O retorno de Mary Poppins (2018)

Por André Dick

No clássico Mary Poppins de 1964, duas crianças, Michael e Jane, causam muitos problemas aos pais, até o dia em que pedem uma nova babá. Quem chega, voando de guarda-chuva, é a personagem-título (Julie Andrews), que transforma a vida dessa família tradicional, administrada por Mr. Banks (David Tomlinson). O melhor amigo dela é um rapaz que faz apresentações no parque – talvez a interpretação mais conhecida de Dick Van Dyke. Enquanto Mary viaja com as crianças por um mundo encantado (a primeira mistura perfeita de humanos com animação), Banks pretende associá-las ao banco onde trabalha. Mary Poppins é, ao mesmo tempo, um musical e um filme infantojuvenil clássico. Difícil negar sua qualidade e números de dança, como o da chaminé, na qual se mistura a realidade e a fantasia para recriar um novo mundo. Desde a parte técnica, passando pela direção e elenco, a obra de Robert Louis Stevenson baseada em livro de P.L. Travers marcou época.
Em 1971, na mesma linha, foi realizado Se minha cama voasse, do mesmo diretor de Mary Poppins, também com algumas cenas animadas. A atriz da Broadway Angela Lansbury faz uma aprendiz de feiticeira na época da invasão nazista. Utiliza uma de suas mágicas para fazer uma cama voar e leva junto três crianças. Juntas, viajam para um mundo animado (com cenas que lhe valeram o Oscar de efeitos especiais).

A história de O retorno de Mary Poppins inicia em 1935, na mesma Londres no primeiro, agora no período da Grande Depressão. Michael Banks (Ben Wishaw), mais velho e que perdeu sua mulher Kate há um ano, cria os três filhos, Annabel (Pixie Davies), John (Nathanael Saleh) e Georgie (Joel Dawson), com a ajuda da governanta Ellen (Julie Walters). Com problemas no banco, ele precisa travar um embate com o rei William “Weatherall” Wilkins Jr. (Colin Firth), de quem é empregado e é o novo presidente do Fidelity Fiduciary Bank. É um começo que remete muito ao argumento de Os Goonies, embora baseado numa das sequências escritas por P. L. Travers, e Michael e sua irmã Jane (Emily Mortimer), ao lembrarem que o pai deixou ações no Fidelity Fiduciary Bank, passam a procurar a prova da propriedade. Michael encontra a pipa de infância, que coloca em pertences para venda. Quando as crianças veem Mary Poppins descer do céu para ajudá-los, junto com essa pipa, ela é uma brisa literal de esperança.

A partir daí, vem o problema dessa sequência: Jane e Michael, ao reencontrarem Mary Poppins, parecem não sentir nenhuma emoção em especial – apesar de Rob Marshall encadear canções que tentem motivá-la junto aos personagens, repetindo até a mistura entre humanos e animação num dos pontos mais nostálgicos do filme, em que aparece ainda como destaque o acendedor de luzes de rua Marty (Lin-Manuel Miranda) e uma tigela se torna o objeto-chave da narrativa, sendo levada para uma excêntrica Topsy (Meryl Streep, descontrolada e ainda assim um bom acréscimo, reeditando por um breve momento a parceria com Blunt de O diabo veste prada), capaz de arrumá-la. A história segue os passos de Hook – A volta do Capitão Gancho, com a passagem do tempo como conceito de fundo para os acontecimentos e a velha rivalidade da Disney com as cifras (existente só dentro de seus filmes), o que já aparecia este ano no superior Christopher Robin.

Visualmente, O retorno de Mary Poppins é uma peça encantadora: poucas obras nos jogam de volta numa atmosfera dos anos 60, graças ao trabalho de fotografia de Dion Beebe (habitual parceiro de Marshall) e ao figurino irretocável de Sandy Powell (vencedora de três Oscars), com cores remetendo ao trabalho que apresentou em A invenção de Hugo Cabret, mas sem perder o verniz de contemporaneidade, e o elenco tenta lidar bem com o roteiro disperso. Embora Blunt tenha carisma, ela não consegue, em razão do roteiro, se alçar no papel como Julie Andrews, por um detalhe substancial: ela não tem, curiosamente, uma grande presença em cena. Por vezes, sente-se que Mary Poppins está na história apenas para justificar que se trata de uma sequência – ou melhor, um remake disfarçado – do filme de 1964. Blunt cresceu muito como atriz nos últimos anos, porém não lhe é dado o devido espaço para mostrar a atriz talentosa que é, a não ser alguns maneirismos que lembram os de Andrews, curiosamente ausente da sequência mesmo em se tratando de alguma homenagem. Enquanto isso, Lin-Manuel Miranda é uma grata surpresa, rivalizando com a empatia de Dick Van Dyke. Se as fichas fossem concentradas na relação entre Mary Poppins e Marty, a obra certamente cresceria. O problema central é a direção de Marshall, acompanhada pelo roteiro de David Magee, responsável pelos bons diálogos de Em busca da terra do nunca, sobre o criador de Peter Pan e As aventuras de Pi. No entanto, não se deve esquecer que Wishaw, Firth e a atuação das crianças não são pontos para a história criar a densidade, mesmo fantasiosa, de que necessitava.

