A lenda (1985)

Por André Dick

A Segunda História da Criação da Bíblia inicia-se no versículo 5 do Cap. II do Gênese. Em III, 22, expressa-se a razão pela qual Deus pune o ser humano no paraíso. É que estariam, homem e mulher, a um passo de elevar-se à condição de “deuses” (III, 5). Bastaria que eles, já possuidores do “conhecimento”, lançassem a mão ao fruto da “árvore da vida” e, comendo-o, ganhassem a imortalidade, passando a viver para sempre.
Em A lenda, de Ridley Scott, este início da Bíblia se reproduz na história da Princesa Lily (Mia Sara), que é chamada por Jack (Tom Cruise) a ver dois unicórnios que não podem ser tocados no rio em meio a uma espécie de floresta encantada. Não há uma explicação clara, no roteiro, de como eles se conheceram, nem onde seria exatamente seu palácio, mas Jack surge como o seu amor – como se eles fizessem parte de um mundo à parte, em que Lily sai pela floresta apenas para encontrar uma camponesa amiga, Nell (Tina Martin).
Ela acaba por tocar num dos unicórnios e permite com que duendes, tendo à frente Blix (Alice Playten), enviados pela escuridão, cortem o chifre de um deles e levem a unicórnio fêmea para o sacrifício. A escuridão é almejada pelo senhor das Trevas (Tim Curry), e os unicórnios representam a claridade do universo.

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Depois de cair nas águas de um lago, a fim de encontrar o anel da princesa Lily, Jack acaba por ficar embaixo do gelo; quando ele consegue quebrá-lo, o mundo já está transformado e ele, sem saber ao certo o que aconteceu, passa a ir atrás de Lily, que volta à casa de Nell, tentando escapar dos duendes.
A lenda, de Ridley Scott, é um produto acabado dos anos 80 e encontra diálogo com outros filmes de fantasia, como Labirinto, Flash Gordon e Krull. Mas é interessante mesmo como o filme de Scott, com seu visual extraordinário (em que havia pouco CGI e os cenários, de Assheton Gordon e Leslie Dilley, este de Star Wars, pareciam realmente reais), composto nos estúdios Pinewood, da Inglaterra, além de influenciado por outros filmes de Scott, como Alien – e interessante como, hoje, se vê traços do filme também em Prometheus –, com a belíssima fotografia de Alex Thomson, tem esse curioso subtexto religioso. E, como outros filmes de Scott, sua qualidade fica ainda mais perceptível na versão estendida (109 minutos, vinte a mais que o original).

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Jack serve como uma espécie de Adão. Na Bíblia, este foi colocado para nomear as coisas do mundo. E para Lily ele nomeia os unicórnios. Assim como o unicórnio em A lenda, a maçã, na Bíblia, traz a queda do paraíso, e Adão, como um romântico, leva consigo a noção de Deus, como seu grande criador, mas também como o gênio solitário, que é abandonado, como o Werther de Goethe. O castigo imposto a Adão e Eva por Deus é um castigo exatamente por se ceder à maçã proibida.
A presença de Deus, levando as personagens (no caso, Adão e Eva) a tentar reconhecer o que desconhecem (e não tem nome, pois guarda o segredo do sexo e do corpo humano), revela uma autodescoberta da violência que existe quando não há nomeação para aquilo que se faz. Adão não consegue nomear o que fez, porém Deus sim: seria o pecado. Em A lenda, de Scott, esse pecado surge no momento em que Jack resolve mostrar a Lily os unicórnios. Ele não sabe ao certo por que o cenário se torna invernoso e encoberto, no entanto sabe que algo foi cometido, e não poderia. Seu amor também não se encontra definido, mas ele sabe que está ligado a ela.

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O homem, feito à sua imagem e semelhança, continua sendo o espelho de Deus, contudo este espelho, no silêncio do pecado, se quebra. E ele, expulso do paraíso, precisa enfrentar a escuridão. Em A lenda, esse enfrentamento começa na travessia de um pântano e nos corredores da grande torre onde se esconde a besta, com a ajuda de Honeythorn Gump (David Bennent e dublado por Alice Playten), a fada Oona (Annabelle Lanyon), que se apaixona por Jack – uma espécie de Sininho de Peter Pan –, e uma dupla de duendes (Billy Barty e Cork Hubbert).
É interessante como Lily e sua inocência também tem parentesco com a menina Sarah (Connely, ainda adolescente), de Labirinto, uma garota triste, que vive no mundo da fantasia e pede para que o rei dos duendes, Jareth (David Bowie), leve embora seu irmão por parte de pai. Ela se arrepende de ter feito isso; no entanto, ela terá de atravessar um labirinto para trazê-lo de volta. No labirinto, arranja inúmeros amigos, como Hogglle, que a ajuda a chegar ao castelo, e outros: Ludo, um gigante peludo, e Sir Didymus, que parece um Fox terrier. Há, aqui, outro parentesco com A lenda: os duendes ajudam Jack e Lily a buscarem o unicórnio fêmea.

