O irlandês (2019)

Por André Dick

Aguardado por alguns anos e depois de vários contratempos para conseguir orçamento necessário (em torno de 160 milhões de dólares), O irlandês acabou se tornando um dos destaques da Netflix antes de ser lançado. Não apenas por ser de Martin Scorsese, mas também por sua ousadia em fazer o rejuvenescimento de atores com efeitos visuais que acabaram prolongando a pós-produção.
Lançado finalmente, estamos diante de uma história com 209 minutos, no melhor estilo dos clássicos da Nova Hollywood dos anos 1970. Scorsese marca seu retorno depois de seu experimental Silêncio, sobre a ida de jesuítas para o Oriente a seu espaço mais habitual: o que enfoca mafiosos, sejam declarados ou não. Para isso, ele acompanha, desde o início, a viagem de Frank Sheeran com Russell Bufalino (Joe Pesci), com suas respectivas esposas, Irene (Stephanie Kurtzuba) e Carrie (Kathrine Narducci). As lembranças começam quando eles param perto de um posto de gasolina. Sheeran recorda que ali ele conheceu, nos anos 50, o amigo quando teve problema em seu caminhão no tempo em que transportava carne. Nesses transportes, ele conhece Felix “Skinny Razor” DiTullio (Bobby Cannavale), com o qual passa a fazer combinações criminosas. Depois de um acerto com o advogado sindical Bill Buffalino (Ray Romano), Sheeran acaba finalmente sabendo quem é Russell, amigo de Angelo Bruno (Harvey Keitel). Ele passa a trabalhar para ele no universo de gângsters da Filadélfia, também integrando o sindicato dos caminhoneiros dos Estados Unidos. É então que ele conhece Jimmy Hoffa (Al Pacino), o grande líder da União dos Teamsters, mestre em longos discursos e promessas de união entre os integrantes da categoria, que se torna, junto com sua esposa Jo (Welker White) e o filho adotivo Chuckie O’Brien (Jesse Plemons), amigo de Sheeran e, mais do que próximo, parceiro de crime. Hoffa também cria um laço de afeto com Peggy (Lucy Gallina na infância e Anna Paquin na vida adulta), filha de Sheeran, e, em meio aos problemas do sindicato, quer deter o crescimento de Anthony “Tony Pro” Provenzano (Stpehen Graham).

Nos anos 90, Os bons companheiros focava uma máfia de origem pedestre. Isso porque podemos ver que O poderoso chefão, de Coppola, é mais sofisticado e seus mafiosos estão sempre um pouco afastados do cotidiano, mais próximos de uma tragédia grega, em que cada elemento familiar pode também representar uma traição e o pecado. Em Scorsese, por sua vez, os mafiosos até então apareciam à solta pela rua e arranjam brigas de bar com a mesma facilidade com que se barbeiam, além de ostentarem dinheiro, mesmo inconscientemente, ao invés de tentar escondê-lo em algum banco. Os companheiros de Scorsese são, em última instância, pop stars do crime, expondo-se em bares ou salões de jogo com suas amantes (e os personagens do cineasta nunca foram exatamente discretos; basta lembrar, por exemplo, o açougueiro feito por Day-Lewis em Gangues de Nova York). Em O irlandês, mesmo porque Hoffa é uma figura também política respeitada, os mafiosos se comportam de maneira obscura, e Sheeran ao longo da narrativa parece mais um vulto do que qualquer outro, com uma atuação contida, emocional e detalhada de De Niro, por trás de um CGI de rejuvenescimento adequado na maior parte do tempo, a não ser num breve momento em que aparece na Segunda Guerra Mundial.

Em Os bons companheiros, toda essa tentativa que Scorsese vinha tendo em sua carreira anterior, de mostrar o universo da máfia, mas já no início com Caminhos perigosos – a máfia no Little Italy – e Touro indomável (não por acaso com dois atores de Os bons companheiros), se encontra maximizada. Não por acaso, ele faria em meados dos anos 90 Cassino, com De Niro e Pesci também como mafiosos em Las Vegas.
O irlandês é uma mescla desses dois filmes com o humor impagável de O lobo de Wall Steet. O seu roteirista Steve Zaillian já havia escrito O gângster para Ridley Scott e aqui segue o caminho de subtramas acumuladas, a partir do livro I Heard You Paint Houses, de Charles Brandt, distribuindo gags funcionais ao logo de algumas cenas extremamente bem construídas, por meio dos diálogos e das atuações.
Scorsese, com um brilhantismo auxiliado pela montagem de Thelma Schoonmaker, em seu auge aqui, consegue delinear, neste caos narrativo e nesta desregularização dos valores – há valores aqui, mas mundanos – uma certa referência familiar e mesmo de saudosismo. Para os personagens, a família tem um significado intenso, mesmo que ele em determinados momentos não importe, pois os negócios e a influência vêm em primeiro lugar. Uma cobrança de Sheeran ao dono de uma mercearia sobre o tratamento dado à sua filha Peggy é exemplar nisso. De Niro empreende a mescla entre ser oculto e extremamente violento, embora Scorsese nunca esclareça muito bem seus objetivos, o que era tão forte com os personagens centrais de Os bons companheiros e O lobo de Wall Street.

