Ferrugem e osso (2012)

Por André Dick

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Uma das grandes surpresas do Oscar neste ano foi a não indicação ao prêmio de Marion Cotillard por Ferrugem e osso, lembrada, no entanto, pelo Globo de Ouro (assim como o filme, na categoria de produções estrangeiras). Depois de vencer o prêmio por Piaf, ela se destacou em outros filmes, como no belo Meia-noite em Paris, e participou do desfecho da trilogia do Batman de Nolan, com um papel deslocado, pelo menos para sua importância. Em Ferrugem e osso, ela volta a mostrar que se trata de uma das grandes atrizes surgidas nos últimos vinte anos, capaz de sustentar um filme.
No entanto, ela não está sozinha: temos o diretor Jacques Audiard e o ator Matthias Schoenaerts, apoiados num roteiro que parece banal, mas consegue, aos poucos, transformar-se numa referência para a complexidade dos relacionamentos e da transição de fases na vida de alguns personagens. Neste sentido, o filme mostra como a França tem produzido, como ao longo de sua história, obras originais e, quando afastadas da metalinguagem, verdadeiramente densas. Como Stéphanie, uma treinadora de orcas para um show aquático – nos moldes da Disney –, ao som de Katy Perry, Cottilard desenvolve nuances memoráveis (a partir daqui, spoilers). A personagem conhece um segurança de boate, Ali (Matthias Schoenaerts), que mora com o filho, Sam (Armand Verdure), na casa da irmã, Anna (Corinne Masiero), cuja única distração pode ser um aquário com poucos peixes na sala, depois de uma briga, e sofre um acidente numa de suas apresentações, precisando amputar parte de suas pernas. Passando por uma transformação completa por conta disso, a primeira pessoa de que ela lembra no novo momento é justamente Ali. O momento em que ela reencontra o personagem, e ele a leva para a praia, a fim de nadarem, é não apenas lírico no sentido da fotografia de Stéphane Fontaine e da trilha sonora (mais uma vez acertada) de Alexandre Desplat, mas carregado de sensações: o encontro dela com a água, onde se deu o acidente transformador, e, ao mesmo tempo, a calmaria da areia, com o personagem de Ali segurando Stéphanie em seus braços, é calculadamente emocional.

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A partir daí, ambos se transformam não apenas em amigos, mas passam, numa espécie de consentimento mútuo, a ter relações sexuais. O diretor Audiard desenha a narrativa de forma muito detalhista e simples, sem pesar demais nas frustrações dos personagens diante da realidade – Ali passa a trabalhar como segurança de supermercados –, evitando, com isso, esconder o peso que enfrentam. Ali irá seguir por um caminho em que o corpo é justificado para se obter cicatrizes e machucados em troca de dinheiro. A questão é que não sabemos se o segurança terá interesse em assumir a relação com Stéphanie, ou abandoná-la, como faz com quase todos que encontra.
Audiard explora muito bem esta estrutura básica de roteiro, nunca deixando os personagens completamente indispostos com seus caminhos. A domadora precisa voltar ao parque aquático para reencontrar a baleia no momento da sua vida em que ela se reconcilia com as sensações do seu corpo. É como se a baleia, que causou a sua dor presente, também fizesse parte do passado que, pelas suas pernas, não será recuperado. No entanto, Audiard mostra justamente que, ao se ver como no reflexo do parque aquático, a personagem está se vendo, também direcionando a baleia para o outro lado de sua vida. E, com discreção interessante, o diretor consegue estabelecer, por meio de Stéphanie, a necessidade de que a relação com Ali não se baseie apenas no instinto, ou na necessidade de preservar as sensações do corpo, mas também na proximidade não forçada por torpedos.

