Batman – O cavaleiro das trevas ressurge (2012)

Por André Dick

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A lembrança deixada pelos dois filmes de Joel Schumacher na franquia iniciada por Tim Burton no final da década de 80 da série Batman manteve todos os interessados pelo personagem consciente de que, numa renovação, era preciso mudar o direcionamento das coisas. Quem o substituiu foi Christopher Nolan, que havia mostrado certa competência em Amnésia e um policial fraco em Insônia. Depois dos dois Batman e do irregular (e, a meu ver, monótono) A origem, ele regressou com Batman – O cavaleiro das trevas ressurge. Mas seria interessante rever o que ele apresentou nos dois primeiros.
Em Batman begins, o herói que se veste de morcego está de volta a Gotham City depois de uma temporada num mosteiro, onde se aprimorou em artes marciais com um homem perturbado, Henri Ducard (o antipático, por isso perfeito para o papel, Liam Neeson), que pretende limpar a terra de assaltantes com sua Liga das Sombras. Reencontrando a amiga de infância Rachel Dawes (Katie Holmes) e seu melhor amigo, o mordomo Alfred (o ótimo Michael Caine), ele retoma a empresa do pai, indo contra a vontade de quem já fazia planos de coordená-la (Rutger Hauer), colocando um cientista, Lucius Fox (Morgan Freeman, sempre eficiente), para ajudá-lo a construir armaduras e armas contra assaltantes, afinal pretende estabelecer a ordem na cidade. Seu amor pela amiga é o ponto romântico do filme. Ela quer prender os piores bandidos na cadeia, mas um dos envolvidos vai parar no Asilo Arkham, onde precisa enfrentar o Espantalho (Cillian Murphy, extremamente estranho e adequado para o papel), que na verdade é o Dr. Cristopher Crane, cujo tom mais soturno lembra a novela de Batman feita por Frank Miller. Batman – desta vez com mais ajuda do comissário Gordon (na franquia antiga bastante apagado), interpretado pelo ótimo Gary Oldman – enfrentará todos os bandidos e ainda quem volta do passado e deseja impedi-lo de salvar Gotham.
Há cenas muito bem feitas por Nolan (sobretudo aquela em que Batman invade o asilo, a fim de encontrar o Espantalho, com uma atmosfera tensa e pesada), que emprega um ritmo vertiginoso na montagem, embora lhe faltem alguns elementos: a direção de arte da série de Tim Burton (muito mais fantástica e original, sobretudo no design dos veículos utilizados por Batman), a trilha sonora de Danny Elfman (tão marcante quanto a que John Williams fez para Superman, aqui substituída por uma feita em parceria de Hans Zimmer com James Newton Howard) e o figurino original (bem mais criativo do que aqui, basicamente uma reprodução do dia a dia). Ou seja, Nolan tem uma dificuldade clara em situar o personagem num universo fantástico, preferindo colocá-los à luz natural. Mesmo a maneira como revela o surgimento do herói é menos fantasiosa.
De qualquer modo, este Batman Begins parece um filme mais na medida exata, sobretudo porque Nolan, aqui, não é ainda tão maneirista. O elenco, a começar por Christian Bale fazendo Batman (o oposto de Michael Keaton, embora este tivesse qualidade, vencendo suas limitações), é muito bom, e há diversas sequências memoráveis, mostrando que o personagem merecia um tratamento que não estava recebendo de Joel Schumacher (os filmes que dirigiu, Batman eternamente e Batman e Robin são os mais fracos das franquias). Sentimos angústia no personagem – a sequência de treinamento nas montanhas é especialmente memorável – e a produção é extremamente cuidada.

