Querido menino (2018)

Por André Dick

Baseado em dois livros, Beautiful Boy: A Father’s Journey Through His Son’s Addiction, de David Sheff, e Tweak: Growing Up on Methamphetamines, de Nic Sheff, Querido menino é justamente a reunião de duas perspectivas. Steve Carell interpreta David Scheff, jornalista do The New York Times, um pai que se separou de Vicki (Amy Ryan) e casou novamente com Karen Barbour(Maura Tierney), tendo dois filhos. No entanto, ele traz do casamento anterior com Vicki seu primeiro filho, o jovem Nicholas (Timothée Chalamet). O problema é que este possui problemas graves com as drogas. Dirigido pelo belga Felix Van Groeningen, de Alabama Monroe, Querido menino é um dos filmes mais interessantes já surgidos sobre o tema.
Se a maior parte das narrativas costuma atenuar o problema do vício na adolescência, Querido menino aposta exatamente nas consequências que ele acarreta para elaborar uma trama que se constrói por meio de lembranças do pai de momentos-chave da relação com seu filho. Com um quarto que reúne pôsters de Nirvana e de David Bowie, Nic é infuenciado claramente pela figura do pai. Este é como se fosse uma representação de um período de sua vida em que, justamente, ele era mais inocente e apegado a temas do cotidiano que não misturassem a busca incessante pelas drogas.

Sob certo olhar, Querido menino trata principalmente do recomeço das trajetórias de determinadas pessoas dentro da mesma vida. Se David parece se recolher do mundo externo em uma casa confortável, afastada da cidade, quase uma chácara, Nic procura nas drogas um refúgio para fases que não quer enfrentar, principalmente o estudo na universidade e o compromisso. Chalamet havia sido muito elogiado por seu papel em Me chame pelo seu nome, mas é aqui que ele se mostra um ator fora de série. Sua atuação é tão melhor que a de qualquer coadjuvante deste ano que sua ausência do Oscar soa quase um boicote da Academia a momentos de real afeto cinematográfico.
Sua transição do Nic envolvido com drogas para o Nic buscando uma vida normal é dolorosa e emocional no sentido exato, nunca deixando espaço para exageros de abordagem ou manipulação com os sentimentos do espectador. E ele, ao trabalhar com o tema, é claro sobre o que quer dizer: os possíveis prazeres e distanciamento da realidade dura do personagem, por meio das drogas, nunca o levam mais do que a oscilações e retrocessos em sua vida, embora sejam eles que podem, depois de sofrer, levá-lo adiante. Não é verdade que este filme traga soluções óbvias ou lugares-comuns; sua base narrativa é de alto significado. A luta do pai para entender o filho é a luta deste para entender sua compreensão (ou falta de) da vida. Não por acaso, a narrativa inicia com David consultando o Dr. Brown (Timothy Hutton), querendo adentrar no campo do autoconhecimento.

Da relação dele com o pai, Felix Van Groeningen extrai uma história agridoce, situada entre um lado trágico – o périplo de Nic por casas de recuperação é o principal elemento disso –, e nunca pendendo para o uso do vício em drogas como um traço pop, o que vemos em certo cinema de Danny Boyle, sem deméritos para o olhar que este lança. Ele se lança mais no terreno que era desbravado por Trier em Oslo, 31 de agosto: o sentimento inescapável de alguém sentir-se sozinho e sem apoio, mesmo tendo opções para contornar seu rumo. Há uma dramaticidade decisivamente corrente no roteiro do diretor em parceria com Luke Davies, sem apelar a um excesso de situações que mostrem o jovem usando drogas, e sim seus efeitos em relações sociais. A atmosfera de solidão e dificuldade de inserção de Nic não raramente reproduzem cenários constantemente desabitados, só preenchidos por sentimentos perdidos no tempo.

