O passado (2013)

Por André Dick

O passado.Filme 5

No início deste ano, um dos filmes cotados para ser indicado na categoria de melhor filme estrangeiro no Oscar era este O passado, sobretudo porque seu diretor, o iraniano Asghar Farhadi, já havia recebido o prêmio pelo excepcional A separação, antecedido por Procurando Elly. A participação de seu novo filme havia sido razoável em Cannes, mas sem fazer frente à obra-prima Azul é a cor mais quente, ficando com o prêmio de melhor atriz, para Berénice Bejo, recém-saída do sucesso de O artista. De qualquer modo, Farhardi é um dos diretores mais respeitados hoje, e sua dramaturgia lembra sempre uma peça de teatro. Em O passado, ele continua lidando com várias peças e cada detalhe de trama acaba sendo amplificado em torno de um panorama maior, ou seja, estamos diante de um cineasta que procura pensar seus filmes a partir de um conceito existencial mais voltado às discussões.
Ahmad (Ali Mosaffa) acaba de desembarcar em Paris, vindo de Teerã, com o objetivo de tratar do seu divórcio, e é buscado no aeroporto pela ex-mulher, Marie Brisson (Bérénice Bejo). Indo para a casa onde morava, ele reencontra as duas filhas de Marie, Léa (Jeanne Jestin) e Lucie (Pauline Barlet), que o tratam como pai. Os problemas se agravam quando Lucie não deseja conviver com o novo namorado da mãe, Samir (Tahar Rahim), dono de uma lavanderia, sendo a situação agravada pelo fato de que este tem sua mulher hospitalizada, depois de tentar o suicídio. O filho de Samir, Fouad (Elyes Aguis), também não aprecia Marie, mas, enfim, sua rebeldia tem um determinado limite. Os personagens estão sempre voltando a um passado imposto não apenas por suas vidas, como também pela situação na qual se encontram. Há uma delicadeza por parte de Ahmad em tentar estabelecer um vínculo entre as pessoas dessa família, separadas por um ar iminente de conflito. Como em A separação, a presença da mulher é o ponto de equilíbrio ou desequilíbrio familiar, e o homem, mesmo tentando interferir, fica deslocado.

O passado.Filme 4

O passado.Filme 7

Tanto a mãe quanto a filha não conseguem solucionar seus conflitos, assim como a figura ausente do filme, da esposa de Samir. Nessa falta de solução, Ahmad é encaixado como um símbolo da fuga. No entanto, mesmo com todo o trabalho direcionado a ser ele o grande personagem de O passado, Farhadi parece abandonar uma certa ideia de ligação entre os personagens para poder, de forma tranquila, expor os seus conceitos. O seu estilo é sempre tornar as conversas bastante naturais, como uma réplica a Eric Rohmer, mas é nessa fluência quase descompromissada que O passado acaba se tornando um tanto mecânico e bastante superficial. Quando Farhardi pretende dar uma exposição demasiada às justificativas de cada comportamento dos personagens, esses acabam se perdendo para tentarem se encontrar na explicação conceitual do filme. E nestes elementos ele não consegue se aproximar de sua maior influência, mais do que aquela do igualmente iraniano Abbas Kiarostami: o polonês Krzysztof Kieślowski, sobretudo da Trilogia das Cores, que lida com a solidão de determinados personagens num círculo restrito, embora não necessariamente familiar. Kieślowski tem o que Farhadi não possui, pelo menos nesta obra: ele sabe deixar os personagens sem uma revelação central e mesmo assim eles mantêm seu significado ao longo de toda a narrativa, e, apesar de eles simbolizarem sempre uma ideia do diretor, não são artifícios.
Desse modo, O passado acaba sendo um filme exemplar do ponto de vista da discussão a ser feita – mas ela não é feita no filme, apenas depois, dependendo de cada espectador. Como narrativa, depois da metade do filme, há um hiato e os personagens são levados para um plano idealizado, no qual servem como símbolos do que o diretor pretende transmitir, contudo não sentimos neles nenhuma ação que não seja calculada, simétrica, sem uma reserva de humanidade (a atuação de Tahar Rahim é um exemplo). Ou seja, não sentimos nenhum desses personagens como de fato são – entendemos apenas símbolos colocados pelo diretor para delinear as suas ideias. Isso é uma característica de muitos filmes bons – há, no entanto, uma diferença precisa: é preciso, em algum momento, que os personagens tomem atitudes aparentemente deles e sejam levados a elas progressivamente na trama, não soando como algo imposto.

