Pets – A vida secreta dos bichos (2016)

Por André Dick

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Sem o selo da Pixar ou da Disney, Pets – A vida secreta dos bichos conseguiu um grande feito: com orçamento de 75 milhões, ele arrecadou até agora 674 milhões de dólares. Dirigido por Chris Renaud (dos dois Meu malvado favorito e produtor executivo de Minions) e Yarrow Cheney, sua história é bastante simples: um cão terrier, Max (Louis CK) vive feliz com sua dona, Katie (Ellie Kemper), quando ela traz para casa outro cão, Duke (Eric Stonestreet), uma espécie de Chewbacca canino, pelo tamanho. No início, ele está preocupado e quer se livrar o quanto antes de seu novo companheiro, que logo ocupa sua cama. Max tem alguns vizinhos, entre os quais o gato gordo Chloe (Lake Bell), o pug Mel (Bobby Moynihan), Buddy (Hannibal Buress), um dachshund, e um canário (Tara Strong). Além disso, há Gidget (Jenny Slate), uma spitz, que decide ir atrás de Max com a ajuda de Tiberius (Albert Brooks), um falcão ameaçador, e do experiente basset Pops (Dana Carvey) quando ele desaparece e a história adquire um ritmo ininterrupto, tendo ainda como figura um coelho excêntrico, Snowball (Kevin Hart). Este coelho deseja liderar uma revolução dos animais contra a humanidade. Nesse sentido, de brincar com os humanos e com a vida “pessoal” dos animais, o roteiro de Cinco Paul, Ken Daurio e Brian Lynch é trabalhado.

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Se ele parece simples e as ideias adquirem um ar de sessão da tarde, Pets nunca deixa de ser interessante ao longo de sua curta-metragem (pouco mais de 80 minutos), com uma sucessão de gags, sobretudo na meia hora inicial, mostrando o comportamento dos animais quando seus donos saem (o que já aparecia no trailer irresistível do filme), assim como desenvoltura em sua ação. Recentemente, em se tratando de animais, tivemos o excelente Zootopia, a terceira parte interessantíssima de Kung-fu panda, a memorável refilmagem de Mogli – O menino lobo e também o quinto e não tão bem-sucedido A era do gelo: o Big Bang. Mais do que esses filmes, porém, o de Renaud e Cheney tem algo que se aproxima de experimentos antigos, como Aristogatas, 101 dálmatas, Bernardo e Bianca, A ratinha valente, Fievel – Um conto americano e Todos os cães merecem o céu, esses três últimos de Don Bluth, animador de grande destaque dos anos 80. Há também uma proximidade particular com o primeiro Rio, de Carlos Saldanha, que unia aves e cães pelas ruas da cidade brasileira.
O êxito do trabalho de voz, num elenco que inclui grandes astros, a começar por Louis C.K., fazendo uma boa performance como Max, e Jenny Slate (que já fez este ano a voz da vice-prefeita ovelha de Zootopia, com a mesma competência mostrada aqui), e vai até o quase esquecido Dana Carvey (de Quanto mais idiota melhor), culmina nas participações indispensáveis do engraçado Kevin Hart, como um vilão absurdo e imprevisível, e de Albert Brooks (antigo comediante, mais lembrado ultimamente por sua presença, por exemplo, como o vilão de Drive).

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Pets apenas aparentemente é um desenho sem créditos como de grande estúdio (uma vez que a Illumination Entertainment/Universal não é tão reconhecida por animações), pois, além do trabalho de vozes, possui um trabalho de cores muito vivo e detalhes técnicos irrepreensíveis, como a trilha sonora excepcional de Alexandre Desplat, o habitual colaborador de Wes Anderson e responsável por dezenas de trilhas de qualidade nos últimos anos, apresentando uma atmosfera de Nova York, em que se passa a história, e que por vezes remete a Woody Allen.
Nem só de leveza é feito o desenho, no entanto. Snowball, o coelho, leva Max e Duck a uma visita aos esgotos da cidade, em momentos nos quais Pets se sente quase um ambiente para as marionetes de Frank Oz em O cristal encantado, com um ar verdadeiro de ameaça, mesmo que a graça prevaleça. E pode-se ficar feliz que, mesmo não sendo da Pixar ou da Disney, este desenho tenha sido bem recebido, não apenas pela qualidade como por sua homenagem a Grease – Nos tempos da brilhantina, com “We Go Together”. E se sente uma real emoção em alguns dos momentos que tratam da amizade entre os humanos e animais e entre esses, a começar por Max e Duke, tanto em relação à dona quanto a um antigo dono do segundo. Se existe um problema nessa amizade é o pouco tempo que Renaud e Cheney se dispõem a apresentá-la, levando em conta possivelmente futuras sequências (que, pela bilheteria espetacular do filme, estão garantidas). Pela voz especialmente simpática de Louis CK, Max é ótimo.

