John Wick 3 – Parabellum (2019)

Por André Dick

Em 2014, foi lançado o personagem de John Wick em De volta ao jogo, com Keanu Reeves, que se caracterizava pelo visual potencialmente distinto e com violência extrema. Sua vingança se dava em nome  da morte de seu cão. John Wick – Um novo dia para matar começa apenas quatro dias depois dos acontecimentos do original, com o personagem indo atrás de seu Mustang 1969 totalmente escuro, que se encontra com Abram Tarasov (Peter Stormare), irmão dos principais antagonistas da primeira história. Achando que voltou à tranquilidade, com um novo cão, John recebe a visita do italiano Santino D’Antonio (Riccardo Scamarcio), que lhe apresenta um medalhão que obrigaria John a lhe prestar serviços. No entanto, é o que ele menos quer: seu desejo é ficar recolhido em sua casa, recordando da esposa. O roteiro apresentava os personagens com agilidade e, embora não soubéssemos muito sobre eles, as principais características eram desenhadas. Agora, ele está de volta em John Wick 3 – Parabellum.

O diretor Chad Stahelski, dublê de Reeves em Matrix e coordenador na área das sequências, novamente mostra cenas que parecem saídas de um filme de arthouse de ação. Se eu imaginasse um Nicolas Winding Refn fazendo uma obra urbana com uma sequência impressionante de mortes seria esta, em que Stahelski busca claramente inspiração, principalmente no uso de cenários com neons. E, mais do que trazer uma influência de Johnnie To – uma referência para filmes de máfia oriental e que se liga a um certo exagero cênico –, John Wick 3 já começa apresentando uma sequência impressionante de lutas e com fundo metalinguístico: vai de Wick lutando artes marciais na Biblioteca Pública de Nova York até ele andando de cavalo pelas ruas da cidade, lembrando um faroeste, e em seguida participando de uma perseguição de motos. Uma juíza (Asia Kate Dillon) da High Table, órgão global do crime, surge para tentar punir quem o liberou de pagar por um determinado crime, colocando sua cabeça a prêmio por 14 milhões de dólares, ameaçando Winston (Ian McShane), que é o dono do hotel Continental em Nova York, sempre assessorado por Charon (Lance Reddick), onde a trilogia, até agora, tem cenas substanciais.

Como o segundo, este John Wick 3 acentua a tragédia do personagem, aprisionado num universo violento. O anterior tinha cenas inusitadas passadas em Roma,este não fica para trás. No momento em que se encontra com a superiora de Wick da Ruska Roma (Anjelica Huston, com figurino que remete a Cidade dos sonhos, de David Lynch), aquela que dá a porção Cisne negro à história (e talvez a analogia mais óbvia da trama, que não passa, no fundo, de um balé de cenas coreografadas de maneira espetacular e ultraviolenta), ele se mostra como no fim do primeiro filme, pertencente a um novo Matrix, principalmente quando mostra Rei Bowery, numa boa atuação do mesmo Laurence Fishburne que fazia Morpheus na série das hoje irmãs Wachowski.
Quando ele se desloca para o Marrocos, mais exatamente Casablanca, onde encontra Sofia (Halle Berry, um pouco deslocada) e depois no deserto, em cenas que dialogam de maneira imprevisível com a série Indiana Jones e O céu que nos protege, de Bertolucci, o personagem adota uma linha entre Neo e 007. Reeves se apresenta bem no papel e, mesmo não havendo nenhuma sequência que rivalize com a da estação de trem do anterior, e em geral seja estilo total sobre substância (o que o segundo escondia com um corte abrupto em relação ao original de 2014, de uma violência mais urbana e menos estilizada), John Wick 3 se sente um filme de ação especial pela tentativa de continuar esboçando uma mitologia. Ainda surge um sushiman especializado em artes marciais, Zero (Mark Dacascos), com dois assessores pouco simpáticos (Cecep Arif Rahman e Yayan Ruhian).

Também Stahelski volta a investir num visual extraordinário, com um jogo de luzes primoroso, concedido por Dan Laustsen (que vem fazendo uma parceria exitosa com Guillermo del Toro, em trabalhos como A forma da água), aqui destacando a chuva sobre a cidade de Nova York, fazendo lembrar, com seus neons e luminosos, o futurismo de Blade Runner. Reeves, ator que se sente muito bem nesses papéis, faz de maneira exata seu John Wick. Seu semblante entre a passividade e a fúria joga com o duplo que seu personagem desempenha: em nenhum momento o espectador se pergunta por que ele age dessa maneira; ele apenas se pergunta por que querem tanto que ele aja assim. Acentua o drama de modo adequado. E, em meio a tudo, há sempre cães rondando Wick, como se o simbolizassem, desde o primeiro filme. Há, nesta terceira parte, contudo, os diálogos breves não fazem mais tanto sentido e algumas cenas de ação excessivas, mesmo que conduzidas com uma técnica impressionante, o que o torna relativamente menos interessante e surreal do que o segundo. Talvez porque Stahelski deveria dividir a direção novamente com David Leitch, do primeiro, que fez depois os criativos Deadpool 2 e Atômica. Ainda assim, é uma conquista do gênero, estabelecendo uma franquia recente capaz de rivalizar com Missão: impossível.

John Wick: Chapter 3 – Parabellum, EUA, 2019 Diretor: Chad Stahelski Elenco: Keanu Reeves, Halle Berry, Laurence Fishburne, Mark Dacascos, Asia Kate Dillon, Lance Reddick, Anjelica Huston, Ian McShane Roteiro: Derek Kolstad, Shay Hatten, Chris Collins, Marc Abrams Fotografia: Dan Laustsen Trilha Sonora: Tyler Bates, Joel J. Richard Produção: Basil Iwanyk, Erica Lee Duração: 131 min. Estúdio: Thunder Road Pictures, 87Eleven Productions Distribuidora: Summit Entertainment