Love (2015)

Por André Dick

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O diretor franco-argentino Gaspar Noé sempre foi conhecido por seus filmes polêmicos, a começar por Sozinho contra todos, mas, principalmente, por Irreversível, desde o seu lançamento em Cannes. O Festival francês costuma ser o palco da estreia de seus filmes, e o mesmo ocorreu com Enter the void, em 2009, e Love em 2015 – em ambas as ocasiões sem receber nenhum prêmio ou mesmo ter um destaque especial. Se Enter the void tornou-se, com o tempo, numa obra referencial – e parece, em retrospectiva, o melhor trabalho de Noé –, tudo indica que com Love (lançado nos cinemas em 3D) possa acontecer o mesmo, levando em conta se tratar de uma história sobre um triângulo amoroso que se depara com uma determinada realidade.
O estudante de cinema Murphy (Karl Glusman), depois de receber uma ligação da mãe de sua antiga namorada, Electra (Aomi Muyock), passa a recordar dela, enquanto procura enfrentar o momento que vive, ao lado de Omi (Klara Cristin), com quem tem um bebê. Ele lamenta os rumos que sua vida tomou e principalmente por ter se afastado daquele que considera o amor de sua vida. Aos poucos, descobrimos que Omi foi a peça de um triângulo amoroso do canal, num momento em que a confiança que poderia existir (e ao longo do filme se mostra cada vez mais ambígua) acaba sendo desconstruída.

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Gaspar Noé, como em Enter the void, acompanha Murphy não raras vezes pelas costas, colocando o personagem em corredores de apartamento, de ruas ou de clubes noturnos. Trata-se de um estilo inconfundível e que se mostra ainda mais evidente ao longo de Love. Como Enter the void, também, há uma influência notável de 2001 em muitas sequências. Apresentando-se aos outros como responsável já por vários projetos, Murphy tem o filme de Stanley Kubrick como o seu favorito. Já havia um cartaz dele numa das paredes do apartamento do casal vivido por Cassel e Belucci em Irreversível, e em Enter the void essa influência se dava principalmente no jogo de luzes. Mas parece ser em Love que tal influência se materializa em vários lugares pelos quais Murphy passa.
Quando ele chega a uma galeria de arte – em que o responsável é vivido por Gaspar Noé –, o fundo dela se projeta com a mesma brancura do quarto vitoriano de 2001; quando Murphy e Electra passam a viver momentos arriscados sexualmente à noite, projeta-se um vermelho que remete ao subterrâneo como também à cabine de HAL-9000; isso sem contar as inúmeras cenas de sexo em que a iluminação vai alternando cores como amarelo, verde e vermelho, dependendo do que sugere cada relação. Noé imagina uma idealização do amor também em alguns cenários – o primeiro encontro de Murphy acontece num restaurante com luz agradável; depois, quando Murphy e Electra se mostram apaixonados, há um pano de fundo como se fosse um quadro, com dois flamingos posicionados à esquerda. Em outro momento ainda, outras referências: um cartaz de O nascimento de uma nação numa parede, e o Motel Love, de Enter the Void, ao lado da cama de Murphy, anunciam que este é um filme que adentra o imaginário de um personagem preso entre a realidade e sua fuga cinematográfica.

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Não me parece que Gaspar Noé, apesar das cenas de sexo recorrentes, esteja interessado em usá-lo como retrato de uma sociedade, pelo menos como Von Trier, de Ninfomaníaca. A impressão é que ele, numa tradição que focaliza a liberdade sexual, está mais interessado em compor ligação com O último tango em Paris, na maneira como Murphy vai se entregando aos prazeres da carne, e Os sonhadores, ambos de Bertolucci, embora com uma visão diferente do que seria o amor. Chega a ser curioso que o filme tenha sido vendido – com o apoio, é bom dizer, do próprio Noé – como uma polêmica calcada na pornografia. Love atinge uma tranquilidade nos momentos-chave, sem fazer com que os personagens sejam vistos de maneira apenas impulsiva. Como já mostrou em Irreversível e Enter the void, o amor e o sexo surgem quase como pedaços de um trauma do indivíduo – e não é diferente com Murphy, alguém que acreditava numa determinada relação antes de ser despistado por uma realidade com a qual não gostaria de conviver. Electra, para ele, nesse sentido, simboliza uma liberdade e a fantasia do cinema, o que seu relacionamento e a família não lhe concedem. É um material bruto para Noé, e ele se esmera num jogo de cores para fazer valer essas figuras e essas questões. Os diálogos não são o forte da narrativa, mas os atores tentam dar plausibilidade a cada situação, e de certo modo conseguem.
É por meio da quase inação desse triângulo que Noé desenha um retrato sobre o receio de perder um amor e a necessidade de reencontrá-lo em algum momento para que se possa compreender o que aconteceu. É como se esses personagens quisessem se apegar ao sexo para esquecerem da dor que pode angustiá-los, mas de certo modo se deparassem com o fato de que as lembranças são mais fortes e os constituem. De certa maneira, é o que já fazia sentido em Enter the void e ganha uma captura aqui mais naturalista, não apenas pelos cenários mais apegados ao cotidiano e pelo sexo sem a profusão de luzes que caracteriza o filme de 2009.