Na verdade, todos agem em conjunto para manter exatamente este domínio sobre as coisas que podem perder o controle. Castas são colocadas em jogo, mas nunca totalmente, e, por baixo de uma camada de violência e mesmo de secura e tragédia, uma espécie de olhar para as coisas realmente importantes e mais permanentes, tanto para Frank quanto para Jimmy e Russell.
Que O irlandês seja um filme sobre a máfia e sobre os mafiosos, ninguém duvida, no entanto ele, antes disso, mostra a decadência de um personagem, atraído pelo status do desaparecimento, e depois sua tentativa, afinal, de viver aquilo que antes criticava. Nesse sentido, como Os bons companheiros e O lobo de Wall Street, também é uma crítica ferina a um certo modo de vida e uma constatação já tardia para Scorsese de que não vale a pena viajar para fora da cidade sem ter certeza se irá voltar. Mesmo os trechos passados na cadeia são cômicos, na tentativa tanto de torná-la uma extensão de uma sorveteria quanto de um bar. A questão é que Scorsese, em O irlandês, mesmo com o tom épico, nos designs de produção e figurinos valiosos, trata do pano de fundo político da década de 60 em alguns momentos, com Hoffa (interpretado nos anos 90 por Jack Nicholson) sendo perseguido pelo filho de Kennedy, Robert (Jack Huston), e testemunhando a invasão na Baía dos Porcos em Cuba, momento em que o filme dialoga diretamente com JFK – A pergunta que não quer calar, de Oliver Stone.

De Niro consegue oferecer seu elemento meio cômico e dramático típico, enquanto Pesci se mostra pela primeira vez comedido. Já Al Pacino parece fazer uma boa mescla entre o Big Boy Caprice de Dick Tracy e o tenente-coronel Frank Slade de Perfume de mulher. Por sua vez, os coadjuvantes, como Romano e Plemons, mereciam mais tempo de cena, principalmente pela duração de 3 horas e meia, no entanto é plausível que Scorsese se sinta mais confortável em centralizar a história do trio de amigos por interesse. Aliado à encenação irretocável em tribunais, evocando O poderoso chefão II, O irlandês adota uma dramaticidade baseada no biografismo e sem ceder a alguns exageros típicos dos filmes antigos do cineasta, em que a violência era quase fantasiosa de tão acentuada, e entre essas obras se inclui Os infiltrados. Se em meio a esse universo a figura da mulher se perde (e ela era presente em Os bons companheiros com Lorraine Bracco, em Cassino com Sharon Stone e em O lobo de Wall Street com Margot Robbie), é porque Scorsese parece estar tratando do auge e do aprisionamento da figura clássica e queda da figura masculina entre os anos 50 e início dos anos 80. Novos gângsters ainda viriam, no entanto Scorsese prefere mesclar uma espécie de sentimento religioso e de desapego às relações para mover sua obra em direção a uma coda melancólica e impecavelmente habitada nos longínquos anos 70. Tudo soa como um testamento do cineasta, desde a escolha dos atores que o acompanharam ao longo de sua carreira até os momentos mais próximos de um afeto já perdido, quando o olhar diante dos filhos em relação às ações de uma vida toda não se faz mais possível. Mesmo a narração de Sheeran soa desanimada, diante de um universo conturbado e impecavelmente bem desenhado.

The irishman, EUA, 2019 Diretor: Martin Scorsese Elenco: Robert De Niro, Al Pacino, Joe Pesci, Bobby Cannavale, Anna Paquin Ray Romano, Jesse Plemons, Stephanie Kurtzuba, Kathrine Narducci, Jack Huston Roteiro: Steven Zaillian Fotografia: Rodrigo Prieto Trilha Sonora: Robbie Robertson Produção: Martin Scorsese, Robert De Niro, Jane Rosenthal, Emma Tillinger Koskoff, Irwin Winkler, Gerald Chamales, Gastón Pavlovich, Randall Emmett, Gabriele Israilovici Duração: 209 min. Estúdio: TriBeCa Productions, Sikelia Productions, Winkler Films Distribuidora: Netflix

Homem-Formiga e a Vespa (2018)

Por André Dick

O universo estendido da Marvel já teve dois filmes este ano, Pantera Negra e Vingadores – Guerra infinita. A eles vem se juntar a sequência daquele que seria o mais despretensioso do conjunto, lançado em 2015. Todos sabem que a parceria dos estúdios Disney com a Marvel vem resultando numa sequência de obras com variados super-heróis: Thor, Homem de Ferro e Capitão América, entre outros. Enquanto isso, paralelamente, a Fox tem feito franquias de X-Men e Deadpool. Homem-Formiga é um dos personagens mais improváveis desse universo. O primeiro tinha a colaboração no roteiro de Edgar Wright, o mesmo de Chumbo grosso e Scott Pilgrim contra o mundo, com Joe Cornish, que escreveram As aventuras de Tintim. Quem o substituiu na direção do filme antes de começarem as filmagens foi Peyton Reed, que regressa para a sequência. Ele tem uma obra muito curiosa sobre o amor com o estilo dos anos 50 (Abaixo o amor) e também dirigiu Jim Carrey numa de suas melhores comédias pós-anos 90, o subestimado Sim, senhor, uma sátira também aos gurus da autoajuda.

Desta vez, Homem-Formiga e a Vespa conta com um roteiro assinado a dez mãos por Chris McKenna e Erik Sommers (dupla de LEGO Batman – O filme), além de Paul Rudd, Andrew Barrer e Gabriel Ferrari. Scott Lang (Paul Rudd) teve problemas com a justiça depois de ajudar o Capitão América a enfrentar o Homem de Ferro em Guerra Civil e é vigiado pelo agente da SHIELD Jimmy Woo (Randall Park). Por isso, ele tenta conviver o máximo com sua  filha, Cassie (Abby Ryder Fortson), dentro de casa, em brincadeiras que remetem a Os Goonies, enquanto tem a ajuda da antiga mulher, Maggie (Judy Greer), casada com o policial Paxton (Bobby Cannavale).
Ele está afastado de Hank Pym (Michael Douglas), cuja filha Hope van Dyne (Evangeline Lilly) se transforma na super-heroína Vespa e estão atrás, no universo quântico descoberto por Lang no primeiro filme, de Janet (atriz em participação surpresa), mãe de Hope. No entanto, algo os aproxima novamente – e essa química entre eles reproduz boa parte daquele filme de 2015, com Douglas, Rudd e Lilly trocando farpas de modo engraçado. E novamente estão de volta o amigo Luis (Michael Peña), com os parceiros atrapalhados Kurt (David Dastmalchian), gênio da informática, e Dave (T.I.). A ameaça parece ser Ava Starr/Ghost (Hannah John-Kamen), acompanhada por Bill Foster (Laurence Fishburne), porém surge pelo caminho também Sonny Burch (Walter Goggins), um negociante do mercado subterrâneo de tecnologia.