Trata-se, como A lenda, de uma referência em direção de arte e efeitos especiais, e da tentativa de possuir responsabilidade de uma garota saindo entre a adolescência e a vida adulta. Connelly é uma boa atriz para representar essa passagem, e algo de sua inocência se perde nessa jornada: o ingresso no quarto depois de passar pelo ferro-velho é um primor de concepção. Mia Sara, em A lenda, desempenha um papel em que o atrito entre a fantasia e a realidade, e, assim como Connelly em Labirinto, deseja recuperar o universo que perdeu. A Lily de Sara precisa enfrentar o que o senhor das Trevas lhe oferece: todas as riquezas materiais e uma sensação de poder, de controle sobre todo o universo. Enquanto isso, Jack precisa enfrentar a ilusão do espelho causado pela fada Oona, que pode enganá-lo. Na sequência final, os claros-escuros de A lenda proporcionam algumas cenas assustadoras, o que explica por que a Disney, a quem o filme foi oferecido inicialmente, não o aceitou.
Interessante, ao mesmo tempo, como, afastado dos anos 80, A lenda é uma espécie de prenúncio visual para séries como O senhor dos anéis – sendo que seu roteiro se inspira claramente nos livros de Tolkien – e merece uma reavaliação à altura de seus conceitos e referências mitológicas e religiosas.

Legend, EUA/Reino Unido, 1985 Diretor: Ridley Scott Elenco: Tom Cruise, Mia Sara, Tim Curry, David Bennent, Alice Playten, Billy Barty, Cork Hubbert, Peter O’Farrell, Kiran Shah, Annabelle Lanyon, Robert Picardo, Tina Martin, Ian Longmur, Mike Crane, Liz Gilbert, Eddie Powell Roteiro: William Hjortsberg Fotografia: Alex Thomson Trilha Sonora: Jerry Goldsmith (Versão estendida), Tangerine Dream (Versão original) Produção: Arnon Milchan Duração: 89 min. (Versão original), 109 min. (Versão estendida) Distribuidora: Universal Pictures, 20th Century Fox  

Willow – Na terra da magia (1988)

Por André Dick

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Este filme foi a concretização de um dos maiores sonhos de George Lucas. Com um custo de 35 milhões de dólares (ainda mais significativos para sua época), e locações excepcionais na Nova Zelândia e País de Gales, Willow teve a desconfiança desde o seu lançamento, como se fosse uma espécie de continuação de Star Wars, passada numa Terra-média de Lucas. O marketing acabou pesando na expectativa de que o resultado correspondesse aos maiores sucessos de Lucas. E, lançado no mesmo verão de Uma cilada para Roger Rabbit, acabou por ficar em segundo plano. Depois de 25 anos e muitas críticas contrárias, é possível voltar a ele, com o olhar de um tempo passado, mas remetendo também ao presente, por meio da edição comemorativa em Blu-ray, que, assim se espera, também seja lançada no Brasil.
Assinado por Ron Howard, com fotografia primorosa e música excelente (de James Horner), um dos problemas normalmente apontados em Willow é o roteiro de Lucas, que mistura várias histórias, mas, fazendo uma releitura dele, isso não estraga o resultado. Olhar para este filme depois de um tempo considerável mostra que, mais do que trazer o peso da nostalgia, ele faz jus a uma década que trouxe filmes memoráveis de fantasia, como A história sem fim, Labirinto e A lenda, com suas falhas e virtudes, todos sem a mesma elaboração visual dos contemporâneos, como O senhor dos anéis, também pela época e pelos efeitos especiais serem feitos de forma quase artesanal, quase sem computadores, mas com uma genuína força própria e não raro cenários criativos.

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A história inicia com o nascimento de um bebê com uma marca determinada de nascença, que, segundo as profecias, destruirá a rainha Bavmorda (Jean Marsh). Ela manda persegui-lo, mas ele é jogado num rio, que o leva à aldeia dos Nelwyn (gente pequena), onde Willow Ugford (Warwick Davis) e sua família o encontram. Com o sonho de ser um feiticeiro de sua aldeia – e o cuidado que se tem com o desenho de produção do local é próprio de Lucas –, Willow tem receio de se manter com o bebê, justamente porque chegam ao seu vilarejo cachorros gigantes com cabeças de porcos tentando encontrá-lo. O feiticeiro líder, High Alwin (Billy Barty), coloca Willow na missão de entregar o bebê a um Daikini (no linguajar do filme, gente grande). Mas a fada Cherlindrea (Maria Holvöe), num momento que remete claramente à obra clássica Peter Pan, de John Barrie, vem avisá-lo que Elora Danan (feita pelas gêmeas Kate e Ruth Greenfield) tem poderes para destruir a rainha. Willow se junta a um herói debochado, Madmartigan (Val Kilmer), encontrado dentro de uma jaula para prisioneiros, e à feiticeira Raziel (Patricia Hayes) para destruir Bavmorda, enquanto precisa passar por bosques, montanhas e outros contratempos, com a parceria de dois brownies (Kevin Pollak e Rick Overton) – homenzinhos minúsculos, que parecem saídos das aventuras de Gulliver. No seu encalço, seguem Sorsha (Joanne Whalley) , filha de Bavmorda, e  General Kael (Pat Roach), que, parecendo um Darth Vader da Idade Média, é, na verdade, uma homenagem às avessas de Lucas a Pauline Kael, a crítica histórica de cinema.