É desse modo que o diretor acolhe flashbacks pontuais e canções bem encaixadas (“Territorial pissings”, do Nirvana, e “Heart of Gold”, de Neil Young, por exemplo), reproduzindo determinadas sensações dos personagens em épocas diferentes e como elas, na verdade, se completam, mesmo que algumas num momento mais puro e em outro mais ruidoso. Carell, nesse sentido, entrega uma de suas melhores atuações, mais exatamente numa cena em que se despede do filho, ainda pequeno, antes de ele fazer uma viagem de avião. Em outro momento, ele visualiza um encontro perfeito com Nic num restaurante, querendo apenas compartilhar uma refeição, não fosse o comportamento irreconhecível daquele que criou. Um encontro na casa de recuperação traz o olhar incrédulo do pai em relação à impossibilidade de o filho conseguir enfrentar seu vício. Já Nic tenta se estabelecer num romance com Lauren (Kaitlyn Dever), não fosse ele ao mesmo tempo autodestrutivo, e Dever repete sua competência dramática já mostrada em Homens, mulheres e filhos e Outside in. Van Groeningen se mostra um diretor muito acima do que já demonstrava ser, trazendo um dos trabalhos mais belos do cinema nos últimos anos e subestimado como os grandes filmes costumam ser antes do reconhecimento.

Beautiful boy, EUA, 2018 Diretor: Felix Van Groeningen Elenco: Steve Carell, Timothée Chalamet, Maura Tierney, Amy Ryan, Kaitlyn Dever Roteiro: Luke Davies e Felix Van Groeningen Fotografia: Ruben Impens Produção: Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Brad Pitt Duração: 120 min. Estúdio: Plan B Entertainment, Big Indie Pictures Distribuidora: Amazon Studios

Mais forte que bombas (2015)

Por André Dick

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Logo depois de surgir com Reprise e Oslo, 31 de agosto, cada um com características autorais e uma forte presença da solidão e do sentimento de luto, o cineasta norueguês Joachim Trier chega a um filme de língua inglesa com este drama, Mais forte que bombas, inicialmente lançado no Festival de Cannes do ano passado e desde então aguardado pelo público. O lançamento de filmes arthouse é cada vez mais dificultado pelas grandes produções, no entanto é possível descobrir cada vez mais um espaço para que possam se destacar, independentemente da recepção. Trier é um jovem diretor em que muitos veem reais possibilidades de constituir uma longa trajetória, depois de iniciar como publicitário, e se percebe principalmente em suas obras um estilo muito definido, no tratamento de personagens e na composição de situações inseridas num cotidiano comum.
O roteiro inicia com um jovem pai, Jonah Reed (Jesse Eisenberg), vendo o seu primeiro filho com a mulher, Amy (Megan Ketch). No mesmo hospital, encontra a ex-namorada, Erin (Rachel Brosnahan), cuja mãe veio a falecer, o que reacende lembranças escondidas em Jonah. Corte a cena e já estamos com Gene Reed (Gabriel Byrne). Ele vai ajudar David (David Strathairn) a escrever uma matéria para o New York Times sobre sua mulher falecida há alguns anos, Isabelle Reed (Isabelle Huppert), fotógrafa de cenários de guerra, sobretudo no Oriente Médio.

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Gene tem problemas de relacionamento com o filho menor, Conrad (Devin Druid), e quando recebe novamente a visita do mais velho, exatamente, há uma porção de sentimentos de culpa reunidos na mesma casa onde a mãe está ausente. Junta-se a isso a paixão não correspondida de Conrad por uma colega de aula, Melanie (Rubi Jerins), fazendo com que ele dedique tempo a jogos no computador, principalmente em cenários de guerra, e de ele não saber de fato por que sua mãe morreu (dando espaço a uma cena impressionantemente bem filmada por Trier, com a ajuda de seu habitual fotógrafo, Jakob Ihre). Esta explicação é escondida tanto pelo pai quanto pelo irmão que querem protegê-lo de uma verdade que nem eles gostariam de assumir. David lembra da esposa lhe contando sobre um sonho, que parece dizer mais do cenário de guerra do que seu cotidiano, enquanto o filho menor sonha encontrar o corpo da jovem que diz gostar ao relento, como se estivesse também morta. É o peso do luto que domina essa família, dominada também pelo enquadramento da imagem, seja aquele das fotografias deixadas pela mãe ou dos jogos e escritos do irmão mais novo no computador.
As lembranças da mãe Isabelle, entretanto, se mantêm, em família ou em relações próximas, e Trier acompanha, em flashbacks, a maneira como ela enxergava seu trabalho de fotografia, como algo importante e, ao mesmo tempo, elemento de uma página a ser virada no jornal, sem que se dê importância. Ela é a representação mais próxima do personagem central de Oslo, 31 de agosto, que está querendo sempre voltar para um cenário caseiro sem que isso lhe dê a mesma segurança que poderia ter antes.