Como no filme de 2015, o humor leve não soa forçado, nem mesmo em seus ligeiros flashbacks, inspirados claramente nas ideias de Edgar Wright. Pelo universo tecnológico envolvido, novamente há as referências à SHIELD, mas esta sequência se mostra próxima de Homem-Aranha – De volta ao lar, com uma passagem de Lang por um colégio, que rende uma das cenas divertidas do filme. Tudo é ainda despretensioso, embora os personagens não sejam mais novidade. O que interessa é como Reed desenha esse super-herói: ele não tem as pretensões de outros, nem carrega uma tentativa de lado épico, apegando-se ao cotidiano, e isso o torna inegavelmente humano. Outra qualidade é a falta de ligação explícita com o universo expandido, que distrai em demasia a atenção do espectador para o próprio filme, às vezes incorrendo num didatismo desnecessário.
O ator Paul Rudd é, de longe, um dos comediantes subestimados de sua geração, com boas participações em O virgem de 40 anosA razão do meu afeto As patricinhas de Beverly Hills. No início desta década, ele participou de Como você sabe, uma tentativa de James L. Brooks reproduzir Melhor é impossível, e depois fez o professor de As vantagens de ser invisível, além de interpretar seu melhor papel, em Bem-vindo aos 40. Com sua mescla entre um humor agridoce e um sentimentalismo bem dosado, ele não tem tanta chance de mostrar sua empatia como no primeiro e quem conquista o espaço novamente é Peña, no papel do amigo atrapalhado, que tem um momento de interrogatório que remete a um dos meninos de Os Goonies, enquanto Douglas é competente e Lilly adorável no papel de elo romântico. Cannavale não tem a mesma participação convincente do primeiro filme, aparecendo um pouco deslocado, assim como Greer, mas Goggins compensa (era um destaque já em Os oito odiados, de Tarantino).

Igual ao primeiro, impressiona como Reed consegue aliar um triunfo de técnica e bom humor. Não são poucas as vezes em que é surpreendente como ele coloca Lang entre o mundo dos insetos e o mundo dos homens de maneira que a fantasia nunca soe excessiva, sobretudo nas sequências de confronto, principalmente, desta vez, com casas e edifícios encolhendo, assim como carros de todos os tipos, em perseguições que remetem a Bullit dos anos 60, auxiliadas pela fotografia do sempre competente Dante Spinotti, mesmo que com um jogo de cores menos atrativo daquele do primeiro, mais lúdico. Nessa mesma linha, o design de produção não se mostra suficientemente criativo, levando em conta que Reed dirigiu o visualmente belíssimo Abaixo o amor, esquecido em categorias técnicas pelo Oscar em 2003. Os movimentos da Vespa são, de qualquer modo, captados com uma resolução notável, um verdadeiro feito na área, assim como o universo quântico possui uma esplendorosa concepção molecular, lembrando o momento da criação de A árvore da vida, de Malick. Novamente, e ainda mais que o primeiro, ele dialoga com Querida, encolhi as crianças – e os efeitos da Industrial Light & Magic se expandiram realmente, embora o lado artesanal do filme de Johnston em 1989, ano em que inicia o primeiro Homem-Formiga, tenha seus méritos – e Querida, estiquei o bebê. De qualquer modo, Homem-Formiga e a Vespa se ressente de um roteiro ágil como o do primeiro, capaz de entrelaçar as gags com a ação de maneira afetiva e impondo aqui o drama existencial de Ghost, que destoa um pouco do conjunto, embora seja bem trabalhado em alguns momentos, inclusive visualmente. Isso não o impede de ser novamente uma das obras exitosas do universo expandido da Marvel.

Ant-man and the wasp, EUA, 2018 Diretor: Peyton Reed Elenco: Paul Rudd, Evangeline Lilly, Michael Douglas, Michael Peña, Walton Goggins, Bobby Cannavale, Judy Greer, Tip “T.I.” Harris, David Dastmalchian, Hannah John-Kamen, Abby Ryder Fortson, Randall Park, Laurence Fishburne Roteiro: Chris McKenna, Erik Sommers, Paul Rudd, Andrew Barrer, Gabriel Ferrari Trilha Sonora: Christophe Beck Fotografia: Dante Spinotti Produção: Kevin Feige, Stephen Broussard Duração: 118 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios

Eu, Tonya (2017)

Por André Dick

“Eu, Martin Scorsese ou David O. Russell.”
Este é um filme de Craig Gillespie, o mesmo da refilmagem interessante de A hora do espanto, mas parece desses dois cineastas, levando em conta que O. Russell já homenageia, digamos assim, o estilo de Scorsese. Se o espectador está procurando por movimentos de câmera do início ao fim, com pessoas olhando pelos vidros de um carro ou na plateia de um evento esportivo, com o olhar atento ao que está acontecendo, Eu, Tonya é uma bela referência, embora seu foco não seja este.
O filme está concentrado na história de Tonya Harding (Mckenna Grace na infância e Margot Robbie na adolescência e vida adulta), que se tornou um grande nome da patinação artística nos Estados Unidos nos anos 90. A sua mãe, LaVona Fay Golden (Allison Janney), a tira da escola, nos anos 70, para tentar torná-la uma profissional, mas sempre com muita agressividade e muitos maços de cigarro. Esta história basicamente constitui a primeira parte do filme, que é narrado como se os personagens estivessem dentro de um programa de TV explorando suas imagens e condições.