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Mais do que liberador, Love tem uma estranha sensação de que os personagens não podem se libertar daquilo que sentem e que isso necessariamente os afasta, pois nenhum tem o mesmo interesse do que o outro. Ou seja, a vida que cada um escolhe para si não tem nenhuma oportunidade de fazer com que a outra, que poderia estar junto, se mantenha como tal. Desse modo, o que pode soar como algo conservador faz com que entregue o principal argumento desta obra de Noé: a expectativa pela permanência pode estar naquilo que soa transitório e efêmero. É o que Love tem em comum com o restante da obra de Noé, que volta no tempo para recordar que a palavra central é amor. Este filme, portanto, guarda uma segunda superfície, em que os personagens parecem se esconder do que são, mas em algum ponto vão sempre se revelar, seja onde for. Como surpresa, a obra tem sua justificativa nessa tranquilidade.

Love, FRA/BEL, 2015 Diretor: Gaspar Noé Elenco: Aomi Muyock, Benoît Debie, Deborah Revy, Gaspar Noé, Isabelle Nicou, Juan Saavedra, Karl Glusman, Klara Kristin, Stella Rocha, Vincent Maraval, Xamira Zuloaga Roteiro: Gaspar Noé Fotografia: Benoît Debie Trilha Sonora: Virginie Verdeaux Produção: Brahim Chioua, Edouard Weil, Gaspar Noé, Rodrigo Teixeira, Vincent Maraval Duração: 134 min. Distribuidora: Imovision Estúdio: Les Cinémas de la Zone / Rectangle Productions / RT Features / Scope Pictures / Wild Bunch

Cotação 4 estrelas

Spring breakers – Garotas perigosas (2013)

Por André Dick 

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Harmony Korine, que está por trás do projeto Spring breakers – Garotas perigosas, escreveu o polêmico Kids com apenas 19 anos, e Ken Park, ambos de Larry Clark, com narrativas envolvendo adolescentes. Também diretor de alguns longas sem grande repercussão, mas respeitáveis, domina a esse universo como poucos, e Spring breakers guarda alguns trunfos: um deles é a estética, com a colaboração na fotografia de Benoît Debie (que fez um trabalho semelhante em The Runaways) e a trilha magnetizante de Cliff Martinez, habitual colaborador de Refn (Drive), com Skrillex. Há, inclusive, semelhanças entre este filme e o recente Only God forgives, no trato visual, embora com encaminhamentos diferentes.
Aqui, três meninas, colegas de faculdade, Candy (Hudgens), Brit (Benson), e Cotty (Rachel Korine, esposa do diretor), querem juntar dinheiro para que possam sair nas férias de primavera na Flórida – que guarda o imaginário de consumo delas. A elas se junta Faith (Gomez), que participa de reuniões religiosas, em frente a um vitral ultracolorido – a porção Terrence Malick desta festa juvenil. Nos Estados Unidos, parece haver uma profusão neste sentido durante a primavera: os jovens vão para as praias e se jogam não no mar, mas numa piscina de som, sexo e drogas, de todos os tipos. É o que Spring breakers retrata em detalhes: esta seria a média da juventude norte-americana, aponta Korine, como em Kids. Ele filma tudo com cuidado especial pelo ritmo (em certas partes, parece que estamos diante de um videoclipe) e com riscos de voice overs soltas, ao longo da metragem, parecendo se tratar de um filme experimental. O jogo de cores (sobretudo o vermelho e o verde) ajuda a acentuar esta primavera, embora o clima de pôr do sol esteja mais para pesadelo do que para sonho.

