Bohemian Rhapsody (2018)

Por André Dick

A cinebiografia é praticamente um gênero em voga no cinema desde o início da década de 90. Recentemente, tivemos O primeiro homem, sobre Neil Armstrong, o primeiro astronauta a pisar na lua, e a temporada de premiações costuma reservar uma porção desses exemplares. Por isso, Bohemian Rhapsody, que traz a vida de Freddie Mercury, nos bastidores e à frente da banda Queen, é mais uma obra desse gênero. Se o trailer parecia antecipar uma sucessão de momentos kitsch, pode-se identificar no filme uma tentativa de conciliar tudo com um retrato de época consistente.
Sua história inicia mostrando Farrokh Bulsara (Rami Malek), estudante da Indian-British Parsi e filho de pais imigrantes, Bomi (Ace Bhatti) e Jer (Meneka Das), que trabalha como carregador de bagagens no aeroporto de Heathrow. Indo a um show da banda Smile, ele se encontra com os integrantes Brian May (Gwilym Lee), guitarrista, e Roger Taylor (Ben Hardy), baterista, quando descobre que o vocalista Tim Staffell (Jack Roth) saiu dela. Juntos com o baixista John Deacon (Joseph Mazzello), eles formam a banda Queen, apresentando-se em vários lugares da Inglaterra e tentando gravar seu primeiro LP. Nessa jornada, Farrokh muda seu nome para Freddie Mercury e passa a namorar Mary Austin (Lucy Boynton).

Durante a turnê da banda nos Estados Unidos, o vocalista percebe ser bissexual e quando vai gravar com o quarto álbum, A night at opera, ele cria a música “Bohemian Rhapsody” – para minha geração, talvez mas conhecida principalmente pela introdução do divertidíssimo Quanto mais idiota melhor, de 1992 – no melhor momento do filme. Todos recolhidos numa fazenda, essas sequências lembram o melhor do excêntrico Frank, em que um vocalista feito por Michael Fassbender se escondia por baixo de uma cabeça gigante e tinha receio de fazer sucesso. Mercury se desentende com o produtor executivo Ray Forster (Mike Myers, o Wayne do filme referido que ajudou a popularizar a música nos anos 90), que se nega a lançar a canção de seis minutos, projetando que ela seria um fracasso, enquanto o DJ Kenny Everett (Dickie Beau) a lança na rádio, dando início a um enorme sucesso. Em seguida, o espectador vai testemunhando reviravoltas na vida pessoal do músico: Freddie se envolve com seu agente pessoal Paul Prenter (Allen Leech), e a relação com Mary se torna mais conflituosa. Numa festa em sua casa, Freddie se apaixona por Jim Hutton (Aaron McCusker), um dos garçons. A partir daí, sua homossexualidade começa a ganhar holofotes e ele acaba assumindo uma carreira à parte, longe dos parceiros, no entanto sempre com Mary tentando aconselhá-lo. Este é o elemento mais criticado no roteiro: pouco se dá atenção à homossexualidade de Mercury, no entanto ele respeita muitas entrevistas do cantor, que nunca chegou a ser dedicado a discutir sobre ser homossexual e mesmo evitou (como Cazuza e Renato Russo no Brasil) a misturar obra e vida pessoal. Trata-se de uma escolha artística da equipe de Bohemian Rhapsody.
O concerto Live Aid, no estádio de Wembley, um espetáculo antológico, que marcou a década, recebe imagens fantásticas, muito bem filmadas, e, se a direção de Bryan Singer suscitou polêmica (um pouco antes do fim das filmagens, ele abandonou o posto, deixando-o para Dexton Fletcher), ela ainda revela um autor bastante eclético, começando por Os suspeitos, passando por O aprendiz, ambos dos anos 90, até chegar à versão bastante criticada para o homem de aço, Superman – O retorno, e àquele que parece ainda seu maior acerto, Operação Valquíria, uma aventura de guerra com Tom Cruise em meio a nazistas. Recentemente, ele também fez o subestimado Jack, o caçador de gigantes e os dois X-Men com a nova geração. Não se percebe nada distinto de seu estilo na obra, o que leva a crer que Fletcher pouco acrescentou o seu nas cenas que filmou e não refilmou cenas ou editou as que já haviam sido rodadas.

