Bom comportamento (2017)

Por André Dick

Desde sua estreia no Festival de Cannes, Bom comportamento gerava grande expectativa, principalmente pela atuação de Robert Pattinson, cotado ao prêmio de melhor ator antes de serem revelados os vencedores. Ele interpreta Constantine Nikas, que tenta tirar seu irmão Connie (Ben Safdie, um dos diretores do filme, ao lado de Joshua Safdie) da terapia para conduzi-lo a um assalto a banco no Queens. Sua namorada, Corrie (Jennifer Jason Leigh), é chamada a tentar ajudá-lo numa situação que se configura arriscada. Seu interesse em ajudar o irmão é genuíno, mesmo que desperte um conflito com a avó, lembrando, num outro escopo, a relação dos irmãos de Rain Man.
Depois de uma passagem angustiante por um hospital, ele precisa em determinado momento da ajuda de uma senhora, Annie (Gladys Mathon), que mora com sua neta Chrystal (Taliah Webster), quando a história se desenrola de maneira decisiva, e as imagens acabam lembrando, mesmo de forma involuntária, Enter the void, de Gaspar Noé, sobretudo na maneira como são filmados os televisores.

Há filmes que têm um conceito interessante, e este é um. Sua primeira meia hora é muito bem solucionada: a montagem trepidante não dá quase espaço ao espectador recuperar o fôlego, e tudo se interliga de modo eficiente. No entanto, aos poucos, parece que algo na narrativa vai se perdendo. Apesar de elogiada, a trilha sonora de Daniel Lopatin é muito intrusiva, querendo dar uma dimensão especial a cada cena, o que tira o realismo que elas possuem e não está à altura do compositor que lhe serve de inspiração, Cliff Martinez. Perde-se o número de vezes em que a tensão é diluída por sua presença de fundo, extraindo mesmo a energia dos atores, parecendo um filme policial lado B dos anos 90. Ao mesmo tempo, uma certa história paralela se superpõe à principal, e um dos personagens principais se torna coadjuvante. Os close-ups vão tentar emprestar dramaticidade às sequências e algumas vezes conseguem, no entanto eles tentam imprimir muitas vezes expressões faciais que não acrescentam à narrativa.

Os ambientes sujos ou com neons tentam captar um universo em ebulição; faltam, contudo, diálogos e situações mais interessantes. Não raras vezes, a escrita soa forçada, ao contrário do que acontece num filme de Tarantino, a exemplo de Cães de aluguel, uma referência aqui. A atuação de Pattinson é boa, mas não chega perto da competência demonstrada em Cosmópolis, The Rover, Mapas para as estrelas e Z – A cidade perdida, ou mesmo Lembranças, passado na mesma Nova York. Os diretores não conseguem desenvolver um personagem que poderia ser fascinante, assim como desperdiçam Jennifer Jason Leigh, e a própria cidade onde a ação se passa. Uma metrópole sempre é um ótimo cenário para colocar personagens em movimento, guiados por uma perturbação interna ou externa, pois o diálogo é estabelecido de imediato. Em Bom comportamento, isso acontece mais ao início, mas, à medida que a trama progride, vai se sentindo um certo vazio, e não é apenas dos lugares imensos e caóticos que enfoca, sempre com uma câmera acelerada, tentando acompanhar a ação desses personagens.

A impressão que se tem é que, mais do que um drama, é um filme de ação disfarçado de indie. O melhor personagem, mais humano, acaba sendo Connie, numa boa atuação de Ben Safdie, e a revelação Taliah Webster representa bem a solidão e opressão de uma adolescente nesse universo enfocado. Ao mesmo tempo, por ser filmada com uma cor rosa, ela representa um resquício de inocência em meio a um universo marginal. Imagina-se um outro filme dirigido por Scorsese, dos anos 70 e 80, ou mesmo verdadeiramente influenciado pelo ótimo Vivendo no limite, com mais urgência e acerto. Por exemplo, Taxi Driver, uma referência visível, criava um atrito entre o mundo de Bickle, o taxista, e a trilha sonora calma: em Bom comportamento, tudo deve sugerir um mundo de perdição, e isso acaba sendo levado ao exagero. Uma boa aproximação seria com Baby Driver, com tom mais comercial e fotografia mais leve, muito superior em sua despretensão de mostrar o mundo do crime. Enquanto o filme de Wright acelera, o dos irmãos Safdie é de um vazio e pretensão capaz de agradar a quem imagina estar diante de um cinema antimainstream, quando, sem saber muito bem, está mergulhado naquilo que visa aos mesmos prêmios do cinema mainstream.

