Colossal (2017)

Por André Dick

São poucos os filmes que conseguem misturar gêneros diferentes, e Colossal está entre eles. No início, ele se equilibra entre o drama e o humor da vida de Gloria (Anne Hathaway), uma escritora sem emprego que enfrenta o alcoolismo, em Nova York. Seu namorado Tim (Dan Stevens) briga com ela, e Gloria acaba voltando para sua cidade do interior. Lá, ela encontra um amigo de infância, Oscar (Jason Sudeikis), cuja herança do pai foi um bar. A rotina de Gloria, portanto, continua a mesma. Oscar a ajuda a se estabelecer na sua casa de infância, ao mesmo tempo que Seul, na Coreia do Sul, passa a ser invadida por um monstro que lembra Godzilla, destruindo edifícios e que pode ter uma relação com a personagem central. Neste ponto, o filme avança no terreno do fantástico e da ficção científica. Como vender uma obra sem estilo pré-determinado? Com elementos claros de Godzilla e King Kong, é difícil encontrar um público determinado, principalmente porque o que se mostra na superfície não parece ser o mais importante e os personagens não se mostram exatamente como heróis ou vilões, com frases de efeito para provocar reação na plateia.

As noites de Gloria, imersa na bebida, junto com os amigos de Oscar, Garth (Tim Blake Nelson) e Joel (Austin Stowell), são interrompidas por uma sucessão de traços de absurdo. Um deles certamente é que, quando ela acorda de ressaca, percebe que está perdendo notícias importantes na televisão. Nada melhor do que prover um bar com mais bebida do que um assunto envolvendo tragédia e vários clientes querendo presenciá-la ao vivo. Contar mais é certamente tirar a graça deste filme dirigido pelo espanhol Nacho Vigalondo. É interessante como Hathaway, semidesaparecida desde o Oscar de atriz coadjuvante por Os miseráveis, tendo se destacado apenas em Interestelar e Um senhor estagiário, desde então, entrega aqui uma das melhores atuações de sua carreira. Ela consegue realmente mesclar o estilo cômico e dramático que a narrativa requisita. Sudeikis, conhecido por seus papéis bem-humorados, também se sai muito bem, ambos bem dirigidos por Vigalondo. Pode haver um interesse amoroso entre esses personagens interligados pela bebida? Este é outro elemento de Colossal: um possível romance. Mais uma vez, o gênero do filme se torna indefinido, à medida que a história vai retomando traços da infância dessa personagem para explicar sua condição atual diante de uma realidade. E o grande mérito de Vigalondo é a criação, pouco a pouco, de uma atmosfera mesclando sonho e realidade.

Se a bilheteria foi decepcionante (2 milhões nos EUA), Colossal conta pontos em sua matéria mais profunda do que aparenta. Trata-se de uma história realmente original e fora do esquema típico de produções de Hollywood. Numa época em que King Kong e Godzilla irão se conciliar numa franquia, os monstros de Colossal se mostram muito mais subjetivos, para além de qualquer explicação plausível. Em termos técnicos, o filme surpreende com a criação de cenários interessantes e efeitos visuais competentes. Tudo nele faz o espectador ficar imerso na história que está sendo contada. O bar onde a história se passa em grande parte tem um design atrativo, em que os personagens se confundem com neons ou a cor dos quadros de fundo, além das mesas que evocam um antigo estabelecimento do Velho Oeste, o que certamente é proposital para o desenlace que pretende mostrar. A cidadezinha de origem de Gloria tem um ar de que algo domina ali e não é certamente o entusiasmo, por isso a personagem central se concentrar exatamente nela para tentar crescer novamente, a partir de uma determinação em superar o que lhe aconteceu. Nesse sentido, Colossal tem muito mais relação com outro filme de kaijus, o já referencial Círculo de fogo, de Guillermo del Toro, em que o passado de uma menina e a tentativa de irmão vingar a morte de outro se convertia numa peça além da velha matéria de enfrentamento entre humanos (e sua tecnologia, no caso) e monstros.

