Hammett (1982)

Por André Dick 

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Quando Wim Wenders começou a se destacar, com filmes excelentes como No decurso do tempo e O amigo americano, Francis Ford Coppola o procurou para que pudesse dirigir Hammett, baseado numa história fictícia envolvendo o escrito Dashiell Hammett, em torno de 1978. Com vários problemas durante a produção e estouros de orçamento, comuns nas antigas produções de Coppola, houve desentendimentos, e Wenders acabou tendo de ceder à presença do produtor. Coppola não teria gostado do final e avaliou, segundo entrevista de Wenders à revista Indiewire, que era um filme com excesso de lirismo e “muito lento, sem ação suficiente”.
Em outra entrevista à Indiewire, Wenders comenta que isso aconteceu e apenas 10% das cenas da versão final são de sua versão original, depois de realizar a segunda filmagem, basicamente em estúdio e não em cenários reais, como a primeira (antes de o trabalho ser refeito, Wenders dirigiu O estado das coisas, que tratava exatamente de uma equipe de cinema com problemas financeiros e psicológicos). Quando se vê Hammett é difícil imaginar onde começa a obra e a visão de Wenders ou daquela que seria de Coppola, pois o filme é exatamente muito lento, à sua maneira e, com exceção de alguns elementos visuais, seu ritmo é próprio de uma obra de Wenders: a questão parece mais ligada aos bastidores e não tão importante, pois o resultado, independente disso, é único. Hammett é uma das obras que homenageiam os filmes de gângsteres dos anos 40 como nenhum filme fez antes ou depois, e foi certamente referência para obras posteriores, como Dick Tracy (em seu cuidado visual de cores).

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A atmosfera de Hammett, com a fotografia de Joseph Biroc e direção de arte de Dean Tavoularis (que colaborou com Coppola em O fundo do coração, com um clima que parte das cenas deste possui), é envolvente e memorável. Frederic Forrester (também de O fundo do coração) interpreta o escritor Samuel Dashiell Hammett, entre bebidas, cigarros e a a ameaça da tubercolose, que se mudou de Pinkerton, onde trabalhava como detetive (uma espécie de alter ego às avessas de seu personagem Sam Spade) para São Francisco, habitando um quarto de hotel barato, e no início está criando uma história em frente à sua máquina de escrever. Ele recebe a visita de Jimmy Ryan (Peter Boyle), um antigo amigo e detetive, que teria lhe ensinado tudo o que sabe, e ambos saem pela noite, em direção a Chinatown, a fim de procurarem uma prostituta chinesa, Ling Cristal (Lydia Lei). Hammett o faz por considerar que tem uma dívida com Ryan, e este movimento é feito minuciosamente por Wenders (continuamos a considerá-lo o diretor final), introduzindo o personagem numa noite fantasiosa e logo anunciando a mistura entre literatura e realidade: o escritor já teria trabalhado como detetive, e está sendo obrigado a voltar, mesmo que ainda inconscientemente, à ativa. As coisas logo se complicam com um perseguidor noturno, The Punk (David Patrick Kelly) e uma troca de tiros logo se anuncia, seguida pelo surgimento de outro incauto, Gary Sal (o ótimo Jack Nance, de Eraserhead). É interessante como Forrester lida bem com o personagem, apresentando-o com uma pronúncia e uma dicção semelhante à dos atores dos anos 40, e um clima de romantismo com Kit Conger (Marilu Henner), uma vizinha que trabalha como bibliotecária, e volta às antigas histórias pulp fiction com o taxista Eli (Elisha Cook), com o tenente O’Mara (RG Armstrong), o detetive Bradford (Richard Bradford) e as possíveis ameaças de Fong Wei Tau (Michael Chow). Em termos de trama, as comparações com Chinatown são justas, mas o filme de Wenders tem uma atmosfera muito mais fantástica.

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A mistura entre os acontecimentos e a fantasia de Hammett tentando recompor a história de uma narrativa que se perdeu, e pode estar nas mãos de gângsteres chineses. Esta fantasia se mistura, também, a uma espécie de atmosfera onírica, em que a noite parece estar separada do dia, inclusive nos cenários focados (veja-se o céu azul quando Hammett chega em casa pela manhã), ou seja, em determinados momentos não sabemos se Hammett está sonhando ou realmente vivendo as situações (Hammett deve ser visto antes de Vício inerente, a nova obra-prima de Paul Thomas Anderson). Nisso, Wenders revela seu talento em lidar com a cultura dos Estados Unidos, o que ficaria claro não apenas em Paris, Texas, como também no ótimo e quase esquecido Estrela solitária, em que Sam Shepard fazia uma estrela de cinema que desaparecia dos sets de filmagem para tentar encontrar um filho que não conhece.
Os cenários de Chinatown e de clubes noturnos ou escritórios em que Hammett entra são excepcionalmente revelados com uma estética de cinema dos anos 40, uma espécie de bruma cobrindo tanto os personagens quanto suas ações, e um notável jogo de espelhos em pelo menos dois momentos, revivendo uma época noir, tanto quanto a ficção científica Blade Runner. Na sua avaliação do filme, Vincent Canby considera que não é alcançado o clima de Corpos ardentes e Cliente morto não paga. A comédia com Steve Martin é realmente de uma grande raridade, mas Kasdan, em Corpos ardentes, apenas recicla clichês com a pretensão de ser original. Hammett, ao menos, não sofre deste problema: sua referência às pulp fiction e aos romances do escritor homenageado é generosa e antológica. Os personagens também são ambíguos e há uma fascinante vida paralela na maior parte deles, ou seja, o que eles se mostram certamente não revelam a verdade. Hammett é, talvez de modo paradoxal, uma das grandes obras feitas depois da Nova Hollywood, capaz de assumir um estilo que certamente seria ignorado em outras superproduções, conservando, mais de trinta anos depois, sua originalidade.

Hammett, EUA, 1982 Diretor: Wim Wenders Elenco: Frederic Forrester, Peter Boyle, Lydia Lei, David Patrick Kelly, Jack Nance, Elisha Cook, RG Armstrong, Richard Bradford, Michael Chow Roteiro: Ross Tomas e Dennis O’Flaherty Fotografia: Joseph Biroc Trilha Sonora: John Barry Produção: Fred Roos, Ronald Colby, Don Guest, Francis Ford Coppola, Mona Skager Duração: 95 min. Distribuidora: Orion Pictures/Warner Bros.

Cotação 4 estrelas e meia

Flashdance – Em ritmo de embalo (1983)

Por André Dick

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Musical que deu origem a inúmeras cópias, Flashdance tem na direção Adrian Lyne, que se dedicaria a um cinema baseado em relacionamentos proibidos, a julgar por 9 ½ semanas de amor, Atração fatal, Proposta indecente, Lolita e Infidelidade. Suas exceções foram Alucinações do passado, filme com Tim Robbins, de linha espiritual e bastante interessante, e Foxies, que tinha Jodie Foster e Cherie Curie (cuja história é contada em The Runaways). Seu filme mais conhecido, Flashdance, fica num meio-termo entre o universo musical e o universo romântico, embora ambos se completem em sua narrativa. Ela mostra o dia a dia de Alexandra “Alex” Owens (Jennifer Beals), que trabalha como soldadora numa fábrica de aço em Pittsburgh, Pensilvânia, e se apaixona por seu chefe, Nick Hurley (Michael Nouri).
Alex dança, à noite, num clube noturno, Mawby, e tem dois amigos: uma quer ser patinadora, Jeanie (Sunny Johnson), e o namorado dela, Richie (Kyle T. Heffner), pretende seguir a carreira de humorista de stand-up, em Hollywood. Sem estudos formais na área da dança, Alex também procura a ajuda de Hanna Long (Lilia Skala), uma bailarina aposentada, para tomar conselhos, a fim de entrar no Conservatório Pittsburgh de Dança e Repertório. Em termos narrativos, o filme tem um diálogo claro com Fama, de Alan Parker, de 1980, filme excepcional sobre jovens que querem se dedicar à dança, mas se Parker ainda possui um estilo baseado numa montagem, embora frenética, baseada numa concepção de cinema clássico, Flashdance é uma vertente da geração MTV. Com talento para realizar filmes banhados por um ar de videoclipe, Lyne apresenta em Flashdance uma estética que ajudaria a demarcar o estilo dos anos 80, e não se pode dizer que isso seria dispensável, mesmo que seus produtores, Jerry Bruckheimer e Don Simpson tenham formado, basicamente, uma dupla de filmes comerciais (e divertidos, como Top Gun e Um tira da pesada), até a morte do segundo (hoje Bruckheimer segue em carreira solo, sobretudo na série Piratas do caribe).

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Há boas canções, mesmo contagiantes (como “What a feeling”, que marcou época, de Giorgio Moroder, o mesmo de “Take my breath away”, de Top Gun) e a revelação de Jennifer Beals, mesmo que dublada nas cenas de dança. Não parece desnecessário dizer que o filme, inclusive, teve uma boa aceitação no Globo de Ouro – foi indicado aos prêmios de melhor filme de comédia ou musical e de atriz (Jennifer Beals), ganhando os de melhor trilha sonora e melhor canção – e no Oscar – foi indicado nas categorias de melhor montagem e fotografia e venceu o de melhor canção –, sendo, nesse sentido, mais bem-sucedido que suas cópias posteriores.
Lyne é um diretor com limitações, mas o problema central está na história de Joe Eszterhas (que assinaria, quase uma década depois, o roteiro do sucesso Instinto selvagem, e ainda, um pouco depois, Showgirls, do mesmo Paul Verhoeven, desenvolvendo características que já existem em Flashdance): basicamente é a vida dessa dançarina, cercada pelos sonhos dos amigos e a busca pela realização particular. No entanto, Lyne tem uma certa visão sobre como havia melancolia nos anos 80, e não por acaso seu filme dialoga diretamente com Footloose e Dirty Dancing, sobre a tentativa de permanecer numa adolescência perene, mas sobretudo de adotar a dança como uma libertação.
Se baseado numa história de James Dearden, Lyne cultivou, em Atração fatal, os problemas que um pai de família (Michael Douglas) enfrenta após se envolver com uma amiga (Glenn Close) num final de semana longe da mulher e do filho, com cenas dramáticas de pouca intensidade, e se no videoclipe em forma de filme 9 ½ semanas de amor trazia a relação obsessiva entre a funcionária de uma galeria de arte (Kim Basinger) e um corretor da bolsa de Nova York (Mickey Rourke), em Flashdance ele mostra que uma jovem quer apenas encontrar o amado, mas, principalmente, se tornar independente, enfrentando a realidade de maneira própria.