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Ao mesmo tempo, há um delicado trabalho da imagem da cidade, não apenas de Nova York e Manhattan, como também de algo que remete a “Avenida Dropsie”, de Will Eisner, misturando, aqui, passado (a noite) e futurismo (o cenário diurno), utilizando muito bem a arquitetura dos prédios para dar mobilidade aos personagens e à ação, com uma certa lembrança nas imagens de Ninguém segura este bebê, comédia produzida por John Hughes nos anos 90, quando eles saltam de um prédio para o outro. Há uma real vontade de mostrar os parques, os barcos que partem para Manhattan e como os animais poderiam se inserir nesse cenário, assim como a solidão da metrópole, em que os humanos se ausentam durante o dia, para regressarem às suas casas apenas à noite – e o filme dificilmente os mostra. O engraçado justamente é que os animais parecem viver em torno deles quando possuem uma vida agitada por si própria. De maneira geral, Pets é uma animação descontraída e uma moderada surpresa, apesar de seu trailer ter sido muito efetivo para seu sucesso e reservar alguns de seus melhores momentos.

P.S.: Antes de Pets, há um curta-metragem, “Mower Minions”, de Bruno Chauffard e Glenn McCoy. Particularmente, não acrescenta muito e não apaga a decepção que já havia sido o longa-metragem deles.

Pets, EUA, 2016 Direção: Chris Renaud, Yarrow Cheney Elenco: Louis CK, Eric Stonestreet, Kevin Hart, Jenny Slate, Ellie Kemper, Albert Brooks, Lake Bell, Bobby Moynihan, Hannibal Buress, Dana Carvey, Albert Brooks, Bobby Moynihan Roteiro: Brian Lynch, Cinco Paul, Ken Daurio Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Christopher Meledandri, Janet Healy Duração: 87 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: Illumination Entertainment / Universal Pictures

Cotação 3 estrelas e meia

O ano mais violento (2014)

Por André Dick

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Depois da surpreendente estreia em Margin Call, pelo qual foi indicado ao Oscar de melhor roteiro original, J.C. Chandor dirigiu o tour de force de Robert Redford, Até o fim, sobre um homem perdido em alto-mar. Por esses dois filmes Chandor colecionou um grupo expressivo de admiradores, que não está tão presente, no entanto, na recepção de O ano mais violento. Lançado sem alarde no final do ano passado, visando a ser indicado ao Oscar, acabou, como uma boa produção independente sem rótulos, sendo esquecido pela premiação.
Sua história, num roteiro novamente de Chandor, é significativa do período que enfoca: a Nova York de 1981, considerado exatamente o ano mais violento da história de Nova York. O espectador acompanha Abel Morales (Oscar Isaac), de origem colombiana, proprietário da Standard Oil, uma empresa da área de combustíveis. O negócio necessita do transporte de caminhões e vem sendo prejudicado por criminosos, muito em razão do êxito que conquistou em apenas cinco anos de existência, despertando a aversão de alguns concorrentes do ramo. Um de seus motoristas, Julian (Elyes Gabel) é surrado por esses bandidos e vai parar no hospital. Ao mesmo tempo, a empresa está sendo investigada pelo promotor Lawrence (David Oyelowo), que está atrás de negócios ilícitos de Morales. Ele conta com o advogado Andrew Walsh (Albert Brooks) e é casado com Anna (Jessica Chastain), que aplica conselhos de como se deve lidar com a situação. E Morales também está em meio a um negócio de compra de terminal de combustível com Josef Mendellsohn (Jerry Adler) no East River, que terá à disposição a condução do petróleo por barcos, o que facilitará seu serviço. No entanto, não parece que todos estão satisfeitos com o negócio: o que Morales precisa enfrentar é claramente todas as forças que se reúnem para que seu negócio fique estagnado e não consiga ganhar a projeção que pretende.

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O ano mais violento, no entanto, não se fixa nesta trama de negócios, no que vem a ganhar um aspecto de thriller. Abel e Anna estão se mudando com as crianças para uma nova casa e começam a surgir acontecimentos estranhos, inexplicáveis, que podem justamente envolver os negócios de Morales. Como um diretor capaz de sutilezas – e Até o fim, mesmo sendo um projeto falho tinha essa qualidade –, Chandor concentra tudo nessa indefinição de caminhos dos Morales: enquanto Abel parece uma pessoa predisposta a seguir os caminhos para um crescimento justo na área de negócios, Anna dá a impressão de que se deve fazer de tudo para enfrentar os inimigos; enquanto Morales é contra os funcionários passarem a usar armas, a fim de enfrentar os bandidos, ela é a favor, e acha que isso faz parte do negócio. Ela é filha de um mafioso do qual Abel comprou a empresa – e tem como referencial justamente o caminho paterno; tudo pode ser resolvido dentro do combinado, no entanto pode incluir ameaças.
Chandor não visualiza os criminosos de maneira clara, colocando os personagens em cenários ou escuros ou iluminados por um sol laranja, de outono, ou quase inverno, quando inevitavelmente a história de O ano mais violento alcança seus pontos mais delicados. Tudo é visualizado com uma certa estética cuidadosa, inclusive no uso dos figurinos dos Morales. Mas essa delicadeza visual não incorpora apenas no uso das roupas ou dos cabelos, como também em sequências-chave para o efetivo sucesso do filme como um thriller dramático que, situado no início dos anos 80, traz o melhor do cinema dos anos 70, e temos aqui vastas homenagens a Alan J. Pakula, a Sidney Lumet, a Maratona da morte e, na fotografia, à atmosfera da saga O poderoso chefão, de Coppola.

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No papel de Morales, Isaac tem sido comparado ao Al Pacino dos anos 70, e não há dúvida de que a proximidade diz muito sobre sua atuação: depois de, ano passado, ter sido elogiado com Inside Llewyn Davis, nada indicava uma atuação de Isaac tão concentrada. Ele já havia feito um bom papel em Drive, mas em O ano mais violento ele atinge uma grande atuação, de raros atores. Ele alterna o comportamento de Al Pacino em filmes do seu início de carreira com uma empatia baseada num certo afastamento da realidade que não afasta sua presença de um grande encontro com o personagem. Em meio ao suspense em que se envolve o personagem de Abel, Chandor costura algumas sequências de tensão forte, envolvendo o promotor, quando ele chega para interpelá-lo em meio a uma festa de aniversário, mas principalmente o personagem de Julian, num determinado momento, na ponte de Queensboro.
Com uma tensão que inexiste naqueles trabalhos em que se baseou, principalmente dos superestimados Serpico, de Lumet, e Caminhos perigosos, de Scorsese, Chandor acerta no tom dado ao personagem, que se situa entre a vontade de levar seu negócio adiante, como se incorporasse o sonho americano, e voltar atrás e proteger sua família, de preferência sem tomar exatamente o caminho indicado por Anna. E esta é a incorporação feminina como tentativa de dominar o homem a fazer o que se deve fazer sem olhar para trás. Que Anna seja mais uma elaboração irretocável de Jessica Chastain não é surpresa. Nesse momento, no entanto, Chandor nunca esclarece se Abel é um personagem totalmente isento de culpa, ou se ele interpreta um personagem para não ser visto como um gângster. Esta talvez seja a escolha mais acertada do diretor, que em Margin Call mostrava o universo da Bolsa de Valores e em Até o fim o símbolo da solidão contra todos os fatos contrários trazidos pela natureza: Morales é a junção do sonho americano com a necessidade de se fazer respeitado num meio que pode conceder bastante espaço ao perigo e à ameaça familiar. A maneira como ele divide a cena com Anna aponta para esta dualidade e este complemento.

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Esta conjunção de personagens se acentua ainda mais com a fotografia notável de Bradford Young, que registra uma espécie de Nova York numa estação outonal, em que o laranja do sol se mistura ao branco de uma neve inesperada, assim como a própria composição desses personagens. E, dentro de uma estação que pode ser visto como tranquila, o destino pode selar outro caminho também. Nisso, Chandor consegue retrabalhar, ainda mais do que os cineastas em que se inspira dos anos 70, uma necessidade de reunir o visual e a matéria dos temas que suscita em sua narrativa: tudo é elaborado minuciosamente, sem que os personagens precisem estar entoando diálogos em tom desesperado, e anexando à matéria atmosférica um duelo de personalidades e uma ambiguidade guardada em cada negócio feito. Por isso, O ano mais violento reserva espaço sobretudo para quem não se deixa por um thriller que traga as peças pré-encaixadas, sem desenvolver a faceta psicológica do que desenvolve em sua narrativa: é um filme em parte difícil, pela própria maneira de apresentar sua trama, e em parte compensador, na medida em que oferece realmente um cinema capaz de surpreender.

A most violent year, EUA, 2014 Diretor: J.C. Chandor Elenco: Oscar Isaac, Jessica Chastain, Albert Brooks, David Oyelowo, Elyes Gabel, Alessandro Nivola  Roteiro: J.C. Chandor Fotografia: Bradford Young Trilha Sonora: Alex Ebert Produção: Anna Gerb, Neal Dodson Duração: 125 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Before The Door Pictures / Washington Square Films

Cotação 4 estrelas e meia

Drive (2011)

Por André Dick

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O  ator Ryan Gosling fez três filmes de destaque em 2011: o drama Tudo pelo poder, a comédia Amor a toda prova (em que faz dupla com Steve Carell) e este Drive, um cult desde sua estreia. A interpretação de Gosling é performática como a trajetória que ele faz com o carro no início, pelo ambiente que cria e pelos movimentos de câmera do diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn (premiado no Festival de Cannes). Ela define o filme todo: não importa a ação, e sim as interrupções e a tentativa de analisar uma determinada situação com frieza; não importa o ritmo, e sim o magnetismo das imagens e da trilha sonora. É o que Drive mais oferece, mas não só. O motorista (sem nome) interpretado por Gosling atua na fuga de assaltantes à noite – com um talento raro para despistar carros da polícia e helicópteros. De dia, ele atua como dublê em filmes de ação, com uma máscara de látex para esconder seu verdadeiro rosto, e na oficina de Shannon (Bryan Cranston), a quem trata quase como pai, amigo de Bernie Rose (Albert Brooks) – ambos os atores excelentes. Com uma jaqueta dourada, tendo um escorpião às costas – um símbolo do personagem; em determinado momento, ele se refere à história da rã e do escorpião –, ele, talvez por participar de filmagens, parece ter dificuldades para ter uma personalidade própria: o palito no canto da boca e o olhar de quem guarda segredos que não podem ser ditos parecem mais clichês de justiceiros do cinema. De qualquer modo, o personagem não se torna superficial ou uma caricatura justamente por causa de Gosling, que consegue oferecer a situações cotidianas uma solidão que destoa do que faz (a caminhada pelo supermercado, por exemplo). Ele acaba se interessando pela vizinha de apartamento, Irene (Carey Mulligan), que tem um filho pequeno, Benicio (Kaden Leos). No entanto, ela aguarda seu marido, Standard Gabriel (Oscar Isaac), sair da prisão. Quando ele sai e toma de volta o lugar que estava sendo preenchido pelo motorista, já sabemos de antemão que a tranquilidade vai começar a desaparecer. No entanto, isso se dá de modo surpreendente (pois o personagem central não toma as atitudes que um personagem tomaria normalmente quando se vê prestes a ser deixado pelo interesse amoroso). Some-se o fato de o dono da oficina querer transformá-lo num piloto de corridas, apresentando-o a Bernie.

