Me chame pelo seu nome (2017)

Por André Dick

O tradicional diretor James Ivory, conhecido por seus filmes históricos dos anos 80 e 90, alguns de notável qualidade, adaptou o romance de André Aciman para este filme dirigido pelo italiano Luca Guadagnino, influenciado aqui especificamente por Eric Rohmer, aquele de Pauline na praia. Ele mostra a trajetória de Elio (Timothée Chalamet), de 17 anos, que vive numa área rural da Itália com seus pais, Sr. Perlman (Michael Stuhlbarg) e Annella (Amira Casar). O pai é um estudioso de arquelogia e recebe um estudante de pós-graduação, Oliver (Armie Hammer), para ficar com a família no verão de 1983 e ajudá-lo a catalogar novas peças. A casa é um verdadeiro oásis: lembrando as paisagens de Um bom ano, de Ridley Scott, este interior da Itália é um convite a um passeio, e a bela fotografia de Sayombhu Mukdeeprom consegue mostrá-las de modo atrativo.
Oliver parece, a princípio, um típico personagem norte-americano, tentando contrastar sua cultura com os belos lugares enfocados pelo diretor. Elio, por algum motivo não definido explicitamente, se torna seu companheiro de visita à região, sobretudo de bicicleta. Em pouco tempo, Oliver já encontra um bar e companhia para apostas, mas Guadagnino quer emprestar a ele uma aura cultural que vai se manifestando em doses ao longo da narrativa. Já Elio, com conhecimento extremo em música, tem interesse por Marzia (Esther Garrel), contudo começa a se sentir atraído pelo pesquisador, em meio a suas experimentações com o violão e o piano de casa.

Na história do cinema recente, em que já tivemos os ótimos O segredo de Brokeback Mountain, The normal heart e Moonlight, para citar apenas alguns conhecidos sobre a relação entre dois homens, Me chame pelo seu nome pretende incluir grandes temas por meio de seu roteiro, no entanto se sente estranhamente vazio. O roteiro de Ivory não consegue esclarecer – mesmo que seja o objetivo, fica num meio-termo – o personagem de Oliver, e Hammer entrega uma atuação aqui capaz de contentar quem questiona seu talento interpretativo (e, particularmente, ele tem atuações destacáveis, em A rede social e O agente da U.N.C.L.E., entre outros). Não há uma ligação dele com o Sr. Perlman, e ele parece mais um turista em férias do que um estudioso dedicado. Em determinado momento, o Sr. Perlman fala dele como se fosse algum gênio não descoberto, mas nada antes o mostra como tal. Nem Hammer nem o roteiro emprestam empatia ao personagem, lembrando apenas alguém certo de um brilhantismo pessoal. Elio é uma espécie de versão mais jovem dele, situando-se entre o tédio de um jovem que não precisa se esforçar para ter tudo e a necessidade de quem deseja corresponder à atração também pela mulher de maneira autocentrada. Timothée Chalamet atua de maneira mais segura, mas longe de qualquer traço memorável, e falta a seu personagem um desenvolvimento.

Além disso, o tom de sedução de Oliver em reação a Elio é enfraquecido pelo roteiro expositivo, sem nuances ou complexidade real. Eles não conversam; eles expõem conceitos, por meio de imagens com o intuito de captar elementos da Roma Antiga, de estátuas históricas. O pesquisador representa essa faceta. Contudo, percebe-se, aos poucos, que Guadagnino evita close-ups em Hammer, pois este não consegue transparecer uma emoção dosada. E isso surpreende, pois ele já havia feito com talento o homem casado com J. Edgar interpretado por DiCaprio no filme de Eastwood.
O número de diálogos em tom pouco crível é notável ao longo da narrativa. Isso se mostra na aproximação pouco natural entre os personagens: durante um jogo de vôlei no gramado dos Perlman, Oliver sai do campo para ver se as costas de Elio, sentado, olhando a partida, estão tensas. Em outro momento, talvez porque não houvesse pêssegos no café atrativo da família Perlman, ele resolve roubar um de Elio enquanto ele está dormindo. Oliver ainda quer ensinar a Elio as melhores notas para uma música sobre a qual não tem conhecimento, possivelmente porque lê Heráclito. Muito do que leva o espectador a gostar do filme é simpatizar com suas figuras: aqui, ambas são pouco naturais, ao contrário do que pretende o filme e seus atores são constantemente prejudicados pela maneira como Guadagnino parece se envergonhar da relação que está mostrando, usando a natureza como subterfúgio. Ele tenta ser naturalista como um filme de Rohmer, mas tudo soa muito disperso para ter uma real emoção. Em momento algum, Oliver e Elio discutem o que estão sentindo um pelo outro; talvez fosse o objetivo, mas para um filme que pretende focar uma paixão é como se algo faltasse.

