Edward mãos de tesoura (1990)

Por André Dick

Este filme é exemplo da importante contribuição de Tim Burton para o cinema, não apenas por trazer um novo estilo narrativo, em que os cenários representam as características dos personagens, mas porque consegue equilibrar sempre o elenco com uma história fabulosa. Foi assim em Os fantasmas se divertem – em que Michael Keaton era um fantasma que aterrorizava humanos –, em Batman – os cenários de Gotham City representavam a personalidade do herói – e do mesmo jeito em Edward mãos de tesoura, uma mistura de Pinóquio, O patinho feio, A bela e a fera, Batman e Os fantasmas se divertem.
Um dos melhores filmes de humor negro já feitos, este último marca o talento inicial de Tim Burton, que antes havia feito os curtas Vincent e Frankenweenie e o longa As grandes aventuras de Pee-Wee. Continua sendo seu filme mais autoral, com uma cenografia de quadrinhos, efeitos estilizados e uma maquiagem impecável, mostrando o fantasma Beetlejuice (Michael Keaton), que ajuda um casal de mortos (Alec Baldwin e Geena Davis) a tirar uma família intelectual da casa onde moravam, na nova Inglaterra. Ou seja, mesmo mortos, continuam a habitá-la. Nessa família, no entanto, há uma menina (Winona Ryder) que faz amizade com eles.

É quase um Os caça-fantasmas às avessas, sendo que a melhor piada talvez seja aquela em que a família e seus convidados são obrigados a dançar calipso. Talvez o roteiro seja irregular, assim como os atores, contudo a direção de arte é impressionante, assim como o figurino de Aggie Rodgers e a trilha de Danny Elfman, que dá o tom certo. Para um filme em que personagens deslocados se mostram tão presentes, não é de se estranhar que Burton tenha sido convidado para fazer o primeiro Batman e tenha criado Edward – assim como inseriu Pee Wee numa espécie de Disneylândia pessoal, com sua profusão de cores e invenções cotidianas.
Edward (Johnny Depp) é uma criação do cientista que o deixou num castelo abandonado, tendo morrido antes de conceder-lhe mãos humanas (feito por Vincent Price). Descoberto por uma vendedora de cosméticos Avon, Peg Boggs (Dianne Wiest), cuja procura por clientes é assídua, sem contrapartida, ele é levado para a cidade, ou uma espécie de fragmento de subúrbio dos Estados Unidos, com casas pintadas de diferentes cores, como se separadas do ambiente gótico do castelo, quando, na verdade, parecem ser o seu complemento.

Bem recebido pela família dela, o marido Bill (Alan Arkin) e o filho Kevin (Robert Olivieri), apesar de suas mãos pouco comuns e o rosto com cicatrizes, escondidas por uma branca maquiagem, Edward se apaixona pela filha da vendedora, Kim (Winona Ryder), que fica dividida entre ele e seu namorado, Jim (Anthony Michael Hall). As coisas se complicam quando Edward passa a ser visto até como uma espécie de fetiche por algumas vizinhas da região, de forma mais destacada uma cabeleireira, Joyce (Kathy Baker) e Helen (Conchata Ferrell) e, depois de começar a ser conhecido, envolve-se em problemas juvenis.
O roteiro, escrito pelo diretor e Caroline Thompson, tem raros momentos soltos, ligando as pontas de maneira clara. Burton lida com o roteiro de uma maneira que só havia conseguido em Batman e só conseguiria repetir com semelhante êxito em A lenda do cavaleiro sem cabeça, e consegue um elenco à altura. Johnny Deep transforma Edward numa referência para sua trajetória (embora também no sentido menos adequado, às vezes se encaixando num estereótipo de estranheza), Dianne Wiest é com competência sua mãe adotiva e Winona Ryder se encaixa bem no papel de adolescente apaixonada, no início de uma década em que se destacaria. Entre os coadjuvantes, Alan Arkin aparece pouco, como Bill, casado com Peg, mas Kathy Baker está ótima como a cabelereira que manifesta interesse por Edward.