Tonya acaba se casando com Jeff Gillooly (Sebastian Stan) com o objetivo de fugir desta pressão materna, mas cai em outra situação angustiante. Isso porque Gillooy, sempre acompanhado pelo amigo Shaw Eckhardt (Paul Walter Hauser), não é a figura mais atrativa para se ter uma conversa sobre um relacionamento ou mesmo para se tratar de maneira tranquila sobre a família. Gillespie emula bastante Os bons companheiros e Cassino para tratar desse relacionamento conturbado, enquanto a mãe de Tonya dá espaço a outra treinadora, Dody Teachman (Bojana Novakovic), para as Olimpíadas de Inverno de 1992. Baseada em fatos reais, a narrativa traz uma tentativa de boicote a uma das patinadoras rivais de Tonya, o que tomou grande repercussão nos Estados Unidos.
Se a obra inicia nos anos 70 e possui uma certa aura de Trapaça, inclusive na trilha sonora, assim como da série Vinyl, os travellings se multiplicam e acabam minando uma narrativa já não interessante como poderia, entretanto é quando a ação se transporta para os anos 90 que os eixos da história se dispersam e realmente não se encontram tão cedo, apenas mais ao final. Robbie é uma boa atriz em punhado de sequências, no entanto não lhe é oferecida a chance de brilhar, o que é estranho, já que ela é uma das produtoras.

Ela fez o filme visando à indicação ao Oscar, que conseguiu, já merecida por O lobo de Wall Street, no qual fazia a esposa casada com o personagem de DiCaprio (e em cujo estilo a obra de Gillespie também se baseia, principalmente quando insere os depoimentos), e se tornou uma estrela popular depois de interpretar Arlequina em Esquadrão suicida e a namorada do rei das selvas em A lenda de Tarzan, contudo deveria ter pedido menos espaço no roteiro ao personagem do marido violento, que se torna, em última instância, o principal. Há uma razão: os personagens não chegam a ser por um momento sequer agradáveis, parecendo todos oportunistas, enquanto Tonya se deixa levar pela violência alheia e não coloca freios nela. A personagem da mãe, além de unidimensional e evitando que Janney, normalmente uma ótima atriz, consiga extrair um punhado de sinceridade dela, se torna a representação de todos do filme: tanto Stan quanto Hauser estão difíceis de suportar em seus respectivos papéis. Essa é a diferença em relação a Scorsese: este, mesmo quando foca bandidos, consegue extrair deles algum elemento de humor, algum atenuante para criar um interesse por suas trajetórias. Em Eu, Tonya, Gillespie mostra apenas a miséria de comportamento humano, porém querendo ser também divertido, como Scorsese. Quem apreciar o enfoque de Gillespie terá mais chance de apreciar a história.

Em linhas gerais, Eu, Tonya trata de uma mulher que deixa sua vida ser governada, de certo modo, pela violência. Isso, por um lado, soa uma visão determinada sobre essa personagem, por outro o espectador se torna apenas testemunha de uma série de atitudes incompreensíveis. Por isso, ao se ver nesse filme uma espécie de libelo feminista, talvez esteja se escondendo o seu potencial fator: o de que ele atenua a violência contra a mulher, de que pelo menos Tonya teria nascido não para lutar por sua vida e sim para, literalmente, ser agredida, tanto física quanto psicologicamente. Seu grande confronto com a vida seria este, não exatamente sua tentativa de ser uma exímia patinadora. Pode ser uma ideia a ser revista; a impressão que fica, pessoalmente, é esta. Gillespie compõe uma cinebiografia que se pretende original, moderna, contudo parece uma repaginação de muitas coisas já vistas, e melhores. Com essa influência estilística e algumas vezes temática de Scorsese e O. Russell, Eu, Tonya imagina estar gravando uma espécie de vida em movimento acelerado, sem perceber, muitas vezes, que isso só torna sua narrativa mais atrasada, não apenas em termos de funcionalidade, como de ideias.

I, Tonya, EUA, 2017 Diretor: Craig Gillespie Elenco: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney, Julianne Nicholson, Bobby Cannavale, Paul Walter Hauser, Bojana Novakovic Roteiro: Steven Rogers Fotografia: Nicolas Karakatsanis Trilha Sonora: Peter Nashel Produção: Tom Ackerley, Margot Robbie, Steven Rogers, Bryan Unkeless Duração: 119 min. Estúdio: LuckyChap Entertainment, Clubhouse Pictures, AI Film Distribuidora: Neon

Homem-Formiga (2015)

Por André Dick

Homem-Formiga 7

A parceria dos estúdios Disney com a Marvel vem resultando numa sequência de filmes com os mais variados heróis: Thor, Homem de Ferro, Capitão América. Enquanto isso, paralelamente, a Fox tem feito franquias do Homem-Aranha continuamente, trocando o ator a cada cinco anos, quando não antes. No próximo ano, a DC Comics finalmente colocará em cena o duelo entre Batman e Superman, já visualizado nos quadrinhos de Frank Miller. No entanto, um dos heróis mais improváveis a sair dessa parceria da Marvel com Disney é outro. Enquanto Homem de Ferro, Thor e Capitão América, e ainda Hulk (que não possui ainda um filme solo com o ator atual, Mark Ruffalo), são bastante conhecidos, mesmo para quem não acompanha quadrinhos, o Homem-Formiga parecia, em primeiro lugar, não anunciar um projeto seguro. No início, foi chamado Edgar Wright para dirigi-lo. Wright é o responsável por filmes de grande humor, violência e ação, a exemplo de Chumbo grosso e Scott Pilgrim contra o mundo, principalmente em sua parceria com Simon Pegg, reproduzida também em Heróis de ressaca. É ainda Wright um dos responsáveis pelo roteiro de Homem-Formiga, ao lado de Jay Cornish, autor da história de As aventuras de Tintim, Adam McKay e Paul Rudd. No entanto, quem assumiu a direção foi o mais improvável ainda Peyton Reed. Enquanto ele possui um par de obras menos felizes (Abaixo o amor e Separados pelo casamento), também dirigiu Jim Carrey numa de suas melhores comédias pós-anos 90, o subestimado Sim, senhor, uma sátira também aos gurus da autoajuda.