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O roteiro, escrito por Joachim Trier e Eskil Vogt, tem uma influência clara dos filmes que mostram a juventude norte-americana, com certa música dos anos 80 (o título original é o mesmo de um álbum da banda The Smiths), e dialoga principalmente com o recente e contestado Homens, mulheres e filhos. Onde Jason Reitman mostra mais humor, Trier é mais comedido e, por meio de Conrad, pretende enfocar a solidão dessa juventude. Sua relação com o irmão é terna, assim como os conflitos com o pai demarcados por uma base real, especialidade de Trier. O momento em que o irmão Jonah lê um relato do cotidiano do irmão, levando o filme a um flashback revelador, se transforma no maior requisito para uma peça dramática que se anuncia em cada linha de roteiro. Mais ainda sua interação depois com um aparelho que configura uma realidade virtual, para onde certamente eles gostariam de ir. Mas nada diz mais do personagem de Jonah, doutor em Sociologia e prestes a se tornar professor, do que tentar ensinar ao irmão como, de fato, funciona a hierarquia no colégio – o que contradiz qualquer teoria do que seria uma verdadeira socialização, ou seja, assim como seu casamento, ele se mantém apenas pela base teórica, nunca enfrentando de fato a realidade. E Trier nunca esteve tão à vontade para mostrar seus elementos autorais, embora continue bastante pessimista no que diz respeito ao comportamento humano, ainda que não tanto quanto em Oslo, 31 de agosto, e consiga, por meio de uma montagem não linear em alguns momentos, fazer com que o espectador confronte diferentes momentos dos mesmos personagens, abrindo um leque de opções para que identifiquemos (ou não) os sentimentos deles.

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Estamos diante da antiga dificuldade de um pai solitário lidar com o filho adolescente, enquanto mantém um relacionamento secreto com sua professora, Hannah (Amy Ryan). Há uma sensação de nascimento, descoberta, autocontrole diante do outro e a morte ao fim de tudo que percorre cada imagem da obra de Trier, e aqui não é diferente. Mesmo momentos que poderiam ser leves (a visita dos irmãos a um campo de educação física escolar) se tornam introspectivos, ainda que nunca exagerados. Trier sabe extrair excelentes atuações de Eisenberg, Byrne e Druid, além de Huppert. Ela é a figura que simboliza um elo para o pai e os filhos, e todos eles querem ou se aproximar ou se afastar das mulheres – eles apenas não conseguem substituir o afeto materno. É exemplar a cena em que um dos irmãos se enxerga ao lado da mãe num espelho, e é possível ver nos braços dela as marcas de alguma bomba estilhaçada durante alguma cobertura jornalística. Jonah, principalmente, quer ser o esteio familiar que não consegue enxergar no pai, e seus diálogos com o irmão constituem esse momento particularmente interessante da obra de Trier. É sobre como os personagens parecem ser testemunhas de uma batalha quando, na verdade, estão inseridos numa, que é a própria compreensão de sua existência.

Louder than bombs, DIN/FRA/NOR, 2015 Diretor: Joachim Trier Elenco: Jesse Eisenberg, Devin Druid, Gabriel Byrne, Isabelle Huppert, Amy Ryan, Rachel Brosnahan, Megan Ketch, David Straitharn, Ruby Jerins Roteiro: Eskil Vogt, Joachim Trier Fotografia: Jakob Ihre Trilha Sonora: Ola Fløttum  Produção: Albert Berger, Alexandre Mallet-Guy, Marc Turtletaub, Ron Yerxa, Suzanne Savoy, Thomas Robsahm Duração: 109 min. Distribuidora: Vitrine Filmes Estúdio: Animal Kingdom / Arte France Cinéma / Beachside Films / Bona Fide Productions / Memento Films Production / Motlys / Nimbus Film Productions

 Cotação 4 estrelas e meia

Ponte dos espiões (2015)