Burton utiliza uma fórmula quase gasta em passagens de apelo, mostrando uma sociedade vazia e multicolorida, como um modelo autossustentável dos anos 80, em contraste com a escuridão do início dos anos 90. Para isso, os cenários de Bo Welch e os figurinos de Collenn Atwood (parceira habitual de seus trabalhos) são essenciais, sobretudo o castelo abandonado, um primor de concepção, cheio de máquinas e plantas no jardim em formato de animais, em cenários que dialogam ainda mais com As grandes aventuras de Pee-Wee, sua estreia. Trata-se, sem dúvida, de uma fábula, bastante parecida com seu primeiro curta-metragem (que viraria longa) Frankenweenie, em que Edward é uma espécie de Frankenstein contemporâneo. De certo modo, também Edward é uma reprodução excêntrica de Bruce Wayne, e Burton havia feito Batman um ano antes para a Warner.
Nesse sentido, Burton sempre coloca seus personagens numa posição à margem, como se estivessem ilhados, sem saída. Aqueles que o cercam o principal muitas vezes querem ajudá-lo, porém em Edward mãos de tesoura essa ajuda é menos efetiva, a partir de determinado ponto. O filme de Burton, basicamente, traz uma melancolia que nenhum outro dele possui, mesmo quando pareça ter, a exemplo do superestimado Peixe grande. Além da ausência de família, característica em Edward e Bruce Wayne, do Ichabord Crane de A lenda do cavaleiro sem cabeça, ou do Barnabas de Sombras da noite, Edward mãos de tesoura coloca os símbolos de uma fábula em jogo: Kim e Jim só se diferenciam, a princípio, por uma letra, mas suas decisões tomam o rumo diferente diante de uma situação-limite, embora seja Edward que vai entender, afinal, o cão caminhando pela calçada, embora não entenda o comportamento desgovernado dos habitantes deste subúrbio tipicamente americano, em que suas tesouras servem, em determinado momento, para assar pedaços de carne para a vizinhança.

Há uma espécie de onirismo nas imagens do filme de Burton que não nos permite definir exatamente esses personagens, mesmo que eles pareçam resultado de alguma fábula, pois justamente há essa solidão presente em cada passo que Edward dá (como a primeira refeição em família) e que inspiraria outras obras referenciais, como O fabuloso destino de Amélie Poulain. Edward não é simplesmente à parte do comum, mas uma representação dessas figuras que o cercam ao longo da narrativa, com todos os seus conflitos e sentido de ausência no universo. Educado com zelo por um cientista, ele pode, no entanto, ser tão perseguido e visto como uma ameaça quanto o Coringa de Nicholson. Para Burton, não há um linha definida entre as expectativas referentes a um ser humano e o encantamento por uma novidade que logo pode se converter em rotina. Burton consegue transformar Edward num personagem de notável significado quando justamente coloca a fantasia dentro da rotina: quando vemos o filme, e chegamos ao triste e melancólico teor de uma fábula, estamos diante da obra de um artista.

Edward scissorhands, EUA, 1990 Diretor: Tim Burton Elenco: Johnny Depp, Winona Ryder, Dianne Wiest, Alan Arkin, Anthony Michael Hall, Kathy Baker, Robert Oliveri, Vincent Price Roteiro: Caroline Thompson, Tim Burton Fotografia: Stefan Czapsky Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Denise Di Novi, Tim Burton Duração: 105 min. Estúdio: Twentieth Century Fox Film Corporation

Dumbo (2019)

Por André Dick

A adaptação de Dumbo em live-action segue o cronograma dos estúdios Disney de adaptações com atores ou cenários repletos de CGI das animações clássicas do estúdio. Nos últimos anos, tivemos vários sucessos nesse campo: Malévola, Cinderela, Mogli – O menino lobo, A bela e a fera e neste ano ainda serão lançados Aladdin e O rei leão. Baseado no original de 1941, um dos filmes prediletos de Walt Disney, a nova versão é dirigida por Tim Burton.
O filme começa mostrando Holt Farrier (Colin Farrell), que está voltando da Primeira Guerra Mundial para o circo Medici Bros, coordenado por Max Medici (Danny DeVito). Ele é pai viúvo de Milly (Nico Parker) e Joe (Finley Robbins) e, tendo vindo da guerra sem um braço, é contratado para cuidar de um elefante recém-nascido, com grandes orelhas, o que o torna excêntrico, chamado Dumbo. Isso desperta o interessa de um grande empresário, VA Vandevere (Michael Keaton), que deseja comprar o circo de Medici para obter a atração e levá-la para Dreamland (um equivalente de Tomorrowland), sempre ao lado de Colette Marchant (Eva Green), uma trapezista da França.