Homem-Formiga 19

Homem-Formiga 18

Homem-Formiga 6

Esta influência de Reed e Wright, com humor, é a principal chamada de Homem-Formiga. Scott Lang (Paul Rudd) é um prisioneiro. Depois de liberado, quem o recebe de volta à vida é o amigo Luis (Michael Peña). Para infelicidade de Lang, ele tem planos de novos assaltos, com a ajuda dos amigos Kurt (David Dastmalchian), gênio da informática, e Dave (T.I.). Eles certamente formam algo que se assemelha a um trio pouco inclinado a invadir propriedades sem chamar a atenção. O personagem principal pretende rever a convivência com a  filha, Cassie (Abby Ryder Fortson), mas se depara com a antiga mulher, Maggie (Judy Greer, a mãe preocupada com os filhos dos filmes do verão norte-americano, a julgar também por Jurassic World), e o seu novo marido, o policial Paxton (Bobby Cannavale), que exigem dele um emprego e o pagamento da pensão. Ao mesmo tempo, Darren Cross (Corey Stoll) está fazendo experimentos, iniciados tempos atrás com Hank Pym (Michael Douglas), cuja filha Hope van Dyne (Evangeline Lilly) está à frente ainda da empresa que era dele e cujo desaparecimento da mulher ainda é um mistério. Cross não é alguém certamente confiável, pois está tentando reproduzir um experimento iniciado por Pym com partículas, a fim de criar o Yellowjacket, e o destino colocará Lang no rumo desses acontecimentos.
Diferente dos demais heróis da Marvel, o passado de Lang e o interesse que provoca é justamente por sua habilidade em roubos, em burlar sistemas a princípio invioláveis. Ao contrário dos demais, como o de Stark em revolucionar a tecnologia, ou Thor com seu entorno de disputa pelo poder de Asgard, ele pretende, por meio da possibilidade de ser o Homem-Formiga, em conseguir novamente ver a filha. Também não se transforma como esses heróis com um poder externo ou interno a ele, nem é picado por um inseto antes de adquirir poderes, nem é um cientista como Banner ou Stark. Ele simplesmente aceita usar o uniforme de Homem-Formiga e aprender a lidar com uma tropa de insetos, que ficam gigantes perto dele.

Homem-Formiga 16

Homem-Formiga 24

Homem-Formiga 15

Não estamos diante de Tropas estelares, de Paul Verhoeven, com sua compulsão por bílis de monstros; Homem-Formiga é para um público infantojuvenil. Ele tem diálogos maiores com Querida, encolhi as crianças – e os efeitos da Industrial Light & Magic se expandiram realmente 25 anos depois, embora o lado artesanal do filme de Johnston em 1989, ano em que inicia Homem-Formiga, tem seus méritos – na maneira como mostra, por exemplo, o herói em meio aos insetos num jardim caseiro. Ainda assim, a produção de Reed não se sente descartável, como muitos blockbsusters. Particularmente, mesmo que se considere Capitão América 2 uma grande conquista da Marvel, acompanhada por Guardiões da galáxia, Homem-formiga me pareceu o filme de herói solo mais interessante desta leva. Ele tem uma composição que parece acessível e pouco original, mas consegue lidar com a fórmula de maneira muito eficiente, não apenas em razão dos efeitos especiais excelentes, como também por causa do elenco e do design de produção situado entre o tecnológico e o caseiro (a moradia de Pym ou da filha de Lang, com um trem que trará uma das cenas-chave da produção, como já se vê no trailer). Do mesmo modo, o humor leve não soa forçado, nem mesmo em seus flashbacks, certamente um acréscimo de Edgar Wright, cujas histórias trazem certamente esse elemento, principalmente em Chumbo grosso e Scott Pilgrim. E há as referências à S..H.I.E.L.D. e à Hydra, assim como a participação de um dos personagens já vistos anteriormente em Capitão América e Os vingadores.
Talvez seja a simplicidade de Reed em lidar com elementos pouco originais e ainda contar com um elenco tão interessante que torna Homem-Formiga numa diversão superior ao que se espera. O ator Paul Rudd é, de longe, um dos comediantes mais subestimados de sua geração, com boas participações em O virgem de 40 anosA razão do meu afeto e As patricinhas de Beverly Hills. No início desta década, ele participou de Como você sabe, uma tentativa de James L. Brooks reproduzir Melhor é impossível, sem efetivamente conseguir, e depois o professor de As vantagens de ser invisível.