Vencedor do Oscar por Chicago, ele fez Memórias de uma gueixa, Nine, Caminhos da floresta e outras peças que não primavam pelo estilo próprio. Em O retorno de Mary Poppins, ele tenta captar o que Stevenson fez no primeiro, no entanto o apanha apenas no visual, uma vez que as sequências musicais parecem intrusivas e pouco naturais, embora as canções sejam afetivas, e o embate entre reis das finanças com o homem mais simples é, em se tratando de seus propósitos, no mínimo forçado. Marshall não tem um grande talento para compor momentos grandiosos, e eles existiriam em profusão aqui se melhor encenados, assim como o design de produção se mostra menos amplo do que o esperado, excessivamente de estúdio. Mesmo com todos os elementos à mão, ele sempre prefere a montagem caótica, ligeira demais, quando os temas tratados exigem um tratamento mais lento. É ele certamente o responsável por O retorno de Mary Poppins ser mais um lembrete do quanto o filme de 1964 foi marcante. É agradável, contudo seu potencial exigia ser muito mais do que isso.

Mary Poppins returns, EUA, 2018 Diretor: Rob Marshall Elenco: Emily Blunt, Lin-Manuel Miranda, Ben Whishaw, Emily Mortimer, Julie Walters, Dick Van Dyke, Angela Lansbury, Colin Firth, Meryl Streep Roteiro: David Magee Fotografia: Dion Beebe Trilha Sonora: Marc Shaiman Produção: Rob Marshall, John DeLuca, Marc Platt Duração: 130 min. Estúdio: Walt Disney Pictures, Lucamar Productions, Marc Platt Productions Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

007 contra Spectre (2015)

Por André Dick

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Alguns anos depois de 007 – Operação Skyfall, Sam Mendes relutou em voltar à franquia de James Bond, mas, convencido pelo estúdio, rodou mais este 007 contra Spectre. Segundo boa quantidade de admiradores do personagem, ele não deveria tê-lo feito, ou seja, teria sido melhor ele ter deixado sua marca apenas no anterior. Se a franquia com Daniel Craig no papel do agente britânico está em seu quarto filme, e Skyfall é considerado o melhor, seguido por Cassino Royale, deve-se admitir que este novo empreendimento está muito longe de ser o fracasso que quiseram transformá-lo. Pelo contrário, desde seu início no Dia dos Mortos na cidade do Novo México, quando James Bond está atrás de Marco Sciarra (Alessandro Cremona), e antes seduz uma latina para, então, partir de vez ao serviço programado, e o embate se dá num helicóptero, 007 contra Spectre se transforma no filme mais sólido do herói desde 007 – A serviço secreto de sua majestade, o único filme protagonizado por George Lazenby de uma série que já contou, entre seus atores, com Sean Connery, George Moore, Timothy Dalton e Pierce Brosnan.

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Daniel Craig sempre fez o James Bond mais bruto da história e aqui acontece o mesmo: a sua ação, desde o início, não é exatamente pela conversa mais ponderada, e sim pela ação da arma. Por isso, talvez M (Ralph Fiennes) queira desativar a sua função, o que Bond não considera, à medida que conta com a ajuda de Q (Ben Wishaw) e Moneypenny (Naomie Harris), em momentos de humor que estavam no mínimo ausentes em 007 – Operação Skyfall e sempre fizeram parte do personagem. Sua ida de Londres para Roma marca um dos grandes momentos da série, quando ele precisa encontrar a mulher de Sciarra, Lucia, feita por uma ótima Monica Bellucci (embora em papel diminuto), e depois se depara com uma seita que nada fica a dever para aquela de De olhos bem fechados, de Kubrick.
Eis um dos melhores momentos da trajetória de Sam Mendes: a construção de suspense dessas cenas desencadeia um 007 realmente mais soturno, mesmo em relação ao anterior, por causa também da fotografia notável de Hoyte Van Hoytema (de Interestelar e Ela), que rende uma das melhores cenas de perseguição. Que o 007 de Skyfall já lidava com traumas do passado do personagem e sua relação com M era, sem dúvida, uma conquista de Mendes e também do diretor de fotografia Roger Deakins, neste parece que o espectador consegue entrar na mente de Bond, como em determinado momento do filme, vendo seus temores. Isso fica claro numa sequência-chave em que ele encontra um determinado homem que o levará à personagem de Madaleine Swann. Que Léa Seydoux não está tão à vontade neste papel, é determinante para que se torne uma das bond girls mais discretas da história. No entanto, tal atitude não extrai de sua presença enigmática uma ponte com o passado do agente, capaz de explicar não apenas o filme, como também os capítulos anteriores, junto com Franz Oberhauser (Christoph Waltz), ou seja, há um espectro rondando 007 realmente, ritmado pela trilha de Thomas Newman, que aproveita temas clássicos dando uma roupagem de suspense.