Surge também J. Griffin Remington (Alan Arkin), um grande magnata de Wall Street. O original dos anos 40 ainda se mantém como uma animação de qualidade primorosa, mas, como alguns clássicos da Disney, se sente estranhamente incompleto. Essa é a dificuldade que Burton tem, em primeiro lugar: Dumbo não comporta uma história com muitos caminhos, sendo essencialmente a história de um filhote de elefante afastado da mãe, no original com econômicos 64 minutos (pouco menos da metade da sua versão com humanos). Isso estabelece uma emoção que é captada às vezes no original, no entanto nunca trabalhada exemplarmente, como se repete aqui. E Burton se arrisca a criar camadas de diferentes personagens, o que não havia no original, restrito quase totalmente à visão do mundo dos animais (e não há aqui, especialmente, o ratinho amigo de Dumbo) e faz algumas referências curiosas a Santa Sangre, de Jodorowsky, com o auxílio do roteiro de Ehren Kruger, que escreveu Os irmãos Grimm, por exemplo.
Com a fotografia de Ben Davis, que fez trabalhos ótimos em Guardiões da galáxia e Três anúncios para um crime, substituindo Bruno Delbonnel, parceiro de Burton em suas últimas empreitadas, o ótimo e subestimado Sombras da noite e o delicado O lar das crianças peculiares, e a trilha sonora de Danny Elfman, tentando inovar nos acordes, com eficácia, Burton realiza o que pode com o material: Dumbo é uma fantasia com elementos emotivos e de valorização da família, com um personagem marginalizado, como é de praxe na trajetória do diretor, de Batman a Ed Wood e de Edward, mãos de tesoura a Willy Wonka.

Mais: Burton consegue, por meio da figura de Marchant, criar um vínculo materno não apenas dela com as crianças de Farrier, como também com o próprio Dumbo. É Eva Green, possivelmente, o melhor elo de ligação da história com o espectador, embora Farrell também esteja bem e Keaton e DeVito bastante efetivos – principalmente Keaton, parecendo interpretar Will Arnett, de Arrested development. No caso do personagem de Medici, não há como não lembrar de outra participação de DeVito na filmografia de Burton, em Peixe grande e suas histórias maravilhosas, que contém imagens expandidas aqui, sobretudo por causa da imagem do circo no imaginário.
É possível perceber, desde a imagem do trem no início, toda a carga de estilo de Burton, que leva seu filme para pontos familiares do espectador, e fazem lembrar, sobretudo, A fantástica fábrica de chocolate (a imponência de Dreamland), no entanto inicialmente o cineasta está tentando dialogar com o cinema dos anos 40, com referências a Buck Jones por meio de Holt Farrier – ambos passaram por ferimentos na guerra. Também é interessante como Burton consegue criar uma atmosfera inovadora em seu projeto utilizando uma fotografia com cores de pôr do sol, o que remete, em determinado momento, a Cinzas do paraíso, de Terrence Malick, influenciado claramente pelas pinturas de Edward Hopper. A partir do segundo ato, ele, por meio da grandiosidade, retoma um design de produção vital de Rick Heinrichs, que remete a seus projetos desde Batman – O retorno, e Vandere lembra em parte Max Schreck, vilão daquela obra. E, se há algo que aprendemos com a filmografia de Burton, é que não se pode dissociar a narrativa que ele conta da maneira como a conta: fazer isso é simplesmente subvalorizar seu olhar atento para a captura de imagens inesquecíveis, como aquelas dos animais solitários à noite, numa selva enjaulada, em contraposição a outro momento do roteiro.

Se o desenho animado dos anos 40 é muito mais ingênuo e baseado em trapalhadas dos elefantes, assim como se utiliza deles falando, a versão de Burton, como parte de sua trajetória, é mais soturna. Mais ao final, quando os personagens infelizmente ficam em segundo plano, prejudicando Farrell e Green, fica exposta essa grande diferença. O discurso de crítica contra o corporativismo soa quase sempre estranhíssimo num filme dos estúdios Disney (num momento em que compram a Fox), no entanto está de acordo com seus projetos anteriores. Aliás, é curioso que Burton, que saiu da Disney para seguir seu caminho particular nos anos 80 (com Frankenweenie e As aventuras de Pee-Wee), tenha se voltado, desde Alice no país das maravilhas, a conversar com esse imaginário e mesmo a reproduzi-lo para novas gerações. A sua diferença é basicamente autoral: quando vemos Dumbo, sabemos estar diante de uma obra de Burton. De algum modo, mesmo que não pareça, ele nunca coloca seu universo definitivamente à venda. É curioso que neste caso ele lembre essencialmente o criador da Disney.