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Alex tem os elementos de uma nova visão feminina, uma certa provocação ausente nos anos 70, principalmente quando a heroína não acredita em si mesma e quer desistir do seu sonho. Ela é uma visão mais sensível, embora trazendo certos elementos mais revigorantes, daquela personagem Nomi Malone, escrita por Eszsterhas para Showgirls. Há uma certa preocupação de Lyne em situar o mundo da fábrica de um lado, com sua paisagem cinza e soturna, e outro o lado da vida noturna, quando ela se apresenta à noite e é como se fosse um sonho, em meio a números musicais excêntricos e uma profusão de neons, maquiagens e luzes oblíquas. Nesse aspecto, Beals atinge uma interpretação interessante e convincente, sendo uma pena que, excetuando A prometida (em que contracena ao lado de Sting), não tenha conseguido desenvolver seu potencial como atriz revelado aqui. O número da água caindo sobre seu corpo ficou antológico, mas o mais impactante é aquela em que ela dança contra um fundo xadrez, numa espécie de transição do punk para o new wave. Tanto o clube onde se apresenta quanto a sua casa, com os neons na sala, guardam também essa transição, e a fotografia de Donald Peterman é excepcional, conseguindo registrar sensações de cada ambiente. Isso faz com que o filme Lyne não seja apenas um produto cultural de determinada época, mas uma obra que sobrevive a seu tempo, apresentando uma dose de lamento europeu na apresentação da Pittsburgh onde Alex mora. Esta melancolia e seus raios de luz vazados contra um salão em que o sonho é colocado à prova ainda permanece, com todos os seus excessos.

Flashdance, EUA, 1983 Diretor: Adrian Lyne Elenco: Jennifer Beals, Michael Nouri, Lilia Skala, Sunny Johnson, Kyle T. Heffner, Robert Wuhl Roteiro: Joe Eszterhas, Thomas Hedley Jr. Fotografia: Donald Peterman Trilha Sonora: Giorgio Moroder Produção: Jerry Bruckheimer, Don Simpson  Duração: 95 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Paramount Pictures / Polygram Filmed Entertainment

Cotação 3 estrelas e meia

O fundo do coração (1982)

Por André Dick

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No início dos anos 1980, Francis Ford Coppola era visto como um dos maiores cineastas de Hollywood, capaz de escolher cada projeto. Se com Apocalypse now ele deixou o estúdio em dívidas, era de se esperar que quando tentasse fazer um grande musical, com uma Las Vegas reconstruída nos estúdios Zoetrope, em O fundo do coração, a recepção não seria interessante para sua carreira, como aconteceu. Parecia difícil encontrar alguém disposto a ver um Coppola que parecia mais dedicado ao visual do que à densidade de uma história dramática. Ele também nunca foi conhecido por filmes de pouca metragem e O fundo do coração parecia mais leve – e excessivamente leve. Com isso, vinha o próprio posicionamento de Coppola, que via a indústria como próxima do fracasso e investindo um orçamento milionário sem certeza de retorno (como em Apocalypse now). Na época, ele também considerava que seu filme seria uma referência para os cineastas que fossem trabalhar com imagens em vídeo. Hoje em dia, fica mais claro, depois de peças como Hammett (que coassina sem créditos com Wim Wenders), Vidas sem rumoCotton Club, Tucker, Drácula de Bram Stoker Virgínia, que Coppola, cuja preocupação foi nunca se ver como um cineasta autoral, é um grande esteta, um grande realizador de imagens, que realmente trazem inovação ao cinema.

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A história inicia mostrando Frannie (Teri Garr) montando um cenário na vitrine de sua loja, seguindo-a até em casa, a fim de encontrar Hank (Frederic Forrest). Ambos estão a um dia do 4 de julho dos Estados Unidos e indefinidos entre uma viagem a Bora Bora e a compra da casa. Frannie deseja a viagem, mas Hank concretizar o negócio. Isso é motivo para uma briga e o rompimento. Frannie vai para a casa da amiga Maggie (Lainie Kazan) e Hank para a casa do amigo Moe (Harry Dean Stanton). Coppola já mostra essa briga como uma espécie de fuga à fantasia que caracteriza os primeiros momentos: quando o casal se deita na sala, a luz da janela é preenchida por uma cor vermelha, e assim Coppola segue durante toda a narrativa: a fotografia extraordinária de Vittorio Storaro (numa preparação para seu trabalho também referencial de cores visto em Dick Tracy, quase uma década mais tarde) e Ron García (Twin Peaks) e a direção de arte antológica de Dean Tavoularis modelam os ambientes conforme as ações e os sentimentos dos personagens. Onde O fundo do coração parece mais visual do que conteúdo, é possível ver uma fusão entre esses elementos, ou seja, por meio do visual, é possível desenhar o conteúdo do filme e dos personagens. A fotografia e a direção de arte, a partir daí, participam, em iguais condições, da composição do filme.
É interessante como Coppola mostra Frannie como uma sonhadora dos musicais da Metro, mas que demora a cair na realidade, mesmo que puxada para ela. Quando está novamente organizando a vitrine de sua loja, surge Ray (Raul Julia), um conquistador latino que a convida para vê-lo tocar, como pianista, num clube da mesma rua de Las Vegas. Enquanto ela sonha com uma noite mágica, Hank conhece Leila (Nastassja Kinski), lembrando uma imagem circense, a quem convida para sair. Coppola, então, irá mostrar os encontros de ambos, quase que simultaneamente e intermediados pela paisagem fantasiosa (no duplo sentido) de Las Vegas. Os personagens desejam, na verdade, incorporar essa linguagem de sonho que é Las Vegas, e tanto Frannie quanto Hank surgem como figuras aptas para isto, mesmo porque Ray e Leila imaginam que eles também os levam para uma linguagem de sonho. Leila, em determinado momento, subirá num trapézio quase felliniano, em meio a uma paisagem de deserto, com  cisnes abandonados; Hanks ficará parado, como um cowboy, em frente a um neon gigantesco, que incorpora a imagem de Frannie; e esta imagina dançar com Ray em frente a um transatlântico (num diálogo evidente com Amarcord). Não existe aqui o universo da máfia tão bem desenvolvido na série O poderoso chefão nem o clima de Nova Hollywood de A conversação (um filme que, apesar do interesse, não chega ao impacto de O fundo do coração).

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Coppola claramente não está interessado em seguir o encaminhamento dado ao gênero musical, mas torná-lo contemporâneo: a trilha ao fundo de Tom Waits é discreta e presente durante todo o filme, e os personagens não dançam na maior parte das vezes (como quando estão nas ruas de Las Vegas), e sim se encontram. O movimento e não a coreografia é destacada, e Coppola orquestra um passeio de Frannie e Hank embaixo dos neons de Las Vegas, mas, às vezes, se encontrando, como se estivessem também numa peça de teatro. Esses encontros, no entanto, ficam sempre indefinidos entre a fantasia e a realidade. Nesse sentido, os personagens estão fantasiando dentro de uma fantasia que já compõe suas vidas, imaginando figuras que despertam o sonho de uma juventude que já passou, sobretudo a Leila de Nastassja Kinski, como se fosse a representação onírica de um universo feminino. O belo momento em que Ray senta em frente a um piano, com a imagem de um sol entrando pela janela, em plena noite de Las Vegas, lembrando de Clark Gable em Casablanca, ajuda a esclarecer ainda mais esta composição mesclada. No momento em que Hank está com Leila no deserto, há um corte quando ele deseja rever a mulher, e volta-se à realidade (mas não tanto: quando Moy surge para buscá-lo, vão de carro contra uma paisagem de deserto de Las Vegas de estúdio, como se Paris, Texas fosse anunciado aqui, também pela presença de Harry Dean Stanton e Nastassja Kinski). Uma tentativa de reencontrar a amada lembra também uma animação – como a que é despertada pelas próprias cores do filme ou sua simbolização das nuvens, por exemplo.

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Frannie quer deixar Hank também porque ele não sabe cantar como Ray – ou seja, ele não é a realização de sua fantasia, e Coppola filma um ato final capaz de trazer densidade a uma narrativa que parece apenas ligeira e despretensiosa. Não apenas pela impossibilidade de canto, no sentido que nos acostumamos a ver, mas no sentido de que a fantasia, aqui, pode também incorporar a realidade. O final é em aberto, transformando O fundo do coração não numa realização completa, mas num ato do verdadeiro musical dessas figuras do dia a dia. Depois de três décadas, o filme de Coppola não apenas pode ser revisto, mas reconsiderado como um dos grandes filmes dos anos 80, uma obra de um Coppola apaixonado tanto pelo risco de seus gastos quanto por seus personagens e seu cenário fantasiosos. Isto começaria lentamente a desaparecer em Hollywood, mas Coppola estava certo de o quanto seu filme influenciou não apenas a estética do videoclipe na TV como diversos filmes que sofreram, injustamente, da mesma crítica de que privilegiavam a forma em detrimento do conteúdo. O fundo do coração simplesmente faz com que essa diferença desapareça; mais do que uma referência, é a obra-prima mais subestimada de Coppola.

One from a heart, EUA, 1982 Diretor: Francis Ford Coppola Roteiro: Armyan Bernstein, Francis Ford Coppola Elenco: Frederic Forrest, Teri Garr, Harry Dean Stanton, Nastassja Kinski, Raul Julia Fotografia: Ronald Víctor García, Vittorio Storaro Trilha Sonora: Tom Waits Produção: Gray Frederickson e Fred Roos Duração: 107 min. Distribuidora: Columbia Pictures

Cotação 5 estrelas

Batman (1989)

Por André Dick

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Determinados filmes conseguem, por um motivo às vezes também secundário ao cinema, marcar uma determinada época. Em 1989, o trailer de Batman, de Tim Burton, tinha uma presença destacada em salas de cinema. A diferença do mês de estreia nos Estados Unidos para o do Brasil ainda era considerável (nos Estados Unidos, a estreia se deu em junho, aqui em outubro), auxiliando num dos mais bem feitos trabalhos de marketing da história. A expectativa se dava não apenas em razão dos fatores de produção e da presença de Jack Nicholson no elenco, mas por se tratar do primeiro grande filme de Tim Burton, que havia assinado um ano antes a comédia Os fantasmas se divertem e tinha estreado em 1985 com As grandes aventuras de Pee-wee, com um personagem mais familiar para os norte-americanos. E pelo menos desde 1978, de Richard Dooner, não era feito um filme baseado em herói dos quadrinhos tão esperado. Precedido ainda por críticas elogiosas da imprensa estrangeira, a estreia de Batman se deu num ambiente receptivo – e a questão seria se sua qualidade corresponderia ao marketing.
A primeira surpresa de Batman é que se tratava de um trabalho autoral: do início ao fim, estamos diante de uma obra de Tim Burton. E, no que também inspirou a série Batman assinada por Cristopher Nolan, o trabalho de Burton era baseado na adaptação do herói feita por Frank Miller, com um tom muito mais sombrio (embora no mesmo ano, 1989, tenha sido lançado a que me parece ser a peça em quadrinhos mais vital, Asilo Arkham, de Dave McKean e Grant Morrison). Este Batman possui elementos do dia a dia (gângsteres modernos que tentam movimentar o comércio de produtos químicos, em uma metrópole dominada pela criminalidade), mas o que predomina é a indefinição histórica – ou seja, não tem a concepção mais realista (em determinados termos) daquele de Nolan, o que é uma característica de Burton. Sua Gotham City tem um ambiente europeu entre o início do século XIX e o início do século XX: muita fumaça de fábricas, como na Revolução Industrial, e os ambientes enevoados, semelhante a um filme noir, preenchidos por um design que evoca não exatamente Blade Runner, ao qual foi comparado, mas o expressionismo alemão.