Por André Dick

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O diretor Steven Spielberg é um dos grandes nomes indiscutíveis do cinema. Ter realizado Encurralado, Tubarão e Contatos imediatos do terceiro grau nos anos 70, e Os caçadores da arca perdida, E.T., A cor púrpura e Império do sol nos anos 80 já é motivo suficiente para ter seu nome entre os maiores da história. No entanto, a partir dos anos 90, mais especificamente depois de Jurassic Park, Spielberg foi aos poucos se afastando do gênero da fantasia e mais fantástico – no qual se destacou também como produtor –, incorporando filmes com elementos históricos, a exemplo de A lista de Schindler, Amistad e O resgate do soldado Ryan. Nos anos 2000, apesar de fazer algumas ficções referenciais, como Inteligência artificialMinority Report e Guerra dos mundos, o tom era sempre soturno, alternando novamente com filmes sobre questões históricas, entre os quais Munique, com alguma folga aventuresca em Indiana Jones e o reino da caveira de cristal. Um respiro original foi sua parceria com DiCaprio em Prenda-me se for capaz e o dramático e cômico O terminal.
Neste início de década, ele apresentou mais dois filmes, dois mais dramáticos, Cavalo de guerra e Lincoln, e uma bela animação, As aventuras de Tintim. Era momento, portanto, de voltar ao drama histórico, o que ele faz com Ponte dos espiões. Esta tendência de Spielberg de alternar fantasia – as últimas vezes em escala soturna, exceto para a aventura de Indiana e a animação com Tintim – com filmes com pano de fundo histórico não o tornou exatamente um cineasta previsível, no entanto parece bem mais acomodado.

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Ele parece reunir a mesma equipe (fotógrafo, montador e aqui apenas se ausentou John Williams da trilha sonora) e, inclusive, um ator recorrente em sua filmografia (Tom Hanks, já presente em O resgate do soldado Ryan, Prenda-me se for capaz e O terminal) para entregar um drama bem feito, no entanto perfeitamente previsível dentro de seu esquema como grande diretor de Hollywood. Infelizmente, Ponte dos espiões se ressente não de um grande elenco e de uma grande produção, e sim de ideias que possam comover mais o espectador.
É a história de Rudolf Abel,  preso em 1957 no Brooklyn, enquanto faz o que mais gosta: pintar.  No entanto, ele é visto como um possível espião da KGB, e os agentes recolhem tudo o que pode comprometê-lo. Para sua defesa, é chamado James B. Donovan (Tom  Hanks), especialista em contratos de seguros, com o intuito de os Estados Unidos mostrarem que trazem um julgamento justo. Ninguém espera o que Donovan faz: realmente defender Rudolf Abel, por ter uma simpatia especial por ele. Este é o lado spielberguiano de Ponte dos espiões: nunca fica muito claro por que Donovan fica tão devotado a Abel, além daquilo que vemos: o público toma uma aversão por ele, mas Donovan continua a querer provar que seu cliente é inocente, sem querer saber se é um espião ou não; para ele, isso não importa.

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Ele vai ao juiz do caso, Mortimer W. Byers (Dakin Matthews), para pedir uma suspensão de pena, imaginando uma situação mais adiante. Em meio a isso, o soldado Francis Gary Powers (Austin Stowell) sofre um acidente de avião e é capturado pelos russos, sendo submetido a interrogatórios diários. Do mesmo modo, Spielberg mostra Frederic Pryor (Will Rogers), estudante de economia americana, que, ao visitar sua namorada em Berlim Oriental, passa pela experiência da construção do muro, e acaba sendo preso. Spielberg vai mostrar daqui em diante o que essas experiências têm a ver com a Rudolf Abel, e o que Donovan terá de fazer para que as pessoas no trem que pega diariamente parem de observá-lo com condenação.
Do início ao fim, Ponte dos espiões é um típico filme do Spielberg mais maniqueísta: Donovan é o exemplo de idealista, capaz de fazer justiça por todos os meios. Para ele, tudo pode ser resolvido no diálogo, tanto que ele seja ouvido, e trata-se, por causa de Hanks, num personagem fascinante, embora sem muitas nuances. Em se tratando de um personagem real, Donovan, no entanto, fica no meio-termo quando passa a ser peça de um jogo maior, a Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética. Não há, aqui, os detalhes emocionais que vemos em A lista de Schindler, Soldado Ryan, mesmo no mais recente Lincoln (no qual Day-Lewis dava um componente mais altivo ao presidente americano) e outras peças dramáticas de Spielberg: tudo é levado de forma mais ou menos dispersa, sem os graus de tensão necessários, a não ser em seus primeiros 40 minutos, que lembraram muito o ritmo do excepcional JFK, de Oliver Stone, inclusive pelos cenários soturnos e pela relação de Donovan com a família.