Homem-Formiga 14

Homem-Formiga 12

Homem formiga 20

Como o Homem-Formiga, ele consegue lidar com um aspecto bem humorado, no entanto sem querer repetir Robert Downey Jr. Ao seu lado, Michael Douglas consegue um bom papel, sem chamar atenção demais, equivalendo a Stanley Tucci em Capitão América na esperança de ter escolhido a pessoa certa para efetuar o que precisa, enquanto Evangeline Lilly tem uma composição agradável. Stoll é um vilão também plausível e há uma cena de ameaça num banheiro masculino que remete àquela do RoboCop dos anos 80. Além disso, o trio de amigos de Lang consegue ser interessante para o fluxo da narrativa.
Impressiona como Reed consegue utilizar todos esses elementos, junto com o elenco, na realização de um filme que coloca uma ideia a princípio apenas curiosa em um triunfo de técnica e bom humor. Não são poucas as vezes em que é surpreendente como ele coloca Lang entre o mundo das formigas e o mundo dos homens de maneira que a fantasia nunca soe excessiva, sobretudo nas sequências de confronto e mesmo quando ele precisa contar com a ajuda dos insetos para entrar nos lugares mais imprevistos, com o auxílio da fotografia excepcional de Rusell Carpenter, que recebeu um Oscar por Titanic, lembrado num determinado momento da trama. Do mesmo modo, Reed desenha essas sequências com uma agilidade grande, ao colocar o humor como válvula de escape. Neste sentido, Homem-formiga chega àquele limite muito difícil de ser traçado, entre um filme apenas meramente divertido e realmente bem feito; ele se inclina com êxito para a segunda característica.

Ant-man, EUA, 2015 Diretot: Peyton Reed Elenco: Paul Rudd, Michael Douglas, Corey Stoll, Evangeline Lilly, Michael Peña, Bobby Cannavale, Judy Greer Roteiro: Adam McKay, Edgar Wright, Joe Cornish, Paul Rudd Fotografia: Russell Carpenter Trilha Sonora: Christophe Beck Produção: Kevin Feige Duração: 117 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Big Talk Productions / Marvel Enterprises / Marvel Studios

Cotação 4 estrelas

A espiã que sabia de menos (2015)

Por André Dick

A espiã que sabia de menos 12

Poucas vezes há oportunidade de se deparar com uma comédia interessante nos últimos anos ou que não esteja restrita a um encontro de amigos filmado, com aspecto de terminado às pressas. Um gênero que teve nos anos 80 Jim Abrahams e os irmãos David e Jerry Zucker, com nomes como Apertem os cintos, o piloto assumiu, Top secret! e Corra que polícia vem aí, como um de seus grandes momentos. Nos anos 2000, há duas vertentes de humor no cinema norte-americano, e elas acabam se reunindo de certo modo em A espiã que sabia de menos: é uma sátira e, ao mesmo tempo, um estudo de um personagem com a autoestima abalada pelos acontecimentos. Se esta característica fundou praticamente a trajetória de Steve Carell no humor, não o é com muita diferença com Melissa McCarthy. Revelada sobretudo em Missão madrinha de casamento, pelo qual foi indicada ao Oscar de atriz coadjuvante, ela é uma ótima comediante, das melhores que surgiram na última década e infelizmente rotulada como humor apenas grosseiro.
Este ano Melissa já havia tido uma boa participação no sensível Um santo vizinho, ao lado de Bill Murray e Naomi Watts, destoando um pouco do humor que empregou em Missão madrinha e As bem-armadas – divertida comédia policial com Sandra Bullock, com sua sátira a Máquina mortífera. Em A espiã que sabia de menos, Melissa se reúne novamente com Paul Feig, que realizou esses dois filmes, e fez em parceria com Judd Apatow a saudosa série Freaks and geeks. Tendo como mote uma brincadeira com 007, uma espécie de Agente 86 feminino, tudo indicaria A espiã que sabia de menos como uma comédia memorável.

A espiã que sabia de menos 7

A espiã que sabia de menos 5

A espiã que sabia de menos 6

A história é mero papel fino. Melissa faz Susan Cooper, que trabalha como auxiliar do agente Bradley Fine (um Jude Law tão deslocado quanto seus risos nervosos, totalmente afastado desse gênero). Em determinada missão, ele acaba sucumbindo a Rayna Boyanov (Rose Byrne) – e isso não chega a ser um spoiler, já que sabemos de antemão que ela se transformará naquela que poderá desvendar o mistério, desta vez com a ajuda da amiga Nancy B. Artingstall (Miranda Hart), depois de dividirem intrigas sobre Karen Walker (Morena Baccarin). Tudo é motivo para ela entrar em conflito com a superior, Elaine Crocker (Allisson Janney), e com um dos agentes, Rick Ford (Jason Statham), que não a aceita na missão, além de mote inicial para uma viagem por paisagens europeias, a começar pela França, onde Susan se hospedará num hotel que lembraria O fabuloso destino de Amélie Poulain não fossem os ratos. E é uma justificativa para a personagem colocar em xeque sua autoestima abalada, pois nunca de fato, apesar da formação, foi colocada em campo, permanecendo nos bastidores. Ela passa a ficar no encalço de Sergio De Luca (Bobby Cannavale), com a ajuda de Aldo (Peter Serafinowicz).
Melissa é uma atriz bastante eficiente, com um humor que se situa entre o ingênuo e o provocador, e se mostra novamente desse modo em A espiã que sabia de menos. No entanto, apesar das ótimas cenas de ação e algumas piadas engraçadas, este filme parece menos interessante do que As bem-armadas, também de Feig e com Melissa – muito em razão da ausência de Sandra Bullock, que consegue servir como escada para Melissa se destacar. É verdade que Jason Statham tem momentos tão bons quanto Melissa aqui, mas ambos são prejudicados por uma lamentavelmente caricata Rose Byrne, uma surpresa, por ser boa atriz, e um clima previsível de sátira a 007, o que já era claramente o problema de Agente 86.