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O que mais torna o James Bond de Craig interessante desde Cassino Royale é seu equilíbrio entre a força incalculável e uma certa vulnerabilidade em qualquer confronto que precisa enfrentar – e da qual o espectador não sabe se sairá bem, desde o momento em que acaba tomando um whisky de forma descuidada em Cassino Royale. Ainda assim, essa vulnerabilidade é que estabelece o personagem como um ser humano e não meramente um agente secreto capaz de defender as cores da Rainha da Inglaterra desde sua origem.
Mendes, de maneira sugestiva, coloca os momentos iniciais numa claridade que serão ofuscados pela noite tanto da Inglaterra quanto de Roma, onde se dará o início dos eventos que levarão ao grande confronto, e durante a narrativa vai alternando lugares escuros com lugares claros dependendo das motivações estarem evidentes ou não para Bond. Há um enigma em 007 contra Spectre que não havia nos filmes anteriores de Craig e dificilmente foram tratados em algum momento. Sam Mendes é um cineasta irregular, mas muito interessante, capaz de ter se consagrado já no início de carreira com Beleza americana e sucedendo a trajetória com filmes que mostram os recantos escuros da América, a exemplo de Estrada da perdição, Soldado anônimo e Foi apenas um sonho, além de seu singelo Distante nós vamos, irrealizado filme sobre um casal querendo criar laços entre si e com os outros. Em todos esses filmes, Mendes mostra a fragilidade das relações, no entanto sempre oferece uma espécie de segunda chance a seus personagens.

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Num determinado encontro com Madeleine, a claridade do vagão de trem não chega a iluminar por completo uma cena que certamente vai desencadear algo muito remoto e escondido dentro de cada um desses personagens, além da ameaça de Mr. Hinx (Dave Bautista). É como se David Fincher estivesse fazendo um capítulo da franquia de 007, e não por acaso, mesmo pela presença de Craig, temos indícios da presença de Millennium na maneira como as paisagens são enquadradas, embora Rooney Mara seja mais participativa do que Seydoux e estabeleça uma parceria mais convincente com o ator. O ritmo empregado por Mendes traz um equilíbrio entre as paisagens espetaculares e as ações, com uma elegância incomum, já entrevista em Operação Skyfall, mas que chega ao ápice neste filme. Sua necessidade de mostrar James Bond como uma figura complexa, sempre ligado a uma questão familiar, é uma das saídas mais interessantes do período da série em que Daniel Craig está à frente. Mendes, com isso, nunca o mostra como um agente voltado apenas para sua missão, e sim como uma figura com virtudes e falhas. Desse modo, 007 contra Spectre é uma peça de alta tensão, feita realmente com a dedicação dada a um filme de Bond e que alterna cenários distintos como a naturalidade de quem muda o figurino do personagem central.

Spectre, Reino Unido, 2015 Diretor: Sam Mendes Elenco: Daniel Craig, Christoph Waltz, Léa Seydoux, Ben Whishaw, Naomie Harris, Andrew Scott, Monica Bellucci, Ralph Fiennes, Dave Bautista Roteiro: John Logan, Neal Purvis, Robert Wade Fotografia: Hoyte Van Hoytema Trilha Sonora: Thomas Newman Produção: Barbara Broccoli, Michael G. Wilson Duração: 148 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: B24 / Columbia Pictures / Eon Productions / Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / United Artists

Cotação 4 estrelas e meia

 

A garota dinamarquesa (2015)

Por André Dick

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O cineasta inglês Tom Hooper recebeu os Oscars de melhor filme e direção por um de seus esforços menos entusiasmantes, O discurso do rei. Logo depois, ele apresentou um musical moderno baseado na peça Os miseráveis, apostando num grande elenco (Hugh Jackman, Anne Hathaway e Russell Crowe) cantando por força própria, sem o auxílio (pelo menos aparente) de complementos ou correções de estúdio pós-produção. Esses dois filmes anunciam em parte a nova obra do diretor, A garota dinamarquesa. Em parte porque mostra bem uma cultura determinada – a dinamarquesa –, assim como ele mostrava anteriormente as culturas inglesa e francesa, apoiada num grande design de podução, em parte porque lida com a superação de um homem diante de sua vontade própria, assim como os personagens centrais de Os miseráveis e O discurso do rei.
A história inicia em Copenhagen, por volta dos anos 1920. Desta vez, o núcleo é o pintor reconhecido de paisagens Einar Wegener (Eddie Redmayne), casado com a também pintora Gerda Wegener (Alicia Vikander). Ambos pretendem ter filhos, mas Gerda não consegue engravidar. Certo dia, ela lhe pede para posar com uma roupa de bailarina para uma pintura que está fazendo, e Eimar admira o figurino, como se vestisse uma nova pele. No dia em que Gerda o aconselha a ir vestido como uma mulher para uma festa, ele encontra Henrik (Ben Whishaw, competente como sempre), por quem logo se sente atraído. E passa a chamar de Lili Elbe, em razão da amiga Ulla (Amber Heard), exatamente uma bailarina.