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Esta proximidade aumentaria, inclusive, na continuação de Batman, em que o vilão interpretado por Cristopher Walken se chamava Max Schreck, mesmo nome do antigo ator que fez Nosferatu, em 1922. Se o Batman de Nolan parece mais um policial moderno, o de Burton ainda lembra um detetive em meio a policiais de capote. A influência mais direta no visual de Batman é o trabalho de Hammett, feito também em 1982, por Wim Wenders, em que o escritor trabalhava como detetive e tentava descobrir uma quadrilha de mafiosos no bairro Chinatown. Nesse sentido, o diálogo entre figurinos e ambiente do filme de Burton, sintetizado na direção de arte (de Anton Furst) premiada com Oscar, com cenários montados no lendário estúdio Pinewood, estabelece uma atmosfera adequada para o desenvolvimento da narrativa. Combinado com uma trilha de Danny Elfman em seu início, ainda sem os maneirismos de sua trajetória, e os efeitos especiais de Derek Meddings (Superman e Duna), numa era ainda sem a tecnologia atual, mas com uma fusão orgânica em relação à narrativa, e temos um Batman certamente interessante.
A mitologia do herói criado por Bob Kane, que participou da construção do roteiro, também é mantida (daqui em diante, possíveis spoilers). Durante o dia, Bruce Wayne (Keaton) é um milionário, mas à noite enfrenta o crime de sua cidade, como Batman, sobretudo porque aconteceu um fato em sua infância que o conduziu a este caminho. O único a saber de sua dupla identidade é o mordomo de sua mansão, Alfred (Michael Gough). Já entre os gângsteres, Jack Napier (Nicholson) faz jogo duplo com seu chefe, Carl Grissom (o ótimo Jack Palance), obedecendo suas ordens, mas o traindo com sua esposa, Alicia (Jerry Haal). Para investigar as histórias de Batman, chega à cidade a jornalista Vicki Vale (Basinger), da Time, juntando-se ao repórter desajeitado, Knox (Wuhl), para extrair informações do comissário Gordon (Hingle), próximo a Harvey Dent (Billy Dee Williams). Enquanto o departamento de jornal de Gotham City se baseia novamente nesta concepção noir, não ficam para trás as reuniões da polícia e dos políticos: os ambientes suntuosos mesclam, ao mesmo tempo, um peso atmosférico, por trás de figurinos e maquiagens. Também não se deve esquecer que o primeiro encontro entre Wayne e Vicki Vale acontece num salão com armaduras medievais, cercado de espelhos: nesta sequência, filmada com grande talento por Burton, introduzindo cada diálogo de maneira ao mesmo tempo divertida e irônica, o personagem de Bruce Wayne revela sua dualidade e antecipa que o uso de armaduras não faz parte apenas de sua história, mas foge ao limite histórico.

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As coisas vão mudar em Gotham City. Durante um roubo à empresa de produtos químicos da cidade, Napier, depois de cair num tonel cheio de ácido, fica com o rosto deformado, com um sorriso permanente, voltando para acertar contas com seu chefe. Vicki conhece Bruce Wayne e se apaixona, e ele passa a enfrentar o maior rival, o Coringa, a nova personalidade de Napier. Então, acontece o choque: Batman criou o Coringa, e quem criou Batman? Este fio de narrativa administrado por Burton de maneira efetiva guarda mais do que estamos acostumados num filme de herói. Não existe apenas o duelo entre dois personagens, mas também a tentativa de entender a origem deles.
Outra característica de Burton é a maneira como lida com a dualidade dos personagens. Talvez Bruce Wayne seja o personagem melhor delineado por Burton ao lado de Ichabod Crane de A lenda do cavaleiro sem cabeça e de Ed Wood no filme homônimo, ambos protagonizados por Johnny Depp. E isto se dá com o auxílio direto de Michael Keaton, ator que não compromete depois da pressão dos fãs, que não o queriam no papel, mas no ano anterior havia feito não apenas Os fantasmas se divertem, com Burton, mas o dramático Marcas de um passado (e neste ano, depois de sua excelente participação em RoboCop, regressa com um filme que também brinca com sua atuação aqui, em Birdman). Keaton oferece uma discrição eficiente, ao mesmo tempo em que desenvolve bem seu traço familiar, perturbado por um acontecimento decisivo.
Por sua vez, o personagem do Coringa – e antes dele de Jack Napier – é solucionado de maneira adequada por Nicholson, com sua tendência a ser o primeiro artista homicida do mundo, apesar do exagero, perfilando-se ao lado daquelas que o ator emprega em Um estranho no ninho e O iluminado, e hoje infelizmente, algumas vezes, menosprezada em relação à de Heath Ledger. Suas atitudes colaboram na condução do personagem e sua entrada num restaurante com seu grupo transformando as obras de artes expostas nele num rascunho para Duchamp, e a solução de preservar uma obra de Francis Bacon, com a música de Prince ao fundo, parece uma síntese de um certo cinema dos anos 80 e a passagem para os anos 90, em que o colorido é borrado ou ganha um tom mais soturno. Apesar de o Coringa ser certamente perigoso, Burton concede uma veia mais cômica a ele, fazendo com que seu comportamento assustador seja atenuado em favor de uma visão mais voltada à série antiga de TV, não tanto aos quadrinhos, embora Nicholson realmente traga sua carga para o papel. E, mesmo que o Superman de Donner tenha desencadeado o universo de adaptação de super-heróis para o cinema, Batman é, sem dúvida, a confirmação de que se pode fazer um filme neste campo com um peso autoral, e, sem negar a influência dos quadrinhos, fazer referência ao próprio cinema: é a principal influência de, por exemplo, Dick Tracy, dirigido por Warren Beatty no ano seguinte, com suas homenagens aos filmes de máfia e musicais dos anos 40 e 50, com cenários equivalentes aos dos quadrinhos.

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A necessidade de diálogo entre os personagens e o cenário ganha o ponto máximo na sequência da catedral de Gotham City, uma construção gótica e que destaca, por seu abandono, o principal: a cidade desses personagens não tem nenhuma espécie de religião. Com seu habitual talento para imagens, Burton faz discretamente um filme em que os temas são suscitados por cenários. Temos um senso de design onipresente ao longo do Batman de Burton e não se anuncia nenhum elemento deslocado, mesmo em cenários que nos anos 80 talvez pudessem ser menos elaborados, como o da caverna em que ele guarda suas criações e armas para o combate ao crime organizado. Este senso se encaixa de maneira equilibrada com o comportamento dos personagens: enquanto Bruce Wayne é mais afeito ao cálculo e ao comedimento, mas também avesso ao tamanho de sua mansão, Jack Napier e sua porção extravasada, o Coringa, se comporta como um anunciante de produtos e mesmo de dinheiro jogado aos ares de Gotham City. Além do seu interesse por fotografias e obras plásticas, ele tem outro: recorta fotografias até que preencham o piso do chão. Em Burton, o Coringa é a própria infância (desvirtuada) que Bruce Wayne não teve. Mas o próprio Batman não deixa de ser, para o Coringa, uma personificação da infância: “Onde ele consegue esses brinquedos?”, pergunta o Coringa em determinado momento. Há uma provocação neste comportamento de cada um que não foge a Burton, com seu olhar atento para detalhes que poderiam escapar de um cineasta comum.
De algum modo, o duelo estabelecido (também nas atuações) entre Keaton e Nicholson, ao mesmo tempo, beneficia o elenco. A descompromissada Basinger está bem – no melhor momento da sua trajetória, junto com Los Angeles – Cidade Proibida –, e Wuhl tem uma participação divertida como Knox. Mesmo Jack Palance, com o pouco tempo em cena, é marcante (dois anos antes de receber um Oscar de ator coadjuvante por um caubói em Amigos, sempre amigos), além de Michael Gough (em papel que seria na nova franquia de Michael Caine). Trata-se de uma qualidade de Tim Burton, que ele tem em comum exatamente com Donner, do primeiro Superman: seus filmes, apesar de contarem com grande orçamento, valorizam não apenas as ideias, como as atuações, e tudo acaba soando como um conjunto estabelecido. E não se tem dúvida de que, assim como muitos, Nolan sentou-se muitas vezes em frente a este Batman de Burton para imaginar como seria o seu, principalmente o ótimo Batman begins. Apesar de um tanto esquecido em relação à trilogia mais recente, o filme de Burton continua a figurar entre as maiores adaptações de quadrinhos já feitas, um verdadeiro feito diante das expectativas que se tinha em relação a ele.