Em certos momentos, com destaque para aqueles em que Elio toca piano para distrair os convidados dos pais, o diretor quer enfocar um certo vazio rodeado pela cultura (inserindo diálogos sobre Heidegger, como se isso encobrisse a falta do que dizer dos personagens, ou mostrando artefatos históricos) com um bom panorama do interior italiano, capaz de despertar a sexualidade dessas figuras. Não existe, porém, uma química entre os atores, visivelmente desconfortáveis: basta comparar suas atuações com aquelas de Brokeback Mountain e Moonlight, por exemplo. Quando há uma aproximação entre os dois, Guadagnino prefere filmá-los se divertindo, pulando na cama, ou Elio pulando nas costas de Oliver, sem, na verdade, querer mostrar diálogos mais afetivos. Sim, há, mais perto do desfecho, alguns momentos que parecem trazer uma certa essência, num discurso excepcional do personagem de Sthulbarg, mas encaixado para estabelecer uma coesão em relação ao que se viu antes e como uma tentativa de Guadagnino em definir o que não faz ao longo da narrativa por meio dos personagens centrais.
No final das contas, Me chame pelo seu nome procura apresentar uma experiência para o espectador, mas o que atinge é somente a superfície: vemos as paisagens de cartão postal da Itália, mas não a paixão entre duas pessoas, pelo pouco que tem a dizer de maneira emocional e sem recorrer a uma certa pose naturalista. É um filme que, tentando falar de paixão o tempo todo, se esquece efetivamente de transparecer um afeto: como os passeios de bicicletas, ele investe num movimento para que o espectador não perceba que pouco ocorreu. Havia uma história complexa e melancólica no roteiro, sobre como o ser humano precisa se adaptar às mudanças da vida (na última cena, muito bem composta e enquadrada). Faltaram o diretor e os atores certos para fazer isso.

Call me by your name, ITA/FRA/EUA, 2017 Diretor: Luca Guadagnino Elenco: Armie Hammer, Timothée Chalamet, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel, Victoire Du Bois Roteiro: James Ivory Fotografia: Sayombhu Mukdeeprom Trilha Sonora: Sufjan Stevens Produção: Peter Spears, Luca Guadagnino, Emilie Georges, Rodrigo Teixeira, Marco Morabito, James Ivory, Howard Rosenman Duração: 132 min. Estúdio: Frenesy Film Company, La Cinéfacture, RT Features, Water’s End Productions Distribuidora: Sony Pictures Classics

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Carros 3 (2017)

Por André Dick

Esta terceira parte de Carros surge logo depois de um longo período de desconfiança em relação à qualidade de seu episódio anterior (de 2011, enquanto o original é de 2006), com direção de um estreante, Brian Fee, ex-integrante do departamento de arte da Pixar, para a qual contribuiu nos filmes anteriores e em Ratatouille e Wall-E. Trata-se da nova parceria entre a Pixar e os estúdios Disney, procurando atualizar uma franquia já desgastada para muitos, embora as crianças gostem muito dela – e já perdi o número de vezes em que comprei de presente para meu sobrinho algum livro da série, mesmo anos depois do segundo filme, de seis anos atrás. Desta vez, a temporada da Piston Cup traz como atração o duelo entre Lightning McQueen (Owen Wilson), visto como uma lenda, e um novo carro possante, Jackson Storm (Armie Hammer). Storm faz parte de uma nova geração que utiliza tecnologia de ponta para conseguir atingir o melhor nível nas corridas. Com isso, os da antiga geração vão sendo demitidos ou se aposentam.
Depois de um grave acidente, McQueen relembra do antigo mentor, Doc Hudson (cuja voz era de Paul Newman) e constata para sua namorada Sally Carrera (Bonnie Hunt) que não quer se aposentar como ele. Decide começar a treinar novamente.