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Ferrugem e osso consegue, desse modo, lidando com vários elementos ao mesmo tempo, desde a sensação de perda e de reencontro, vincular o espectador de modo decisivo à trama. Que Cotillard se mostre uma atriz magnífica, em seus gestos contidos, no embate com o eu, desde o acidente, quando está na cama, também com o vazio do apartamento, interrompido por poucas visitas, é mais do que notável. Com Hawkes, em As sessões, ela consegue – também com a ajuda de efeitos especiais, que lembram aqueles utilizados em Gary Sinise, de Forrest Gump – compor um personagem que se mostra, a todo instante, desprovido de qualquer afetação. Se no início ela seduz Ali, em determinada altura ela reflete que não sabe mais o que seria a sensação da conquista. Impelida a falar mais por Ali, Stéphanie entende que a repressão e a angústia da completa mudança podem ficar resignadas apenas por um gesto de delicadeza (palavra que ela soletra para convencer Ali a agir de modo diferente). É justamente esta delicadeza e não a violência que move este belíssimo Ferrugem e osso para um lugar em que os personagens estão sempre cercados pela água e pelo contato seco com o corpo. É a água que pode conceder uma recuperação como pode abalar e congelar o corpo. Lutar contra a água é justamente o que fazem Stéphanie e Ali durante o filme de Audiard, e demonstrar que com ela se pode também limpar as feridas de uma briga. Na água, tanto os raios de sol podem criar uma sensação de sossego, como também manchas de sangue podem anunciar uma queda.
O diretor de Ferrugem e osso, por uma série de imagens à deriva, consegue delinear essa atração estranha entre os personagens. Ali  parece não querer aumentar sua família nem se estruturar, de fato, numa casa. Stéphanie tem, no entanto, o intuito de conseguir segurá-lo. Quando ela resolve tatuar na perna Direita, que é o movimento que indica à baleia no parque aquático, é como se ela precisasse também se direcionar para a margem, parecendo sufocada a maior parte do tempo por seus próprios sonhos interligados com a realidade. Ela avisa Ali de que ele pode se machucar ao insistir no que pretende realizar em sua vida; ele diz que ela não pode dizer isso depois do que aconteceu com ela. A larga esperança que cada um vê no outro é, na verdade, a expectativa de que não se repita o que pode ser perdido: a partir do momento em que ela se segura nos ombros dele, Ferrugem e osso mostra a fusão entre duas pessoas, o complemento que faltava para que possam caminhar.

De Rouille et D’os/ Rust and Bone, FRA/BEL, 2012 Diretor: Jacques Audiard Elenco: Marion Cotillard, Matthias Schoenaerts, Armand Verdure, Céline Sallette, Corinne Masiero Produção: Jacques Audiard, Martine Cassinelli, Pascal Caucheteux Roteiro: Jacques Audiard, Thomas Bidegain Fotografia: Stéphane Fontaine Trilha Sonora: Alexandre Desplat Duração: 120 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Why Not Productions / France 2 Cinéma / Les Films du Fleuve / Radio Télévision Belge Francophone (RTBF) / Lumière Pictures / Canal+ / Ciné+ / France Télévision / Centre National de la Cinématographie (CNC) / Vlaams Audiovisueel Fonds / Région Provence-Alpes-Côte d’Azur / Casa Kafka Pictures Movie Tax Shelter Empowered by Dexia / Département des Alpes-Maritimes / VOO / Page 114 / Lunanime

Cotação 4 estrelas e meia

A hora mais escura (2012)