Batman, EUA/Reino Unido, 1989 Diretor: Tim Burton Elenco: Jack Nicholson, Michael Keaton, Kim Basinger, Pat Hingle, Billy Dee Williams, Jack Palance, Robert Wuhl, Michael Gough, Lee Wallace, Tracey Walter, Wayne Michaels, Bruce McGuire, Del Baker, Philip O’Brien, Rocky Taylor, Vincent Wong, Steve Plytas, Liz Ross, John Sterland Roteiro: Sam Hamm, Warren Skaaren Fotografia: Roger Pratt Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Peter Guber, Jon Peters Duração: 126 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Warner Bros. / The Guber-Peters Company / Polygram Filmed Entertainment

Cotação 5 estrelas

Flash Gordon (1980)

Por André Dick

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Desde o início, com a trilha do grupo Queen, cantando a música-tema de Flash Gordon, já se percebe que estamos diante de um filme que traz na bagagem não apenas os anos 70, como também a sua ligação com os anos 80. Não demora muito para se perceber que o diretor Mike Hodges, escolhido por Dino de Laurentiis para levar às telas o personagem criado por Alex Raymond, fará uma mescla entre ficção científica e um ar bem-humorado que dificilmente vemos nas produções atuais, com um visual ao mesmo tempo exagerado e grandioso – o que seria kitsch para alguns –, mas que exatamente pela extravagância confere um clima irrepreensível de HQs. Flash Gordon é um jogador de futebol norte-americano que viaja em companhia de Dale Arden (Melody Anderson), num avião. Logo na decolagem, há um eclipse, tudo fica vermelho e surge a figura de Ming (Max von Sydow), que desaparece com os pilotos. Gordon precisa aterrisar o avião e, quando o faz, é justamente perto do laboratório de pesquisas de Hans Zarkov (Topol). Este pretende partir de foguete para o espaço, a fim de salvar a Terra, o que sempre tentou avisar, sem ninguém acreditar. Quando Flash Gordon pergunta onde há um telefone, e o cientista indica o foguete, fazendo o personagem central entrar nele, já temos a séria impressão de que dali em diante nada pode ser levado muito a sério. O espaço e tempo do filme são rápidos e logo o foguete – que recorda imagens de Viagem à lua, de Georges Méliès – é sugado por um buraco negro.

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A falta de seriedade própria e individual de Flash Gordon é intransferível para qualquer outro filme. O produtor Dino de Laurentiis vinha de um sucesso, King Kong, refilmagem do clássico com Jeff Bridges e Jessica Lange – mais divertida, embora bem menos produzida do que a de Peter Jackson – e já planejava realizar a adaptação de Duna (que seria feito por David Lynch) e dos quadrinhos de ConanFlash Gordon é uma espécie de antecipação de Duna, no sentido da grandiosidade dos cenários – e até de alguns módulos que voam e acompanham os personagens em determinados momentos –, assim como da série Conan, no sentido de ser uma obra despretensiosa, apesar de bem feita. Os figurinos de Danilo Donati (de SatyriconAmarcord), a direção de arte de John Graysmark (Na época do Ragtime) e a fotografia de Gilbert Taylor (Guerra nas estrelas) dão um tom original – e o elenco, que vai de Von Sydow a Topol – nomes ligados ao cinema europeu – indicam um interesse em fornecer bons atores a alguns personagens.
Quando Flash Gordon, a moça que logo se transforma em sua companheira e o cientista chegam a Mongo, cujo líder é Ming, com toda sua maldade, interessado em provocar vários desastres naturais na Terra, por diversão, eles são enfeixados como ameaça ao poder dele. “Planetas ingênuos eu não ataco”, diz Ming. “Apenas quem me ameaça.” “Esse cara é um psicopata”, reflete Flash Gordon, sendo reproduzido em alta escala. A prisão do cientista e a máquina para apagar sua memória – enquanto ele acompanha imagens que vivenciou, inclusive da Segunda Guerra Mundial – é o momento mais cruel e sério de Flash Gordon, e lamentamos por ele, sobretudo porque as recordações que se sucedem rapidamente são interessantes e conectam o espectador ao personagem de modo decisivo. Von Sydow é um ator excelente e, mesmo com um figurino cujo vermelho combina com o prateado dos cenários e o lápis nos olhos para aparentar ser de origem oriental, é notável e consegue fazer mais do que qualquer outro com um roteiro propositadamente infantil, embora sem nenhuma brecha.

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A filha de Ming, Aura (Ornella Mutti) se apaixona por Flash Gordon, embora quem pretenda conquistá-la seja Barin (Timothy Dalton), do planeta Arboria – com as cabanas construídas em árvores, o que remete a O retorno de Jedi (sobretudo a este, pela cenografia) e Avatar. Ela tenta salvar Gordon depois de ele passar por uma morte numa câmera de gás, justamente levando-o para Arboria, num momento em que o filme evoca alguma coisa que seria repetida depois em filmes de fantasia como A história sem fimKrull e A lenda e, naquele mesmo ano, teria semelhança com o Planeta Dagobah, de O império contra-ataca. E passará por uma sequência realmente forte, em que precisa enfrentar o que chama de vermes que perfuram.
Há também homens com asas do Planeta Sky City (evocando outra produção de De Laurentiis, Barbarella, com Jane Fonda). Todos se submetem a Ming, porém sem nenhum interesse em continuar assim. Mesmo a filha de Ming está ameaçada de castigo, e o personagem posiciona-se, como fala em alto e bom som Flash Gordon, num “psicopata”. “Ele é o rei do impossível”, diz a música de Queen, e Flash Gordon, mesmo pela interpretação de Sam Jones – satirizada na comédia Ted, assim como o próprio filme –, é um personagem unidimensional. De qualquer modo, mesmo porque o tom do filme não pretende ser sério, Sam Jones acaba se encaixando – e em momento algum consideramos que ele destoa demais das atuações exageradas do elenco feminino, sobretudo de Ornella e Anderson, preenchendo bem os seus papéis, e mesmo Timothy Dalton.
Há um impressionante sentido de mistura teatral com homenagem a uma época determinada do cinema em Flash Gordon que não pode ser ignorado. Talvez não tenha sido nem objetivo de Hodges ou do produtor De Laurentiis, mas tudo no filme que poderia não parecer vivo, na sua tentativa legítima de homenagear os primórdios do cinema com seus cenários e figurinos, ganha outro significado.

Flash Gordon, EUA/ING, 1980 Diretor: Mike Hodges Elenco: Sam J. Jones, Melody Anderson, Max von Sydow, Ornella Muti, Timothy Dalton, Brian Blessed, Peter Wyngarde, Mariangela Melato, John Osborne, Richard O’Brien, John Hallam, Philip Stone, Suzanne Danielle, William Hootkins Roteiro: Alex Raymond, Michael Allin Fotografia: Gilbert Taylor Trilha Sonora: Howard Blake Produção: Dino De Laurentiis Duração: 111 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: De Laurentiis Entertainment Group (DEG)

3 estrelas e meia

Os intocáveis (1987)

Por André Dick

Os intocáveis 8É difícil não gostar de Os intocáveis, com seu ambiente situado nos anos 30, mesclando diversos gêneros: policial, aventura, suspense, drama e alguns momentos de violência. Desde o início de sua carreira, De Palma se notabilizou por sua influência do mestre Alfred Hitchcock, o que fica claro em filmes como Carrie, a estranha e, sobretudo, Um tiro na noite, Vestida para matar e Dublê de corpo. No entanto, ele parece ter encontrado a maneira certa de incorporar essas referências neste último policial verdadeiramente clássico (depois dele, apenas Los Angeles – Cidade proibida talvez rivalize com ele), com uma atmosfera ao mesmo tempo contemporânea, muito em razão da fotografia de Stephen H. Burum. Trata-se, a princípio, de uma colagem de referências – mas uma colagem que nos remete a vários tempos do cinema, sem nenhum artificalismo ou vontade de fazer simples metalinguagem. Quatro anos antes, De Palma havia refilmado Scarface, de Howard Hawks, com Al Pacino, e aqui, ele reproduz boa parte do clima dos anos 30 com méritos subversivos ainda mais refinados do que em sua adaptação de um dos símbolos da máfia. O filme tem características diferentes do seriado em que se baseou, no qual Robert Stack era Eliot Ness (aqui interpretado por Kevin Costner). Passa-se em Chicago, na época da Lei Seca, quando se proibia qualquer venda de bebidas, e Al Capone (De Niro, ótimo mesmo em papel secundário) governava o crime (daqui em diante, spoilers). O detetive Ness entra em ação convocando policiais novos e veteranos: o jovem George Stone (Andy Garcia, antecipando a grande atuação de sua carreira, em O poderoso chefão III), na verdade Giuseppe Petri, o veterano Jim Malone (Connery, em atuação que lhe valeu o Oscar de coadjuvante) e um agente do FBI, Oscar Wallace (Charles Martin Smith, convincente), dedicado à contabilidade.

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Eles se autodenominam “os intocáveis” e começam a lutar contra Capone e seus homens, encurralando-os nas entregas de bebidas em lugares determinados. A maneira como Ness parte do fracasso ao combate contra Capone – numa das batidas, ele é enganado por uma informação falsa, descobrindo um carregamento de sombrinhas – e encontra Malone, fazendo uma ronda noturna, torna-se memorável, junto com o instinto de selecionar este policial experiente para apoiá-lo. Justamente Malone propõe um combate mais endurecido e ajuda a selecionar Stone, de origem italiana, enquanto Ness entrega uma arma ao assustado Wallace. De Palma utiliza bem o elenco e faz menções a clássicos como O encouraçado Potemkin (o tiroteio nas escadarias), além de nunca se perceber se ele não está sempre refazendo cenas de filmes antigos, como o tiroteio em cima do prédio. A música de Ennio Morricone possui um tom eletrizante (como no letreiro inicial, em que o título vai formando uma espécie de cidade com edifícios e suas sombras), remetendo tanto às suas colaborações com faroestes quanto com Era uma vez na América (com seu parceiro Sergio Leone), o figurino, bem cuidado, e a direção de arte, muito fiel – em todas essas categorias, Os intocáveis foi indicado ao Oscar.
Em algumas cenas, De Palma incorpora tanto Hitchcock quanto Dublê de corpo. Lembremos que neste filme, também dos anos 80, um ator de filmes B que sofre de claustrofobia (o eficiente Craig Wasson) se envolve num jogo de sedução quando testemunha os stripteases de uma vizinha de condomínio, olhando-a pela luneta de casa (clara referência a Janela indiscreta), começando a segui-la – a stripper é Debora Shelton, ex-miss dos Estados Unidos. Não se entende muito bem por que ela tem envolvimento com um amigo de Wasson, mas é certo que o filme diverte, com seu clima de sedução e estranheza, ajudado ainda por Melanie Griffith. O filme, como outros de De Palma, quer ver a ambiguidade dos personagens, e sua principal qualidade, além desta, é saber realizar movimentos de câmera que não fiquem exagerados. Em Os intocáveis, em toda a sequência na qual Malone parece ser perseguido por um mafioso dentro de seu apartamento e depois se vira com a arma, surpreendendo-o, para expulsá-lo pela porta, traz esse clima que vemos em Dublê de corpo.

