O pintassilgo (2019)

Por André Dick

Quando Brooklyn foi lançado em 2015, imediatamente o diretor John Crowley foi alçado à categoria de nomes a serem observados, por unir um fundo histórico e um romance delicado com Saoirse Ronan, baseado em livro de Nick Hornby. O seu passo seguinte é O pintassilgo, baseado desta vez num romance de Donna Tartt, vencedor do Pulitzer. Desde o início, estamos diante de uma história cuja tensão se dá de modo fragmentado.
Theodore Decker (Oakes Fegley), de 13 anos, perdeu a mãe, Audrey (Hailey Wist), num atentado no Metropolitan Museum of Art, em Nova York. Após o acontecimento, Theo leva consigo uma pintura, “O Pintassilgo”, uma das poucas de Carel Fabritius, e vai ficar com a família Barbour, de seu amigo Andy (Ryan Foust), pois seu pai o abandonou. O menino fica próximo principalmente da mãe de seu amigo, Samantha Barbour (Nicole Kidman), também admiradora de antiguidades. Por meio de um anel, ele vai parar numa loja de antiguidades coordenada por  James “Hobie” Hobart (Jeffrey Wright), que teve seu parceiro Welton “Welty” Blackwell (Robert Joy), morto no mesmo atentado. Theo reencontra Pippa (Aimee Laurence), a neta de Welton, que viu um pouco antes do atentado, mas não lembra dele.

Quando Theo passa a se sentir parte dos Barbours, seu pai Larry (Luke Wilson) reaparece, com a namorada, Xandra (Sarah Paulson), para levá-lo a Las Vegas, onde vai morar quase no meio do deserto. Lá ele faz amizade com Boris (Finn Wolfhard), um imigrante ucraniano, com problemas familiares.
Brooklyn era mais uma fantasia sobre a imigração, e isso transparecia na luz solar que o diretor captava, com uma câmera lenta um pouco incômoda, lembrando excessivamente telefilmes antigos, no entanto, por causa do elenco, de Saoirse Ronan, sobretudo, atingia uma emoção verdadeira em certos momentos, quando a personagem dela ficava em dúvida se devia ficar com a descoberta da América ou voltar ao velho mundo, à segurança de estar num lugar de origem. Não havia uma dramatização intensa revelando isso, acabando por prejudicar o empenho do elenco em trabalhá-la, porém Brooklyn possuía uma certa sinceridade que outras obras com mais pretensão não capturam, não o afastando de um modo de fazer cinema já clássico e cujo hype suscitado pela indicação ao Oscar de melhor filme apenas o prejudicava.

O pintassilgo não chega a tratar exatamente de imigração, entretanto seu pano de fundo é o mesmo: além da figura de Boris, amigo de Theo, este se sente um imigrante em todos lugares aonde vai. Nunca plenamente aceito, pelas condições em que foi inserido pela situação, Theo é interpretado com brilhantismo na juventude por Oakes Fegley e na vida adulta por Ansel Elgort. Quando mais velho ele volta a Nova York, Crowley o mostra como um agente de antiguidades, precisando enfrentar Lucius Reeve (Denis O’Hare), mas seu passado nunca se resolve e ele volta a ter contato com a antiga família que o abrigou, na qual tem especial interesse por Kitsey (Willa Fitzgerald). Numa série de idas e vindas no tempo, Crowley costura o que faltava a Brooklyn: uma sólida visão sobre a existência de um personagem cheio de lacunas, preenchido apenas, de certo modo, pela pintura de “O pintassilgo” e a figura materna, presente em todas as situações. Em igual escala, a amizade de Theo com Boris avança por anos com uma sensibilidade acrescentada à trama.
Com a ajuda da notável fotografia de Roger Deakins, a narrativa transita entre Nova York e o deserto de Las Vegas sem perder a unidade – e nesta segunda localidade com uma influência perceptível de Amor pleno, de Terrence Malick, nas quadras vazias dando em estradas no meio do deserto. Há uma elegância impecável no diálogo com o design de produção, principalmente em Nova York, contrastando com a insegurança dos personagens, nunca exatamente tranquilos onde se encontram. E a mudança sempre é feita de modo a levar os personagens adiante.