Por André Dick

A hora mais escura.Filme.Jessica Chastain

Antes de Guerra ao terror, que lhe rendeu o Oscar de melhor diretora e o de melhor filme, a cineasta Kathryn Bigelow nunca havia recebido grande atenção, mesmo tendo uma obra de terror comentada nos anos 80 (Quando chega a escuridão) e outra de ação no início dos anos 90 (Caçadores de emoções). A sua competência como diretora começou a ser reconhecida sobretudo por lidar com um sentimento norte-americano que passou a vigorar depois do terrível atentado às duas torres do World Trade Center, em 2001: o receio de novos ataques. Se Guerra ao terror não era um grande filme, era de se esperar que A hora mais escura viesse no mesmo rumo, pois é quase uma continuação daquele, no sentido de ser semidocumental, embora situado dentro do universo investigativo da CIA. Este é um dos motivos pelo qual o filme vem gerando grande polêmica nos Estados Unidos. Discute-se que Bigelow e seu roteirista, Mark Boal, tiveram acesso a informações confidenciais sobre a operação militar que levou a Osama bin Laden. Associado a isso, sofrem críticas as cenas de tortura que introduzem o filme, logo depois de vozes do 11 de setembro, que lembram o documentário Fahrenheit 11/9, de Michael Moore.
É difícil assistir a essas cenas, que transcorrem, com algumas pausas, durante a primeira meia hora. Ou seja, se havia uma possibilidade de se atenuar as tentativas de descobrir onde Bin Laden estava, ela logo desaparece, para dar entrada ao torturador, Dan (Jason Clarke), capaz, mais adiante, até de compartilhar um cigarro com uma de suas vítimas, Ammar (Reda Kateb, em interpretação impressionante). A maneira como Bigelow filma essas sequências, alternando a escuridão do ambiente, com a luz da porta que se abre, ou do teto, e mesmo das luzes acesas no rosto do torturado, conduzem o espectador a um universo que não gostaria certamente de conhecer – universo repleto de black sites, tendo num deles jaulas de prisioneiros dividindo espaço com uma de macacos.
Dito isso, A hora mais escura, embora em nenhum momento se constitua em diversão de Hollywood, não se concentra em tais cenas – mais um retrato desalentador dos fatos do que uma condescendência –, preferindo mostrar os passos da agente Maya (Jessica Chastain) atrás do homem que pode ser o informante de Bin Laden. Ela chega a um escritório coordenado por Joseph Bradley (Kyle Chandler, parecendo fazer quase o mesmo papel de Argo) e faz amizade com Jessica (Jennifer Ehle, parecida com Meryl Streep, mais jovem), sendo assessorada também por Jack (Harold Perrineau). Maya assiste às primeiras cenas de tortura incólume, inclusive pesquisando-as em seu escritório, e mais adiante participa diretamente de outra. Com isso, Bigelow tem a pretensão de considerá-la como parte direta daquele universo, no sentido de tomada de ações, fator para que o filme se torne mais real. A hora mais escura é também a hora da personagem: ela não coloca obstáculos para sua perseguição ter êxito. Do mesmo modo, ela é identificada por Bradley como “assassina”, quando Dan diz que ela parece muito nova para a função. Para Maya, os obstáculos são os outros, e talvez esta parte seja a menos verossímil de A hora mais escura. Sabe-se da tentativa, por anos, de se encontrar Bin Laden, mas no filme, em muitos momentos, tem-se a impressão de que Maya estava agindo quase sozinha, ou assessorada por poucas pessoas, além de receber a desconfiança de um superior decisivo – Leon Panetta (James Gandolfini) – e de George (Mark Strong), diretor de divisão da CIA, para que a ação tenha uma finalidade. De certa forma, esta escolha pela descontextualização atinge a questão ligada aos árabes. A política nunca é suscitada explicitamente, permanecendo nas entrelinhas, assim como a tensão real pode não se dissipar simplesmente com o fato de haver o intermédio de um Lamborguini.