Rusty (Tom Magliozzi) e Dusty (Ray Magliozzi), os proprietários da equipe de corrida de McQueen, o enviam para um novo centro de corridas, onde ele conhece seu novo proprietário, Sterling (Nathan Fillion), que o coloca para trabalhar com a treinadora Cruz Ramirez (Cristela Alonzo). Logo, no entanto, ele entra em conflito pelos métodos empregados.
McQueen propõe uma saída para seu novo chefe e pretende voltar à competição para tentar consegui-la. A fim de obter ajuda, o antigo carro chama seu amigo Mater (Larry the Cable Guy) e volta para sua cidade natal, Thomasville, onde reencontra Smokey (Chris Cooper) e outros conhecidos. O roteiro de Kiel Murray, Bob Peterson e Mike Rich costura essas mudanças de espaço de maneira interessante e elege Thomasville não apenas como o reduto de McQueen, como também a representação da cidade quase esquecida em relação aos centros urbanos onde o personagem central precisa estar para que possa novamente revitalizar sua maneira de agir. Storm representa a tecnologia dos grandes centros, mas McQueen pretende estar com a natureza para recuperar sua força. Naturalmente, a imagem do carro sempre está associada a um mercado de rivalidade, e esses três filmes representam isso, no entanto sem nunca deixar de lado os seus bastidores, o mais interessante para o espectador.

Carros 3 não teve a recepção de outros da Pixar considerados ótimos, a exemplo de Divertida mente, Wall-E e Up. Trata-se, na verdade, de outra peça subestimada do estúdio, assim como o ótimo Universidade Monstros e o injustamente esquecido O bom dinossauro. Assim como este tratava da infância, Carros 3 trata do envelhecimento de maneira indireta, fazendo uma ligação entre as corridas e o amadurecimento de modo talvez não imaginado antes na franquia. McQueen é um personagem aparentemente simples, mas aqui sua volta às origens e ao seu mestre (e a voz de Paul Newman novamente é reproduzida) desenha toda uma existência voltada às corridas que ele não quer deixar de lado e, ao mesmo tempo, o leva a se transformar. Seu contato com os antigos conhecidos e a desconfiança de ser treinado por um carro feminino o colocam em conflito. Há um tratamento dado pelo roteiro não voltado a um questionamento direto sobre o gênero, mas que se sustenta de maneira mais interessante e eficiente do que vemos em desenhos como Valente.

Sendo uma franquia conhecida, talvez mais do que outras da Pixar, por vender brinquedos, Carros 3 se prenuncia como uma interessante homenagem a vários filmes, a exemplo de Herbie – O fusca enamorado (o clima de competição), Rocky III (a corrida que ele aposta com Sally numa praia), Dias de trovão (quando surgem os conflitos nos bastidores para a troca de carros, num momento crucial) e Inteligência artificial (numa passagem noturna por um circo de demolição de carros, em que aparece um ônibus escolar estranho (Lea DeLaria)), mas sempre em busca de uma identidade própria. No ano passado, a Pixar teve o sucesso bilionário de Procurando Dory, que carecia de envolvimento, o que não falta a esta sequência de Carros. Todos os momentos em que o diretor Brian Fee tenta demonstrar a emoção, ele consegue por meio das vozes de Wilson e Hunt, principalmente, mas também por lidar com o material de maneira realmente interessada, nunca perdendo fôlego nos momentos mais importantes, e trabalhar com um visual impressionante, no tratamento de cores oferecido a cada instante. Outra qualidade é que não há uma substituição dos personagens por uma sequência sem fim de cenas de ação, o problema principal das animações de hoje. Nesse sentido, o filme cresce por meio de sua própria narrativa.

