As aventuras de Pi (2012)

Por André Dick

As aventuras de Pi 5

Baseado num romance de Yann Martel (que, depois de ganhar o prêmio Prêmio Booker, confessou que havia se inspirado no livro Max e os felinos, do escritor brasileiro Moacyr Scliar), esta aventura dramática antecede a temporada dos bons filmes potencialmente favoritos a concorrer ao Oscar, depois do decepcionante Argo. O diretor chinês Ang Lee assumiu o filme depois de alguns cineastas serem cotados para o projeto, como M.Night Shyamalan e Jean-Pierre Jeunet, e imprimiu seu habitual talento para cenas de aventura dramática, o que já havia mostrado em O tigre e o dragão e em alguns momentos de Hulk (sua contestada adaptação, prejudicada pela atuação de Eric Bana e pelos efeitos especiais exagerados).
Ele inicia o filme com Piscine Molitor Patel (Irrfan Khan), batizado com este nome por causa de uma piscina de Paris que encantou seu pai (Adil Hussain), contando o motivo de seu nome ser assim e sobre sua vida até a adolescência em Pondicherry, na Índia, a um escritor que o procura em busca de uma história interessante, o próprio Martel (Rafe Spall, em papel que seria de Tobey Maguire). Parte de uma família que não aprecia a religião, Pi, como começa a ser chamado depois na escola – em razão de seu conhecimento matemático –, pelo contrário, quer aprender sobre todas as religiões: desde o hinduísmo, passando pelo islamismo até o cristianismo. Sua família também cuida de um zoológico, em que o maior atrativo é Richard Parker, um tigre de Bengala.
É Suraj Sharma que passa a interpretar Pi na adolescência, quando a família precisa ir para o Canadá, a fim de vender seu zoológico e recuperar dinheiro. Durante a viagem, no entanto, acontece um naufrágio, e esta é a sequência mais impressionante do filme, no duelo entre as ondas gigantes e o enorme cargueiro que transporta a sua família, e Pi precisa se refugiar num bote com uma hiena, uma zebra, um orangotango e o tigre de Bengala Richard Parker. O tigre, no entanto, quer devorá-lo, começando um duelo pela ocupação de espaço, fazendo com que Pi precise ficar em uma balsa ao lado do bote. Todo esse desenvolvimento é feito por Ang Lee da maneira mais detalhada, com Pi descobrindo, aos poucos, como se manter em alto-mar e como lidar com o tigre, com o qual passou um momento delicado na infância. Ainda mais: Ang Lee costura algumas das cenas mais belas do ano, em que o azul do céu se funde ao da água, e em que surgem os animais mais exóticos e espetaculares. Tudo, no entanto, parece mesclado com a fantasia, pois Pi deseja se ausentar também daquela condição terrível.