A hora mais escura.Jessica Chastain.Filme 2

A hora mais escura.Imagem.Filme

De qualquer modo, seja pela captura de imagens, por meio da fotografia notável de Greig Fraser, Bigelow nunca faz a narrativa descansar. Ela mostra alguns atentados ocorridos desde o 11 de setembro com realismo, mesclando-os com imagens reais. Ou seja, aqui a Guerra ao terror se espalha justificadamente pelo mundo (e temos locações na Polônia, no Paquistão, no Iraque, na Inglaterra). As tomadas do filme são impressionantes, sobretudo quando a câmera é colocada à distância de pontos-chave, mostrando um céu azul que cria uma ligação com as cores das frutas de beira de estrada, no momento da procura ao esconderijo de Bin Laden, mas contrasta com tudo que cerca a narrativa. Nesse sentido, temos o centro de observação da casa onde Bin Laden estaria escondido com a mesma estrutura de uma equipe de observação de alguma pesquisa espacial, com o objetivo de colher detalhes, a fim de se ter um olhar mais adequado sobre a ação a ser desencadeada e sobre desvendar o que realmente abriga o local, no entanto já sem nenhuma sensação de conquista. Tudo vai da imensidão dos cenários e do barulho das ruas à restrição e ao silêncio de salas, interrompido por chamadas telefônicas.
Por meio de uma montagem que remete a um thriller, Bigelow obtém a pressão de escritórios, reuniões, discussões, dúvidas e brigas e perseguições cegas, por exemplo, no momento da tentativa de se rastrear ligações públicas em meio a um mercado público, com a participação decisiva de dois investigadores, Larry (Édgar Ramírez) e Hakim (Fares Fares), no que é diametralmente o oposto de Argo, cuja narrativa não trazia quase nenhum conflito entre os personagens e o que havia era propositadamente calculado e pouco efetivo. Em relação a Argo, deve-se dizer também que Maya é uma representação mais próxima da realidade, por isso menos admirável se comparada à postura de Tony Mendez naquele filme, apesar, também, de suas ações serem diferentes. Nesse sentido, Argo é patriótico no sentido de que não há falhas a serem vistas, enquanto A hora mais escura mostra não apenas as falhas, a moralidade ambígua, como também a tentativa de apaziguar um sofrimento inerente a cada uma daquelas figuras que o filme mostra de forma tão realista. Do mesmo modo, enquanto o filme anterior de Bigelow, Guerra ao terror, apresentava uma realidade da forma devastadora possível, A hora mais escura faz o mesmo, mas com uma intensidade maior no sentido existencial – a dor do sofrimento e da perda, do conflito pressionado pela política e por ataques, poucas vezes foi registrado de maneira tão explícita.