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Desse modo, a câmera de De Palma, não raramente em travelling, quer mostrar ambientes caracterizados pela tensão: é assim no início, quando acompanhamos um homem levantando o jornal e o café até Al Capone. Um filme que revive os antigos tempos e em meio a esse cuidado de fotográfico, Os intocáveis não se nega a lançar alguns lugares-comuns, como as ameaças à família de Ness assim que Capone passa a persegui-lo (fazendo com que ele tente escondê-la longe da cidade), e a corrida dos intocáveis por uma rua noturna, armados e conversando ao mesmo tempo, que antecipa uma das muitas influências que recebe do western (que irrompe na cena da polícia montada canadense, ao mesmo tempo em que os personagens estão à espera de um carregamento ilegal de bebidas numa cabana). É claro que se pretende falar da ética policial em muitos momentos e do quanto o crime corrompe – Capone representa isso, assim como o homem que ele coloca para perseguir os intocáveis, Frank Nitti (Billy Drago), e um policial que se ressente da fama inesperada de Malone. Mas é Nitti que aparece no filme como uma espécie de ameaça invisível, apoiado pela lei e pela política, ao lado de Capone, num terno branco alinhado de forma impecável. E Capone, em razão da atuação meticulosa de De Niro, é uma mistura de gentleman com serial killer, dividido entre quartos de hotel caríssimos, óperas e reuniões com taco de beisebol, avesso a risadas enquanto discursa. Este vilão consegue se contrapor a Ness de maneira que se torna um dos motes para o interesse de Os intocáveis, assim como se mostra oposto a Malone e sua dedicação contra o crime.

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Os intocáveis 12Esta movimentação entre mocinhos e vilões chega ao cuidado fotográfico. Em muitos momentos, a câmera foca Capone de cima, quando ele está se barbeando. Em outros, o mostra de baixo para cima, e vice-versa, como na cena da reunião com os comparsas num salão luxuoso. Há também a sequência em que Ness e Capone se enfrentam numa escadaria de hotel: Ness o observa de baixo para cima. Outra é aquela em que George segura o carrinho de nenê empunhando a arma de baixo para cima contra o comparsa de Capone. Mais ainda: Ness aponta a arma para Frank Nitti, quando está no parapeito de um prédio e, finalmente, depois aponta a arma novamente para Nitti quando este se encontra pendurado numa corda tentando descer do prédio. Em outro momento, Malone sai pela porta de seu apartamento e vê Nitti com sua metralhadora, à distância, no andar de cima. Nessa composição fotográfica, De Palma lida não apenas a situação daqueles personagens em determinado momento, mas um jogo de poder, de perseguidor e perseguido – mas não exatamente de vencedor ou perdedor. Além disso, o roteiro de David Mamet (diretor de Jogo de emoções e As coisas mudam), dramaturgo de origem, é inteligente, trabalhando todos os elementos de maneira equilibrada – diante de filmes atuais, chega a ser um tanto incômodo saber que esse roteiro teve tantas críticas, apontando-o como superficial. A meu ver, Os intocáveis, o que não é pouco, é o grande filme de Brian De Palma, como elenco, direção e parte técnica perfeitos. Ele anteciparia outras obras dele normalmente desconsideradas pela crítica, como Pecados de guerra, A fogueira das vaidades e Síndrome de Caim, mas com qualidade, e mantém-se como exemplo de filme que, capaz de mesclar diversos gêneros, se torna único a ponto de ser uma obra-prima.

The untouchables, EUA, 1987 Diretor: Brian De Palma Elenco: Kevin Costner, Sean Connery, Charles Martin Smith, Andy Garcia, Robert De Niro, Richard Bradford, Billy Drago Roteiro: Oscar Fraley, Eliot Ness, David Mamet Fotografia: Stephen H. Burum Trilha Sonora: Ennio Morricone  Produção: Art Linson Duração: 119 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Paramount Pictures

Cotação 5 estrelas

Vidas sem rumo (1983)

Por André Dick

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Antes de John Hughes compor boa parte da visão do universo adolescente nos anos 80, com Gatinhas e gatões, O clube dos cinco e A garota de rosa shocking, o diretor Francis Ford Coppola, recém-saído dos problemas financeiros trazidos por sua obra-prima O fundo do coração, realizou a adaptação para o cinema de Outsiders, de Susan E. Hinton, com a revelação de um elenco de jovens estelar, que teria novos projetos de destaque, sobretudo naquela década (Estevez e Lowe se reencontrariam em O primeiro ano do resto de nossas vidas). Isso aconteceu depois de receber uma carta de uma bibliotecária que, em nome de alguns alunos (ver carta e respostas), lhe pedia para que fizesse a adaptação. Envolvido desde os anos 1970 com cenários mafiosos (de O poderoso chefão) e de guerra (Apocalypse now), caracterizados pela grandiosidade, não parecia adequado esperar que Coppola gostaria de adaptar uma história de brigas entre gangues, com jovens problemáticos, material menos ambicioso do que suas obras anteriores. A história se passa em Oklahoma, Tulsa, em 1965, quando vemos uma gangue – os Greasers – formada por Ponyboy (Howell),seus irmãos Darrel (Swayze) e Sodapop (Lowe), além de Johnny Cade (Macchio), Two-Bit Matthews (Estevez), Dallas Winston (Dillon) e Steve Randle (Cruise). Eles são rivais de outra gangue, composta por jovens da classe rica, que se autointitula Socs.

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Na versão estendida do filme (de 109 minutos, encontrada em Blu-Ray, enquanto a versão lançada nos cinemas era de 91 minutos), logo no início, quando vemos Ponyboy quase se envolver em confusão, sendo salvo por amigos, ao som de Elvis Presley (que ocupa a trilha de Carmine, pai de Francis, no original), já sabemos que Vidas sem rumo terá um ritmo de pressão adolescente. Essa gangue tem, por um lado, a liderança de Darrel, o mais velho, e por outro lado a rebeldia de Dallas. É esta rebeldia que levará ao primeiro desentendimento do filme com o universo feminino, quando ele, Ponyboy e Johnny estão num cinema drive-in e encontram duas jovens, Cherry (Lane) e Marcia (Meyrink). Após Cherry se desentender com Dallas, ela aceita a conversa dos outros dois, mas eles são perseguidos por dois integrantes dos Socs, Bob Sheldon (Garrett) e Randy Adderson (Dalton). Apenas aparentemente as coisas se resolvem, pois, quando estão à noite, numa praça, Ponyboy e Johnny são atacados por eles.
As consequências os levam a fugir da cidade, indo se refugiar numa igreja abandonada numa cidade vizinha. Ponyboy ponta o cabelo de loiro e, influenciado por …E o vento levou e um poema de Robert Frost, imagina um horizonte igual ao filme de Fleming. São dois jovens refugiados tanto da condição de se afastarem do universo de gangues quanto da sua verdadeira personalidade. A versão estendida de Coppola sugere uma ligação estrita entre esses dois personagens, também pela amizade de Ponnyboy com o irmão, Sodapop (personagem que pouco aparece na versão menor). Esta relação se estabelece com mais força depois que ambos são expostos a um acontecimento que pode transformar suas vidas e fazer com que se depare com uma situação mais grave.
Acostumado a mostrar os vínculos entre os mafiosos de O poderoso chefão e a relação apaixonada do casal central de O fundo do coração, Coppola visualiza esses jovens como afastados de uma cultura norte-americana. Suas origens são misturadas, e são melancólicos em não conseguir fazer parte diretamente desta cultura, também pelo estereótipo firmado de classes sociais afastadas umas das outras. Quando a fotografia excepcional de Stephen H. Burum parece reproduzir flashes de …E o vento levou, é sempre sob esse ponto de vista, de que os personagens gostariam de pertencer a algo maior, mais transcendente, do que a condição em que são colocados. Com uma vontade explícita também de dialogar com Terrence Malick de Terra de ninguém e Dias de paraíso, Coppola filma esses bairros e ruas em que os jovens se movimentam quase totalmente vazios, afastados de qualquer movimento e perspectiva. A noite no parque tem apenas a companhia do vento e as casas parecem sempre com as luzes apagadas ou enfraquecidas. Não se avista ninguém pelas janelas ou cortinas, como se não houvesse ninguém para ajudá-los, apenas com a ameaça invisível da polícia.

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O mesmo acontece quando Ponnyboy e Johnny precisam se refugiar em outra cidade e viajam de trem, chegando a um descampado. Coppola filma com cuidado essas imagens, embora não consiga estabelecer um vínculo entre os personagens do mesmo modo que acontece com esses dois. De qualquer modo, o elenco é de grande talento. Dillon, que vinha de outro belo filme com jovens, Tex, entrega uma atuação exemplar, assim como Macchio mostra que sua carreira ter praticamente encerrado depois dos anos 80 (voltou recentemente numa ponta em Hitchcock) foi uma injustiça. Thomas Howell é um bom ator, que faria depois o ótimo A morte pede carona, e Diane Lane tem uma participação curta, mas marcante, demonstrando a boa atriz que viria a ser. Já os demais são bastante convincentes: Lowe e Swayze formam uma boa dupla de irmãos para Howell, Cruise já mostra o que viria a explorar mais em Nascido em 4 de julho, e Estevez adianta sua participação talentosa em filmes como O primeiro ano do resto de nossas vidas e Tocaia.
Mas o primeiro nome a rejuvenescer a sua filmografia, aqui, é mesmo Coppola. Pouco afeito a este universo, que viria a adentrar novamente com interesse em O selvagem da motocicleta, do mesmo ano (com Dillon, Lane e o acréscimo de Mickey Rourke), plasticamente tão interessante quanto este filme, mas com uma força dramática menos intensa, Coppola tenta refazer sua história com uma narrativa mais simples em vários pontos, sem as repetições e fugas de um longa-metragem mais largo como os que fez nos anos 70. Se isso prejudica o desenvolvimento de alguns personagens e situações, mostra um desprendimento maior em relação a lances narrativos que desviem a sensibilidade do espectador. Embora muitos prefiram a versão original, a versão estendida de Coppola, com um prólogo e um desfecho mais elaborados, além da trilha sonora com canções da época, tornando a narrativa menos melancólica, mostram realmente a melhor adaptação do livro de Hinton. Os personagens têm uma carga maior de personalidade, o que lhes concede mais vida, mantendo Vidas sem rumo como um cult movie sólido.