Cars 3, EUA, 2017 Diretor: Brian Fee Elenco: Owen Wilson, Cristela Alonzo, Chris Cooper, Nathan Fillion, Larry the Cable Guy, Armie Hammer, Ray Magliozzi, Tom Magliozzi, Tony Shalhoub, Bonnie Hunt, Lea DeLaria, Kerry Washington, Paul Newman Roteiro: Kiel Murray, Bob Peterson e Mike Rich Fotografia: Jeremy Lasky, Kim White Trilha Sonora: Randy Newman Produção: Kevin Reher Duração: 109 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures

 

Animais noturnos (2016)

Por André Dick

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O cineasta Tom Ford estreou em Direito de amar, em 2009, com uma atuação vigorosa de Colin Firth indicada ao Oscar antes do papel que lhe renderia de fato o prêmio, no ano seguinte, com O discurso do rei. Ligado ao universo da moda, cujos trabalhos incluem ser diretor criativo na Gucci e Yves Saint Laurent, Ford demonstrava talento numa trama minuciosa e uma bela fotografia em preto e branco. No seu segundo experimento, Animais noturnos, ele mostra Susan Morrow (Amy Adams), proprietária de uma galeria de arte, que recebe o manuscrito do livro Nocturnal animals, de seu ex-marido, Edward Sheffield (Jake Gylleenhaal). Seu casamento com Hutton Morrow (Armie Hammer) passa por um momento delicado, com infelidelidade da parte dele.
Susan inicia o livro e, a partir daí, vemos Ford alternar entre o que acontece nele e a realidade da personagem. No romance, Tony Hastings (Gyleenhaal) viaja com a esposa, Laura (Isla Fisher), e a filha, India (Ellie Bamber), por uma estrada do Texas, quando são abordados pelo carro de Ray Marcus (Aaron Taylor-Johnson), Lou (Karl Glusman, cada vez mais presente depois de sua boa participação em Love, de Gaspar Noé) e Turk (Robert Aramayo). O que acontecerá a eles será o mote da narrativa, principalmente para construir um elo entre o presente de Susan e o passado em que estava casada com o marido e teria um filho. No livro, chega-se ao ponto em que Tony precisa recorrer a um xerife, Bobby Andes (Michael Shannon, espetacular).

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Susan não consegue dormir – ela ganha o apelido de “animal noturno” por causa disso – e em sua galeria, também em razão da maquiagem que utiliza, parece mais uma espécie de vampira. Há claras referências aqui, nos cenários e comportamentos dos personagens, a filmes de David Lynch, especificamente A estrada perdida, Coração selvagem e Veludo azul. Onde Lynch é mais interessante – na maneira como consegue conciliar suas narrativas a um surrealismo quase natural -, Ford é mais comedido, embora às vezes imite até as roupas e maquiagens do filme de Lynch. Quando Laura Linney aparece como Anne Sutton, mãe de Susan, é claro que ela deve lembrar Diane Ladd em Coração selvagem, assim como Andrea Riseborough, no papel de Alessia Holt, casada com Carlos (Michael Sheen), evoca qualquer estranheza de Twin Peaks.
Animais noturnos tem um início um pouco desinteressante, na maneira que salta da vida de Susan para as páginas do livro, mas, à medida que a trama avança, o paralelo começa a ser construído de maneira eficiente, com atuações notáveis de todo elenco. Amy não chega a construir um personagem por completo, e ainda assim está excelente, assim como Taylor-Johnson surpreende e Gyleenhaal volte a mostrar por que se trata de um ator excepcional para papéis curiosos. Ford utiliza o subtexto – o romance – como uma forma eficiente de entender o casamento de Susan e Edward, o que se esclarece nas digressões, em que ela relembra como o conheceu e como eram os dois quando casados. Esses flashbacks se situam entre a atmosfera soturna a vida de Susan e o frio oposto ao calor do lugar onde Edward situa sua história: quando há uma determinada revelação, ele se encontra embaixo da chuva. A fotografia de Seamus McGarvey, habitual colaborador do diretor inglês Joe Wright, utiliza esse conflito de atmosferas para fazer brilhar sua iluminação, dialogando com outro sucesso deste ano, A qualquer custo, com Jeff Bridges (que será lançado em fevereiro).