A hora mais escura.James Gandolfini

A hora mais escura.Quadro

Isso se deve tanto à presença de um elenco memorável quanto à atuação de Jessica Chastain, atriz que apareceu em três filmes de destaque em 2011, A árvore da vida, Histórias cruzadas e O abrigo. É ela, cuja fisionomia vai da preocupação à indiferença, diante de vários acontecimentos, passando por uma espécie de maldade contida (seu olhar diante de uma explosão vista pela tela do computador), ou de indignação, quando confronta Bradley, colocando ou não o véu para esconder o rosto e se mesclar a uma cultura da qual, indiretamente, faz parte, que traz para A hora mais escura um elemento mais humano, perigoso e próximo para espectador compartilhar suas dúvidas e ressalvas sobre o que está vendo. Em meio a uma cena ao afastamento, ela apoia um All Star sobre a mesa para lembrar algo mais remoto. Mais adiante, o olhar dos fuzileiros para ela, que contrasta com sua importância para o ato final, não é diferente daquela situação que precisa vivenciar para passar despercebida. Quando ouve o elogio de um assistente de que Maya é inteligente, o chefe da CIA diz: “Todos nós somos inteligentes”. Mesmo porque a personagem age num plano em que o político, se existe, nunca revela diretamente sua influência (o filme evita mencionar os nomes de Bush e de Obama, embora se mostre a imagem de ambos pela televisão, em diferentes momentos). Não havendo o político, a sua importância, segundo Bigelow, passa a ser quase nula. Não precisamos saber seu passado, nem se ela tem uma família ou teve interesse em se casar e ter filhos: Maya é um protótipo de isolamento autoimposto, pois ela, para o filme, só possui uma finalidade, a de estabelecer a ligação entre as imagens iniciais e a perseguição capaz de conduzir a um final. E, embora sem retórica, é por meio da presença dela diante do líder da CIA, com sua sombra projetada num quadro com a bandeira norte-americana (com a qual muitos personagens, afinal, contracenam), que se constitui uma voz ausente e presente. Mesmo sendo vital para a operação, ela, na verdade, se constitui numa espécie de distância calculada das autoridades. Percebe-se, no final, que Maya está sempre surgindo da escuridão ou sendo encoberta por ela: suas ações são secretas, não podem ganhar um corpo familiar. Perguntada pela amiga se tem amigos ou namorados ou por Panetta sobre qual é seu passado, Maya entrega apenas o silêncio.
À frente das câmeras de Bigelow, Chastain consegue traduzir o que a diretora trabalha em cada sequência. Se a piada do Globo de Ouro em relação a James Cameron foi mordaz, é verdade que Bigelow conseguiu extrair de Cameron o drama pré-resolução, o nervosismo transmitido pelas hélices de um helicóptero sendo ligadas e um grupo de fuzileiros adentrando o recinto para que se constitua uma missão, ao som, aqui, de mais uma trilha sonora primorosa de Alexandre Desplat. E, ao mesmo tempo em que a última meia hora constitui uma das sequências mais elaboradas do cinema recente, com uma impressionante reconstituição dos fatos relatados superficialmente (mesmo em razão da falta de informações detalhadas) pela imprensa, ela também é das mais melancólicas – e evita, a todo custo, qualquer ação ou elemento patriótico. Neste ponto, tanto Bigelow e Chastain conseguem concentrar, na tomada final, tudo aquilo que A hora mais escura apresenta: a solidão do ser humano, sobretudo diante dos fatos e das primeiras falas ecoando no início, assim como das cenas da tortura. Como, depois disso, apagar o início? Como apagar todas as vozes? Não há como, e é justamente nesse olhar da personagem, de uma memória que persistirá, portanto nunca entrará em descanso pleno, que se baseia, a meu ver, a visão de Bigelow. Depois de tudo, a questão lançada seria o que se ganha, na verdade, com todos os acontecimentos anteriores. Se este filme excepcional deixa perguntas soltas no ar, sem querer decisivamente respondê-las, é justamente porque, como o espectador, dificilmente se conhecerá as verdadeiras respostas.

Zero dark thirty, EUA, 2012 Diretor: Kathryn Bigelow Elenco: Jessica Chastain, Mark Strong, Jennifer Ehle, Chris Pratt, Taylor Kinney, Kyle Chandler, Édgar Ramírez, Reda Kateb, Harold Perrineau, James Gandolfini, Frank Grillo, Fares Fares, Mark Duplass, Stephen Dillane, Jason Clarke Produção: Kathryn Bigelow, Mark Boal, Megan Ellison Roteiro: Mark Boal  Fotografia: Greig Fraser Trilha Sonora: Alexandre Desplat Duração: 157 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Annapurna Pictures

Cotação 5 estrelas

Argo (2012)