The outsiders, EUA, 1983 Diretor: Francis Ford Coppola Elenco: C. Thomas Howell, Ralph Macchio, Diane Lane, Emilio Estevez, Tom Cruise, Matt Dillon, Patrick Swayze, Rob Lowe, Sofia Coppola, Tom Waits, Michelle Meyrink, Leif Garrett, Darren Dalton Roteiro: Kathleen Rowell Fotografia: Stephen H. Burum Trilha Sonora: Carmine Coppola  Produção: Francis Ford Coppola, Fred Roos, Gray Fredrickson Duração: 91 min. (versão original); 109 min. (versão estendida) Estúdio: Pony Boy / Zoetrope Studios

Cotação 4 estrelas

Uma cilada para Roger Rabbit (1988)

Por André Dick

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Duas crianças causam muitos problemas aos pais, até o dia em que pedem uma nova babá. Quem chega, voando de guarda-chuva, é Mary Poppins(Julie Andrews), que transforma a vida dessa família tradicional, administrada por Mr. Banks (David Tomlinson). O melhor amigo dela é um rapaz que faz apresentações no parque – talvez a interpretação mais conhecida de Van Dyke neste filme de 1964. Enquanto Mary viaja com as crianças por um mundo encantado (a primeira mistura perfeita de humanos com animação), Banks pretende associá-las ao banco onde trabalha. Alguns o consideram um musical, outros um filme direcionado ao público infantil, mas é difícil negar sua qualidade e números de dança, como o da chaminé, na qual se mistura a realidade e a fantasia para recriar um novo mundo. Desde a parte técnica, passando pela direção e elenco, Mary Poppins, de Robert Louis Stevenson, marcou época.
Em 1971, na mesma linha, foi realizado Se minha cama voasse, do mesmo diretor de Mary Poppins, também com algumas cenas animadas. A atriz da Broadway Angela Lansbury faz uma aprendiz de feiticeira na época da invasão nazista. Utiliza uma de suas mágicas para fazer uma cama voar e leva junto três crianças. Juntas, viajam para um mundo animado (com cenas que lhe valeram o Oscar de efeitos especiais).
Outra referência distante a misturar desenho animado com atores foi A canção do sul, de 1946, também dos estúdios Disney, ganhador do Oscar de canção (“Zip-A-Dee-Doo-Dah”), e com cenas antológicas. É o retrato de uma criança, que vai viver no sul dos Estados Unidos com a mãe. Lá, acaba fazendo amizade com um homem (James Baskett), contador de histórias sobre um coelho, uma raposa e um urso – as cenas animadas são ótimas –, o que acaba provocando a vaidade da mãe do garoto. É uma pequena obra-prima.

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Uma cilada para Roger Rabbit, baseado no romance homônimo de Gary K. Wolf, reuniu as técnicas desses filmes do final dos anos 1980 com os ganhos da Industrial Light & Magic de Goerge Lucas. Tecnicamente impecável – ganhou Oscars de montagem, efeitos sonoros, efeitos especiais e melhor animação especial –, é um dos melhores filme de Robert Zemeckis (Febre de juventude, De volta para o futuro e Forrest Gump), também porque consegue mostrar uma ambientação histórica (a Hollywood dos anos 40, mais exatamente de 1947, ou seja, durante a II Guerra Mundial), mais rara em sua trajetória. Ele acerta desde a escolha do elenco até os atores que dublam os desenhos.
Começa em plena ação animada, em que o coelho Roger tenta salvar Baby Herman (voz impagável de Lou Hirsch) de um tombo. Em seguida, Baby sai resmungando do estúdio, empurrando os  humanos. Isso porque os desenhos animados vivem em Toontown, em Hollywood, convivendo com seus criadores. R.K. Maroon (Alan Tilvern) contrata o detetive Eddie Valiant (Bob Hoskins, excelente) para investigar se Jessica, a mulher de um desenho animado, Roger Rabbit (com voz trepidante de Charles Fleischer), que trabalha para a Maroon Desenhos, está cometendo traição.
Depois de ser informado da possível traição de Jessica com Marvin Acme (Stubby Kaye), dono da Corporação Acme e proprietário da Toontown, este é morto e Roger Rabbit vira o principal suspeito. O coelho procura Valiant para tentar se salvar. O detetive, com a ajuda da namorada Dolores (Joanna Cassidy) e psicologicamente abalado depois da morte do irmão, precisa repensar na ideia de tentar ajudar um desenho – cuja imagem ainda lhe traz calafrios. Quando chega ao local do crime, o detetive conhece o juiz da Corte Superior Distrital de Toontown, Doom (Cristopher Lloyd, o Doc Brown de De volta para o futuro), que procura por Roger.

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Mistura-se a essa ideia inicial o fato de que Acme havia feito um testamento deixando Toontown para os desenhos, que não interessa a Doom, que pretende construir uma autoestrada no lugar. No entanto, ele quer mais: destruir os desenhos animados com um caldo químico verde capaz de dissolvê-los, e anda cercado de doninhas que dirigem um furgão policial.
A intensidade de cores se completa com cenas brilhantes – a perseguição no carro Benny, os personagens dos estúdios Disney desfilando pelos cenários (personagens de Fantasia, Dumbo, Peter Pan, Mickey Mouse) – e humor na medida certa (o momento em que Valiant encontra Betty Boop no show de Jessica). Os elementos anteriores da trajetória de Zemeckis estão aqui: como em Febre da juventude e De volta para o futuro, Zemeckis emprega uma sucessão de situações divertidas, mas sem o peso descartável de grande parte dos blockbusters. Do mesmo modo, consegue humanizar personagens que poderiam ser vistos apenas como rótulos. Embora Valiant represente um detetive situado nos anos 40 e numa situação, apesar de diferente, típica do cinema noir, ele consegue se desvencilhar sempre de uma pretensão extra, embora pareça, ao mesmo tempo, atingido por seu passado – e que conduz sua desconfiança ao mundo das animações. Zemeckis também consegue colocar num limite a figura de Roger Rabbit sem que ele soe insuportável, quando no início ele assiste a uma apresentação de Donald e Patolino (cada qual em seu piano, prestes a uma mútua destruição) e depois acaba tendo seu lado emotivo e transtornado à mostra – isso sem falar na cena em que ele está no cinema se divertindo com Pateta, para ele o maior astro. Com a voz de Kathleen Turner certamente reprisando Corpos ardentes e influenciada pelas divas dos anos 40, Jessica também consegue marcar presença entre Valiant e os vilões.
No entanto, há um subtexto bem mais grave nos gracejos de Uma cilada para Roger Rabbit, que é a própria condução de um personagem que deseja exterminar uma cidade de desenhos animados com um caldo químico capaz de fazê-los desaparecer (a partir daqui, spoilers). Os requintes de maldade do juiz Doom e a necessidade de passar por cima dos bondes para dar visibilidade ao seu desejo é também a necessidade de, em meio à II Guerra Mundial, lucrar não mais por meio da arte, mas em cima da destruição. O juiz Doom, de certo modo, consegue simbolizar que o maior inimigo esconde, por trás, a própria composição daqueles que combate – composição desvirtuada – e o seu figurino é similar ao do nazista de Os caçadores da arca perdida. Ou seja, ele, mais do que destruir sua origem, quer, por meio dela, atingir outra fonte de faturamento. Por isso, a cena de Roger e Jessica pendurados no final tentando fugir de uma mangueira com o produto químico que pode destruí-los, contra um muro que se abre para a cidade de Toontown, representam a linha que, assim como separa a realidade da fantasia, aproxima as duas, assim como Se minha cama voasse. Para Zemeckis, durante a II Guerra Mundial, a ideia de infância da humanidade era apagada pela tragédia. E por isso Uma cilada para Roger Rabbit conseguiu se tornar uma obra única no gênero, um dos responsáveis por reerguer o campo das animações e que, mais do que acrescentar agradáveis surpresas e reviravoltas bem delineadas, é um acabado produto histórico.

Who framed Roger Rabbit, EUA, 1988 Diretor: Robert Zemeckis Elenco: Bob Hoskins, Christopher Lloyd, Charles Fleischer, Joanna Cassidy, Stubby Kaye, Alan Tilvern, Lou Hirsch, Richard Le Parmentier, Betsy Brantley, Joel Silver Roteiro: Jeffrey Price, Peter S. Seaman Fotografia: Dean Cundey Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Frank Marshall, Robert Watts Duração: 104 min. Estúdio: Amblin Entertainment / Touchstone Pictures / Silver Screen Partners III

Cotação 4 estrelas e meia

Willow – Na terra da magia (1988)

Por André Dick

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Este filme foi a concretização de um dos maiores sonhos de George Lucas. Com um custo de 35 milhões de dólares (ainda mais significativos para sua época), e locações excepcionais na Nova Zelândia e País de Gales, Willow teve a desconfiança desde o seu lançamento, como se fosse uma espécie de continuação de Star Wars, passada numa Terra-média de Lucas. O marketing acabou pesando na expectativa de que o resultado correspondesse aos maiores sucessos de Lucas. E, lançado no mesmo verão de Uma cilada para Roger Rabbit, acabou por ficar em segundo plano. Depois de 25 anos e muitas críticas contrárias, é possível voltar a ele, com o olhar de um tempo passado, mas remetendo também ao presente, por meio da edição comemorativa em Blu-ray, que, assim se espera, também seja lançada no Brasil.
Assinado por Ron Howard, com fotografia primorosa e música excelente (de James Horner), um dos problemas normalmente apontados em Willow é o roteiro de Lucas, que mistura várias histórias, mas, fazendo uma releitura dele, isso não estraga o resultado. Olhar para este filme depois de um tempo considerável mostra que, mais do que trazer o peso da nostalgia, ele faz jus a uma década que trouxe filmes memoráveis de fantasia, como A história sem fim, Labirinto e A lenda, com suas falhas e virtudes, todos sem a mesma elaboração visual dos contemporâneos, como O senhor dos anéis, também pela época e pelos efeitos especiais serem feitos de forma quase artesanal, quase sem computadores, mas com uma genuína força própria e não raro cenários criativos.