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Nesse sentido, além de ser uma sátira ao papel da arte na vida do indivíduo – vejam-se, por exemplo, as esculturas da galeria de Susan, ou o vestuário de sua funcionária, Sage Ross (a sempre estranha Jena Malone), e mesmo o nome de uma amiga, que remete a um personagem clássico do terror, Samantha Van Helsing (Kristin Bauer van Straten) -, Animais noturnos é um exemplo de como mesclar ficção, realidade e cinema, além de homenagens ao cinema surrealista. O comportamento do xerife, muito por causa da atuação de Shannon, adquire um ar de impacto que falta ao início do filme, com a revelação de que ele está com uma doença e precisa lidar com os criminosos da maneira mais direta possível. E Shannon joga todas suas cenas com uma frieza que teria feito bem à composição de seu Zod em Homem de aço, uma mescla entre um personagem de Fargo e de um xerife de faroeste dos anos 50. Uma cena exemplar dessa situação surreal é quando ele encontra o criminoso Ray Marcus num momento que deveria ser privado – e Aaron Taylor-Johnson parece ser como uma escultura viva da galeria de Susan, tamanho o absurdo da situação em que se encontra. Formado em arquitetura, Tom Ford também sabe construir cenários que ele dispõe como peças de um grande tabuleiro, em que um vai se ligando ao outro de maneira ousada e inquestionavelmente interessante, transformando Animais noturnos nos símbolos que questiona a cada momento.

Nocturnal animals, EUA, 2016 Diretor: Tom Ford Elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Aaron-Taylor Johnson, Michael Shannon, Armie Hammer, Isla Fisher, Ellie Bamber, Andrea Riseborough, Michael Shannon, Karl Glusman, Robert Aramayo Roteiro: Tom Ford Fotografia: Seamus McGarvey Trilha Sonora: Abel Korzeniowski Produção: Robert Salerno, Tom Ford Duração: 115 min. Distribuidora: Universal Estúdio: Focus Features / Universal Pictures

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O nascimento de uma nação (2016)

Por André Dick

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O diretor e ator Nate Parker realizou O nascimento de uma nação com cerca de 8,5 milhões de dólares, um orçamento irrisório. Premiado como melhor filme no Festival de Sundance, ele teve grande recepção crítica e se tornou num dos possíveis candidatos ao Oscar num primeiro momento, mesmo porque houve a polêmica da premiação no início deste ano de não indicar artistas negros às categorias. E o título é uma clara referência ao filme de 1915 de D.W. Griffith que elogiava a Ku Klux Khan, inclusive colocando atores brancos pintados de negros, um épico de mais de três horas de duração que revolucionou a maneira de realizar filmes (infelizmente, muitas vezes no mau sentido).
O filme inicia mostrando o personagem central, Nat Turner, na infância (interpretado por Tony Espinoza), em Southampton, Virginia, quando é visto como uma espécie de libertador, marcado pela simbologia africana. Elizabeth Turner (Penelope Ann Miller) o ensina, desde pequeno, a ler e a escrever, além de estudar a Bíblia, aderindo ao cristianismo. Ele cresce e vira pregador. O filho de Elizabeth, Samuel (Armie Hammer), usa o fato de ele ser um pregador para controlar escravos mais rebeldes, e eles convivem proximamente, não exatamente tratando um ao outro como irmão, mas quase. No entanto, há o capataz Raymond Cobb (Jackie Earle Haley), um homem agressivo, já no início em combate com o pai de Nate, Isaac (Dwight Henry), e que pode ameaçar Cherry (Aja Naomi King), interesse amoroso do personagem principal, cuja figura referencial é a da mãe (Aunjanue Ellis).