O contraponto entre a cidade do interior, com suas ruas vazias e playgrounds sem crianças brincando, e a metrópole que é Seul parece significar também a divisão de Gloria entre Nova York e seu passado. É ela que faz a ligação simbólica entre esses universos, enquanto Oscar parece ser aquele que tenta convencê-la a permanecer ocupando sua casa com móveis antigos. É como se ela precisasse sempre não apenas regressar ao passado, como se manter nele. Esta é uma história sobre o indivíduo norte-americano paralisado por guerras e destruições e que acaba se entregando ao vício e ao passado, mas que dele procurar escapar de algum modo, nem que seja por meio da fantasia. Oscar representa, ao que tudo indica, a própria consciência de Gloria desejando permanecer nesse presente em que não se livra de algumas mágoas. Vigalondo, para isso, torna a casa onde fica Gloria e o bar de Oscar quase personagens da narrativa, que se estabelece de maneira interessante até o final imprevisível. Embora ele pareça por vezes forçado e abrupto, deve-se dizer que a obra ganha um significado ainda mais interessante depois do caminho adotado por Vigalondo. Isso faz de Colossal não apenas diferenciado, como também deslocado do que surge nas telas hoje em dia: só isso o torna mais interessante do que poderia.

Colossal, EUA, 2017 Diretor: Nacho Vigalondo Elenco: Anne Hathaway, Jason Sudeikis, Dan Stevens, Tim Blake Nelson, Austin Stowell, Agam Darshi, Rukiya Bernard, Hannah Cheramy Roteiro: Nacho Vigalondo Fotografia: Eric Kress Trilha Sonora: Bear McCreary Produção: Dominic Rustam, Nahikari Ipiña, Russell Levine, Zev Foreman Duração: 110 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Brightlight Pictures / Sayaka Producciones Audiovisuales

 

Ponte dos espiões (2015)

Por André Dick

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O diretor Steven Spielberg é um dos grandes nomes indiscutíveis do cinema. Ter realizado Encurralado, Tubarão e Contatos imediatos do terceiro grau nos anos 70, e Os caçadores da arca perdida, E.T., A cor púrpura e Império do sol nos anos 80 já é motivo suficiente para ter seu nome entre os maiores da história. No entanto, a partir dos anos 90, mais especificamente depois de Jurassic Park, Spielberg foi aos poucos se afastando do gênero da fantasia e mais fantástico – no qual se destacou também como produtor –, incorporando filmes com elementos históricos, a exemplo de A lista de Schindler, Amistad e O resgate do soldado Ryan. Nos anos 2000, apesar de fazer algumas ficções referenciais, como Inteligência artificialMinority Report e Guerra dos mundos, o tom era sempre soturno, alternando novamente com filmes sobre questões históricas, entre os quais Munique, com alguma folga aventuresca em Indiana Jones e o reino da caveira de cristal. Um respiro original foi sua parceria com DiCaprio em Prenda-me se for capaz e o dramático e cômico O terminal.
Neste início de década, ele apresentou mais dois filmes, dois mais dramáticos, Cavalo de guerra e Lincoln, e uma bela animação, As aventuras de Tintim. Era momento, portanto, de voltar ao drama histórico, o que ele faz com Ponte dos espiões. Esta tendência de Spielberg de alternar fantasia – as últimas vezes em escala soturna, exceto para a aventura de Indiana e a animação com Tintim – com filmes com pano de fundo histórico não o tornou exatamente um cineasta previsível, no entanto parece bem mais acomodado.

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Ele parece reunir a mesma equipe (fotógrafo, montador e aqui apenas se ausentou John Williams da trilha sonora) e, inclusive, um ator recorrente em sua filmografia (Tom Hanks, já presente em O resgate do soldado Ryan, Prenda-me se for capaz e O terminal) para entregar um drama bem feito, no entanto perfeitamente previsível dentro de seu esquema como grande diretor de Hollywood. Infelizmente, Ponte dos espiões se ressente não de um grande elenco e de uma grande produção, e sim de ideias que possam comover mais o espectador.
É a história de Rudolf Abel,  preso em 1957 no Brooklyn, enquanto faz o que mais gosta: pintar.  No entanto, ele é visto como um possível espião da KGB, e os agentes recolhem tudo o que pode comprometê-lo. Para sua defesa, é chamado James B. Donovan (Tom  Hanks), especialista em contratos de seguros, com o intuito de os Estados Unidos mostrarem que trazem um julgamento justo. Ninguém espera o que Donovan faz: realmente defender Rudolf Abel, por ter uma simpatia especial por ele. Este é o lado spielberguiano de Ponte dos espiões: nunca fica muito claro por que Donovan fica tão devotado a Abel, além daquilo que vemos: o público toma uma aversão por ele, mas Donovan continua a querer provar que seu cliente é inocente, sem querer saber se é um espião ou não; para ele, isso não importa.