Dumbo, EUA, 2019 Diretor: Tim Burton Elenco: Colin Farrell, Michael Keaton, Danny DeVito, Eva Green, Alan Arkin, Nico Parker, Finley Robbins Roteiro: Ehren Kruger Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Justin Springer, Ehren Kruger, Katterli Frauenfelder, Derek Frey Duração: 112 min. Estúdio: Walt Disney Pictures, Tim Burton Productions, Infinite Detective Productions, Secret Machine Entertainment Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

cotacao-3-estrelas-e-meia

 

Argo (2012)

Por André Dick

Primeiro filme a chegar ao Brasil este ano com o nome bastante cotado para as indicações do Oscar (o recente Moonrise Kingdom, por exemplo, tem menos divulgação), Argo, de Ben Affleck, carrega, desde o início, o peso claro de querer ser um candidato ao prêmio de Hollywood. Desde o logo usado nos anos 1970-80 da Warner Bros, passando pelas imagens fotografadas de modo realista por Rodrigo Prieto, a direção de arte cuidadosa, até o elenco de coadjuvantes talentoso (como Goodman e Arkin)  e o tema polêmico, envolvendo política, Oriente Médio e religião, trata-se de uma obra com pretensão destacada. Nesse sentido, pode-se olhar Argo de duas maneiras: como uma obra que pretende ter potencial para prêmios e como um filme isolado, como outras produções, no entanto com um tema delicado. É claro que, diante de seus méritos de produção, fica difícil julgar Argo como um filme comum – ele tem uma qualidade técnica especial. No entanto, é possível avaliar que, desde seu início, com um relato histórico sobre a Revolução Iraniana sendo contado por meio de quadrinhos – para combinar certamente com a temática do filme, evocando storyboards para a criação de um filme –, Argo pretende ser um filme político (e não há filmes politizados sem pretensão clara), mas, ao mesmo tempo, ele deseja ter uma certa leveza, que o impede de ganhar densidade, ou assumir seu peso, como motivo de reflexão. A Revolução Iraniana, momento em que o filme se passa, foi desencadeada depois de Mohammad Reza Pahlavi ser deposto; em seu lugar, assumiu o aiatolá Ruhollah Khomeini. O filme inicia em novembro de 1979, mostrando a invasão da embaixada dos Estados Unidos por iranianos, em Teerã, depois de o Governo de Jimmy Carter aceitar Pahlevi para tratamento médico. Seis dos diplomatas da embaixada conseguem escapar e se refugiam na embaixada canadense, sob a proteção de Ken Taylor (Victor Garber), a fim de escaparem de um linchamento.
Affleck interpreta o agente da CIA Tony Mendez, responsável pela ideia de criar um pretenso filme, a partir de um roteiro intitulado Argo, para adentrar no Irã, à procura de locações, mas com o intuito de resgatar os diplomatas. Argo, o fictício, é uma mistura de Star Wars com Flash Gordon, e nesta parte o filme é especialmente divertido: os personagens do maquiador, John Chambers (Goodman), e do produtor, Lester Siegel (Arkin), que já surge reclamando em aparecer numa festa em sua homenagem, são bem-humorados. Porém, ao mesmo tempo, lamentavelmente unidimensionais. Eles não conseguem estabelecer uma relação efetiva com Mendez, a não ser dividir a presença em festas sociais e uma conversa à beira da piscina (à exceção de uma conversa de Mendez com Lester sobre filhos).

A viagem de Mendez para o Irã também não vai além de querer o resgate e reconhecer o mau tratamento, pois os iranianos não queriam os americanos em seu solo (no entanto, proporciona pelo menos uma sequência excelente, a passagem pelo mercado público de Teerã). Affleck, com o talento que certamente tem (também como ator, nesta sua atuação comedida, a mais discreta de sua carreira e que lembra os bons momentos de Fora de controle e Gênio indomável, ou seja, nunca foi de fato o ator simplesmente limitado que dizem), também mostra os iranianos de modo unidimensional, e preferindo revelar uma cenografia opressora em Teerã, ao contrário da ensolarada Los Angeles. Sabemos da revolta dos iranianos – os homens e as mulheres exibem armas, estão desconfiados de que os diplomatas são espiões, não desejam a ocidentalização de sua cultura –, porém não nos é dada a chance de conhecer o contexto todo – além, especificamente, da aceitação dos Estados Unidos do ditador deposto, para tratamento –, que possa estabelecer uma ponte também com o passado, além dos storyboards iniciais e do que nos informam por meio dos personagens dos diplomatas. Há uma narração inicial, algumas discussões tentando cobrir lacunas ao longo do filme, sem existir, de fato, uma tensão ou uma discussão, não no sentido planfetário, e sim cinematográfico. Não se ouve muita coisa dos envolvidos diretamente na situação; parece apenas uma cena de risco para um grupo de norte-americanos num ambiente de guerra civil, porém tudo soa superficial. Uma das raras vezes em que Affleck consegue um sentido mais amplo é quando estabelece um paralelo da realidade e da farsa que está sendo montada (no momento mais memorável do filme, e que poderia servir de esteio para todo ele).
Talvez não tenha sido o objetivo de Affleck fazer um filme não histórico ou mantido no eixo da político, que não é o papel do cinema, mas simplesmente denso, mantendo-se mais perto da diversão do que da discussão. De qualquer modo, chama a atenção como esta história fabulosa, pois aconteceu de verdade, possui diálogos que não conseguem estar à altura dos fatos, fazendo com que Affleck e Prieto se desdobrem na direção e na fotografia, apoiados numa montagem elíptica, mas nunca orgânica, baseada sobretudo em JFK (de Oliver Stone), e toda vez que querem uma certa dramaticidade, normalmente em escritórios ou salas apertadas, recorram a uma visão de Rede de intrigas (citado em certo momento) e Todos os homens do presidente. Todavia, se especialmente Stone, com suas elocubrações conspiratórias fascinantes, conseguia transportar o espectador para 1963, para o assassinato de Kennedy, Affleck está mais posicionado em transportar o espectador para a Hollywood dos anos 70-80, que foi aquela em que certamente cresceu, em que Star Wars era a fonte e todos queriam fazer um novo Han Solo e Luke Skywalker, sendo sua visão política também um pretexto para essa viagem: a idealização de um herói, pois, para ele, é isso que os Estados Unidos podem conceder, uma ilustração de storyboard num quarto com bonecos de Star Wars.