Good time, EUA, 2017 Diretores: Ben Safdie e Josh Safdie Elenco: Robert Pattinson, Jennifer Jason Leigh, Ben Safdie, Barkhad Abdi, Buddy Duress Roteiro: Josh Safdie, Ronald Bronstein Fotografia: Sean Price Williams Trilha Sonora: Daniel Lopatin Produção: Sebastian Bear-McClard, Oscar Boyson, Terry Dougas, Paris Kasidokostas Latsis Duração: 99 min. Estúdio: Elara Pictures, Rhea Films Distribuidora: A24

Capitão Phillips (2013)

Por André Dick

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Há filmes que são lançados e desde o início possuem ao redor de si um ponto de discussão abrangente e se transformam quase em referenciais, de um momento para outro, em sua tentativa de abordar temas delicados e, sobretudo, consideráveis. São filmes que, de modo geral, possuem uma ampla publicidade, uma dose de boas críticas e, quando se vai a eles, não se sabe até que ponto eles se equivaleram à publicidade ou se realmente contêm algo extraordinário a ser dito. E, quando se vê que eles de fato não parecem ser aquilo que se esperava, talvez a decepção possa ser canalizada para o primeiro blockbuster que surgir, mantendo-os como de fato são (ou se imaginam que sejam): obras raras. Do momento em que foram lançados até o momento em que se aproxima o Oscar, eles podem mesmo ser indicados aos prêmios principais da Academia. Um exemplo máximo poderia ser um determinado filme que apresenta Roma como um lugar de encontro para a melancolia de escritores, outro pode ser aquele documentário em que criminosos são vistos como figuras cinematográficas e andam de carro amarelo pelas ruas da Indonésia (e se alguém considera que Joe Pesci é revoltante em Os bons companheiros pode se ver diante de um novo show, este real, de incômodo) e o mais recente filme do diretor de Bourne, Paul Greengrass, Capitão Phillips, que pode ser visto como um exemplo de filme moderno, com sua progressão de imagens que lembram um documentário em movimento.
Tom Hanks é o Capitão Phillips que deve levar uma carga imensa seu navio Maersk Alabama e precisa passar pelos mares da Somália. O roteiro de Billy Ray, baseado em fato real e no livro de autoria do Capitão, tem seu início em Omã, com o personagem se despedindo da esposa (Catherine Keener), e os rápidos preparativos de viagem. O único problema é que pode haver piratas no trajeto. Eles surgem num grupo liderado por Muse (Barkhad Abdi), com os integrantes Bilal (Barkhad Abdirahman), Elmi (Mahat M. Ali) e Najee (Faysal Ahmed). E o embate passa a ser quem, num ambiente em alto-mar, de fato é o capitão – o mote do filme – e a corrida do bote dos piratas contra o grande navio poderia produzir, como o faz em alguns momentos, um fascinante Davi contra Golias.