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Essa transformação de Einar numa mulher vai acontecendo numa forma gradativa, em meio a conflitos com a esposa. Gerda sonha em sobreviver por meio da pintura, mas tem seus quadros negados por um expositor, até o momento em que parece descobrir o seu estilo, como também Einar, ao lembrar de Hans Axgil (Matthias Schoenaerts). Por esse diálogo com o universo dos pintores e da boemia que os cercava, é fácil detectar uma beleza plástica nos detalhes comparável a Moça com brinco de pérola, além de um diálogo com Eclipse de uma paixão, sobre a relação romântica entre Rimbaud e Verlaine. E, baseado em fatos reais, como esses dois filmes, A garota dinamarquesa é um belo exemplo de como fazer uma obra biográfica sem cair exatamente no lugar-comum. Indo à história real, é interessante como Hooper conseguiu manter elos de ligação e criou outros, como o apego de Einar à sua infância, traduzido constantemente em suas pinturas.
Enquanto a trilha de Alexander Desplat parece excessivamente calcada em tons já conhecidos, a fotografia de Danny Cohen proporciona os melhores momentos de A garota dinamarquesa, junto com a presença de Vikander. Ela é realmente o principal nome da narrativa, mesmo com a presença de Redmayne, cujo papel é bastante difícil e ao qual ele se entrega com esforço, não sem cair, por vezes, em certos maneirismos que, ao longo do filme, acabam por desfocar um pouco o personagem – e sua atuação fica longe daquela de A teoria de tudo em termos de resultado.

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É como se a personagem de Vikander realmente desempenhasse a força central dessa história, bastante auxiliada a partir de determinado ponto por Schoenaerts (tão bem dirigido quanto em Ferrugem e osso e tornando complexo um personagem com roteiro mínimo). Vikander, depois de já se mostrar excelente atriz em O amante da rainha e Anna Karenina, embora tenha ficado mais conhecido com o recente Ex Machina, desempenha este papel com um potencial de atuação raras vezes visto nos últimos anos, mesclando um drama interno com uma tentativa de parecer menos atingida pelos desejos do marido.
A maneira como Hooper entrelaça o mundo artístico e a descoberta de uma visão própria nesse universo com a descoberta de si mesmo cava boa parte do interesse dramático de A garota dinamarquesa, que lida bem com algumas instabilidades narrativas, principalmente devido às ações de Gerda, não tão explicadas quanto o diretor possivelmente imagine. Ainda assim, mesmo com a dramaticidade em parte exagerada, Hooper tem um entendimento desse universo muito interessante. As comparações com o recente Tangerine por parte de alguns críticos me parecem injustas: embora o primeiro seja exemplo de cinema indie e aparentemente mais objetivo e direto, A garota dinamarquesa me parece um filme mais completo, além de visualmente muito bem trabalhado, dialogando, em seu design de produção, com as produções anteriores de Hooper.

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São muito interessantes as consultas que Einar faz a diferentes médicos e as prescrições dadas sobre sua obsessão em se tornar uma mulher, e a ausência de psicologia efetiva, além dos tratamentos recomendados. O filme não quer apenas, como me parece Tangerine, utilizar o tema da transexualidade porque é pouco abordado, mas sim levar os personagens a um espaço em que são mais do que símbolos de um período. Mesmo a figura da bailarina, presente em toda a primeira parte da história e por meio da qual o personagem central parece finalmente encontrar sua sexualidade, é um diálogo direto com o universo pictórico de Degas, do final do século anterior. Quando o expositor diz a Gerda para encontrar um estilo, é como se pedisse a ele um contorno menos francês. Esse contorno acaba sendo reproduzido pelo anseio do marido de se libertar de sua condição de casado: a figura da bailarina, já tão usada em quadros, é o que lhe proporciona a ideia de fugir ao que se espera do homem, do padrão de masculinidade esperado.
O tema da transexualidade se coloca com uma simbologia de representação do corpo e de se ver com outro sexo (e uma imagem em que Einar observa uma stripper por meio de um vidro é de uma grande sensibilidade de Hooper). Nunca há um deslizamento da história para o que poderia ser uma espécie de apelo. O roteiro de Lucinda Coxon, baseado em romance de David Ebershoff, tem o mérito de enquadrar as passagens dessa experiência de modo a nunca torná-la previsível. Isso se deve sobretudo a Vikander, uma grande atriz que consegue transformar os momentos derradeiros em uma virada realmente emocional, apoiada também em Redmayne, finalmente num momento que faz jus ao seu talento. E, ao contrário de O discurso do rei, Hooper não se entrega a uma frieza histórica, e sim a uma emoção calculada em doses, como no final sólido e que expande a imaginação do espectador.