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Acompanhada de um figurino elaborado, a direção de arte reproduz muito bem um tempo-espaço singular, e mesmo as referências à religião e a filmes (há uma perseguição com carroças como se fossem bigas, à la Ben-Hur; os personagens lembram Star Wars, do próprio Lucas), não tiram do filme um ar ingênuo cada vez mais raro. Mas o que realmente salta aos olhos em Willow é seu cuidado visual. Há, nele, uma espécie de resquício do cuidado que vemos em O retorno de Jedi, com as imagens de florestas e, nesse sentido, a sua fotografia, uma cortesia de Adrian Biddle, é uma das maiores conquistas do filme. As locações na Nova Zelândia, com montanhas, lagos, florestas e longas planícies, conseguem dar um pano de fundo notável, e não é por acaso que Jackson também filmou nesse país – além de ser o seu de origem – O senhor dos anéis e O hobbit. Willow, ao mesmo tempo em que se alimenta das jornadas de Tolkien – naquela época em livro –, consegue expandir o seu universo, povoando-o de elementos das mais variadas histórias, não apenas bíblicas, mas cinematográficas. A jornada em que Willow vai se encontrando com outros amigos não deixa de ter também um elo com O mágico de Oz, assim como as suas feitiçarias e mágicas têm um traço de Idade Média e as aldeias, algo que remete a uma idade muito antiga. No entanto, essa mistura feita por Lucas de fábulas e contos clássicos ressurge numa mescla de gêneros, tornando Willow num filme nem para crianças nem para adultos, mas com uma espécie de atmosfera que adota principalmente os elementos universais.

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Willow vai passar pela provação de exercer seu conhecimento sobre feitiçaria, e nisso Warwick Davis é, sem dúvida, excelente. Ele forma uma boa dupla com Kilmer, um ator naquele momento conhecido pela comédia Top Secret! e por ser rival de Tom Cruise em Top Gun. Na pele de Madmartigan, Kilmer tenta transparecer um elo de humor com o Han Solo de Harrison Ford, baseando-se no mesmo estilo de que ele seria apenas um fora da lei, muitas vezes pensando apenas no lado financeiro e de diversão, correspondido pela indefinição entre a atração e a agressividade da personagem de Sorsha, interpretada por Joanna Whaley como se estivesse nos anos 50. Temos alguns momentos que remetem a essa amizade construída depois da perseguição na taverna logo diante de uma cachoeira e depois na subida de uma montanha, uma das chaves da amizade elaborada por Willow.
Estruturado num roteiro com esquema definido, sem grandes intervalos temporais, mas com uma edição talentosa, Ron Howard revela aqui um dos seus trabalhos mais interessantes. É costume se dizer que Howard não sabe dirigir, mas ele tem sensibilidade e boa coordenação sobre os atores, certamente mais do que Lucas. Seus filmes costumam ter boas atuações, como Apollo 13, Uma mente brilhante, A luta pela esperança, Frost/Nixon e Rush e a aversão que se tem à sua obra, ao que parece, é justamente por se tratar de um diretor não autoral que consegue ser indicado seguidamente a prêmios importantes.Em Willow, ele consegue aliar o estilo que mostra em Splash e Cocoon, mesclando realidade e fantasia, com o carisma dos personagens de seus melhores filmes e acrescenta a esta fantasia projetada por Lucas um humor involuntário normalmente ausente em seu criador. Daí este filme de fantasia ser um dos mais antológicos já realizados.

Willow, EUA, 1988 Diretor: Ron Howard Elenco: Warwick Davis, Val Kilmer, Joanna Whalley, Billy Barty, Maria Holvöe, Patricia Hayes, Jean Marsh, Kevin Pollak, Rick Overton, Pat Roach, Kate e Ruth Greenfield Roteiro: Bob Dolman, George Lucas Fotografia: Adrian Biddle Trilha Sonora: James Horner Produção: Nigel Wooll Duração: 130  min. Estúdio: Imagine Entertainment / Lucasfilm Ltd / Metro-Goldwyn-Mayer (MGM)

Cotação 5 estrelas