O mais interessante de Bohemian Rhapsody é como ele converte seus elementos mais kitsch num olhar caloroso sobre a chegada dos anos 80, as transformações na sociedade por meio da música, dos cabelos e a ameaça silenciosa da Aids. Rami Malek tem uma atuação extraordinária mesmo com um roteiro por vezes limitado. Tornando cenas efêmeras em um painel do seu tempo, embora o filme, para muitos, atenue os acontecimentos reais, Malek extrai uma singeleza da figura de Mercury, um showman verdadeiro e despretensioso, sem ligação alguma com a pompa dos que o precederam, como Mick Jagger, ou sucederam, como Bono Vox, mas investindo no rock como coro natural dos estádios. Difícil imaginar Sacha Baron Cohen, a primeira opção para o papel, sem cogitar que a obra cairia numa estranha comédia involuntária. Talvez o único antes de Malek que tenha encarnado um astro musical tão à altura tenha sido Val Kilmer na pele de Jim Morrison no The Doors, de Stone, uma peça que tem elementos parecidos com este, no entanto muito mais psicodélicos e um tanto desencontrados na sua tentativa de atingir uma antilinearidade narrativa. Boynton, por sua vez, também é uma figura agradável, como já aparentava em Sing Street, na qual era a musa do líder de uma banda de rock de adolescentes.

A fotografia de Newton Thomas Sigel, que realizou um trabalho espetacular em Drive e colaborou com Singer em diversos filmes, ordena as iluminações tipicamente oitentistas – flashes de luz entrando pelas janela, ecoando Flashdance – e o figurino multicolorido dos personagens, além do palco situado entre os anos 70 e 80, parecendo sair de um musical. Singer, sempre com uma atenção visual, apanha elementos de filmes sobre astros, como The Runaways, The Commitments e Quadrophenia, e lança o espectador no universo saindo da contracultura e das manifestações contra a Guerra do Vietnã, visando a uma liberdade de expressão mais duradoura e às opções sexuais, do grupo que arquitetou a trilha sonora de uma das diversões cinematográficas mais exitosas da cultura pop, o visionário Flash Gordon. Singer visualiza muito bem os estúdios de música e as cenas de festa luxuosas e tentando enganar seu personagem central. Além disso, o roteiro de Anthony McCarten, o mesmo de A teoria de tudo e A hora mais escura, ao dar vida real aos músicos que circulam em torno de Mercury, parece impedir justamente nesse gesto uma mera cinebiografia centralizadora. Por isso, não se arrisca dizer que a verve de “We will rock you” atinge o espectador com consciência e destreza.

Bohemian Rhapsody, EUA/ING, 2018 Diretor: Bryan Singer Elenco: Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee, Ben Hardy, Joseph Mazzello, Aidan Gillen, Tom Hollander, Mike Myers, Ace Bhatti, Meneka Das Roteiro: Anthony McCarten Fotografia: Newton Thomas Sigel Produção: Graham King, Jim Beach Duração: 134 min. Estúdio: 20th Century Fox, New Regency, GK Films, Queen Films Distribuidora: 20th Century Fox

X-Men: Apocalipse (2016)