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A história inicia com o nascimento de um bebê com uma marca determinada de nascença, que, segundo as profecias, destruirá a rainha Bavmorda (Jean Marsh). Ela manda persegui-lo, mas ele é jogado num rio, que o leva à aldeia dos Nelwyn (gente pequena), onde Willow Ugford (Warwick Davis) e sua família o encontram. Com o sonho de ser um feiticeiro de sua aldeia – e o cuidado que se tem com o desenho de produção do local é próprio de Lucas –, Willow tem receio de se manter com o bebê, justamente porque chegam ao seu vilarejo cachorros gigantes com cabeças de porcos tentando encontrá-lo. O feiticeiro líder, High Alwin (Billy Barty), coloca Willow na missão de entregar o bebê a um Daikini (no linguajar do filme, gente grande). Mas a fada Cherlindrea (Maria Holvöe), num momento que remete claramente à obra clássica Peter Pan, de John Barrie, vem avisá-lo que Elora Danan (feita pelas gêmeas Kate e Ruth Greenfield) tem poderes para destruir a rainha. Willow se junta a um herói debochado, Madmartigan (Val Kilmer), encontrado dentro de uma jaula para prisioneiros, e à feiticeira Raziel (Patricia Hayes) para destruir Bavmorda, enquanto precisa passar por bosques, montanhas e outros contratempos, com a parceria de dois brownies (Kevin Pollak e Rick Overton) – homenzinhos minúsculos, que parecem saídos das aventuras de Gulliver. No seu encalço, seguem Sorsha (Joanne Whalley) , filha de Bavmorda, e  General Kael (Pat Roach), que, parecendo um Darth Vader da Idade Média, é, na verdade, uma homenagem às avessas de Lucas a Pauline Kael, a crítica histórica de cinema.

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Acompanhada de um figurino elaborado, a direção de arte reproduz muito bem um tempo-espaço singular, e mesmo as referências à religião e a filmes (há uma perseguição com carroças como se fossem bigas, à la Ben-Hur; os personagens lembram Star Wars, do próprio Lucas), não tiram do filme um ar ingênuo cada vez mais raro. Mas o que realmente salta aos olhos em Willow é seu cuidado visual. Há, nele, uma espécie de resquício do cuidado que vemos em O retorno de Jedi, com as imagens de florestas e, nesse sentido, a sua fotografia, uma cortesia de Adrian Biddle, é uma das maiores conquistas do filme. As locações na Nova Zelândia, com montanhas, lagos, florestas e longas planícies, conseguem dar um pano de fundo notável, e não é por acaso que Jackson também filmou nesse país – além de ser o seu de origem – O senhor dos anéis e O hobbit. Willow, ao mesmo tempo em que se alimenta das jornadas de Tolkien – naquela época em livro –, consegue expandir o seu universo, povoando-o de elementos das mais variadas histórias, não apenas bíblicas, mas cinematográficas. A jornada em que Willow vai se encontrando com outros amigos não deixa de ter também um elo com O mágico de Oz, assim como as suas feitiçarias e mágicas têm um traço de Idade Média e as aldeias, algo que remete a uma idade muito antiga. No entanto, essa mistura feita por Lucas de fábulas e contos clássicos ressurge numa mescla de gêneros, tornando Willow num filme nem para crianças nem para adultos, mas com uma espécie de atmosfera que adota principalmente os elementos universais.

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Willow 10

Willow vai passar pela provação de exercer seu conhecimento sobre feitiçaria, e nisso Warwick Davis é, sem dúvida, excelente. Ele forma uma boa dupla com Kilmer, um ator naquele momento conhecido pela comédia Top Secret! e por ser rival de Tom Cruise em Top Gun. Na pele de Madmartigan, Kilmer tenta transparecer um elo de humor com o Han Solo de Harrison Ford, baseando-se no mesmo estilo de que ele seria apenas um fora da lei, muitas vezes pensando apenas no lado financeiro e de diversão, correspondido pela indefinição entre a atração e a agressividade da personagem de Sorsha, interpretada por Joanna Whaley como se estivesse nos anos 50. Temos alguns momentos que remetem a essa amizade construída depois da perseguição na taverna logo diante de uma cachoeira e depois na subida de uma montanha, uma das chaves da amizade elaborada por Willow.
Estruturado num roteiro com esquema definido, sem grandes intervalos temporais, mas com uma edição talentosa, Ron Howard revela aqui um dos seus trabalhos mais interessantes. É costume se dizer que Howard não sabe dirigir, mas ele tem sensibilidade e boa coordenação sobre os atores, certamente mais do que Lucas. Seus filmes costumam ter boas atuações, como Apollo 13, Uma mente brilhante, A luta pela esperança, Frost/Nixon e Rush e a aversão que se tem à sua obra, ao que parece, é justamente por se tratar de um diretor não autoral que consegue ser indicado seguidamente a prêmios importantes.Em Willow, ele consegue aliar o estilo que mostra em Splash e Cocoon, mesclando realidade e fantasia, com o carisma dos personagens de seus melhores filmes e acrescenta a esta fantasia projetada por Lucas um humor involuntário normalmente ausente em seu criador. Daí este filme de fantasia ser um dos mais antológicos já realizados.

Willow, EUA, 1988 Diretor: Ron Howard Elenco: Warwick Davis, Val Kilmer, Joanna Whalley, Billy Barty, Maria Holvöe, Patricia Hayes, Jean Marsh, Kevin Pollak, Rick Overton, Pat Roach, Kate e Ruth Greenfield Roteiro: Bob Dolman, George Lucas Fotografia: Adrian Biddle Trilha Sonora: James Horner Produção: Nigel Wooll Duração: 130  min. Estúdio: Imagine Entertainment / Lucasfilm Ltd / Metro-Goldwyn-Mayer (MGM)

Cotação 5 estrelas

Melhores filmes 1980-1989

Por André Dick

Melhores filmes.1980.1989.Cinematographe.Imagens Com o intuito de organizar uma seleção de filmes dos anos 1980, é apresentada, aqui, uma lista de melhores a cada ano, de 1980 a 1989, cada uma seguida por menções honrosas. As listas, como sempre, são um recorte de um determinado período e podem se transformar ao longo dos anos. Filmes dos anos 80, especificamente, já fazem parte de uma vida toda, vistos ou revistos, e guardam ainda o peso da nostalgia. Alguns estão ligados a outros elementos além do cinema: as primeiras idas ao cinema. Mas, ainda assim, todos aqui, revisitados, se mostraram ainda atuais. Muitos anos possuem mais destaque do que outros, por isso o número de menções honras varia (e a ordem delas é aleatória). E os cinco primeiros filmes de 1980, um dos melhores anos da história, são referenciais para toda a década, caracterizada pelas produções sobre jovens e crianças, assim como por fantasias e ficções científicas e filmes de grande produção e risco, a exemplo de O portal do paraíso, O fundo do coração e Duna. É uma década que marca o encontro entre diretores como Steven Spielberg, Francis Ford Coppola, Brian De Palma, David Cronenberg, Ridley Scott, Woody Allen, Oliver Stone e Michael Cimino, reafirmando as suas trajetórias iniciadas nos anos 6o ou 70,  e nomes vindos da Europa, da Rússia, da Austrália, do Oriente, como Wim Wenders, Rainer Werner Fassbinder, Elem Klimov, Nagisa Oshima, Werner Herzog, Jean-Jacques Annaud, Giuseppe Tornatore, Bille August, Krzysztof Kieślowski, Wolfgang Petersen, Russell Mulcahy, Samuel Fuller, Eric Rohmer, Leos Carax, Peter Weir, Peter Greenaway e Jean-Jacques Beineix. Pedro Almodóvar faria diversos filmes, mas minha apreciação é por seu trabalho a partir dos anos 90 e, sobretudo, nos anos 2000. Também marca os primeiros filmes de Tim Burton, James Cameron, Spike Lee, Gus Van Sant, Jim Jarmusch, Joel e Ethan Coen, Sam Raimi e Steven Soderbergh. É ainda a década de alguns dos melhores filmes feitos por Martin Scorsese, de obras quase finais ou derradeiras de Akira Kurosawa, Ingmar Bergman, Andrei Tarkovsky e Stanley Kubrick, e de alguns diretores que se afirmam em produções de Spielberg (Joe Dante, Robert Zemeckis, Barry Levinson). Do ponto mais alto da carreira de John Carpenter. Da visão sobre a juventude de John Hughes. Das animações infelizmente um tanto esquecidas de Don Bluth. Das comédias de Jim Abrahams, David Zucker, Jerry Zucker. E grandes filmes de David Lynch. Finalmente, o apreço pelo filme. Alguns filmes que não agradam na primeira visão se mostram interessantes e até mesmo indispensáveis quando revisitados. Do mesmo modo, outros que a princípio parecem indispensáveis, com o passar dos anos parecem ter o impacto reduzido e se tornam menos importantes. A premissa de que um filme é bom ou fraco muitas vezes varia, mas a distância dos anos parece ser a melhor maneira de constatar isso. Os anos de cada filme estão de acordo com o IMDb, com raras exceções. Duas produções não foram inseridas nas listas por terem sido feitas originalmente como minisséries de TV: Berlin Alexanderplatz (de Rainer Werner Fassbinder) e Decálogo (de Krzysztof Kieślowski), que chegaram a ser exibidas em circuito restrito ou em festivais. O filme Não amarás, versão estendida de um dos episódios de Decálogo e lançada nos cinemas, foi inserido na lista de 1988. O filme Fanny e Alexander, de Bergman, inicialmente minissérie de TV, entra por sua versão lançada nos cinemas. Importante lembrar que são inseridas nas listas de melhores filmes as versões estendidas de O barco, Vidas sem rumo, Era uma vez na América, Betty BlueA lendaAliens, o resgate e O siciliano (lançada em 2016). A versão de Duna é a mais curta, lançada nos cinemas e assinada por David Lynch, e a versão de Blade Runner é a original, de 1982. Espera-se que as listas levem você, cinéfilo e leitor, a rever ou descobrir alguns desses filmes.

Observações: na lista de 1981, Carruagens de fogo passou para a 4ª posição, deixando Fuga de Nova York em 5º, e Grito de horror entrou na 8ª colocação, deixando de fora A morte do demônio; na lista de 1982, O cristal encantado ocupou o lugar de O estado das coisas; na lista de 1983 Os embalos de sábado à noite continuam ocupou o lugar de Fome de viver; na lista de 1984, Greystoke – A lenda de Tarzan, o rei da selva ocupou o lugar de Crimes de paixão; na lista de 1985, a versão estendida de A lenda ocupou o lugar de Depois de horas; na lista de 1987, houve mudanças em relação à primeira versão. Império do sol passou de 5º para 3º, ocupando o lugar de RoboCop; Abaixo de zero passou a ocupar a 7ª posição, e A festa de Babette deu lugar a O siciliano na 10ª colocação.