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Há uma influência clara, na maneira de filmar, de Petzold, principalmente de Barbara e Phoenix, assim como de O espião que sabia demais, mas falta a Spielberg um ponto maior no que diz respeito à construção subjetiva dos personagens. Há sempre um pouco de de previsibilidade em cada um deles, e principalmente Abel não tem seus caracteres elaborados, o que é uma pena, em razão de Mark Rylance, cuja atuação fica tremendamente superestimada pelo tempo de duração e o roteiro. Thomas Waters, o chefe de Donovan, feito por um subaproveitado Alan Alda, é também o limite do maniqueísmo, ao mesmo tempo que Jesse Plemons é desperdiçado como Murphy, amigo de Powers. No entanto, existe em torno dos personagens uma atmosfera maravilhosa de época, uma grande reconstituição em detalhes, principalmente nos figurinos e no comportamento gestual dos atores e personagens. Houve realmente um estudo.minucioso da época em que o filme se passa, sempre uma característica dos filmes de Spielberg: o espectador fica imerso nas imagens. Por outro lado, essas imagens parecem apresentar os personagens a certa distância, em que nunca ganham a verdadeira importância. O roteiro, assinado também pelos irmãos Joel e Ethan Coen (que parecem emprestar sua assinatura a filmes históricos feitos por outros diretores, tomando como exemplo Invencível), não chega a trabalhar exatamente o terceiro ato, tornando tudo algo muito próximo de uma fantasia e não exatamente de um filme com certa legitimidade histórica. Muito tem se dito sobre o patriotismo de Ponte dos espiões: isto não é exclusividade do filme, e sim do cinema-norte-americano e não seria uma falha se tivesse um ponto de vista mais interessante. Spielberg tem uma verdadeira paixão pelo cinema e por filmar. Quando ele acredita estar mostrando algo espetacular, é seu problema: ele consegue atingir este limite quando não tem essa pretensão.

Bridge of spies, EUA, 2015 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Tom Hanks, Mark Rylance, Sebastian Koch, Amy Ryan, Scott Shepherd, Alan Alda, Austin Stowell, Mikhail Gorevoy, Jesse Plemons, Dakin Matthews  Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen, Matt Charman Produção: Kristie Macosko Krieger, Marc Platt, Steven Spielberg Fotografia: Janusz Kaminski Trilha Sonora: Thomas Newman Duração: 141 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: DreamWorks SKG / Fox 2000 Pictures / Marc Platt Productions / Participant Media

Cotação 2 estrelas e meia 

Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância) (2014)

Por André Dick

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Antes de assistira Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância), é natural que se espere mais um filme superestimado, em razão do número de críticas prontas para apontar inúmeras virtudes, sobretudo numa época em que muitos filmes são lançados com o objetivo de participar de alguma premiação. O mexicano Alejandro González Iñárritu é um diretor que agradava à Academia de Hollywood, depois das indicações de 21 gramas e Babel, mas não havia lidado até agora com um material que não envolvesse um drama caracterizado até mesmo pela tragédia, como vimos em Biutiful, na interpretação de Javier Bardem. Com a colaboração do fotógrafo Emmanuel Lubezki (Gravidade e dos filmes mais recentes de Terrence Malick), ele provoca uma espécie de deslocamento em sua carreira, mesmo que não se afaste completamente de características da sua trajetória, e consegue apresentar Birdman como se fosse um único plano-sequência, mostrando os ensaios de uma peça teatral adaptada de Raymond Carver, no Teatro St. James de Nova York.
Esta peça tem à frente da adaptação e do elenco o ex-ator de sucessos de Hollywood Riggan Thomson (Michael Keaton), que interpretava o super-herói Birdman até 1992 (como o próprio Keaton quando fez Batman) e deixou de fazê-lo no terceiro filme da franquia. Longe dos holofotes, Thomson está em conflito com alguns integrantes do elenco, como Mike Shiner (Edward Norton), e sua tentativa de estabelecer um relacionamento com a filha, Sam (Emma Stone), enquanto tenta lidar com a ex-mulher, Sylvia (Amy Ryan). Ele ainda precisa buscar o equilíbrio na relação com duas atrizes: Lesley (Naomi Watts) e Laura (Andrea Riseborough), mas ainda enfrenta o pior: a voz de Birdman – que lembra tanto a de Batman quanto a de Beetlejuice – em sua mente, ditando o que deve fazer. A questão é se seus poderes o ajudarão a se livrar de um ator que está jogando a peça para baixo.
Um dos componentes mais interessantes de Birdman é justamente ser um filme que mostra uma peça teatral baseada em “Do que falamos quando falamos de amor”, de Carver, em que temos alguns temas suscitados ao longo de sua história: a relação problemática entre o homem e a mulher e, sobretudo, a vida como um limite tênue com o desespero e a busca pela personalidade. No entanto, a obra de Iñárritu não se sustenta apenas por ser um filme de referências e autorreferências, ainda que uma conversa no início remeta a Roland Barthes, um dos teóricos da metalinguagem.