The danish girl, Reino Unido/EUA, 2015 Diretor: Tom Hooper Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Matthias Schoenaerts, Ben Whishaw, Amber Heard, Sebastian Koch, Emerald Fennell, Adrian Schiller Roteiro: Lucinda Coxon Fotografia: Danny Cohen Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Anne Harrison, Eric Fellner, Tim Bevan Duração: 120 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: ELBE / Harrison Productions / MMC Independent / Pretty Pictures / Senator Film Produktion / Working Title Films

Cotação 4 estrelas

No coração do mar (2015)

Por André Dick

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O diretor Ron Howard tem mantido uma sólida filmografia desde os anos 80, quando foi responsável por algumas referências de seus respectivos gêneros, a exemplo de Splash, Cocoon, Willow – Na terra da magia e O tiro que não saiu pela culatra. Nos anos 90, trouxe o melhor filme sobre bombeiros já feito (Cortina de fogo), além de uma história interessante sobre o universo jornalístico (O jornal), outra sobre os primeiros desbravadores nos Estados Unidos (Um sonho distante) e uma ficção indicada ao Oscar (Apollo 13). Nos anos 2000, ele recebeu seu primeiro Oscar com Uma mente brilhante e encadeou ótimos filmes (A luta pela esperança e Frost/Nixon) com outros de menos interesse (O Código Da Vinci, O Grinch). Em 2013, Howard inaugurou uma nova parceria com o astro Chris Hemsworth, por meio do belo filme sobre Fórmula 1, Rush, parceria que ele repete em No coração do mar, o filme sobre a origem do romance Moby Dick, de Herman Melville.
Também ator e cujo trabalho de direção recebeu apoio do mentor George Lucas, para quem trabalhou em American grafitti, Howard apresenta a história de Thomas Nickerson (Breendan Gleeson), casado com (Michelle Fairley) que recebe, num momento de depressão e financeiramente difícil, o escritor Herman Melville (Ben Wishaw, fazendo ecoar seu papel em Cloud Atlas) para contar a história do baleeiro Essex, que partiu em viagem nos anos 1850 da cidade de Nantucket. Ou seja, o filme não é uma adaptação direta de Moby Dick, livro de Melville que serviu de referência para outros inúmeros livros ou filmes sobre o confronto entre homens e animais (do mar ou da terra).

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Em torno de três décadas antes, Nickerson (agora Tom Holland) fazia parte desse baleeiro, sob o comando de George Pollard (Benjamin Walker, excelente), um capitão inexperiente que recebe o confronto direto de Owen Chase (Hemsworth), cujo melhor amigo, Matthew Joy (Cillian Murphy), se encontra a bordo, e muito mais tarimbado nas funções que precisa exercer em alto-mar. No entanto, eles precisam entrar em acordo para que o serviço seja bem feito e possam voltar com bastante especiaria de baleia para terra. Alguns meses mais tarde, eles percebem que quase não há baleias, indo parar no Equador, onde são alertados sobre uma determinada cachalote branca. Isso é o ponto de partida para a história de Melville, que já se tornou conhecida, por meio de seu capitão Ahab, que enfrenta a cachalote em alto-mar. Escusado será dizer que o barco Essex será perseguido como se houvesse um embate contra outro ser humano, plenamente consciente de que deve se vingar. Esse é o mote dessa grande história.
Por meio de uma fotografia excelente de Anthony Dod Mantle, já responsável pelas tomadas de corrida de Rush, que concede ao filme uma textura de filme antigo, mais propriamente dos anos 50. No coração do mar cresce ainda mais por causa de sua imponência na parte de efeitos especiais e efeitos sonoros. São notáveis as sequências de perseguição da baleia ao Essex, e este é construído de maneira verossímil. Há algumas alternativas previsíveis na narrativa de Howard, mas em nenhum momento o filme se apresenta como montado às pressas como costuma acontecer com grande parte dos blockbusters: ele tem uma grande proximidade com fatos que poderiam a princípio chocar não fossem símbolos exaustivos de como pode uma sobrevivência se antecipar à vida, assim como o referencial Invencível.

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Também é notável a reconstituição de época (junto com os figurinos), mesmo que em alguns momentos haja uma determinada aparência falsa no conjunto; no entanto, parece-me proposital, por Howard exatamente querer recuperar o clima de cinema antigo já constatado na fotografia de Dod Mantle. Não são raras as vezes em que imaginamos assistir a um filme clássico, cujo relevo lembra um álbum antigo. A obra de Howard se sente como um grande painel de época, variado e profuso – e determinadas sequências possuem uma beleza plástica poucas vezes vistas no cinema. Em alguns momentos, há diálogos com a maneira como Peter Jackson filmou as cenas em alto-mar no seu King Kong, em outros, como já apontado, Howard convoca elementos do documentário Leviathan, principalmente ao mostrar o voo de gaivotas, e há um eficiente uso das cores vermelhas (da violência contra a baleia) e verdes (do mar e dos olhos dos personagens e da própria cachalote). Howard sempre esteve muito interessado no tema da viagem e do confronto do homem com seus próprios limites, como em Apollo 13, Um sonho distante ou mesmo na fantasia Willow. Em Uma mente brilhante e A luta pela esperança, Russell Crowe representava homens lutando contra suas possibilidades e impossibilidades, e nesse sentido Owen Chase é um típico personagem de sua filmografia.