O passado.Filme 6

O passado.Filme 8

A separação delineava um conflito familiar com raro talento, por meio de um excelente elenco, mas O passado parece não ter o mesmo vigor mostrado antes. Em especial Bérénice Bejo poderia fazer mais por uma história pela qual o diretor só tem interesse porque imagina que causará uma surpresa, como em A separação: não se pode revelar, mas no filme anterior de Farhadi a narrativa eclodia com a revelação do que realmente havia acontecido, e todo o filme ganhava mais intensidade depois disso. Ao contrário, O passado fica preso aos maneirismos do roteiro e das situações, e deixa os personagens em segundo plano, fazendo a narrativa se estender em determinados trechos e ser rápida demais em outros. Isso resulta numa trama com certo desequilíbrio, à medida que, na parte final, o diretor parece ceder demais aos apelos de seu próprio roteiro para uma determinada surpresa se estender até o limite, extraindo a energia dedicada ao espectador em solucionar as questões apresentadas, ou deixá-las em suspenso até segunda ordem, como na sequência do metrô, com Samir e Fouad. Ela se exaure, sem que absolutamente seja necessária no conjunto: Kieślowski sabia fazer isso e nem percebíamos como conseguia; Farhadi, neste novo filme, não sabe. Mas certamente não é simplesmente porque O passado não se compara a A separação que se deve traçar essa comparação como ponto de ter qualidade ou não: é porque, como filme independente, ele não sinaliza nenhuma motivação especial para Farhardi, a não ser suscitar comparações com o anterior, mesmo na ida do Irã para a França. Nesse sentido, não existe um distanciamento visível, em termos de construção, em relação a seu filme anterior, principalmente pela justificativa inicial do divórcio, a fim de aproximar esses personagens. A diferença está no fato de no anterior haver um sofrimento familiar num estilo semidocumental e grandioso, além de o elenco se mostrar especialmente superior. Apesar de seu belo final, O passado se torna uma lembrança dos melhores momentos de Kieślowski. Embora este costume soar mais pretensioso, é Farhadi que pretende inovar, de forma paradoxal, com uma história linear e mesmo clássica, ao contrário daquela de A separação, e isto marca no mínimo uma decepção inesperada: um filme que poderia ser uma obra-prima tem dificuldade de ser ao menos interessante.

Le passé, FRA/ITA/Irã, 2013 Diretor: Asghar Farhadi Elenco: Ali Mosaffa, Bérénice Bejo, Tahar Rahim, Pauline Burlet, Elyes Aguis, Jeanne Jestin, Sabrina Ouazani Roteiro: Asghar Farhadi, Massoumeh Lahidji Fotografia: Mahmoud Kalari Trilha Sonora: Evgueni Galperine, Youli Galperine Produção: Alexandre Mallet-Guy Duração: 131 min. Distribuidora: Califórnia Filmes

Cotação 2 estrelas e meia

O artista (2011)

Por André Dick

Concorrendo ao Oscar de melhor filme com obras marcantes como Os descendentes, A invenção de Hugo Cabret, Meia-noite em Paris e A árvore da vida, por exemplo, O artista atraiu a atenção sobretudo por se tratar de um filme mudo e em preto e branco, num momento de expansão dos filmes em 3D. Trata-se de uma homenagem à origem do cinema, assim como o foi Hugo Cabret, na recuperação da figura de George Méliès. Desde o início, quando o ator George Valentin está acompanhando a estreia de um de seus filmes, no backstage atrás da grande tela de cinema, vendo sua interpretação, e, ao final dela, aparece para a plateia, sapateando ao lado de seu cãozinho, tentando ignorar a presença de sua coparceira, também estrela do filme e incomodando o produtor, Al Zimmer (John Goodman), o filme tenta recuperar certa magia dos filmes de Chaplin, Harold Lloyd e Buster Keaton. Na saída do cinema, ele acaba sendo beijado por uma de suas fãs. Na capa da Variety, estampa-se a foto do casal com a pergunta: “Quem é essa garota”. No dia seguinte, ele a reencontra no estúdio em que trabalha e, separados pela tela de um céu segurada por assistentes, ensaiam passos de dança, e ele pede a contratação dela ao produtor para aparecer em uma ponta.
Essa garota, e Valentin ainda não sabe, acabará passando de coadjuvante para estrela de Hollywood, Peppy Miller (Bérénice Bejo), sobretudo quando o cinema mudo começa a desaparecer e ele é dispensado do seu estúdio, sendo considerado um ator do passado. Indiferente à tendência da sonoridade nos filmes, ele se torna astro e produtor de “Lágrimas de amor”. No final, acaba indo à bancarrota com a Depressão de 30, sendo abandonado pela mulher (Penelope Ann Miller), conservando apenas o fiel chofer, Clifton (James Cromwell, num papel discreto e essencial para a trama) e o cãozinho que participa de seus filmes.
O diretor Michel Hazanavicius tenta, por meio de uma sinopse muito simples, recriar o ambiente do cinema mudo e em preto e branco, explorando, sobretudo, a não colocação, na tela, do que os personagens estariam falando. Desse modo, em muitas situações, o espectador fica livre para criar seu próprio filme, ao passo que ele é linear, quase como se ordenasse pequenas esquetes e quadros dentro de uma metragem maior. Mantendo um certo ar original de cinema dos anos 20, o diretor consegue eliminar o que poderia ser excesso e torna seu personagem principal, Valentin, mais humano do que pode aparecer à primeira vista, sendo o retrato acabado do artista que fica sem lugar.
Assim, seu drama particular ganha mais relevo do que a parte bem-humorada do filme. Ganhador do Oscar de melhor ator, Jean Dujardin é mais talentoso do que aparenta e mesmo durante a divulgação do filme, em que aparecia com um sorriso sempre exagerado. Sua interpretação, pelo contrário, é, excetuando alguns momentos do início, bastante contida, mesmo quando abre uma porta ou atravessa uma rua solitário, ou quando para em frente a uma vitrine vendo um terno de seus momentos mais gloriosos – o personagem adora se ver, e não por acaso o seu cãozinho imita seu gestual. Ele realmente empresta alma ao filme.
O diretor, por sua vez, evita que seu filme se torna uma cópia ou simples homenagem ao cinema mudo. O artista procura, num momento em que a indústria se volta para o movimento ininterrupto, dar uma visão mais concentrada de elementos do roteiro, como se fossem quadros. Parece haver o objetivo de esclarecer que o cinema se faz de uma conjunção básica: direção, roteiro, atuação, montagem e som. Desse modo, a risada de Valentin, quando vê um exemplo de cinema sonoro, se transforma no prenúncio de sua própria queda. Orgulhoso, com seu retrato pintado numa enorme tela da qual se despede quando sai de sua casa, ao mesmo tempo, possui uma generosidade captada por personagens como o de seu chofer e do cãozinho. O momento em que sonha que está em seu estúdio e as coisas ao seu redor começam a ter som, fazendo-o ficar desesperado (como na tela “O grito”, de Edward Munch), é um dos melhores exemplos. O diretor consegue, por meio de poucos elementos, traduzir o personagem como aquele que não quer escutar o outro, mas quer apenas o reflexo de suas próprias ações na tela grande, sobretudo quando, na estreia de seu filme também como diretor, posiciona-se ao fundo do cinema quase vazio, tentando não identificar a recepção da plateia, mas se ele está perdendo vigor porque, junto de sua interpretação física, não há a fala.