Diante de críticas que extraíram de maneira geral a qualidade de uma obra tão rica desde o lançamento no Festival de Toronto – ajudando a fazer com que fosse um fracasso de bilheteria, ou seja, escondendo mais um acerto do público –, O pintassilgo se mantém de modo tocante no que se refere à construção de uma identidade por meio da arte e das figuras ao seu redor. É apropriadamente bela a sequência na qual Theo se encontra com Pippa na vida adulta (interpretada por Ashleigh Cummings), e ela lhe diz não consegue suportar o que os faz ter em comum, justamente o atentado. É como se apenas Theo vivesse naquele situação que marcou sua vida e ela acabasse interferindo em todas as escolhas, e ele continuasse em meio aos escombros, solitário, caminhando pelas cinzas, no que lembra Mais forte que bombas, de Joachim Trier. Além disso, a analogia entre o acontecimento e partículas de poeira no ar é muito bem trabalhada, assim como a da explosão com o personagem na banheira ou se jogando na piscina, como se quisesse um alívio em relação ao pensamento recorrente.

O pintassilgo, desse modo, dialoga também com os acontecimentos do início deste século e como o trauma interfere no cotidiano de um ser humano. O roteiro de Peter Straughan dispõe as peças de maneira calculada, acentuando certa nostalgia nas passagens da infância, em que Finn Wolfhard, como Boris, tem o melhor papel de sua trajetória (fugindo do espaço de Stranger Things e It), como se fosse um jovem Tim Burton. Essa breve convivência juvenil traz alguns dos melhores momentos do filme, quando a amizade e o planejamento de um futuro melhor se tornam o foco. Crowley utiliza o cenário de maneira sensível, desde os balanços em meio ao deserto até uma corrida de Theo por uma rua vazia tentando se afastar dos problemas de casa. Também visualiza piscinas vazias representando o sentimento geral e enfático dos personagens, geralmente desgovernados. E Ansel Elgort encontra infelizmente o segundo fracasso financeiro de sua breve carreira, depois de Homens, mulheres e filhos, em outro triunfo que, ao que se espera, encontre seu público com o passar dos anos.

The Goldfinch, EUA, 2019 Diretor: John Crowley Elenco: Ansel Elgort, Oakes Fegley, Aneurin Barnard, Finn Wolfhard, Sarah Paulson, Luke Wilson, Jeffrey Wright, Nicole Kidman Roteiro: Peter Straughan Fotografia: Roger Deakins Trilha Sonora: Trevor Gureckis Produção: Nina Jacobson, Brad Simpson Duração: 149 min. Estúdio: Amazon Studios, Color Force Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Dunkirk (2017)

Por André Dick

O cineasta britânico Christopher Nolan iniciou sua carreira com o curioso thriller Following e em seguida fez Amnésia, no qual a memória fragmentada atingia o personagem central e antecipava, de certo modo, Insônia, policial com Al Pacino em busca de um assassino no Alaska, abalado por não conseguir dormir em razão da claridade permanente. Se Batman begins significou o início de uma das maiores trilogias da história do cinema, O grande truque e A origem confirmaram Nolan como uma voz capaz de mesclar técnica, visão, ousadia e riscos com a montagem de um filme. Apesar de sempre se apontar uma certa exposição em seus roteiros, sua filmografia parecia prepará-lo para a obra-prima de ficção científica que é Interestelar. Para suceder uma obra desse porte, Nolan recorreu ao gênero de guerra, trazendo para as telas a batalha de Dunkirk. A história inicia em 1940, na Segunda Guerra Mundial, com a explicação de que a França está sendo invadida pela Alemanha e milhares de soldados ficam à espera do que pode acontecer em seguida na cidade litorânea de Dunkirk.