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Misturando o movimento nos bastidores da peça e os arredores do teatro, na Times Square, as tomadas de Lubezki conseguem envolver o espectador numa atmosfera ao mesmo tempo familiar e enigmática, e o uso de luzes nos bastidores e no palco desempenha quase um elemento narrativo, principalmente porque algumas luzes representam situações ou sensações dos personagens. Não há muitos filmes, como Birdman, que apresentem a sensação de estarmos num teatro e na vida real (A viagem do Capitão Tornado, filme italiano de Ettore Scola, e Sinédoque, Nova York podem ser mais lembrados). Ele talvez soasse pretensioso, mas não é sentido desta maneira: Birdman consegue unir vida “real” e teatro de uma maneira criativa, por meio do plano-sequência adotado por Iñárritu, intercalado pelos solos de bateria e das trocas de roupa, maquiagem e uso de perucas de Riggan.
Diante de críticas a este estilo de filmagem, pode-se imaginar se há uma espécie de surpresa em relação a ele e Lubezki terem conseguido, por efeitos especiais, essa ilusão, ou imperícia crítica de acreditar que ele existe apenas para uma espécie de enfeite: a sensação é de que Birdman tenta costurar aquele ambiente teatral que havia nos filmes de Robert Altman, sobretudo um filme bastante esquecido de 1976, Oeste selvagem, em que Paul Newman interpretava Buffalo Bill e o fazia como se estivesse em um teatro ao ar livre.
Para dar a impressão de acompanharmos os movimentos dos bastidores, da peça e da vida “real” de cada personagem, Iñárritu filma longas sequências com diálogos, obtendo um sentido de continuidade e de variações de cada um e os duplos de cada personagem, nos bastidores e à frente do público. Trabalha-se com os duplos a todo instante, não apenas dentro da narrativa apresentada, como também em relação a outras obras, numa sucessão de piadas culturais, mesmo que possam ser vistas como descartáveis: enquanto Keaton já foi Batman, Norton atuou como Hulk, mas substancialmente, e isso se relaciona com a questão da duplicidade de Riggan, esteve em Clube da luta (também evocado em determinada sequência), enquanto Naomi Watts homenageia Cidade dos sonhos e seu papel no King Kong de Peter Jackson, como atriz selecionada por Jack Black. Por sua vez, Emma já fez par com Ryan Gosling, a quem o personagem de Norton se compara em Birdman, em dois filmes. Nesse sentido, esses atores não estão desempenhando apenas personagens, como também satirizando a própria carreira, além de remeterem às inúmeras histórias de outro livro de Carver, este adaptado para o cinema, pelo próprio Altman: Short Cuts – Cenas da vida.