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A atuação de Parker é excelente, lembrando um pouco a de Ejiofor de 12 anos, mas talvez com mais impacto em alguns momentos, mesmo pela temática mais contundente em alguns pontos, justificando a recepção em Sundance. No entanto, esta recepção exitosa – com grandes chances de ir ao Oscar – se deu até o momento em que uma notícia veio à tona em agosto: de que Parker e seu argumentista, Jean McGianni Celestin, foram acusados pelo estupro de uma jovem na época da faculdade, em 1999. Ao longo do julgamento, inocentaram o diretor, enquanto culparam seu parceiro, que teve as acusações retiradas depois de recorrer. A jovem acabou cometendo anos depois suicídio (há relatos mais apropriados em sites que investigaram o caso). É absolutamente lamentável a tragédia envolvendo a jovem estudante e muito importante o que a imprensa trouxe à cena.
Tentando ver seu filme do ponto de vista artístico e não dos temas que se formaram em razão da polêmica desagradável envolvendo Parker (o que não é fácil), ele tem uma sensibilidade na direção de atores (Hammer dá sua melhor atuação desde A rede social) e no uso da fotografia de Elliot Davis, com sua paleta entre o azul, o verde e o cinza. Pode-se dizer que é um retrato que se preocupa em mostrar um período devastador para a humanidade. O plano religioso também é trabalhado de forma adequada, com uma colocação do discurso como forma de atenuar qualquer rebelião – e, mesmo assim, podendo provocá-la, sob um entendimento equivocado.

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No local onde vive, há um outro reverendo, Zalthall (Mark Boone Júnior), a serviço do dono de Nat e que usa este para tentar controlar outros escravos da região, e um uso grande de imagens simbólicas referentes ao universo da pregação e da retórica que poderia colocar Turner como uma espécie de Malcolm X de sua época. Entre os amigos de Nate, está um escravo, Hark (Colman Domingo) que vê sua noiva (Gabrielle Union) também sofrer. Essas cenas mais graficamente violentas são talvez mais fortes do que aquelas que visualizamos anteriormente em 12 anos de escravidão e Django livre, com Parker tentando usar recursos visuais que McQueen e Tarantino não utilizam. A sensibilidade também é percebida na aproximação de Nat de Cherry, quando ele lhe oferece uma rosa – e a sua cor significa mais do que os espinhos que pode carregar. O espectador é capaz de sentir, como no filme de McQueen, o peso existencial sobre cada personagem.
Belas imagens, como o sangue da orelha sobre o milho, ou os escravos colhendo algodão enquanto o sol parece passar por um eclipse, ou as nuvens da noite cobrindo a lua, antecipam essa vingança baseada nas palavras religiosas. Os homens carregando tochas à noite lembram uma espécie de regresso à África, ao verdadeiro nascimento de uma nação. Uma cena especialmente discreta é impactante é quando uma menina negra brinca puxando outra pela corda na varanda de uma mansão, enquanto Nat observa da carroça.

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Há uma grandiosidade na maneira como os temas são retratados, com certa claustrofobia nos cenários e movimentos de câmera. Parker atua talvez melhor do que dirige, com uma gravidade nas palavras, principalmente quando reconhece o que fazem com escravos em fazendas vizinhas da sua, e isso sustenta talvez a melhor parte do filme. O nascimento de uma nação acontece exatamente por meio desse enfrentamento, que realmente existiu em 1831, mesmo este existindo sem a devida ênfase, por outro lado com uma crueza necessária.
Embora o orçamento seja limitado, o desenho de produção e o figurino têm grande qualidade e, se em alguns instantes parece tentar algo no caminho de Gangues de Nova York, deve mais à obra de McQueen e dialoga com traços de A cor púrpura. E há o elenco, quase todo uniformemente impecável, mesmo os coadjuvantes menos destacáveis. No ato final, Parker utiliza alguns elementos simbólicos e um deles remete, curiosamente, a Twin Peaks – Fire walk with me, de David Lynch, numa espécie de enfrentamento com o destino. Não se compreende que Parker perdoa alguma ação desencadeada pela vingança confundida com a religião, e sim de que ele é atormentado por visões que não explicam o que ele realiza. Isso acontece depois de uma sequência bem trabalhada, embora em fragmentos, e que justifica a obra como um retrato forte sobre a escravidão. Ao mesmo tempo, Nate Parker continuará a ser julgado, por tudo aquilo que teria acontecido em sua vida pessoal, mesmo tendo sido inocentado no plano da justiça, e por todos os temas que tentou levar às telas, de grande importância histórica e cinematográfica.