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Ele vai ao juiz do caso, Mortimer W. Byers (Dakin Matthews), para pedir uma suspensão de pena, imaginando uma situação mais adiante. Em meio a isso, o soldado Francis Gary Powers (Austin Stowell) sofre um acidente de avião e é capturado pelos russos, sendo submetido a interrogatórios diários. Do mesmo modo, Spielberg mostra Frederic Pryor (Will Rogers), estudante de economia americana, que, ao visitar sua namorada em Berlim Oriental, passa pela experiência da construção do muro, e acaba sendo preso. Spielberg vai mostrar daqui em diante o que essas experiências têm a ver com a Rudolf Abel, e o que Donovan terá de fazer para que as pessoas no trem que pega diariamente parem de observá-lo com condenação.
Do início ao fim, Ponte dos espiões é um típico filme do Spielberg mais maniqueísta: Donovan é o exemplo de idealista, capaz de fazer justiça por todos os meios. Para ele, tudo pode ser resolvido no diálogo, tanto que ele seja ouvido, e trata-se, por causa de Hanks, num personagem fascinante, embora sem muitas nuances. Em se tratando de um personagem real, Donovan, no entanto, fica no meio-termo quando passa a ser peça de um jogo maior, a Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética. Não há, aqui, os detalhes emocionais que vemos em A lista de Schindler, Soldado Ryan, mesmo no mais recente Lincoln (no qual Day-Lewis dava um componente mais altivo ao presidente americano) e outras peças dramáticas de Spielberg: tudo é levado de forma mais ou menos dispersa, sem os graus de tensão necessários, a não ser em seus primeiros 40 minutos, que lembraram muito o ritmo do excepcional JFK, de Oliver Stone, inclusive pelos cenários soturnos e pela relação de Donovan com a família.

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Há uma influência clara, na maneira de filmar, de Petzold, principalmente de Barbara e Phoenix, assim como de O espião que sabia demais, mas falta a Spielberg um ponto maior no que diz respeito à construção subjetiva dos personagens. Há sempre um pouco de de previsibilidade em cada um deles, e principalmente Abel não tem seus caracteres elaborados, o que é uma pena, em razão de Mark Rylance, cuja atuação fica tremendamente superestimada pelo tempo de duração e o roteiro. Thomas Waters, o chefe de Donovan, feito por um subaproveitado Alan Alda, é também o limite do maniqueísmo, ao mesmo tempo que Jesse Plemons é desperdiçado como Murphy, amigo de Powers. No entanto, existe em torno dos personagens uma atmosfera maravilhosa de época, uma grande reconstituição em detalhes, principalmente nos figurinos e no comportamento gestual dos atores e personagens. Houve realmente um estudo.minucioso da época em que o filme se passa, sempre uma característica dos filmes de Spielberg: o espectador fica imerso nas imagens. Por outro lado, essas imagens parecem apresentar os personagens a certa distância, em que nunca ganham a verdadeira importância. O roteiro, assinado também pelos irmãos Joel e Ethan Coen (que parecem emprestar sua assinatura a filmes históricos feitos por outros diretores, tomando como exemplo Invencível), não chega a trabalhar exatamente o terceiro ato, tornando tudo algo muito próximo de uma fantasia e não exatamente de um filme com certa legitimidade histórica. Muito tem se dito sobre o patriotismo de Ponte dos espiões: isto não é exclusividade do filme, e sim do cinema-norte-americano e não seria uma falha se tivesse um ponto de vista mais interessante. Spielberg tem uma verdadeira paixão pelo cinema e por filmar. Quando ele acredita estar mostrando algo espetacular, é seu problema: ele consegue atingir este limite quando não tem essa pretensão.