As aventuras de Pi

Se a primeira parte, com seu fundo religioso, parece um tanto esquemático demais, para dar entrada à segunda parte, em que as palavras se traduzem em imagens, As aventuras de Pi nunca desce a um fundo de fábula com uma lição de moral para encantar a plateia, como poderia. É verdade que Ang Lee parece um pouco desconfortável com o cenário da Índia – não o fotografa da maneira mais interessante, como o faz Madden em O exótico Hotel Marigold –, e com uma fotografia às vezes que esconde os grandes planos, contudo, quando chega em alto-mar, sua visão detalhista nos traz o filme especial que parecia escondido.
Com a fotografia de Claudio Miranda (o mesmo de O curioso caso de Benjamin Button) e os movimentos de câmera para mostrar o personagem à deriva, em sua luta pelo território com o tigre, As aventuras de Pi ingressa num terreno pouco vislumbrado no cinema: a ligação entre o sentido de uma aventura inesperada com uma busca por um Deus que seja comum para o universo que o personagem cultiva. Ang Lee consegue contrabalançar a relação entre a água e a carne. A família de Pi é vegetariana e ao chegarem ao navio logo se desentendem com o cozinheiro (Gérard Depardieu) e há um momento em que Pi é levado a beber água benta numa igreja – quando tem o primeiro contato com a figura de Jesus Cristo. Depois, ele diz à família que deseja ser batizado. A carne e a água simbolizam a humanidade e também a sobrevivência. E quando Pi precisa enfrentar os temores no mar que se defronta com a falta de comida e a necessidade de caçar peixes. Os animais, principalmente o tigre de Bengala, também precisa se alimentar – como reflete Pi, ele precisa, como era tratado no zoológico, de toneladas de carne. Depois da tormenta, Pi precisa colher água com os baldes, enquanto toma a água que cai do céu ao mesmo tempo. O tigre de Bengala precisa, em determinado momento, caçar, e o alimento pode ser, também, um convite a ficar ao relento. Este momento remete a quando Pi tentou, na infância, lhe dar um pedaço de carne com a mão, e o pai quer que os filhos vejam, para aprender, uma cabra sendo devorada pelo animal.
Tudo é feito de maneira muito discreta por Lee, um cineasta especializado em simbologias, lembrando tambem o belo O segredo de Brokeback Mountain. Ele é um cineasta que consegue lidar com personagens em situações isoladas e representar este isolamento da melhor forma. Mais do que a vida de Pi que somos atraídos a olhar, Lee tece uma ligação dele com os personagens humanos que nunca se confirma, nem mesmo em seu olhar adulto.

As aventuras de Pi 2

É assim que Lee condiciona a que olhemos sua relação com os animais da melhor forma possível, pois cada detalhe pelo qual passa ajuda a explicar melhor essa jornada que se faz no exterior, mas na verdade é interna. Como em O tigre e o dragão, Lee dispõe essas informações mais subjetivas de modo calibrado, sem cair num tom sentencioso. Se lá ele contava com um elenco excelente, aqui seu apoio é Suraj Sharma, o ator que interpreta Pi, estreante, mas de grande talento. Ele consegue passar as emoções, que poderiam ser inconstantes, na dose exata, empregando o mesmo ritmo do diretor, ou seja, sem fazer a narrativa se perder mesmo nos momentos de menos intensidade. Nos momentos derradeiros, sobretudo, ele consegue criar um paralelo de tudo o que aconteceu com seu destino – já na atuação de Khan, mais elogiado do que Sharma, embora não com o mesmo impacto.
Não existe aqui um experimentalismo vazio, ou seja, Lee basicamente exerce o experimentalismo de imagens com efeitos especiais notáveis (talvez só percam este ano para os de O hobbit), mas ainda assim o final consegue surpreender e deixar o espectador em suspenso, para que possa refletir o que passou. É possível se enganar, achando que o filme tenta convencer o espectador a ter uma determinada religiosidade. Parece que Lee transparece mais o ímpeto do ser humano em acreditar em algo, na própria fantasia que carrega e da qual pode se alimentar a fim de que não perca sua força. É disso que trata a terceira parte do filme. Ou seja, não é um jogo de Lee com uma espécie de densidade sem fundo nem solidez. Quando ele mostra as estrelas à noite, acima de Pi, rodando a câmera, ou mostra os peixes em círculos embaixo do bote, ele revela uma espécie de círculo completo, que se completa, com o olhar ao horizonte. Neste instante, as aventuras se transformam realmente na vida de Pi, como está no título original. E torna-se possível sentir cada momento do personagem, em toda sua amplitude.

The life of Pi, EUA, 2012 Diretor: Ang Lee Elenco: Irrfan Khan, Gérard Depardieu, Suraj Sharma, Adil Hussain, Ayush Tandon Produção: Ang Lee, Gil Netter, David Womark Roteiro: David Magee, baseado na novela de Yann Martel Fotografia: Claudio Miranda Trilha Sonora: Mychael Danna Duração: 129 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Fox 2000 Pictures / Rhythm and Hues

Cotação 4 estrelas