The birth of a nation, EUA, 2016 Diretor: Nate Parker Elenco: Nate Parker, Armie Hammer, Colman Domingo, Aja Naomi King, Jackie Earle Haley, Penelope Ann Miller, Gabrielle Union Roteiro: Nate Parker, Jean McGianni Celestin Fotografia: Elliot Davis Trilha Sonora: Henry Jackman Produção: Nate Parker, Kevin Turen, Jason Michael Berman, Aaron L. Gilbert, Preston L. Holmes  Duração: 120 min. Estúdio: Bron Studios, Mandalay Pictures, Phantom Four, Tiny Giant Entertainment Distribuidora: Fox Searchlight Pictures

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O cavaleiro solitário (2013)

Por André Dick

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Nunca foi uma qualidade de Gore Verbinski a duração de seus filmes. Depois da série Piratas do caribe, O chamado e A mexicana, parece que apenas a animação Rango e o drama O sol de cada manhã conseguiam uma síntese. Em O cavaleiro solitário, novamente situado no universo do Velho Oeste, Verbinski volta com uma produção em alto desempenho dos estúdios Walt Disney, e cenas de ação variadas. Mas, em primeiro plano, é difícil lembrar de outro momento em que Depp esteve tão deslocado. Fala-se que em Sombras da noite, de Burton, ele já havia se desgastado consideravelmente com suas atuações baseadas também em trejeitos e na maquiagem, e ainda assim era divertido como Barnabas. Aqui, a partir de determinado momento, quando acentua o overacting, ele deixa transparecer o incômodo. Se antes Verbinski lhe deu o antológico Jack Sparrow – divertido até pelo menos o fim do primeiro da série –, aqui Depp não consegue ser, do mesmo modo, eficaz. Embora a presença do ator seja no mínimo questionável, o principal problema é o estilo de humor utilizado, a partir de fatos reais (o massacre de indígenas). Em segundo plano, Armie Hammer, como o Cavaleiro, não consegue repetir a proeza dos gêmeos de A rede social e mesmo do amante de J.Edgar do filme de Eastwood. Ele não tem uma habilidade para o que O cavaleiro solitário exigiria: a comédia física.
Mas a questão seria como lidar com este roteiro, escrito a oito mãos, por Eric Aronson, Justin Haythe, Ted Elliott e Terry Rossio, que parte da ideia de um menino vestido de “Lone Ranger” (Mason Cook), em 1933, em San Francisco, visitando um museu, em que encontra uma figura que apenas aparenta ser de cera, o comanche Tonto (e toda vez que a história se desloca para esse diálogo parece que Verbinski parece fazer uma concessão a uma visão idílica dos índios na América), com a placa: “O nobre selvagem em seu habitat natural”. É ele que lembra quando conheceu John Reid (Armie Hammer), um advogado, numa viagem de trem – e já esta sequência inicial apresenta o elemento mais chamativo do filme: a grandiosidade em todos os sentidos, mesclando humor a situações fantasiosas. Ambos são aprisonados por Butch Cavendish (William Fichtner), um bandido que foge do trem com uma trupe de companheiros. Reid chega à mulher, Rebecca (Ruth Wilson), e ao filho do irmão, Dan (James Badge Dale), um Texas Ranger, mas vai encontrá-los num perigo mortal.