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Desde a visão de salas da aula da faculdade, em que as meninas trocam rabiscos em cadernos apontando para as férias de primavera, até o momento em que elas precisam criar uma saída para arranjarem dinheiro, o clima de Spring breakers guarda uma espécie de clima amargo: os corredores azulados e cinzas são a antecipação do que as espera, e a personagem de Faith caminhando numa rodovia indica uma solidão em meio às imagens de festa à beira da praia, repetidas como um comercial de TV. E não deixa de ser irônico que, mesmo nas situações mais delicadas, ela e suas amigas estejam de biquínis coloridos, assim como Faith diga, em suas conversas familiares, que todos que elas encontram são simpáticos e generosos (numa narração às avessas do que acontece), ao mesmo tempo em que cria certo impacto o modo como Korine transforma momentos que parecem lidar com o prazer de forma tão desagradável e afastada de qualquer ideia de verão alegre (spoilers daqui em diante).
Se as jovens precisam chegar ao limite para conseguir o dinheiro das férias, não menos elas fazem quanto estão na praia: elas encontram, em determinado momento, o rapper Alien (James Franco, finalmente à vontade depois de estar deslocado em inúmeros filmes e arriscando sua carreira com vontade), que se apaixona à primeira vista por Faith. É esta personagem que reúne a tentativa de respeitar a religião com a vontade de participar de festas, e a dúvida existencial, e, diante dos projetos cinematográficos anteriores, Selena Gomez realmente está bem no filme, que piora sensivelmente com sua saída.
O seu primeiro encontro com Alien, além de ser a cena mais tensa, bem dirigida por Korine, pois é um embate entre duas personalidades e não estereótipos, revela uma espécie de encontro com uma entidade maligna, que precisa afastar suas amigas caso queira sair ilesa. Suas amigas, no entanto, ficam fascinadas pelo estilo de vida de Alien, com seus carros, dinheiro, pistolas e metralhadoras na cama com neon, e ouvem dele uma análise sobre os tubarões da costa – que parecem falar mais de si próprio e dos amigos. Elas não querem que as férias terminem e para isso resolvem se afastar da vida que as espera na faculdade. E ainda: Alien é inimigo de Archie (Gucci Mane), com quem compete pelo território, fazendo as meninas imaginarem que pode haver mais crimes. O que antes eram festas com drogas e relações sexuais se torna numa espécie de vingança contra um universo que não aceita as mulheres.

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Korine, ao mesmo tempo em que parece mostrar que este é o “sonho americano”, como o de Alien, querendo parecer com Al Pacino em Scarface – e os cenários da praia lembram o filme de De Palma, mais estilizados –, também representa seu lado mais cruel, apontando sua história contra padrões do que é vendido como universo jovem. O momento mais exemplar é quando Alien canta uma música de Britney Spears, “Everytime”, em seu piano à beira de uma piscina. Enquanto ele toca, vão desenrolando imagens de assaltos cometidos por ele e as meninas, em slow motion, com um cuidado não apenas fotográfico, mas sonoro. Estamos não apenas diante de uma ironia – o romantismo pop de Britney Spears inspira jovens como aqueles mostrados pelos filmes, e representa parte deste “sonho americano” –, mas de uma cena que parece definir Spring breakers: há imagens e sensações inocentes, como aquelas que se produzem numa canção, cortadas pela violência da realidade. Ainda assim isso parece previsível, pois a crítica é tão direta e Korine considera que chegou ao ponto-chave sem concluir que seu filme tem os mesmos problemas.
Esta comparação direta parece ter algo que desequilibra Spring breakers: ela remete ao universo da repetição cultural. Assim, a partir da metade final, principalmente, o belo estilo empregado por Korine na hora inicial pende um pouco mais para a exaustão, com frases sendo reelaboradas continuamente por Alien e as meninas em cena sem desenvolverem uma personalidade própria (elas servem, no fim, apenas como símbolos para um clima justificado de prazer por drogas e justificativa para o clímax). Desse modo, aos poucos, e não sem certo desalento, o filme de Korine trata de uma embalagem prometida e se configura como uma ácida crítica ao estilo de vida de uma parcela dos jovens e o sonho utópico de, numa temporada, mudar o que não pode ser esquecido. Korine não consegue realizar a travessia de uma obra provocante para uma obra densa, como parecia anunciar pelas cenas iniciais, entrecortadas com as imagens das festas na praia, também em razão de logo afastar a personagem que poderia causar um atrito neste universo e não explorar aquelas figuras com quem lida da metade para o final. O que Korine revela com qualidade é o pôr de sol de uma juventude, mas sua obra promissora se configura como uma surpresa que não convence.

Spring breakers, EUA, 2013 Diretor: Harmony Korine Elenco: Vanessa Hudgens, Ashley Benson, James Franco, Rachel Korine, Selena Gomez, Gucci Mane Produção: Charles-Marie Anthonioz, Chris Hanley, David Zander, Jordan Gertner Roteiro: Harmony Korine Fotografia: Benoît Debie Trilha Sonora: Cliff Martinez, Skrillex Duração: 92 min. Estúdio: Division Films / Iconoclast / Muse Productions / O’Salvation / Radar Pictures

Cotação 2 estrelas e meia