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Na verdade, se aqui Howard consegue extrair interpretações competentes do elenco, como de praxe, ele se esmera ainda mais em se aproximar de um lado mais grave: o ser humano em busca de uma temporada de caça acaba se voltando contra si próprio para sobrevivência. Howard consegue indicar esse desespero humano, sobretudo ao mostrar como os homens do baleeiro faziam para extrair as especiarias e depois o que devem fazer para se manterem vivos.
Hemsworth tem se mostrado um dos astros mais interessantes desde seu surgimento em Star Trek e Os vingadores. Em No coração do mar, mais uma vez ele revela uma emoção que consegue captar seu susto diante da situação de enfrentar um mistério da natureza querendo destruir a navegação da qual faz parte. Ele faz parte de um ótimo elenco de apoio, incluindo Whishaw, Gleeson e Cillian Murphy. Holland, o próximo Homem-Aranha, tem uma participação não exagerada e competente o suficiente para tornar seu personagem como a continuação de uma linhagem de baleeiros.

In the heart of the sea, EUA, 2015 Diretor: Ron Howard Elenco: Chris Hemsworth, Benjamin Walker, Ben Whishaw, Brendan Gleeson, Tom Holland, Cillian Murphy, Michelle Fairley Roteiro: Charles Leavitt Fotografia: Anthony Dod Mantle Trilha Sonora: Roque Baños Produção: Brian Grazer, Edward Zwick, Joe Roth, Paula Weinstein, Will Ward Duração: 121 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Cott Productions / Enelmar Productions, A.I.E. / Imagine Entertainment / Roth Films / Spring Creek Productions / Village Roadshow Pictures / Warner Bros

Cotação 4 estrelas

Cloud Atlas (2012)

Por André Dick

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Depois de saírem as indicações ao Oscar esta semana, havia a certeza de que dois filmes foram injustiçados: Moonrise Kingdom e O hobbit. Agora, pode-se dizer que Cloud Atlas – traduzido, de forma estranha, para A viagem no Brasil – é o terceiro. Dirigido pelos irmãos Lana e Andy Wachowski, da trilogia Matrix e Speed Racer, e por Tom Tykwer, de Corra, Lola corra, Cloud Atlas é baseado num romance de David Mitchell e possui uma produção inegavelmente complexa para seu custo (pouco mais de 100 milhões de dólares). É lamentável que tenha obtido até agora uma bilheteria inferior aos gastos, o que se explica pela história realmente mais complexa, mas não pelo elenco e cuidado que vemos na tela. Não se trata exatamente de um épico, apesar de seu cuidado com cada momento histórico retratado e da sua duração (quase 3 horas), e sim de uma produção única que, pela modulação de histórias, vai desde o drama, passando por passagens de comédia, até a ficção científica, além de envolver ideias relacionadas à filosofia e à religiosidade. Tenho desconfiança do que se costuma chamar confuso. Há possibilidade, também, de não se entender nada de filmes como A árvore da vida, Duna e O portal do paraíso, quando o que se vê, com o mínimo de tentativa de compreensão, é perfeitamente inteligível.
Em alguns momentos da montagem de Cloud Atlas, tem-se a impressão que era o desejo que tinha Cristopher Nolan quando editou A origem. No entanto, se Nolan dava credibilidade demais ao discurso sobre os sonhos, os irmãos Lana e Andy Wachowski não tentam demonstrar nenhum discurso que explique o que estão mostrando; pelo contrário, deixam a critério do espectador ligar as pontas, de forma bastante sutil. Mesmo as mensagens que eles distribuem ao longo do filme, e que formam a base da narrativa, não são colocadas de forma reiterativa, a ponto de que identifiquemos nelas alguma explicação para a história. E, se a montagem demora um pouco a fazer sentido e, se em certos momentos algumas cenas não esclarecem umas às outras, temos ainda a sensação de que estamos diante de um experimento cinematográfico que pretende multiplicar vozes e não abafá-las, como no belo As horas, sobre a influência de Virginia Woolf na vida de alguns personagens.