Bridge of spies, EUA, 2015 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Tom Hanks, Mark Rylance, Sebastian Koch, Amy Ryan, Scott Shepherd, Alan Alda, Austin Stowell, Mikhail Gorevoy, Jesse Plemons, Dakin Matthews  Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen, Matt Charman Produção: Kristie Macosko Krieger, Marc Platt, Steven Spielberg Fotografia: Janusz Kaminski Trilha Sonora: Thomas Newman Duração: 141 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: DreamWorks SKG / Fox 2000 Pictures / Marc Platt Productions / Participant Media

Cotação 2 estrelas e meia 

Whiplash – Em busca da perfeição (2014)

Por André Dick

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As proximidades da temporada de premiações em Hollywood costumam anunciar uma série de filmes com predisposição a conquistar prêmios e a crítica. No ano passado, tivemos talvez a melhor safra desde que o Oscar começou a selecionar nove ou dez títulos na categoria principal. Mas, entre eles, há sempre obras superestimadas, com uma qualidade inferior à recepção que atingem. Em 2013, este era o caso de O lado bom da vida e em 2014 de Trapaça, ambos curiosamente de David O. Russell e com qualidade, mas não a ponto de serem indicados a todos os prêmios principais.
Este ano o filme independente com força para estar em inúmeras listas e premiações é Whiplash – Em busca da perfeição. Seu tema não é corrente no universo cinematográfico – o mundo dos alunos de jazz – e não é comum a parceria existente entre Miles Teller e J.K. Simmons. Teller faz Andrew Neiman, que entra no Conservatório Schaffer. Ele deseja ser um baterista reconhecido e nos horários de folga costuma ir ao cinema com o pai Jim (Paul Reiser), enquanto se interessa por uma universitária que trabalha nele, Nicole (Melissa Benoist). É também observado pelo exigente professor Terence Fletcher (Simmons), que o convoca a participar de sua banda, para tocar, entre outras composições, aquela que dá nome ao filme e cuja altura da voz ultrapassa a dos solos de bateria. Enquanto tenta participar do melhor modo da banda, Andrew é constantemente pressionado a melhorar – e cadeiras podem voar na sua direção se não atender ao que o professor exige.
O diretor Damien Chazelle soube tocar as plateias que assistiram a Whiplash, e isso lhe rendeu inicialmente prêmios no Festival de Sundance. Depois, ele soube selecionar dois grandes nomes para os papéis principais: Teller se afirmou, depois do interessantíssimo Reencontrando a felicidade, no ótimo e quase esquecido O maravilhoso agora, no qual tem seu melhor momento como ator, e Simmons é um dos nomes preferidos de Jason Reitman, curiosamente o produtor executivo deste sucesso de público e crítica nos Estados Unidos quando dirigiu esta temporada o superior Homens, mulheres e filhos (em que aparece Simmons). Whiplash tem um roteiro com elementos interessantes, como o duelo interno entre as personalidades de Andrew e Fletcher.

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Mas Chazelle não esconde a sua inexperiência e, se há excelentes enquadramentos no momento em que os músicos se reúnem, e a montagem é satisfatória o bastante para que nunca percamos de vista os personagens centrais (auxiliada pelo fato de que Teller realmente tem experiência como baterista), falta a ele o que havia em Alan Parker quando dirigiu o excepcional Fama, do qual Whiplash extrai muito, desde o sonho de ser artista e reconhecido até seus momentos em que a plateia entra em simbiose com o personagem principal e a torcida é voltada para seu sucesso, além da primeira meia hora, com a disposição dos integrantes em estúdios de música. Parece não haver uma tentativa maior de estabelecer ligações entre os personagens e analisar a fundo o que exige a fama e como músicos a exemplo de Andrew querem se transformar em ídolos para, então, combater os próprios ídolos num patamar exigente de competição entre aqueles que não são considerados menos do que geniais. Para Whiplash, a arte é uma maneira apenas de sobrepujar o outro e os gênios não compõem, são apenas intérpretes com força e devem ser acordados de preferência com um balde de gelo ao lado. Não pode haver amizade entre quem investe na competição e para se atingir o sucesso é preciso não dar espaço (nisso, quem derrama lágrimas deve se lembrar de que não sofreu nada). Ao mesmo tempo, as comparações que o filme faz do personagem com o saxofonista Charlie Parker, cuja cinebiografia, Bird, foi feita por Clint Eastwood nos anos 8o, não são corretas, pois este foi um criador musical incomum, e não alguém dedicado puramente à virtuose.
Em meio à trama central, Whiplash necessitaria de um roteiro mais interessante, com personagens coadjuvantes mais expressivos. A utilização de Nicole como interesse amoroso e do pai são caminhos aceitáveis, mas em Whiplash eles não são sequer elaborados. Há uma fala de Nicole numa lanchonete em que ela menciona o que o roteiro deveria desenvolver, mas não consegue, por isso coloca em sua personagem uma espécie de síntese. São detalhes que apenas circulam ao redor da trama principal, mas eles parecem subitamente expostos, assim como uma reunião em que Andrew quer deixar claro a todos que está sendo colocado em segundo plano.