Por André Dick

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O terceiro filme que mostra os personagens em sua faceta mais jovem da série X-Men volta a ser dirigido por Bryan Singer, responsável pelos dois primeiros do início dos anos 2000 e pelo anterior a este, com o subtítulo Dias de um futuro esquecido, depois da reinicialização por Matthew Vaughn, em Primeira classe. Singer é um diretor bastante eclético, começando por Os suspeitos, passando por O aprendiz, ambos dos anos 90, até chegar à versão bastante criticada para o homem de aço, Superman – O retorno, e àquele que parece ainda seu maior acerto, Operação Valquíria, uma aventura de guerra com Tom Cruise em meio a nazistas. Recentemente, ele também fez o subestimado Jack e o caçador de gigantes (com o mesmo Hoult que trabalha como um dos X-Men), e seus próximos projetos incluem Broadway 4D (dirigido com Gary Goddard, de Mestres do universo) e uma nova versão de 20.000 léguas submarinas.
A nova história (a partir daqui, possíveis spoilers) começa mostrando En Sabah Nur, ou Apocalipse (um ótimo Oscar Isaac), como o mutante original, que fica por centenas de anos preso numa câmara embaixo da terra, no Cairo, até que é desenterrado. Possuindo poderes cada vez maiores, ele ressurge exatamente em 1983, e conhece uma jovem, Ororoe Munroe (Alexandra Shipp), que se torna sua discípula e, investida de poderes, em Tempestade.

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Por sua vez, na Berlim Oriental, Raven/Mística (Jennifer Lawrence) encontra Kurt Wagner/Noturno (Kodi Smit-McPhee) lutando com Anjo (Ben Hardy), pois seu papel agora parece ser o de libertar mutantes, e não por acaso ela surge como uma referência feminina na parede de Ororoe, que diz querer ser como ela. Ela não consegue impedir que Apocalipse venha atrás não apenas do Anjo, mas de Magneto (Michael Fassbender) e Psylocke (Olivia Munn). No encalço da criatura ressuscitada, está a agente Moira MacTaggert (Rose Byrne), que apareceu pela primeira vez no primeiro X-Men nesta nova franquia.
Por sua vez, o professor Charles Xavier (James McAvoy), para tentar lidar melhor com o passado, procura constituir uma nova família e recebe novos alunos em sua escola em Westchester County, New York, entre os quais Jean Grey (Sophie Turner), que está com problemas para se adaptar a seus superpoderes. Já Scott Summers/Ciclope (Tye Sheridan) é levado por seu irmão, Havok (Alex Summers), assim que começa a ter problemas em manter seus olhos abertos, logo depois de uma sequência escolar que lembra o recente Homem de aço, de Snyder. Ele se aproxima de Jean, em razão dessa falta de adaptação. Na escola, também reaparecem Hank McCoy/Fera (Nicholas Hoult) e Peter Maximoff/Mercúrio (Evan Peters), para tentar impedir o vilão de aumentar os seus poderes sobre os mutantes, sem antes encontrar o Coronel William Stryker (Josh Helman).

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Em X-Men: Apocalipse, como na segunda parcela desta nova franquia esclarece, as décadas passam e com elas se vê a participação dos mutantes em fatos históricos – e o diálogo se estende a Watchmen. Aqui, nos anos 80, o pano de fundo é a Guerra Fria entre os Estados Unidos e União Soviética, e Apocalipse está interessado na desintegração da humanidade e na necessidade de mostrar que há “falsos deuses” entre os heróis. Tudo inicia no que poderia se chamar de uma parte extraída diretamente de A caçada ao outubro vermelho.
Em X-Men, as batalhas históricas se tornam parte de uma grande fantasia e um dos momentos mais dramáticos deste episódio mostra Magneto/Erik Lehnsherr vivendo como um operário numa fábrica de metais da Polônia, país natal, feliz ao lado de esposa, Magda (Carolina Bartczak), e sua jovem filha, Nina (T.J. McGibbon). Procurado pelo mutante original, ele é levado a Auschwitz, onde teria começado a manifestar seus poderes depois da morte de sua família. Não por acaso, é a parte que parece mais interessar a Singer em seus projetos mais pessoais, como O aprendiz e Operação Valquíria: para ele, o peso da Segunda Guerra Mundial marca para sempre Magneto, indefinido entre seguir seus companheiros ou de se vingar pelas situações em que se envolve e são trágicas para sua vida pessoal. Para Fassbender, presente em outro filme referencial sobre a Segunda Guerra, Bastardos inglórios, a essência do personagem é estar, de fato, preso a um passado que se repete a cada dia e cuja família não pode encobrir. Se ele é buscado por um homem que se autodenomina Apocalipse, como não lembrar de Hitler?