Por André Dick

Primeiro filme a chegar ao Brasil este ano com o nome bastante cotado para as indicações do Oscar (o recente Moonrise Kingdom, por exemplo, tem menos divulgação), Argo, de Ben Affleck, carrega, desde o início, o peso claro de querer ser um candidato ao prêmio de Hollywood. Desde o logo usado nos anos 1970-80 da Warner Bros, passando pelas imagens fotografadas de modo realista por Rodrigo Prieto, a direção de arte cuidadosa, até o elenco de coadjuvantes talentoso (como Goodman e Arkin)  e o tema polêmico, envolvendo política, Oriente Médio e religião, trata-se de uma obra com pretensão destacada. Nesse sentido, pode-se olhar Argo de duas maneiras: como uma obra que pretende ter potencial para prêmios e como um filme isolado, como outras produções, no entanto com um tema delicado. É claro que, diante de seus méritos de produção, fica difícil julgar Argo como um filme comum – ele tem uma qualidade técnica especial. No entanto, é possível avaliar que, desde seu início, com um relato histórico sobre a Revolução Iraniana sendo contado por meio de quadrinhos – para combinar certamente com a temática do filme, evocando storyboards para a criação de um filme –, Argo pretende ser um filme político (e não há filmes politizados sem pretensão clara), mas, ao mesmo tempo, ele deseja ter uma certa leveza, que o impede de ganhar densidade, ou assumir seu peso, como motivo de reflexão. A Revolução Iraniana, momento em que o filme se passa, foi desencadeada depois de Mohammad Reza Pahlavi ser deposto; em seu lugar, assumiu o aiatolá Ruhollah Khomeini. O filme inicia em novembro de 1979, mostrando a invasão da embaixada dos Estados Unidos por iranianos, em Teerã, depois de o Governo de Jimmy Carter aceitar Pahlevi para tratamento médico. Seis dos diplomatas da embaixada conseguem escapar e se refugiam na embaixada canadense, sob a proteção de Ken Taylor (Victor Garber), a fim de escaparem de um linchamento.
Affleck interpreta o agente da CIA Tony Mendez, responsável pela ideia de criar um pretenso filme, a partir de um roteiro intitulado Argo, para adentrar no Irã, à procura de locações, mas com o intuito de resgatar os diplomatas. Argo, o fictício, é uma mistura de Star Wars com Flash Gordon, e nesta parte o filme é especialmente divertido: os personagens do maquiador, John Chambers (Goodman), e do produtor, Lester Siegel (Arkin), que já surge reclamando em aparecer numa festa em sua homenagem, são bem-humorados. Porém, ao mesmo tempo, lamentavelmente unidimensionais. Eles não conseguem estabelecer uma relação efetiva com Mendez, a não ser dividir a presença em festas sociais e uma conversa à beira da piscina (à exceção de uma conversa de Mendez com Lester sobre filhos).

A viagem de Mendez para o Irã também não vai além de querer o resgate e reconhecer o mau tratamento, pois os iranianos não queriam os americanos em seu solo (no entanto, proporciona pelo menos uma sequência excelente, a passagem pelo mercado público de Teerã). Affleck, com o talento que certamente tem (também como ator, nesta sua atuação comedida, a mais discreta de sua carreira e que lembra os bons momentos de Fora de controle e Gênio indomável, ou seja, nunca foi de fato o ator simplesmente limitado que dizem), também mostra os iranianos de modo unidimensional, e preferindo revelar uma cenografia opressora em Teerã, ao contrário da ensolarada Los Angeles. Sabemos da revolta dos iranianos – os homens e as mulheres exibem armas, estão desconfiados de que os diplomatas são espiões, não desejam a ocidentalização de sua cultura –, porém não nos é dada a chance de conhecer o contexto todo – além, especificamente, da aceitação dos Estados Unidos do ditador deposto, para tratamento –, que possa estabelecer uma ponte também com o passado, além dos storyboards iniciais e do que nos informam por meio dos personagens dos diplomatas. Há uma narração inicial, algumas discussões tentando cobrir lacunas ao longo do filme, sem existir, de fato, uma tensão ou uma discussão, não no sentido planfetário, e sim cinematográfico. Não se ouve muita coisa dos envolvidos diretamente na situação; parece apenas uma cena de risco para um grupo de norte-americanos num ambiente de guerra civil, porém tudo soa superficial. Uma das raras vezes em que Affleck consegue um sentido mais amplo é quando estabelece um paralelo da realidade e da farsa que está sendo montada (no momento mais memorável do filme, e que poderia servir de esteio para todo ele).
Talvez não tenha sido o objetivo de Affleck fazer um filme não histórico ou mantido no eixo da político, que não é o papel do cinema, mas simplesmente denso, mantendo-se mais perto da diversão do que da discussão. De qualquer modo, chama a atenção como esta história fabulosa, pois aconteceu de verdade, possui diálogos que não conseguem estar à altura dos fatos, fazendo com que Affleck e Prieto se desdobrem na direção e na fotografia, apoiados numa montagem elíptica, mas nunca orgânica, baseada sobretudo em JFK (de Oliver Stone), e toda vez que querem uma certa dramaticidade, normalmente em escritórios ou salas apertadas, recorram a uma visão de Rede de intrigas (citado em certo momento) e Todos os homens do presidente. Todavia, se especialmente Stone, com suas elocubrações conspiratórias fascinantes, conseguia transportar o espectador para 1963, para o assassinato de Kennedy, Affleck está mais posicionado em transportar o espectador para a Hollywood dos anos 70-80, que foi aquela em que certamente cresceu, em que Star Wars era a fonte e todos queriam fazer um novo Han Solo e Luke Skywalker, sendo sua visão política também um pretexto para essa viagem: a idealização de um herói, pois, para ele, é isso que os Estados Unidos podem conceder, uma ilustração de storyboard num quarto com bonecos de Star Wars.