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Impressiona, neste caso, não que Whiplash seja visto como um representante de qualidade do cinema independente, mas que outros filmes potencialmente superiores nesse campo sejam deixados em segundo plano. Também em razão das atuações vigorosas de Teller e Simmons, há uma constante vontade em Whiplash de estabelecer agrados por meio dos personagens centrais, evitando que Andrew e Fletcher sejam mais do que iguais ou opostos; havia realmente complexidade nesta relação, que o diretor reduz a solos de bateria não apenas pelo tema, mas porque não tem real interesse em ver tudo além de um embate entre mestre e aluno. Mais interessante é ver como Andrew vai mostrando sua aversão a críticas alheias e comportamentos capazes de ignorar seu talento; se no início Teller faz um jovem recém-saído da adolescência com receio de demonstrar suas habilidades como músico, Whiplash mostra, aos poucos, como é possível buscar crescimento em sua própria aversão ao receio de demonstrar sua explosão pessoal. Este é um filme sobre um personagem que surge de uma determinada maneira e progressivamente piora, em busca da homenagem à virtuose – e parece ser aqui que a história é basicamente sobre um indivíduo autocentrado. A música, em Whiplash, não representa uma libertação, mas sim aquilo que irá prender seu personagem; é uma sensação estranha, mas parece ser o que mais agrada ao espectador.
No entanto, os caminhos adotados pela narrativa não são o bastante para transformar o filme numa referência como os músicos do jazz são para Andrew, ou seja, os conflitos entre aprendiz e mestre nunca trazem algo de realmente original – e Fletcher dirá impropérios contra o pai de seu pupilo por este não ser o que sonhou, numa espécie de verniz psicológico desnecessário. Não chega a haver intensidade nos conflitos que não tenha sido vista antes com mais propriedade em Cisne negro (entre os personagens de Vincent Cassel e Natalie Portman) ou Sociedade dos poetas mortos (embora Simmons não tente ser agradável como o professor feito por Robin Williams).
Ainda assim, há algo nele profundamente sincero, em meio aos seus problemas narrativos: assim como o próprio diretor, embora pareça, os personagens de Whiplash não estão interessados no que a plateia vai considerar de seu talento ou não; eles simplesmente se entregam ao momento para obterem a rivalidade a ser buscada em qualquer situação. É exatamente o que a plateia tem em mãos: Whiplash parece ter um monte de talento guardado, mas ele pouco está interessado na sua recepção. É, na verdade, uma história sobre um mentor e um aprendiz que se unem para ignorar o público. Para eles, esta é a perfeição a ser buscada.

Whiplash, EUA, 2014 Diretor: Damien Chazelle Elenco: Miles Teller, J.K. Simmons, Melissa Benoist, Paul Reiser, Austin Stowell, Nate Lang Roteiro: Damien Chazelle Fotografia: Sharone Meir Trilha Sonora: Justin Hurwitz Produção: David Lancaster, Helen Estabrook, Jason Blum, Michel Litvak Duração: 106 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Blumhouse Productions / Bold Films / Right of Way Films

Cotação 2 estrelas e meia