A espiã que sabia de menos

A espiã que sabia de menos 10

A espiã que sabia de menos 15

Melissa não consegue visivelmente improvisar em muitos momentos porque o roteiro está circunscrito sempre a esse clima de sátira, ao contrário de Missão madrinha de casamento, que conseguia, por meio de sua corrosão, mostrar o clima de organização de casamento, em meio a brigas e separações, com a presença de Kristen Wiig, uma atriz notável para o gênero e o roteiro também assinado por ela (não por acaso, indicado ao Oscar). E, ainda, sem espaço suficiente para improvisar em cima de um roteiro que não reconhece a importância de cada personagem, Melissa dispara, numa velocidade igual à cena em que precisa usar uma moto, uma série de palavrões, a fim de que a narrativa não pareça estagnada em determinado ponto; e esta, finalmente, é a derrocada da real comédia que se manifestava até a metade do filme, e que será recuperada apenas por causa de cenas de ação surpreendentemente bem filmadas e a parte final. E isso não acontece exatamente por causa dos coadjuvantes. Como De Luca, Bobby Cannavale não se sai bem. A parceira de Melissa, feita por Miranda Hart, também prejudica; é difícil lembrar de uma coadjuvante que não acrescenta realmente às cenas em que aparece, assim como Serafinowicz. E a muito boa atriz Janney é esquecida depois de um bom início.
Quem consegue gostar, no entanto, das atuações do elenco coadjuvante terá uma sensação de ter visto uma narrativa mais completa – para quem esperava mais, a impressão é de ter se visto uma comédia em parte diluída para um público mais amplo, com uma lamentável característica de humor caricato, quando Melissa, no início, revela o que poderia ser uma base humana. Aos poucos, quando se vê que o filme envereda pelo absurdo, cada vez maior, essa porção humana se perde, e a graça passa a se concentrar apenas em ações desgovernadas e comportamentos exagerados. No fim de tudo, ele funciona mais como ação do que como comédia.

A espiã que sabia de menos 2

A espiã que sabia de menos 9

A espiã que sabia de menos 14

Como muitas obras do gênero, A espiã que sabia de menos tende a melhorar em uma revisão e se sente valorizada não apenas pela fotografia de Robert D. Yeoman, habitual colaborador de Wes Anderson, com suas locações em Paris, Roma e Budapeste, quanto pelo cuidado nas cenas em que o humor é um complemento para a ação (a sequência passada na cozinha de um restaurante, desse modo, é vital). É lamentável que a montagem não seja de William Kerr e Michael L. Sale, responsáveis pelos trabalhos de Superbad, Missão madrinha de casamento e We’re the Millers, melhores do que os montadores deste filme, que não conseguem calcular exatamente o tempo das gags. Diante de adjetivos como escalandosamente divertido, talvez A espiã que sabia de menos poderia ser mais efetivo. Melissa e Statham tentam – os coadjuvantes e o roteiro é que não acompanham.

Spy, EUA, 2015 Diretor: Paul Feig Elenco: Melissa McCarthy, Jason Statham, Jude Law, Miranda Hart, Rose Byrne, Allison Janney, 50 Cent, Peter Serafinowicz, Bobby Cannavale, Morena Baccarin Roteiro: Paul Feig Fotografia: Robert D. Yeoman Trilha Sonora: Theodore Shapiro Produção: Jenno Topping, Jessie Henderson, Paul Feig, Peter Chernin Duração: 120 min. Distribuidora: Fox Film / Twentieth Century Fox Film Corporation Estúdio: Feigco Entertainment

Cotação 3 estrelas

 

Blue Jasmine (2013)

Por André Dick

Blue Jasmine.9

Depois de seus filmes demarcando um roteiro pela Europa, a exemplo de Vicky Cristina Barcelona e Para Roma com amor, Woody Allen regressa aos Estados Unidos com Blue Jasmine, que vem sendo recebido quase como Meia-noite em Paris, sobre a descoberta de Gil Pender do passado da Cidade Luz – pelo menos, estreou bem na temporada de premiações que antecedem o Globo de Ouro e o Oscar. Ainda comparado a suas produções dos anos 80 de Allen, Blue Jasmine começa por ser um equilíbrio entre duas vertentes do diretor: aquela mais dramática e uma mais cômica. Ele poucas vezes conseguiu mesclar essas vertentes com a perícia demonstrada em Hannah e suas irmãs e Maridos e esposas – não teve êxito em filmes como Memórias –, mas se esforça para obter o mesmo resultado em Blue Jasmine, por meio de um roteiro bastante superior ao que apresentou em Para Roma com amor, um filme divertido, mas de certo modo com um ar de acabado às pressas.
Tendo à frente do elenco, como a personagem principal, a atriz Cate Blanchett, Allen mostra mais uma vez ser um diretor de atores e atrizes. Poucos atores conseguem repetir sem a mão de Allen o mesmo vigor dramático. Cate Blanchett não é uma exceção. Apesar de ter realizado vários filmes desde Elisabeth, em que chamou a atenção pela primeira vez, Blanchett consegue, aqui, obter o desempenho de sua carreira até agora (embora não o melhor do ano). Ela consegue delinear, desde o início, uma personagem situada entre o ego e os problemas que surgiram depois que seu marido, Hal (Alec Baldwin), foi preso por problemas de desvios de dinheiro, relacionados a empresas. Desempregada e sem rumo, ela procura a irmã, Ginger (Sally Hawkins), com quem nunca teve um bom relacionamento. Ambas foram adotadas, e Jasmine vem a San Francisco para tentar se recuperar emocionalmente do baque que foi a perda de toda a riqueza em que vivia. Apontando os erros da irmã em matéria de relacionamento – Ginger namora Chili (Bobby Cannavale), que tenta empurrar um amigo seu a Jasmine –, ela não consegue se contentar com o novo ambiente, porque sempre considera que merece mais. A fim de ter uma formação, ela pensa novamente em estudar, desta vez como design de interiores. No entanto, precisa trabalhar, e o emprego que surge é com um dentista (Michael Sthulbarg). Esta é a primeira etapa da tentativa de Jasmine solucionar sua vida, e o espectador, ao mesmo tempo em que compartilha da atual situação da personagem, a conhece em sua vida anterior, rodeada de reuniões e a high society.