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Lembrando-se que o cineasta turco Nuri Bilge Ceylan filma diálogos de 15 a 20 minutos em Winter sleep, vendedor em Cannes no ano passado, tendo como personagem central um ex-ator, Iñárritu emprega um filme que parece não ter cortes e onde tudo deve ser ensaiado, mas que quase nunca resulta no que se ensaiou. As conversas entre Riggan e seu agente, Jake (Zach Galifianakis), são divertidas porque justamente abordam essa linha de abordagem – os imprevistos da montagem teatral -, enquanto a atriz Lesley tenta obter seu primeiro sucesso na Broadway e não raramente costura algumas brigas nos bastidores, mesmo tentando, em seguida, a reconciliação. E Shiner se torna o principal ponto de provocação para Riggan, pois atrai o público para as bilheterias, a principal lembrança guardada pelo ex-Birdman dos tempos de fama e seu calcanhar de Aquiles.
Num instante em que Keaton entra num estabelecimento tomado de luzes aparentemente natalinas, mas no formato de pimentas mexicanas, Birdman também tenta voar como Enter the void, de Gaspar Noé. O espectador sente a profundidade dos ambientes, embora haja a opção, na maior parte do tempo, do diretor e de Lubezki pelos closes. É muito interessante a cena em que Keaton precisa enfrentar o Times Square (está no trailer) e as pessoas na multidão fazem comentários sobre seu estado físico ou querendo aparecer com ele em câmeras de celulares. Trata-se de uma sequência que poderia ser previsível, com sua evidente sátira ao show business, mas recebe um tratamento tão interessante por Iñárritu e Lubezki, como apoio de Keaton, que se torna quase uma síntese da narrativa. Do mesmo modo quando os personagens entram e saem do teatro como se fôssemos conhecendo diferentes níveis de consciência de cada um, sobretudo nos encontros entre Sam e Shiner no alto do teatro, de onde se pode ver a Broadway. Se, por um lado, Birdman é uma ode ao mundo do teatro e das múltiplas interpretações, ele também é um palco aberto para figuras bastante solitárias, com seus dramas de rotina.

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É a solidão de Riggan que se torna o diálogo perfeito para O fantasma da ópera, que aparece em propagandas, na Broadway, pois o personagem de Keaton não deixa de habitar os bastidores e sua persona dupla não deixa de ser um fantasma do seu eu, sobretudo por sua tentativa de conviver com as mulheres ao redor que, como aparece na peça de Carver, o abandonam ou se afastam por seu comportamento ambíguo. No entanto, é um fantasma menos taciturno, e algumas falas dele com uma crítica de teatro, Tabitha Dickinson (Lindsay Duncan), são bastante engraçadas, à medida que o desabafo se torna uma metalinguagem descompromissada. Como grande diretor de atores,  Iñárritu extrai de Keaton uma excelente interpretação (no ano passado, ele já estava bem no mais recente RoboCop), assim como do elenco coadjuvante, cumprindo à risca as mudanças de tom e direcionamentos (com destaque para os ótimos Norton, Watts e Stone) e se o filme tem um problema é não dar um desfecho à altura para cada um dos personagens.
Por meio da figura de Dickinson, Iñárritu faz, com certeza, algumas provocações pessoais ao universo da crítica, assim como leva Keaton também a falar contra quem o vê apenas como Batman, e ainda sobram referências cômicas a atores que fazem super-heróis, além da sátira às redes sociais (pela qual Jason Reitman pagou por todos em Homens, mulheres e filhos). Destacado por seu visual atrativo, Birdman é uma mescla entre estilo e substância e torna-se melhor quando o espectador se surpreende com a mudança de ambientes, mesmo dentro de um mesmo espaço, ou de situações, sempre com o ritmo de um ator que precisa jogar suas falas para a plateia de uma peça, com o calor das luzes do teatro St. James chegando também ao espectador. Há emoção nele, traduzida pelo elenco com interesse e, ainda que em seu plano mais emocional tenha elementos claros de outros filmes (como Cisne negro Asas da liberdade), é uma peça muito calibrada de cinema. Mesmo o final, aparentemente rápido demais, é capaz de estabelecer a passagem da natureza interna para a externa que o cineasta deseja mostrar, formando, com seu elenco estelar, um filme estranhamente de arte sem deixar de lembrar Hollywood. Uma obra sobre a própria vida e os clichês que costumam movimentá-la, mas não sem emoção, por meio da representação e do desejo de nunca ser o mesmo.

Birdman or (The unexpected virtue of ignorance), EUA, 2014 Diretor: Alejandro González Iñárritu Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Alexander Dinelaris, Armando Bo, Nicolás Giacobone Elenco: Michael Keaton, Edward Norton, Emma Stone, Zach Galifianakis, Naomi Watts, Andrea Riseborough, Amy Ryan, Lindsay Duncan Fotografia: Emmanuel Lubezki Trilha Sonora: Antonio Sánchez Produção: Alejandro González Iñárritu, Arnon Milchan, James W. Skotchdopole, John Lesher Duração: 119 min. Distribuidora: Fox Film do Brasil Estúdio: Fox Searchlight Pictures / Regency Enterprises / Worldview Entertainment

Cotação 5 estrelas