Sabe-se das polêmicas pessoais de Affleck, porém é evidente, em Argo, um ressentimento em relação à Hollywood que criticou sua imagem mais rotulada (aquele de Armageddon e Pearl Harbor). Não se trata do ressentimento de Altman em O jogador, filtrado por um humor negro, mas um tanto pessoal demais, e em doses excessivamente calculadas e que destoam. Se em Argo, em nenhum momento, existe qualquer avaliação direta sobre alguma ação dos Estados Unidos e do Irã, no sentido de contextualizar melhor a revolta e a invasão na embaixada, ou uma análise desse grupo ameaçado de morte sobre o contexto que levou ao acontecimento derradeiro, a crítica é toda direcionada a Hollywood, a produtores, roteiristas. Se em Armageddon Affleck, como astronauta, precisava ir ao espaço sideral com uma equipe, a fim de tentar destruir um asteroide, em Argo o povo depende dele para resgatar os americanos da embaixada canadense: “os Estados Unidos dependem de você”, diz seu chefe, Jack O’Donnell (Bryan Cranston), sem sabermos se Mendez ou Affleck gostariam de ouvir isso. Os diplomatam dependem dele para escapar. Um deles desconfia da oferta – em contrapartida, Mendez promete liberdade, mas novamente parece não haver enlace. Ele tem um vício – não consegue esconder seu desejo de álcool – e não esconde a saudade do seu filho. Ainda assim, quer soar impassível e pode tomar uma decisão sem consultar porque pode ser autossuficiente. Ele é, legitamente, um personagem talhado para personificar uma ideia e não para colocar ideias em reflexão. Por isso, não há nada de exagero nos possíveis exageros de Argo: para Affleck, os Estados Unidos representam, acima de tudo, o heroísmo (visão, portanto, unidimensional) e para ele a realidade pode ser tão fantasiosa quanto o cinema, o qual pode ser uma maneira de consertar, ou de esquececer, dependendo do ponto de vista, todos os problemas, sendo que para isso ele precisaria ser (verdadeiro) político, o que significa tentar apontar caminhos.
Nesse sentido, Argo, sem dúvida, diverte e prende a atenção como um filme de suspense, com qualidade cinematográfica de imagens, clímax bem orquestrado e reconstituição de época adequada, no entanto certamente não era seu desejo apenas isso, e sim colocar uma discussão política em cena, o que, pelo menos numa primeira leitura do filme, não nos apresenta de modo a transformá-lo num drama contundente.

Argo, EUA, 2012 Diretor: Ben Affleck Elenco: Ben Affleck, John Goodman, Taylor Schilling, Bryan Cranston, Kyle Chandler, Alan Arkin, Tate Donovan, Clea DuVall, Adrienne Barbeau, Rory Cochrane, Kerry Bishé, Richard Kind Produção: George Clooney, Grant Heslov, David Klawans Roteiro: Chris Terrio Fotografia: Rodrigo Prieto Trilha Sonora: Alexandre Desplat Duração: 120 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: GK Films / Smoke House / Warner Bros. Pictures

Cotação 3 estrelas