Blue Jasmine.5

Blue Jasmine.10

Allen nunca desistiu de satirizar a alta sociedade, e em Blue Jasmine não é diferente. Para ele, mais do que uma pessoa perturbada emocionalmente, Jasmine se revela a síntese de uma mulher que busca no homem apenas uma realização material. No entanto, ele consegue desfocar essa situação de maneira inteligente. Em certos momentos, imaginamos que Jasmine quer apenas uma sustentação emocional por meio dessa riqueza buscada, quando, na verdade, ela pode ser menos do que um centro vazio ao redor do qual vagam os outros personagens. Sua irmã, Ginger, é uma espécie de complemento. Indefinida entre seguir com sua vida ou agradar à opinião de Jasmine, ela acaba se situando sempre deslocada. Por mais que essas personagens pareçam, à primeira vista, agradáveis – uma com manias estranhas, que acabam até divertindo, e a outra tentando remediá-las com alguma ajuda –, como no recente Frances Ha, Woody Allen prefere a amargura de suas caracterizações. Mesmo os homens que ele coloca no caminho dessas duas irmãs são completamente desprovidos de imaginação: eles apenas repetem convenções do que se espera. Há aquele que está convencido de ser genial, Hal (mais um personagem do tipo na carreira de Baldwin); aquele que deseja uma vida perfeita e com passos para uma ampla publicidade de imagem (Peter Sarsgaard); aquele que diz estar à espera da mulher perfeita (Louis C.K.); e, finalmente, o mais romântico e menosprezado pelo jeito de se vestir, Chili. Como as mulheres, aqui, Allen desenha os homens como estereótipos. Na maior parte do tempo, entretanto, ele consegue elaborar diálogos ligeiros o suficiente para que todos pareçam estar interagindo e, sem a presença do próprio Allen no elenco, nenhum chama atenção em demasia. Mas, quando finalmente percebemos que a agilidade narrativa, exemplar, não se reproduzirá numa elaboração de personagens, o filme acaba se desencontrando.

Blue Jasmine.4

Blue Jasmine.3

É estranho como, ao longo de Blue Jasmine, as impressões sobre os personagens vão mudando: em certos momentos, a personagem parece requisitar uma compreensão, mas em outros parece que, para o espectador, ela poderia e deveria enfrentar o que Allen prepara em seu caminho. Talvez daí venha o principal desequilíbrio, ou qualidade, do filme de Allen: sua personagem central pode ser ouvida, mas não se deve dar, afinal, muito espaço para que isso aconteça, pois o que se terá é uma repetição de suas escolhas anteriores. Para isso, Blanchett tem um papel realmente decisivo, pois ela consegue transitar da insegurança, passando pela depressão e insegurança, até a raiva contida contra o que lhe fizeram passar. Estranhamente, no entanto, Allen não parece ter empatia por ela – ela não é, com certeza, o alter ego de Allen, como o foi Gil Pender, ou o dramaturgo de Tiros na Broadway – e talvez por isso o filme, principalmente em seu ato final, seja o que menos lembre um filme do diretor. Para Allen, esta figura feminina é uma espécie de exemplo da autopunição, e nem sempre esta visão segue o seu olhar ao longo da narrativa (daqui em diante, spoilers). Allen parece desapontar seu lado menos amargo quando escolhe o desfecho do filme. É como se a personagem não pudesse mais dar as respostas que ele obtinha, de certo modo, com outros personagens, ou realmente devesse ficar num presente irrecuperável, a fim de escolher outro caminho.
O que se sente, no entanto, é que o terceiro ato realmente não representa o filme como um todo, e nesse sentido Blue Jasmine acaba parecendo uma obra inacabada, embora Cate Blanchett ainda esteja lá. Não se trata exatamente da escolha do diretor, mas porque, ao longo do filme, Allen usa uma série de elementos para que o espectador consiga identificar as mudanças de comportamento e tom de Jasmine em relação às pessoas, dependendo de sua situação. Quando finalmente o espectador parece entendê-la, assim como sua manipulação, ele pede para que entendamos que tudo aquilo que foi visto na verdade só teve uma responsável, reduzindo-a novamente a uma pessoa desequilibrada, sem que se elabore o que veio antes de sua vida com Hal e depois para que se chegasse naquele ponto, sendo o comportamento dela apenas falho ou não suficientemente tratado. Nesse sentido, sua situação destoa do tom ameno, embora amargo, de todo o filme, tornando-se um estudo de caso frustrante. Allen parece não querer dar espaço a um tema pesado, tentando apegar-se ao desespero da personagem e à sua autodestruição para, enfim, reduzir todos os personagens a um ponto de interrogação e conscientes de uma vida que o diretor considera medíocre. Para ele, Jasmine é uma fonte de destruição e não se deve ouvi-la nem ampará-la. A atuação de Cate Blanchett nos diz o contrário do que entrega o diretor: embora ela queira falar, ele não permite. E o Allen com tom moralista, que torna os personagens apenas em símbolos do que gostaria de transmitir – aquele de Crimes e pecados, Memórias e Match Point – é, sem dúvida, o menos atrativo, extraindo toda a energia que poderia haver na estrutura do belo roteiro de Blue Jasmine.

Blue Jasmine, EUA, 2013 Diretor: Woody Allen Elenco: Cate Blanchett, Alec Baldwin, Sally Hawkins,Bobby Cannavale, Louis C.K., Richard Conti, Michael Stuhlbarg, Peter Sarsgaard, Tammy Blanchard, Vanessa Ross Roteiro: Woody Allen Fotografia: Javier Aguirresarobe  Produção: Edward Walson, Letty Aronson, Stephen Tenenbaum Duração: 98 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Perdido Productions

Cotação 3 estrelas