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O segundo filme, Batman – O cavaleiro das trevas, reitera que temos um cineasta com menos imaginação do que Burton e uma atenção maior para o realismo das cenas de ação. Parece-nos que é Christian Bale o responsável por tornar o novo Batman em um personagem tão interessante quanto aquele feito por Michael Keaton. O não emprego de humor no personagem principal, um herói amargurado, talvez deixe o filme mais pesado. Além disso, toda a ambientação de Gotham City, uma mistura entre Nova York e Tóquio, volta a tirar qualquer fantasia da cena de ação. O vilão aqui é o Coringa (vivido por Hutch Ledger, que recebeu um Oscar póstumo de ator coadjuvante), cada vez mais enlouquecido pelas releituras que deram os quadrinhos (sobretudo de Frank Miller) e decisivamente psicopata (o de Jack Nicholson era um brincalhão perigoso).
Ainda mais do que no primeiro filme, neste Nolan tem uma tendência a cenas de ação ininterruptas, o que deixa o espectador excessivamente sem fôlego. A montagem, especialmente, é uma qualidade: parece que, com a rapidez dos diálogos e do corte de cenas, estamos assistindo não a um filme, mas a um trailer, em que o som não se ausenta por um minuto sequer – mas mesmo alguns trailers cansam.
Alguns de seus filmes têm o defeito de durarem uns 30 minutos a mais (como Insônia e A origem), e este tem pelo menos três finais, mas quando consegue conectar tudo é um diretor de talento, mais preciso do que Burton para cenas de ação e visões ameaçadoras da realidade. De qualquer modo, não mais poético: o Batman, aqui, é um herói endurecido pela realidade, e o que ele faz não se diferencia em nada dos policiais que vemos em filmes e séries (sobretudo na cena em que tenta interrogar o Coringa), o que reduz um tanto a complexidade do personagem. Quando ele confia em Harvey Dent (Aaron Eckhart, apropriado para o papel depois de boas atuações, em Obrigado por fumar, por exemplo) para limpar Gotham, o faz com a mesma noção política que faz mover o prefeito e o Comissário Gordon. Mas, quando se depara com o que irá acontecer a Dent e sua amada, Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal, substituindo Katie Holmes), que é namorada de Dent, parece voltar atrás, como agiria um policial. Assim, Batman tem receio de Gotham ser dominada por traficantes, e de haver um adversário justamente como o Coringa, que coloca fogo em dinheiro, isto é, não tem nenhum senso de ganância material, apenas o empenho de destruir (por exemplo, na cena do hospital, grandiosa e por isso perturbadora, mesmo que saibamos se tratar de um filme) e suas curvas pelas ruas de Gotham a bordo do carro da polícia deixam o espectador impactado – como se fosse um pouco verdade, tal a neutralidade e frieza com que Nolan filma essas imagens, sem nenhuma fantasia, mas querendo cada vez mais ver Gotham City em apuros.
Se não há mais a dupla personalidade dada com mais ênfase por Burton, sobretudo em Batman – O retorno, Nolan consegue estabelecer os personagens como figuras mais próximas do espectador, como o próprio Alfred, mordomo de Bruce Wayne, ou o cientista Lucius Fox, feito por Morgan Freeman. Há vários filmes colados nesta peça sonora e visualmente interessante: a viagem de Batman para capturar um criminoso em Tóquio é uma; a de Dent é outra; a dos barcos ao final, outra. Até que eles formam um conjunto, que deixa a desejar, de qualquer modo, no acabamento: há excessos neste filme, e no final tenta-se uma certa lição de moral que não condiz com o que aparece antes.

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No novo filme, Batman – O cavaleiro das trevas ressurge, Nolan tinha A origem como imediatamente seu precursor, o que era preocupante. Não apenas porque se podia contaminar uma adaptação de um herói em quadrinhos com novas filosofias sobre o onirismo, excessivamente calculadas e com personagens pouco interessantes. Desde o início do terceiro Batman – cuja estreia teve, como se sabe, um acontecimento trágico –, parece que Nolan está interessado em deixar as tentativas de configurar uma realidade, como havia nos outros dois, para realmente uma narrativa configurada no fantástico, mesmo que, como nos demais, com cenários parecidos com a realidade, em certos momentos até terrivelmente parecidos. Em primeiro plano, o novo vilão, Bane (Tom Hardy), com sua voz ecoando como a de Darth Vader, também atrás de uma máscara, apesar de violento e chocar, não tem a mesma participação do Coringa e nem a mesma tentativa de realismo ou de psicopatia. É um vilão dentro dos moldes que já vimos, mas Nolan, claro, se preocupa em conceder uma violência extra a ele nos momentos em que aparece, desnecessária – e com um início que é um grande furo, apenas para justificar a situação. A cidade de Gotham City vive um momento de paz, oito anos depois da segunda parte. O Comissário Gordon (Oldman) está para ser demitido, como informa o vice-comissário Peter Foley (Matthew Modine),  não tem coragem de contar a verdade sobre Dent, e o milionário Bruce Wayne vive uma espécie de exílio em sua mansão, na companhia de Alfred (Michael Caine, excelente). Até o dia em que tem uma de suas joias roubadas por uma mulher que se disfaça de empregada, Selina Kyle (Anne Hathaway, tornando o filme mais leve), e depois de uma visita de um policial, John Blake (Joseph Gordon-Levitt, levemente deslocado), que morou num orfanato bancado pela família Wayne. Há muitas coisas implicadas desta vez. Wayne não quer mais enfrentar a realidade depois da morte da amada no filme anterior, até que descobre a vinda de Bane para Gotham City. Sua empresa está passando por problemas, e a ricaça Miranda Tate (Marion Cotillard) precisa assumir o cargo. Para isso, ela deve saber como funcionam algumas pesquisas das empresas Wayne que lidam com energia nuclear, a critério de Lucius Fox (novamente Morgan Freeman).