Sabe-se das polêmicas pessoais de Affleck, porém é evidente, em Argo, um ressentimento em relação à Hollywood que criticou sua imagem mais rotulada (aquele de Armageddon e Pearl Harbor). Não se trata do ressentimento de Altman em O jogador, filtrado por um humor negro, mas um tanto pessoal demais, e em doses excessivamente calculadas e que destoam. Se em Argo, em nenhum momento, existe qualquer avaliação direta sobre alguma ação dos Estados Unidos e do Irã, no sentido de contextualizar melhor a revolta e a invasão na embaixada, ou uma análise desse grupo ameaçado de morte sobre o contexto que levou ao acontecimento derradeiro, a crítica é toda direcionada a Hollywood, a produtores, roteiristas. Se em Armageddon Affleck, como astronauta, precisava ir ao espaço sideral com uma equipe, a fim de tentar destruir um asteroide, em Argo o povo depende dele para resgatar os americanos da embaixada canadense: “os Estados Unidos dependem de você”, diz seu chefe, Jack O’Donnell (Bryan Cranston), sem sabermos se Mendez ou Affleck gostariam de ouvir isso. Os diplomatam dependem dele para escapar. Um deles desconfia da oferta – em contrapartida, Mendez promete liberdade, mas novamente parece não haver enlace. Ele tem um vício – não consegue esconder seu desejo de álcool – e não esconde a saudade do seu filho. Ainda assim, quer soar impassível e pode tomar uma decisão sem consultar porque pode ser autossuficiente. Ele é, legitamente, um personagem talhado para personificar uma ideia e não para colocar ideias em reflexão. Por isso, não há nada de exagero nos possíveis exageros de Argo: para Affleck, os Estados Unidos representam, acima de tudo, o heroísmo (visão, portanto, unidimensional) e para ele a realidade pode ser tão fantasiosa quanto o cinema, o qual pode ser uma maneira de consertar, ou de esquececer, dependendo do ponto de vista, todos os problemas, sendo que para isso ele precisaria ser (verdadeiro) político, o que significa tentar apontar caminhos.
Nesse sentido, Argo, sem dúvida, diverte e prende a atenção como um filme de suspense, com qualidade cinematográfica de imagens, clímax bem orquestrado e reconstituição de época adequada, no entanto certamente não era seu desejo apenas isso, e sim colocar uma discussão política em cena, o que, pelo menos numa primeira leitura do filme, não nos apresenta de modo a transformá-lo num drama contundente.

Argo, EUA, 2012 Diretor: Ben Affleck Elenco: Ben Affleck, John Goodman, Taylor Schilling, Bryan Cranston, Kyle Chandler, Alan Arkin, Tate Donovan, Clea DuVall, Adrienne Barbeau, Rory Cochrane, Kerry Bishé, Richard Kind Produção: George Clooney, Grant Heslov, David Klawans Roteiro: Chris Terrio Fotografia: Rodrigo Prieto Trilha Sonora: Alexandre Desplat Duração: 120 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: GK Films / Smoke House / Warner Bros. Pictures

Cotação 3 estrelas