A sua mansão deixa de ser um lugar iluminado, como no início, e passa a trazer sua desconfiança e respectiva penumbra. Os cartazes luminosos chamam atenção todos para a nova estrela, que ele ajudou em início de carreira, porém a quem não deseja recorrer exatamente porque ela vem terminar com o reflexo que via nas telas, baseado no gestual e na necessidade de não falar e, quando falar, dizer o mínimo. Não por acaso, num universo que não mais o aceita, ele passa a ver seus filmes em casa, tentando rever o que fazia e como se considera interessante – cada vez mais solitário.
Um dos momentos mais interessantes do personagem é quando ele vai finalmente assistir a um filme falado, com a estrela que ajudou a revelar, e se senta, com seu cãozinho, na plateia, como um espectador e não um artista. Valentin, fascinado por seu gestual, que não contaria tanto no cinema falado, parece concluir por que precisa não se vender ao cinema falado, e sim aceitar a mudança de sua plateia. Nesse sentido, se Valentin pode ser uma espécie de exemplo para produtores gananciosos (como aquele interpretado por John Goodman), o de que o artista deveria, no cinema, adaptar-se ao sistema, também é verdade que a entrada da sonoridade neste universo até então mudo transforma o comportamento e o modo com que se lê a história de um filme, e de como o artista pode se ver na tela.
Há momentos que parecem óbvios, contudo são realmente tocantes, como aquele em que o chofer de Valentin não aceita ir embora, ou quando o cãozinho precisa ajudar o personagem a sair de uma situação crítica, e mesmo quando Valentin descobre o que Peppy havia feito por ele. E O artista tem outra qualidade: a de não colocar um peso excessivo, dramático, sobre os personagens, como se a história deles representasse a história do cinema de sua época – sendo apenas uma referência em alguns pontos.
Portanto, o filme talvez seja melhor interpretado fora de seu universo de premiações (Oscars de melhor filme, diretor, ator…), e ser analisado a partir do que pretende expor, sem comparações com clássicos em que se inspira ou a que homenageia. Não parece haver nele – exceto o marketing criado em torno, que com o tempo se dissipa, logo que o filme sai das bilheterias – nenhuma pretensão exagerada de contar ou recontar alguma história, mas de pertencer, de algum modo, a esta narrativa cinematográfica não como inovação ou vanguarda, num movimento paradoxal, já que traz de volta o que não é mais usual (o filme mudo e em preto e branco), e sim como representação do que permanece.

The artist, FRA/BEL, 2011 Diretor: Michel Hazanavicius Elenco: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller, Missi Pyle, Beth Grant, Ed Lauter, Joel Murray, Bitsie Tulloch, Ken Davitian, Malcolm McDowell Produção: Thomas Langmann, Emmanuel Montamat Roteiro: Michel Hazanavicius Fotografia: Guillaume Schiffman Trilha Sonora: Ludovic Bource Duração: 100 min.  Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: La Petite Reine / uFilm / JD Productions

Cotação 3 estrelas e meia