Logo Nolan foca em Tommy (Fionn Whitehead, muito bem), jovem soldado da Inglaterra, que consegue chegar, depois alguns contratempos, à praia onde estão soldados de seu país e outros aliados (franceses, belgas e canadenses). Ele fica amigo de Gibson (Aneurin Barnard), que está enterrando um amigo seu. Ameaçados por aviões da Alemanha, os homens estão desesperados na praia. Aos dois novos amigos, se junta mais tarde Alex (Harry Styles). Alheios a esse cenário, o Comandante Bolton (Kenneth Branagh) e o Coronel Winnant (James D’Arcy) avaliam a situação, e isso significa exatamente não ter ideia ou certeza a respeito do que pode afetar esses milhares de homens sob seu comando. Por alguns instantes, principalmente no número de figurantes, Dunkirk parece remeter a Patton, dos anos 70, mas o propósito de Nolan não é obviamente fazer uma sátira de guerra. Estamos, sim, diante de uma homenagem dele a um fato histórico.
Ao mesmo tempo, vários barcos são requisitados pela Royal Navy para ajudar no salvamento. Num deles, o Moonstone, está o Sr. Dawson (Mark Rylance), junto com seu filho, Peter (Tom Glynn-Carney), e o jovem George (Barry Keoghan). No caminho para Dunkirk, eles se deparam com o soldado Shivering (Cillian Murphy, um dos atores favoritos do diretor).

Finalmente, acompanhamos também os pilotos de aviões Spitfire Farrier (Tom Hardy) e Collins (Jack Lowden), que sobrevoam Dunkirk para tentar proteger as tropas. Os três núcleos (em terra, em água e ar) se passam em tempos diferentes, requisitando do espectador uma certa atenção para desenhar o panorama geral.
O diretor de fotografia Hoyte van Hoytema, que já havia trabalhado com Nolan em Interestelar, empresta seu talento para a captura de imagens verdadeiramente realistas, fazendo algumas vezes o filme se parecer com um documentário – e se faz notável um diálogo com o clássico de guerra Overlord, dos anos 70, um dos preferidos de Nolan. Além disso, a paleta de cores escolhidas realça o figurino dos personagens e a areia da praia (inspirada em O mestre, de Paul Thomas Anderson). Por sua vez, a trilha de Hans Zimmer empresta o aspecto grandioso à narrativa. Difícil esquecer, por exemplo, os jovens carregando um ferido em determinado momento à frente de tropas enfileiradas ou o Moonstone passando ao lado de um grande navio: é como se o mínimo, o pequeno, fosse realmente o que representa a bravura de quem adentra uma guerra.

A grande questão é que Nolan, desta vez autor solitário do roteiro, parece ter desejado substituir a exposição verbal de seus filmes – muito interessante em Interestelar, por exemplo – pela superexposição de imagens. Destaca-se como nenhum personagem é trabalhado, com exceção talvez para Sr. Dawson, na melhor atuação de Rylance em sua carreira como ator de cinema. Os soldados estão sempre à mercê de uma ameaça para terem sua presença desenvolvida. Nesse sentido, os diálogos não importam, e sim o que pode acontecer quando um avião se aproxima ou quando há tiros na água, e pode-se dizer que é um dos filmes que melhor utilizam efeitos sonoros (de gritos humanos também) dos últimos tempos. Isso fornece uma tensão incontornável, porém até certo ponto, pois, não se sabendo quem são esses personagens exatamente, não há o devido envolvimento. Não se trata, por exemplo, da técnica usada por Terrence Malick, de desprover os personagens de diálogos: Malick compensa por sugestões visuais. Essa não é uma característica de Nolan: sua área de domínio é o cinema de impacto, e este normalmente em seu caso vem acompanhado por longas linhas de diálogos. É o que o caracteriza como diretor autoral. Isso se ausenta de maneira pontual em Dunkirk. Ele está mais interessado na imagem como documento do que como espaço para a inter-relação.