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Por não entender que o segundo da trilogia tenha sido o melhor, acredito que este Batman consiga traduzir, como o primeiro, uma relação do personagem com uma vertente mais humana, apesar de em certos momentos parecer um coadjuvante em sua própria história. Nolan, por meio da sua figura, e isso é acentuado neste, pretende, na verdade, lidar com a história de personagens como o Comissário Gordon, Blake e o mordomo Alfred (que tem pelo menos dois momentos antológicos, que se ligam, sobretudo, a Batman begins). Não consegue ser totalmente efetivo porque o roteiro, desde o primeiro filme, com suas referências a medo, destruição, máscaras, não revela o quanto haveria nos personagens para ser abordado e cai, às vezes, num plano de condescendência (como num momento em que Bruce Wayne precisa novamente enfrentar seus temores; sabemos, desde o primeiro, que ele não confia totalmente em si mesmo, mas nos perguntamos se haveria mais enfrentamento para os temores do que ele acaba tendo de fazer pela cidade de origem). Outro plano de abordagem parece o político: Bane quer liderar uma revolução às avessas em Gotham – ele começa atacando a Bolsa de Valores – e em certos momentos é questionada a diferença entre bandidos e policiais; até que ponto a mentira não é a maior destruição da sociedade; a riqueza é colocada em xeque, pois é preciso se revoltar. Parece falso considerar que Nolan coloca Batman como um mero playboy que deseja manter um status quo. Seria tornar o personagem fora ainda mais de seu contexto. Não se trata de uma discussão levantada também por Burton quando poderia – em comparar Bruce Wayne e Oswald Cobblepot, o personagem do Pinguim, abandonado pelos pais nos esgotos da cidade –, e portanto me parece um um tanto deslocada. Mas é uma leitura possível. Parece-me, de qualquer modo, que Nolan, como Cronenberg em Cosmópolis, está fazendo uma sátira a movimentos de libertação do povo – o que só pode ser feito pelo próprio povo, e não por tribunais livres colocados por uma espécie de guia. Mesmo no fato de, em determinado momento, ele dizer que a decisão do destino está nas mãos do povo, feito da forma mais pomposa possível num estádio de futebol. Neste ponto de vista, Batman apenas tenta oferecer outras opções, mas sem deixar de temer que, pela lenda deixada depois da morte de Harvey Dent, o povo o massacre em praça pública.

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Bane, em nenhum momento, soa um vilão real – como se refere acima, sua voz lembra a de Darth Vader (é difícil dizer o que o personagem realmente tem de interpretação de Tom Hardy). Ainda assim, os momentos em que ele precisa se confrontar com Batman são muito bem feitos (pela interpretação de Bale), como também as perseguições e os quarenta minutos finais (com efeitos realmente extraordinários, apesar de a trilha sonora abafar excessivamente os outros sons, fazendo com que seja uma espécie de trailer), com uma tensão que faz com que se destaquem diante do restante da série. Não tenho certeza, por outro lado, se a metragem longa (164 minutos), típica desde o sucesso de O senhor dos anéis, era necessária ou apenas para dar um sentido mais épico à finalização da trilogia. Se em certos momentos a montagem flui, há um ou outro momento, sobretudo naquele mais delicado pelo qual passa Wayne, que Nolan parece repetir demais a mesma situação (colocando, inclusive, um personagem para traduzir o que um outro fala para Wayne, sem este pedir). Em outras sequências, a montagem é ágil demais, quebrando uma cena que poderia ser interessante, mas acaba dando espaço a outra. A própria colocação de alguns personagens, como o de Miranda e o de Folley, soa, às vezes, um tanto dispersa e confusa, limitando-se a alguns diálogos sem força, o que é de se lamentar pela metragem.
Mas, de modo geral, isso não prejudica Batman – O cavaleiro das trevas ressurge. Há qualidades que o costuram como um filme de ação contida, mais do que o segundo filme, e sem o clima apocalíptico deste, apesar de várias cenas dizerem também o contrário – é impressionante a direção de arte do filme, muito superior às dos outros dois, além de mais diversificada, além da fotografia requintada de Wally Pfister (O homem que mudou o jogo), habitual colaborador de Nolan e muito talentoso, dando classes a imagens que poderiam ser rotineiras e mistura ruínas atrás do colégio de órfãos com arranha-céus gigantescos e iluminados, com a chegada do inverno e do calor que se anuncia.
A ligação da narrativa com o primeiro filme também dá uma sensação de fechamento de uma fase de Batman feita por Nolan (o que não havia na primeira quadrilogia, sobretudo pela troca de Burton para Schumacher). E não me parece que este se leve a sério demais – os outros também tinham um ar de cinema mais sóbrio e contido – ou que Batman é visto como algum personagem de proporções trágicas; pelo contrário, o que me parece é que, ao fim de tudo, Nolan só queria realmente mostrar uma humanidade que pode haver para um garoto órfão na persona de um herói.
Não parece ser uma obra-prima, mas tampouco deixa de ser, sobretudo como o primeiro, muito divertido, encerrando a trilogia de forma bastante satisfatória.

The Dark Knight Rises, EUA/Reino Unido, 2012 Diretor: Christopher Nolan Elenco: Christian Bale, Gary Oldman, Morgan Freeman, Michael Caine, Anne Hathaway, Joseph Gordon-Levitt, Liam Neeson, Tom Hardy, Cillian Murphy, Marion Cotillard Produção: Christopher Nolan, Charles Roven, Emma Thomas Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan Fotografia: Wally Pfister Trilha Sonora: Hans Zimmer Duração: 165 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: DC Entertainment / Legendary Pictures / Syncopy / Warner Bros.

Cotação 4 estrelas