, o leva a se transformar. Seu contato com os antigos conhecidos e a desconfiança de ser treinado por um carro feminino o colocam em conflito. Há um tratamento dado pelo roteiro não voltado a um questionamento direto sobre o gênero, mas que se sustenta de maneira mais interessante e eficiente do que vemos em desenhos como Valente.

Sendo uma franquia conhecida, talvez mais do que outras da Pixar, por vender brinquedos, Carros 3 se prenuncia como uma interessante homenagem a vários filmes, a exemplo de Herbie – O fusca enamorado (o clima de competição), Rocky III (a corrida que ele aposta com Sally numa praia), Dias de trovão (quando surgem os conflitos nos bastidores para a troca de carros, num momento crucial) e Inteligência artificial (numa passagem noturna por um circo de demolição de carros, em que aparece um ônibus escolar estranho (Lea DeLaria)), mas sempre em busca de uma identidade própria. No ano passado, a Pixar teve o sucesso bilionário de Procurando Dory, que carecia de envolvimento, o que não falta a esta sequência de Carros. Todos os momentos em que o diretor Brian Fee tenta demonstrar a emoção, ele consegue por meio das vozes de Wilson e Hunt, principalmente, mas também por lidar com o material de maneira realmente interessada, nunca perdendo fôlego nos momentos mais importantes, e trabalhar com um visual impressionante, no tratamento de cores oferecido a cada instante. Outra qualidade é que não há uma substituição dos personagens por uma sequência sem fim de cenas de ação, o problema principal das animações de hoje. Nesse sentido, o filme cresce por meio de sua própria narrativa.

Cars 3, EUA, 2017 Diretor: Brian Fee Elenco: Owen Wilson, Cristela Alonzo, Chris Cooper, Nathan Fillion, Larry the Cable Guy, Armie Hammer, Ray Magliozzi, Tom Magliozzi, Tony Shalhoub, Bonnie Hunt, Lea DeLaria, Kerry Washington, Paul Newman Roteiro: Kiel Murray, Bob Peterson e Mike Rich Fotografia: Jeremy Lasky, Kim White Trilha Sonora: Randy Newman Produção: Kevin Reher Duração: 109 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures