Thor – O mundo sombrio (2013)

Por André Dick

Thor.O mundo sombrio

Em 2011, foi dado início à franquia de Thor, depois de Hulk e Homem de ferro ganharem seus filmes, não sem críticas sobretudo à adaptação feita por Ang Lee, hoje visto como um cult. O Homem de ferro de Jon Favreau não antecipava o terceiro episódio este ano, com sua tentativa de transformar o herói e se destacava sobretudo pelo humor. Já Thor recebeu a direção do especialista em Shakespeare Kenneth Branagh, que, ao mesmo tempo, equilibrou o tom trágico, de traições entre irmãos e duelos entre esses e os pais, sem esquecer de uma boa dose de humor, trazendo batalhas para o deserto do Novo México, com a presença dos agentes da SHIELD. Críticas à parte, o primeiro Thor, com sua trilha melancólica de Patrick Doyle (modificada aqui para a de Brian Tylerk), era um bom início de franquia. No início deste segundo, depois da batalha de Nova York, os roteiristas tentam explicar por que o deus nórdico não pôde visitar Jane Forster (Natalie Portman), que continua atrás dele, com a ajuda da amiga Darcy Lewis (Kat Dennings), enquanto seu amigo, Dr. Erik Selvig (Stellan Skarsgård), está com a cabeça em polvorosa depois de Loki (Tom Hiddleston) tê-lo transformado em Os vingadores.
Thor está levando seu irmão de volta a Asgard, onde será decretada sua prisão pelo pai, Odin (Anthony Hopkins), depois dos acontecimentos em Nova York, mas sempre vigiando, com a ajuda de Heidall (Idris Elba), onde está Foster, enquanto enfrenta batalhas para manter a paz dos Nove Reinos – sobretudo quando precisa encontrar um monstro de pedra gigante em meio a um cenário de início de batalha de Gladiador (antes, o filme também reserva sua porção de O senhor dos anéis). Em Londres, Foster, com a amiga Darcy, descobre um lugar que pode dar passagem a um universo que desconhece. Entra em cena o vilão do filme, Malekith (Cristopher Eccleston), o líder dos elfos negros, que está atrás do Éter (uma espécie de Tesseract deste filme), uma substância capaz de trazer as trevas se cair em mãos erradas. Ao mesmo tempo, a mãe de Thor, Frigga (Rene Russo), tenta convencer Loki a se desculpar por seus erros, mas ele não parece estar muito interessado nisso, embora preocupado com a possível prisão eterna que terá de enfrentar.

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O novo diretor, Alan Taylor (da série Game of thrones), não consegue dar de início a mesma intensidade de Branagh aos personagens, e o filme tem um problema principalmente quando assistido em 3D: as cores ficam excessivamente monocromáticas, prejudicando muitas sequências (e o 3D pouco acrescenta). Com todas suas falhas como arquiteto visual, Branagh é especialista em tirar grandes interpretações. Neste novo Thor, este elemento parece se ausentar na retomada dos personagens, que parecem se reencontrar sem nenhuma vontade: o reencontro de Thor com Jane é, sem dúvida, um daqueles mais sem esperança que o cinema mostrou num filme de super-heróis, e mesmo o emblemático Hopkins parece não acreditar numa linha sequer do que o roteiro lhe reservou, apesar de empregar certa suntuosidade em suas caminhadas e no olhar. Chris Hemsworth, por sua vez, parece deslocado pela primeira vez no início do filme, enquanto Portman ainda não conseguiu reencontrar-se com a atriz de Cisne negro, também porque o roteiro não permite, mas se ela conseguiu contracenar com Hayden Christensen em algum ponto e saiu ilesa deve ser dado a ela algum crédito. O vilão, feito por um maquiado Eccleston, vai se tornando num de seus pontos mais fracos, pois sua motivação parece mal explicada, e nunca lhe é dada a participação necessária para impor alguma espécie de ameaça – talvez porque o grande vilão da franquia seja mesmo Loki.
No entanto, acompanhado de uma coleção de efeitos especiais e direção de arte bem elaborada (embora mais noturna do que a do primeiro), Thor – O mundo sombrio reserva dois atores que também se destacaram no primeiro filme: Tom Hiddleston e Stellan Skarsgård. Hiddleston conseguiu quase roubar Meia-noite em Paris com sua participação, em meio a um grande elenco, tornou interessante, ao lado de Rachel Weisz um filme que sem os dois seria difícil de ser assistido, Amor profundo, e participa do único hiato de Cavalo de guerra que vale a pena, enquanto Skarsgård, acostumando-se a trabalhar longe de Lars von Trier, é um ator cada vez mais versátil (já no primeiro filme, ele conseguia dar consistência a algumas passagens que um ator menos experiente não aproveitaria). As participações de ambos, com a subestimada Kat Dennings – humorista conhecida, depois de O virgem de 40 anos –, e o reencontro dos personagens com a tragédia familiar, no melhor estilo introduzido por Branagh, no primeiro filme, e com um bom número de cenas em que se vê que o próprio elenco não está levando o filme tão sério, inclusive o próprio herói, trazem Thor – O mundo sombrio de volta à cena, e, quando isso acontece, pode-se esquecer a decepção em que ele ingressava.

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Quando Thor e Loki precisam tomar um rumo depois de um acontecimento familiar decisivo, o tom de conflitos ressurge, e Hemsworth e Hiddleston têm certamente uma maestria em contracenarem juntos e darem razão a boas sequências de ação e, por mais malucas as falas de Loki, elas soam verossímeis.
Nesse sentido, enquanto sua primeira metade certamente não lembra a espontaneidade do primeiro Thor, nem mesmo a agilidade narrativa que tinha na apresentação dos personagens, com a caminhada de homens vestidos de vikings num cenário de faroeste, sua segunda metade reserva excelentes momentos de ação e humor, além dessas atuações decisivas (mesmo Hopkins, em determinado momento, parece finalmente entrar no filme, mesmo que rapidamente, embora Rene Russo seja deslocada), e uma influência clara de Prometheus e o cult movie Krull, além de um bom par de cenas de ação fantásticas. O humor ressurge novamente nos conflitos de costumes entre a formalidade de Asgard e o relaxamento na Terra. Não há, claro, nenhuma grande elaboração no relacionamento entre Thor e Jane, nem a temática do conflito entre os irmãos e destes com o pai consegue atingir as mesmas notas atingidas por Branagh, mas, de certo modo, Thor O mundo sombrio consegue ser um filme que consegue lembrar uma agilidade narrativa e um certo humor mais saudável que existia nos filmes de ação das décadas passadas e que os filmes dos heróis da Marvel conseguem reviver. Em certos momentos, ele pareceu lembrar o humor involuntário de Indiana Jones e a última cruzada, em que Sean Connery e Harrison Ford estão se divertindo em cena, mais do que atuando. Num blockbuster que pretende faturar bilhões, e poderia dar privilégio às cenas de destruição, não deixa de ser uma qualidade e tanto.

Thor – The dark world, EUA, 2013 Diretor: Alan Taylor Elenco: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Anthony Hopkins, Tom Hiddleston, Christopher Eccleston, Idris Elba, Kat Dennings, Rene Russo, Stellan Skarsgård,  Zachary Levi, Chris O’Dowd Roteiro: Christopher Markus, Christopher Yost, Stephen McFeely Fotografia: Kramer Morgenthau Trilha Sonora: Brian Tyler Produção: Kevin Feige Duração: 111 min. Distribuidora: Disney Estúdio: Marvel Studios

Cotação 3 estrelas e meia