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Apesar de admirar Voo United 93, Paul Greengrass localiza sua autoria, aqui, em uma situação em alta voltagem. Em Capitão Phillips, ele mostra uma direção com uma variação de movimentos de câmera, tentando, de certo modo, se desvencilhar da dificuldade em lidar com os temas, sejam políticos ou sociais, que pretende colocar como pano de fundo. É difícil imaginar o que Greengrass quis nesta mistura de fatos reais com elementos do que existe de mais questionável nessa forma de cinema: a maneira patriótica e agressiva como ele filma ou a maneira de manipulação que ele lança sobre esses personagens, principalmente sobre os piratas da Somália. Segundo Greengrass, o objetivo desses piratas por meio do roubo seria viajar para os Estados Unidos. Os Estados Unidos permitirão isso? Greengrass tem todas as fontes para responder, mas parece uma difícil escolha.
Não chega a ser o forte de Greengrass a discussão que repercute do relato contado, mas em Voo United 93 tínhamos, ao menos, uma concepção visual de suspense, para a qual convergia o fato histórico. No entanto, Capitão Phillips também não parece funcionar exatamente como ação. Contado como uma espécie de documentário, salvo a presença de Hanks e de Barkhad Abdi (excelente), não há movimento além daquele empregado pela montagem – e um filme que pretende manter 100% de tensão acaba por vê-la diluída, fazendo de sua metade final talvez a peça mais estafante do cinema recente. A emoção costuma surgir de personagens, e não de uma ação e de uma montagem que tenta trazer a emoção: o que parece inexistir em Capitão Phillips é exatamente a ligação entre os personagens, a qual se tenta preencher com movimento. Como Greengrass pretende contar o filme em ritmo de documentário, ele faz com que não nenhuma outra ação interfira naquilo que mostra. Nisto, os personagens da Marinha não recebem um desenvolvimento e a mulher do capitão é vista apenas no início. O que temos é uma câmera em movimento atrás de um grupo de atores que oferece o máximo de si, mas não consegue desenvolver o roteiro de Ray.

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Parece faltar algo: ele, de fato, a não ser que se julgue que Greengrass estabeleceu um novo meio-termo exato entre ficção e documentário, não é um filme realmente acabado, ficando em suspenso. Um exemplo desta falsa ação é o início, passado numa praia da Somália, na qual os personagens para o assalto em alto-mar dão a impressão de serem escolhidos a esmo, em meio a movimentos de câmera com o desejo de passar uma sensação de urgência. O diretor demonstra certo receio de interromper sua narrativa para desenvolver uma porção que seria considerada em demasia cinematográfica ou com possíveis artifícios, e nesse caminho o suspense se esvai. Isto chega à atuação de Tom Hanks, indefinido exatamente entre esses caminhos do filme (e, em se tratando do seu esquecimento no Oscar, não podemos deixar de lado filmes que ele fez nos últimos anos e foram descartados pela Academia, como Cloud Atlas), apenas compensado pela sequência final, de um desespero próximo àquele da praia de Omaha em O resgate do soldado Ryan. Mas é um desfecho visando o Oscar, e nisto acaba também soando menos impactante.
Desde o início de Capitão Phillips, as falhas no roteiro se sobressaem e a maneira com que foi filmado tem o objetivo de tentar escondê-las – e consegue, ao menos nos 30 minutos iniciais, mesmo com seus problemas, por seu apuro exemplar no que diz respeito à divisão entre o que acontece com a tripulação de Phillips e a de Muse. No entanto, quando o capitão Phillips vai pesquisar sobre piratas na Somália em alto-mar parece que o roteiro antecipa tudo; mais delicado ainda quando dorme ao lado da embarcação dos piratas sem insistir na ajuda da Marinha. São lacunas evidentes, e soam mais prejudiciais quando se sabe que o filme foi baseado em fatos acontecidos em 2009. Seria interessante saber se os personagens agiriam realmente desse modo e se as condições do navio são essas que o filme relata, inclusive no contato com uma possível ajuda em situação de desespero. O roteiro de Ray pode se basear em fatos reais, o que não significa que esses fatos estejam menos dispersos. Ao final, a impressão é de que Greengrass ingressou no filme sem saber exatamente o que faria, planejando apenas sobrevoos de câmera sobre embarcações marítimas. Se fosse de outro diretor visto como ainda mais patriótico, talvez fosse considerado terrível, sobretudo mal dirigido. Mas, como é de Greengrass e tem Hanks, a Academia lhe deu uma indicação inexplicável ao Oscar de melhor filme.

Captain Phillips, EUA, 2013 Diretor: Paul Greengrass Elenco: Tom Hanks, Barkhad Abdi, Barkhad Abdirahman, Faysal Ahmed, Mahat M. Ali, Michael Chernus, Corey Johnson, Catherine Keener Roteiro: Billy Ray Fotografia: Barry Ackroyd Trilha Sonora: John Powell Produção: Dana Brunetti, Michael De Luca, Scott Rudin Duração: 134 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Michael De Luca Productions / Scott Rudin Productions

Cotação 2 estrelas