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Entre idas e vindas, Reid e Tonto ficam amigos, mas Verbinski não consegue localizar essa amizade por meio de diálogos ou de humor substancioso, sempre sucedendo cada sequência com alguma gag visual ou verbal, encerrando cada atitude com uma espécie de detrimento de uma possível humanidade. Nesse sentido, quando apresenta alguns coadjuvantes, como Red (Helena Bonham Carter, que, assim como Depp, entrega-se a um estereótipo, já cultivado este ano em Os miseráveis), Verbinski não consegue desenhá-los a ponto de torná-los parte de uma engrenagem. A sensação, por isso, ao se assistir O cavaleiro solitário, é de que se vai saltando de um filme para outro dentro da mesma obra – e não se coloca, aqui, as influências de outros faroestes, bastante comentadas e evidentes, por todas as panorâmicas realizadas a cada minuto. Falta, além de um diálogo entre as partes, uma espécie de comedimento, que, em não existir, compromete o restante.
Não há dúvida de que há sequências realmente divertidas (spoiler: aquela em que Tonto e o cavaleiro solitário estão enterrados, apenas com o pescoço para fora) e fantásticas (a sequência final), e há um trabalho de fotografia respeitável, embora excessivamente monocromático, de Bojan Bazelli. No entanto, Verbinski coloca os montadores numa situação delicada: existem ao menos 30 minutos a mais de filme, e a história, que já seria insuficiente para pouco mais de duas horas, torna-se ainda mais inconsistente. O fato é que o que sustentaria a trama – a amizade entre Tonto e o Cavaleiro – praticamente inexiste, acontecendo apenas entre provocações de parte a parte. Restaria haver um vilão provocante, mas Butch não corresponde.

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O cavaleiro solitário.Filme 7Percebe-se que Verbinski tinha bem claro que gostaria de dar ao filme um crescente a partir de sua parte técnica. No entanto, isso acaba sendo fatal para a proposta de um filme que é desencadeado a partir da conversa de um menino com um índio, a princípio, de cera de museu, e o fato de transformar a chacina a índios numa espécie de culpa pessoal por oferecer o ouro a alguém que não o merecia, reduzindo de forma simbólica o contexto (mesmo que seja para uma fantasia, e se pode falar nesses termos pela quantidade de absurdos na parte final principalmente, dos estúdios Disney).
Há uma necessidade, ao mesmo tempo, de Verbinski ressoar, na verdade, o que seria os Estados Unidos: a disposição de bandeiras do país em momentos-chave depois do clímax parecem dizer que o filme, mais do que uma experiência infantil por esse monumento de referências passadas, é bastante político e, ao contrário do herói, nem um pouco desastrado. É talvez isto que torne O cavaleiro solitário, além de um filme que não consegue trabalhar o que pretendia em suas entrelinhas, uma espécie de referência vazia do mesmo período que tenta satirizar e tornar bem-humorado. Sabemos que em Hollywood os vilões podem experimentar o gosto da vingança dos comanches, mas, ao satirizar esta mesma vingança, O cavaleiro solitário apenas prefere buscar o saldo financeiro capaz de colocar mais um herói em disparada na linha do horizonte, com o cavalo branco que o escolheu. Diante de tudo, talvez seja realmente a última fala do filme que conceda a Verbinski um instante, mesmo que rápido, de sinceridade. Também não deixa de ser um pedido aos comanches colocados no museu de cera. No fim, tudo isso colabora para que O cavaleiro solitário se torne o que é: uma fascinante falha de ignição em todos os níveis.

The lone ranger, EUA, 2013 Diretor: Gore Verbinski Roteiro: Eric Aronson, Justin Haythe, Ted Elliott, Terry Rossio Elenco: Johnny Depp, Armie Hammer, Helena Bonham Carter, William Fichtner, Ruth Wilson, James Badge Dale, Mason Cook Produção: Gore Verbinski, Jerry Bruckheimer Fotografia: Bojan Bazelli  Trilha Sonora: Jack White Duração: 149 min. Distribuidora: Disney Estúdio: Jerry Bruckheimer Films / Silver Bullet Productions

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