Mesmo na angústia e na tentativa de sobrevivência, o resultado soa um tanto frio por faltar exatamente seu toque clássico. Sintetizar personagens por meio de imagens não é necessariamente uma qualidade. Este pode ser o caso de Dunkirk, um filme moldado para ser grande e se ressente justamente de personagens e atuações capazes de provocar uma satisfação maior como cinema. Além disso, Nolan parece acentuar um problema já existente em A origem, um filme substancialmente melhor em cada palmo do que Dunkirk: a montagem é excessivamente confusa, jogando com três cenários e tempos em paralelo, sem haver sugestões suficientes para indicar qual é a próxima ameaça. Lee Smith tem um trabalho árduo aqui, pois a montagem é assessorada pela emoção dos personagens, que faltam a cada momento em que o espectador espera uma nova costura para as imagens sendo apresentadas. Quando há um encaixe mais claro para o espectador dessas ações fora de ordem, o filme cresce.
Essa emoção havia, por exemplo, no subestimado e muito mais clássico e padronizado Invencível, no qual os combates aéreos pelas lentas de Roger Deakins adquiriam um ímpeto realista e, ao mesmo tempo, cinematográfico. Ou mesmo no recente Até o último homem, de Mel Gibson, que, com todo seu maniqueísmo, criava uma perturbação por meio de sua figura principal em meio ao conflito de guerra. Para não falar de clássicos, a exemplo de Platoon, Nascido para matar, Apocalypse now, O franco-atirador, Além da linha vermelha O resgate do Soldado Ryan, todos com uma visão humana e histórica sobre a guerra, visualmente impressionantes e com desenvolvimento de personagens. Por outro lado, parece ser exatamente na sutileza que Nolan entrega uma visão diferenciada da guerra. Ao não dar tanta voz a esses personagens, ele universaliza as situações de perigo.


Nesse sentido, o personagem de Murphy, Shivering, se apresenta como aquele que, transtornado pela guerra, passa a agir de modo irracional. Também por meio dessa figura, Dunkirk é um filme de sobrevivência, como vem sendo divulgado, e a cada peça dele leva a um direcionamento maior rumo à emoção, mesmo que esta se sinta por vezes vazia. É uma obra simétrica, mas falta a ela a perturbação da guerra sem exatamente o predomínio documental e sua recomendação de idade impede cenas fortes, que seriam adequadas no contexto, sendo tudo excessivamente asséptico. Como uma visão conceitual e técnica da guerra, Dunkirk pode atingir em cheio; como fator do imponderável e da emoção, suas imagens soam um pouco remotas e mecânicas. Ele acaba tendo mais interesse quando cria paralelismos entre situações, como o dos jovens tentando colocar um barco em movimento e um piloto tentando sobreviver embaixo d’água. Também é interessante como Nolan coloca o heroísmo em escalas diferentes, por meio dos personagens da embarcação e dos homens nas praias de Dunkirk. No momento em que as ações em tempos diferentes se encontram e a trilha sonora de Zimmer se torna menos uma espécie de ruído e mais uma nostalgia de antigos filmes de guerra, é possível sentir na imagem de um piloto solitário o contraponto para a solidariedade humana.

Dunkirk, EUA/FRA/HOL/ING, 2017 Diretor: Christopher Nolan Elenco: Tom Hardy, Mark Rylance, Cillian Murphy, Kenneth Branagh, Fionn Whitehead, Aneurin Barnard, Harry Styles, James D’Arcy, Jack Lowden, Barry Keoghan Roteiro: Christopher Nolan Fotografia: Hoyte Van Hoytema Trilha Sonora: Hans Zimmer Duração: 106 min. Produção: Christopher Nolan, Emma Thomas Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Dombey Street Productions / Warner Bros.