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O diretor Refn, com talento para elaborar um visual oitentista – desde os créditos, com um visual à la College (a banda que fez a canção “A real hero”, climática, que toca ao longo do filme), pela trilha sonora de Cliff Martinez, mas sobretudo em detalhes, como o xadrez vermelho no restaurante de Nino (Ron Pearlman), parceiro de negócios de Bernie,  a jaqueta do motorista e as cores intensas da passagem pelo supermercado –, traz para um clima de anos 80 um choque violento. Não sem antes passar por cafés bem iluminados, imagens de Coca-Cola ao fundo, apartamentos que parecem mais um ateliê de pintor, com iluminações detalhadas e corredores que lembram a caminhada de John Travolta e Samuel L. Jackson antes de fazerem o primeiro serviço de Pulp Fiction. Nada destoa, ou está fora de lugar. São como as ruas limpas de Los Angeles: o cenário não anuncia o aspecto caótico do filme de Refn. É como se efetuasse um salto dos anos 80 para os anos 90 de Tarantino e Pulp Fiction. No entanto, a violência de Drive é ainda mais intensa e muitas vezes se desvia o olhar da tela.
O personagem do motorista deseja uma família, o que vê em Irene e Benicio e, por ingenuidade ou não, quer ajudar Standard.  No entanto, parece que ele faz isso justamente para suprir o que lhe falta: dublê de Hollywood e comedido por natureza – na primeira hora dificilmente se vê ele dizer alguma palavra e mesmo o envolvimento com a vizinha parece muito mais idílico e platônico do que realmente interessado –, dando vazão ao personagem que representa de modo decisivo, mas acrescido de mais ação. Não por acaso, numa cena decisiva passada no elevador, ele se desloca de uma imagem romântica, idealizada por Hollywood, numa notável câmera lenta, para uma cena chocante. Para ele e os justiceiros do cinema, oferecer balas de revólver a uma criança também é imperdoável.
Se o filme se inicia numa cena de assalto e cada despiste do personagem da polícia é visto pelo espectador como um talento dele em escapar, logo o filme ingressa numa trilha sonora anos 80, que mais lembra mais os de filmes de John Hughes. Em seguida, torna-se uma espécie de drama romântico, destacando as cores de luzes fosforescentes da oficina onde o motorista trabalha; de abajures do apartamento da vizinha; até uma das cenas mais solitárias do cinema recente: a do motorista consertando uma peça de carro em sua mesa enquanto ao lado a vizinha faz uma festa para recepcionar o marido que saiu da prisão. E, finalmente, quando tudo parece se encaminhar para uma aceitação do motorista como um futuro herói de corridas, num campo pintado como tal, o filme sofre outra transgressão busca, e segue nela o restante de sua metragem – mesmo que, nessa pressa, alguns personagens fiquem prejudicados,  como os de Shannon e de Irene.  Esses contrastes são permanentes ao longo de Drive.

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Drive.Filme 5É significativa a cena, por exemplo, em que o personagem central está no sofá vendo televisão com Benicio (depois de carregá-lo pelo corredor do edifício, em cena que se complementa ao final, com sua ida a um clube, focando-o de costas) – ele pergunta ao garoto como ele sabe que o tubarão do filme que assistem é mau; e e ele diz que é porque ele “ataca pessoas” –, quando vê Irene conversando, ao telefone, com o ex-marido e sabe que aquela visão familiar pode terminar. Tudo no personagem do motorista está por um fio, mas, quando ele percebe que entrou num lugar para não conseguir voltar, é com dedicação que ele mostra seu ofício não mais de dublê, e sim de participante real de cada cena.
A cena de perseguição depois de outro assalto que acontece é notável, remetendo a outra, sem a mesma intensidade, de Instinto selvagem. Essa mistura de gêneros no mesmo filme é surpreendente, à medida que o personagem, depois de longos minutos de pausa e quase total silêncio, começa a mostrar uma espécie de desespero que se conteve durante toda sua trajetória. Gosling, nesse sentido, consegue extrair o máximo de poucas linhas de diálogo. Pouco sabemos do passado do personagem, apenas que ele chegou a Los Angeles e foi pedir emprego na mesma oficina onde trabalha (sendo ainda mais misterioso, por exemplo, do que o personagem central de Marcas da violência, que queria ser algo que nunca havia sido). E o arrependimento passa a ser o mote do filme. Ou seja, o limite até onde o personagem deve ir para que não saia do próprio clichê do cinema que representa. Ele seria um “real hero” – como diz a canção do College? Ou apenas um assassino vingativo?
Nesse ponto, esta obra de Refn se torna referencial por sua tentativa de realidade estetizada e por mostrar a confluência entre o cinema e a vida real.

Drive, EUA, 2011 Diretor: Nicolas Winding Refn Elenco: Ryan Gosling, Carey Mulligan, Bryan Cranston, Albert Brooks, Oscar Isaac, Christina Hendricks, Ron Perlman, Kaden Leos, Jeff Wolfe, James Biberi Produção: Michel Litvak, John Palermo, Marc Platt, Gigi Pritzker, Adam Siegel Roteiro: Hossein Amini Fotografia: Newton Thomas Sigel Trilha Sonora: Cliff Martinez Duração: 100 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Bold Films / Odd Lot Entertainment / Marc Platt Productions / Seed Productions / Drive Film Holdings / Motel Movies

Cotação 5 estrelas