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A história se distribui em seis narrativas, passadas em momentos diferentes. Uma delas ocorre em 1849, quando um jovem advogado, Adam Ewing (Jim Sturgess) precisa viajar para as ilhas Catham, no Pacífico Sul, e, quando vê um escravo ser chicoteado, acaba desmaiando. Daí em diante, mesmo quando parte de viagem em navio de volta para os Estados Unidos, ele fica aos cuidados de Goose (Tom Hanks), que na verdade quer roubar as peças com ouro que possui, inventando que ele possui uma moléstia, e faz amizade com o escravo, Autua (David Gyasi). O mesmo Tom Hanks reaparece como um gângster escritor em 2012. Financiado pelo editor endivididado Timothy Cavendish (Jim Broadment), é este, na verdade, o nome principal desse núcleo. Por não conseguir pagar o que deve, pede ajuda a seu irmão, Denholme (Hugh Grant), que o manda para um asilo, a fim de aprisioná-lo por erros passados, não sem antes ele tentar visitar um antigo amor, Ursula (Susan Sarandon). Broadment também interpreta Vyvyan Ayrs, em história passada em 1936, um músico conhecido, casado com Jocasta (Halle Berry), que emprega um jovem, Robert Frobisher (Ben Wishaw, excelente, como em 007 – Operação Skyfall), o qual acaba compondo a sinfonia “The Cloud Atlas Sextet” (se é o nome da sinfonia, poderiam ter mantido pelo menos o nome estrangeiro, a exemplo do que aconteceu com Moonrise Kingdom e Holy Motors, que nomeiam lugares) e é apaixonado por Rufus Sixsmith (James D’Arcy). No entanto, Vyvyan quer roubar essa sinfonia por considerá-la, num momento, um trabalho em conjunto, depois de um discurso (naquele momento, falso) sobre a união entre as pessoas. Em 1973, uma jornalista, Luisa Rey (Halle Berry), conhece Sixmith (D’Arcy), já um físico nuclear, que lhe passa informações sobre os planos de um empresário, Lloyd Hooks (novamente Grant), em utilizar um problema nuclear para faturar com petróleo. Ela conhece um cientista, Isaac (Hanks), e é perseguida por um capanga (Hugo Weaving), sendo amiga de um menino, futuro escritor. Numa Seul futurista, em 2144, uma menina pré-programada geneticamente, Sonmi-451 (Doona Bae), trabalha numa cadeia de fast food dirigida por Seer Rhee (Grant) e acaba sendo salva por alguém que pode pertencer a uma rebelião, Hae-Joo Chang (Jim Sturgess), contra um sistema totalitário. Ambos se apaixonam. E ela não sabe por que ele acredita que ela pode transformar a humanidade. Mais ainda no futuro, em 2321, estamos de volta a um mundo tribal, num Havaí pós-apocalíptico, em que Zachry (Hanks) se apaixona por Meronym (Berry), que pertence aos prescientes, um grupo de humanos que convive com a alta tecnologia, e pode salvar sua filha em determinada situação. Ela lhe pede para levá-la ao topo de uma montanha, onde poderá desvendar um segredo, numa estação que os ligará diretamente ao passado e ao futuro. Mas Zachry acredita, sobretudo, na líder da tribo, Abbess (novamente Sarandon).

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Parece confuso, e talvez quando se assista o filme também possa também parecer, mas é fato que Cloud Atlas oferece uma visão muito instigante sobre acontecimentos passados no passado, presente e futuro. Mesmo ao longo da metragem (mas sobretudo depois, refletindo sobre a narrativa que se viu), as histórias se fazem, ao mesmo tempo, independentes e interligadas. Uma coleção de cartas deixada por Sixmith pode ser o guia para um jovem escrever um livro, que poderá ser lido futuramente por um editor. Este editor pode ter tido a vontade de se apossar do sucesso de uma obra literária assim como o músico veterano deseja se aproveitar de um jovem talento, o qual manipula, no passado. Uma jornalista pode ser ajudada por um cientista na mesma medida em que, no futuro, o componente de uma tribo pode ser salvo pela mulher que acaba de conhecer. Uma menina no futuro, aprisionada, pode estar na mesma condição de um senhor que fica preso num asilo ou de um escravo, que está para ser morto pelo comandante do navio, ou mesmo de um jovem que não quer sua peça seja roubada e é chantageado a ficar numa mansão. Um casal correndo sobre uma ponte feita de metal, fugindo de lasers e naves, pode criar um paralelo com o escravo subindo no mastro para demonstrar um talento que pode mantê-lo a salvo. Um homem sendo envenenado pode criar um paralelo com uma menina no futuro precisando de ajuda médica. Salvar uma pessoa da morte pode criar, mais do que uma admiração e repripocidade, o amor e o confronto contra o preconceito, mas sem fugir ao embate entre os fracos e fortes. E Cloud Atlas consegue demonstrar, de maneira complexa e virtuosa, uma porção de sensações paralelas, que vão se complementando, como se uma ação dependesse da outra para acontecer, como se, de fato, houvesse a conexão trazida pelo marketing do filme, mas sem remeter a si mesmo, como nos processos infinitos de filmes puramente metalinguísticos.
Todas as histórias do filme vão acontecendo quase que simultaneamente, algumas com maior destaque, outras dando espaço mais a diálogos temporais, revelando uma montagem magistral de Alexander Berner e a trilha sonora (indicada ao Globo de Ouro) mais marcante do ano, ao lado da de Moonrise Kingdom, assinada por Tom Tykwer (um dos diretores), Reinhold Heil e Johnny Klimek. Além disso, o desenho de produção de Uli Hanisch e Hugh Bateup, aliado à fotografia notável de Frank Griebe e John Toll, cria um enlace entre todos os períodos do filme, com um trabalho semelhante de cores. Ou seja, o espectador atravessa séculos sem que o figurino ou os detalhes de produção se sobressaiam uns em relação aos outros, mantendo uma harmonia. “Não se pode quebrar a ordem das coisas”, diz um determinado personagem num momento-chave, mas Cloud Atlas mostra que, em todas as épocas e todas as pessoas, acabam de certo modo quebrando a ordem das coisas, assim como a própria montagem do filme corta as ações para criar um paralelismo entre elas.