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Por sua vez, o Prof. Xavier, na tentativa de dar uma certa tranquilidade aos novos mutantes, é uma espécie de figura que complementa a de Magneto: se este não deseja revelar seus poderes, o professor pretende que os mutantes sejam, afinal, considerados como parte do mundo. Um dos problemas, porém, é que os personagens quase não possuem cenas em conjunto, o que proporcionaria uma maior aproximação deles no sentido de que são figuras complementares, à medida que também lida com a tentativa de Xavier em convencer Magneto a ficar novamente de seu lado.
Por isso, às vezes, a sensação é de que o roteiro de Singer e Simon Kinberg, cujo maior acerto é Sherlock Holmes, de Guy Ritchie, com o apoio ainda de Dan Harris e Michael Dougherty, tem inúmeros personagens à mão e é difícil solucionar a narrativa de cada um, mesmo em quase duas horas e meia, facilitando as transições e diminuindo, no terceiro ato, o peso do vilão, feito com perícia com Isaac. O filme flutua entre uma leveza de Xavier tentar uma aposta romântica e a descoberta de dois jovens de seus poderes, além de referências claras ao ano de 1983, como no figurino do Noturno, ainda mais parecido com aquele utilizado por Michael Jackson no videoclipe “Thriller”. Ele segue os capítulos anteriores com uma sequência de cenas que vão se conectando sem muito esforço para o espectador, com a fotografia de Newton Thomas Sigel, habitual colaborador de Singer, dedicada a uma mescla interessante de cores, principalmente quando o Prof. Xavier acessa o monumental cérebro.

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O roteiro às vezes é tão leve quanto a piada que faz consigo mesmo, quando os jovens saem do cinema e lamentam que O retorno de Jedi é a parte mais fraca de Guerra nas estrelas – Singer não se refere a X-Men – O confronto final, de Brett Ratner, o qual não dirigiu, e sim ao que espera que a crítica falará de seu filme, como de fato ocorreu.
A primeira parcela desta nova geração foi muito bem feita por Vaughn e esta terceira não fica nada a dever em termos de ação e efeitos visuais, embora haja um pouco de CGI carregado demais na sequência da batalha final. Muito boa a participação também do elenco: de McAvoy, Fassbender, Turner, Hoult e Peters, principalmente, servindo como alívio cômico, talvez na melhor sequência do filme, sonorizado por “Sweet Dreams (Are Made of This)”, de Eurythmics. Não fica muito clara qual a participação de Lawrence, mas ela sempre é uma presença eficiente em cena, e Byrne poderia ser melhor aproveitada. Por outro lado, aprecio mais esse elenco do que o da primeira trilogia e o saldo final deste X-Men: Apocalipse é agradavelmente positivo.

X-Men: Apocalypse, EUA, 2016 Diretor: Bryan Singer Elenco: James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Nicholas Hoult, Oscar Isaac, Rose Byrne, Evan Peters, Josh Helman, Sophie Turner, Tye Sheridan, Lucas Till, Kodi Smit-McPhee, Ben Hardy, Alexandra Shipp, Lana Condor, Olivia Munn, Warren Scherer, Rochelle Okoye, Monique Ganderton, Fraser Aitcheson Roteiro: Bryan Singer, Dan Harris, Michael Dougherty, Simon Kinberg Fotografia: Newton Thomas Sigel Trilha Sonora: John Ottman Produção: Lauren Shuler-Donner, Simon Kinberg Duração: 144 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Dune Entertainment / Marvel Entertainment / Twentieth Century Fox Film Corporation

Cotação 3 estrelas e meia