Cloud Atlas 8

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De todo o elenco, o nome de impressionante atuação é Jim Broadment, mas não se poderia negar que Tom Hanks tem seu melhor momento como ator desde Náufrago e que talvez seja sua participação mais efetiva, como ator que se desdobra, em sua trajetória. Fala-se que ele teve um papel muito importante para a finalização de Cloud Atlas, pois, em determinado momento, a distribuidora não se mostrava mais tão interessada. É visível a dedicação de Hanks ao projeto, e ele consegue trabalhar cada personagem, com a ajuda da valiosa maquiagem (vencedora no Critics Choice Awards, no qual o filme também foi indicado às categorias de figurino e de efeitos especiais), de maneira pessoal e, mesmo quando poderia, sem cair no farsesco ou na caricatura. Acontece, em menos intensidade, o mesmo com Hugo Weaving, um ator que me parece limitado, mas tem uma participação interessante, sobretudo no papel de uma médica que lembra a de Um estranho no ninho. Deve-se dizer que Hugh Grant também se desdobra: apesar dos cacoetes que traz de outros filmes, ele consegue emprestar a cada personagem que interpreta uma presença de cena.
No entanto, deve-se alertar para o progresso na maneira de filmar que dão os irmãos Lana e Andy Wachowski, depois do malsucedido Speed Racer e mesmo do segundo e do terceiro episódios de Matrix, inferiores à ficção que trouxe um novo fôlego aos anos 1990. Aqui, a filosofia direcionada a um futuro de reconciliação é mais discreta e efetiva. Sabemos que, por meio dos personagens de Zachry e Meronym, temos a conciliação da tecnologia com o passado da tribo, com suas divagações e histórias sob as estrelas, e ainda temos, por trás, toda uma filosofia religiosa que certamente interessaria a Pi, o personagem de Yann Martel. Há, também, a questão da vida após a morte; o entrelaçamento entre diferentes vidas. A maior referência recente, aqui, parece ser A árvore da vida, de Terrence Malick, que, mesmo com menos palavras e menos grandioso, no sentido dos custos, vai na mesma direção de Cloud Atlas. “A morte é uma porta”, uma personagem narra em certo momento – não é diferente da Sra. O’Brien (Jessica Chastain) abrindo uma porta para a despedida do filho, que caminha em direção a um deserto. Também é discurso implícito de A árvore da vida de que o ser humano tem sensações que se assemelham e que cada vida é como o início dos tempos. Em Cloud Atlas, todo o discurso de conciliação entre épocas diferentes esconde, com mais intensidade, uma espécie de fuga ao canibalismo e à queda dos dentes (também colhido por um copo numa mesa de bar), onde se pode também achar ouro nas areias dando para o Pacífico Sul. O jovem músico é chantageado pelo atendente do hotel e precisa entregar o colete dado pelo amor de sua vida. O editor deve dinheiro e precisa aprender a viver em comunidade. O empresário quer lucrar com um possível problema nuclear. E a política é atenuada em nome da descoberta do cinema e de um filme que cria laços com o passado, enquanto homens perseguem possíveis rebeldes atrás de blocos de concreto cinza. Em meio a tudo isso, de algum modo, todos são irrepetíveis (apesar de parecer repetir uma pretensa ordem) e se sustenta uma linha de premissas que podem governar a humanidade. O Havaí pós-apocalíptico existe após o que se chamou de “A Queda”. Pode ser, sem dúvida, uma queda que remete ao paraíso original, mas muito mais o anúncio de que pode haver uma possível renovação, já que ela está na cadeia genética que forma cada ser.
Diante disso, Cloud Atlas é uma obra de grande qualidade, com sua continuidade de planetas e vidas soltos no espaços, à procura ainda de uma possível conciliação. Para o espectador, resta ou não se conectar. Independente do resultado, vale certamente a experiência.

Cloud Atlas, EUA/ALE/Hong Kong/Cingapura, 2012 Diretor: Andy Wachowski, Tom Tykwer, Lana Wachowski Elenco: Tom Hanks, Halle Berry, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Susan Sarandon, Hugh Grant, Ben Whishaw, Keith David, Jim Broadbent, James D’Arcy, Doona Bae Produção: Stefan Arndt, Grant Hill, Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski Roteiro: Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski Fotografia: Frank Griebe, John Toll Trilha Sonora: Reinhold Heil, Johnny Klimek, Tom Tykwer Duração: 172 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Anarchos Productions / Media Asia Films / X-Filme Creative Pool / Asacine Produções / Five Drops / A Company Filmproduktionsgesellschaft

Cotação 5 estrelas