1. O portal do paraíso (Michael Cimino)
2. O iluminado (Stanley Kubrick)
3. Touro indomável (Martin Scorsese)
4. O homem elefante (David Lynch)
5. Vestida para matar (Brian De Palma)
6. Fama (Alan Parker)
7. O império contra-ataca (Irvin Kershner)
8. Pixote (Hector Babenco)
9. Popeye (Robert Altman)
10. Meu tio da América (Alain Resnais)

Menções honrosas: Os irmãos cara-de-pau (John Landis), Flash Gordon (Mike Hodges), A última cruzada do fusca (Vincent McEvetty), Kagemusha – A sombra do samurai (Akira Kurosawa), Parece que foi ontem (Jay Sandrich), A recruta Benjamin (Howard Zieff), Fog – A bruma assassina (John Carpenter), Como eliminar seu chefe (Colin Higgins), Alligator (Lewis Teague), Brubaker (Stuart Rosenberg), Melvin e Howard (Jonathan Demme), Cowboy do asfalto (James Bridges), Em algum lugar do passado (Jeannot Szwarc), Superman II (Corte de Richard Donner), Apertem os cintos, o piloto sumiu (Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker), Agonia e glória (Samuel Fuller), A menina que viu Deus (Gilbert Cates), O último metrô (François Truffaut)

1. A mulher do aviador (Eric Rohmer)
2. O barco (Wolfgang Petersen)
3. Os caçadores da arca perdida (Steven Spielberg)
4. Carruagens de fogo (Hugh Hudson)
5. Fuga de Nova York (John Carpenter)
6. O dragão e o feiticeiro (Matthew Robbins)
7. Ausência de malícia (Sydney Pollack)
8. Grito de horror (Joe Dante)
9. Os bandidos do tempo (Terry Gilliam)
10. O buraco da agulha (Richard Marquand)

Menções honrosas: Scanners (David Cronenberg), A morte do demônio (Sam Raimi), Outland – Comando Titânio (Peter Hyams), Pague para entrar, reze para sair (Tobe Hooper), Mad Max II (George Miller), Cavaleiros de aço (George A. Romero), Condorman (Charles Jarrott), Fúria de titãs (Desmond Davis), Dinheiro do céu (Herbert Ross), Amor sem fim (Franco Zeffirelli), Excalibur (John Boorman), 007 – Somente para seus olhos (John Glen), A guerra do fogo (Jean-Jacques Annaud), Halloween II (Rick Rosenthal), O cão e a raposa (Ted Berman, Richard Rich, Art Stevens), Os saltimbancos trapalhões (J.B. Tanko), Lola (Rainer Werner Fassbinder), Reds (Warren Beatty), Eu, Christiane F. – 13 anos, drogada e prostituída (Uli Edel), Diva (Jean-Jacques Beineix), S.O.B. (Blake Edwards), Falcões da noite (Bruce Malmuth), 41º DP – Inferno no Bronx (Daniel Petrie), Testemunha fatal (Peter Yates), Galipolli (Peter Weir), A história do mundo – Parte 1 (Mel Brooks)

1. E.T. – O extraterrestre (Steven Spielberg)
2. Fanny & Alexander (Ingmar Bergman)
3. O fundo do coração (Francis Ford Coppola)
4. Tootsie (Sydney Pollack)
5. Blade Runner – O caçador de androides (Ridley Scott)
6. Poltergeist – O fenômeno (Tobe Hooper)
7. Hammett (Wim Wenders)
8. O mundo segundo Garp (George Roy Hill)
9. A ratinha valente (Don Bluth)
10. O cristal encantado (Jim Henson e Frank Oz)

Menções honrosas: O estado das coisas (Wim Wenders), Tex – Um retrato da juventude (Tim Hunter), Cliente morto não paga (Carl Reiner), A marca da pantera (Paul Schrader), Rambo – Programado para matar (Ted Kotcheff), Um cara muito baratinado (Richard Benjamin), Jornada nas estrelas II – A ira de Khan (Nicholas Meyer), Annie (John Huston), Fitzcarraldo (Werner Herzog), Banana Joe (Steno), Tron – Uma odisseia eletrônica! (Steven Lisberger), O desespero de Veronika Voss (Rainer Werner Fassbinder), Apertem os cintos, o piloto sumiu! – 2ª parte (Ken Finkleman), O enigma de outro mundo (John Carpenter), Cão branco (Samuel Fuller), O veredito (Sidney Lumet), Creepshow (George A. Romero), Vincent (Tim Burton)

1. O rei da comédia (Martin Scorsese)
2. Os eleitos (Phillip Kaufman)
3. O retorno de Jedi (Richard Marquand)
4. Scarface (Brian De Palma)
5. Furyo – Em nome da honra (Nagisa Oshima)
6. Nostalgia (Andrei Tarkovsky)
7. Cujo (Lewis Teague)
8. A balada de Narayama (Shohei Imamura)
9. Vidas sem rumo (Francis Ford Coppola)
10. Os embalos de sábado à noite continuam (Sylvester Stallone)

Menções honrosas: Fome de viver (Tony Scott), O selvagem da motocicleta (Francis Ford Coppola), Laços de ternura (James L. Brooks), Momento inesquecível (Bill Forsyth), Flashdance (Adrian Lyne), O dia seguinte (Nicholas Meyer), Jogos de guerra (John Badham), Krull (Peter Yates), 007 – Nunca mais outra vez (Irvin Kershner), O negócio é sobreviver (Michael Ritchie), Christine – O carro assassino (John Carpenter), Sob fogo cerrado (Roger Spottiswoode), A maldição da pantera cor-de-rosa (Blake Edwards), No limite da realidade (Joe Dante, John Landis, Steven Spielberg, George Miller), O reencontro (Lawrence Kasdan), As loucuras de Jerry Lewis (Jerry Lewis), Pauline na praia (Eric Rohmer), O regresso do corcel negro (Robert Dalva), Psicose II (Richard Franklin), Johnny – O gângster (Amy Heckerling), E la nave va (Federico Fellini), Os lobos nunca choram (Carroll Ballard), Uma história de natal (Bob Clark), Férias frustradas (Harold Ramis), Trocando as bolas (John Landis), A hora da zona morta (David Cronenberg), De volta para o inferno (Ted Kotcheff), Koyaanisqatsi (Godfrey Reggio), 007 contra Octopussy (John Glen)

Melhores filmes.1984.Cinematographe 2

1. Amadeus (Milos Forman)
2. A história sem fim (Wolfgang Petersen)
3. Paris, Texas (Wim Wenders)
4. Duna (David Lynch)
5. Gremlins (Joe Dante)
6. Era uma vez na América (Sergio Leone)
7. Estranhos no paraíso (Jim Jarmusch)
8. Karatê Kid (John G. Avildsen)
9. Boy meets girl (Leos Carax)
10. Greystoke – A lenda de Tarzan, o rei da selva (Hugh Hudson)

Menções honrosas: Os caça-fantasmas (Ivan Reitman), Crimes de paixão (Ken Russell), Um tira da pesada (Martin Brest), Um espírito baixou em mim (Carl Reiner), 2010 – O ano em que faremos contato (Peter Hyams), O céu continua esperando (Paul Bogart), Starman – O homem das estrelas (John Carpenter), Top Secret! (Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker), Moscou em Nova York (Paul Mazursky), Gatinhas e gatões (John Hughes), Amanhecer violento (John Milius), Quilombo (Cacá Diegues), Os heróis não têm idade (Richard Franklin), Cotton Club (Francis Ford Coppola), Indiana Jones e o templo da perdição (Steven Spielberg), Footloose (Herbert Ross), O exterminador do futuro (James Cameron), O corte da navalha (Russell Mulcahy), Os gritos do silêncio (Roland Joffé), Tudo por uma esmeralda (Robert Zemeckis), Frankenweenie (Tim Burton), Stop Making Sense (Jonathan Demme), Dublê de corpo (Brian De Palma), Splash – Uma sereia em minha vida (Ron Howard)

Melhores filmes.1985.Cinematographe 3

1. Vá e veja (Elem Klimov)
2. Minha vida de cachorro (Lasse Hallström)
3. A cor púrpura (Steven Spielberg)
4. Os Goonies (Richard Donner)
5. O beijo da mulher-aranha (Hector Babenco)
6. A testemunha (Peter Weir)
7. De volta para o futuro (Robert Zemeckis)
8. Ran (Akira Kurosawa)
9. O clube dos cinco (John Hughes)
10. A lenda (Ridley Scott)

Menções honrosas: Depois de horas (Martin Scorsese), Marcas do destino (Peter Bognadovich), O enigma da pirâmide (Barry Levinson), Ladyhawke – O feitiço de Áquila (Richard Donner), Os aventureiros do bairro proibido (John Carpenter), Inimigo meu (Wolfgang Petersen), O primeiro ano do resto de nossas vidas (Joel Schumacher), Férias frustradas na Europa (Amy Heckerling), A joia do Nilo (Lewis Teague), Viagem ao mundo dos sonhos (Joe Dante), O ano do dragão (Michael Cimino), As grandes aventuras de Pee-Wee (Tim Burton), O mundo mágico de Oz (Walter Murch), A hora do pesadelo 2 – A vingança de Freddy (Jack Sholder), 007 – Na mira dos assassinos (John Glen), A floresta das esmeraldas (John Boorman), A marvada carne (André Klotzel), Admiradora secreta (Robert Greenwalt), Viagem clandestina (Jeremy Kagan), Cocoon (Ron Howard), Procura-se Susan desesperadamente (Susan Seidelman), Brazil – O filme (Terry Gilliam), Competição de destinos (John Badham), Minha adorável lavanderia (Stephen Frears), D.A.R.Y.L. (Simon Wincer), A hora do espanto (Tom Holland), Remo – Desarmado e perigoso (Guy Hamilton), Quase igual aos outros (Lisa Gottlieb), O sol da meia-noite (Taylor Hackford), Mala noche (Gus Van Sant)

Melhores filmes.1986.Cinematographe

1. Veludo azul (David Lynch)
2. Sangue ruim (Leos Carax)
3. A inocência do primeiro amor (David Seltzer)
4. A missão (Roland Joffé)
5. Aliens, o resgate (James Cameron)
6. Betty Blue (Jean-Jacques Beineix)
7. Platoon (Oliver Stone)
8. Hannah e suas irmãs (Woody Allen)
9. O sacrifício (Andrei Tarkovsky)
10. O nome da rosa (Jean-Jacques Annaud)

Menções honrosas: Jornada nas estrelas IV – A volta para casa (Leonard Nimoy), Por favor, matem a minha mulher (Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker), Curtindo a vida adoidado (John Hughes), A pequena loja dos horrores (Frank Oz), Totalmente selvagem (Jonathan Demme), De volta às aulas (Alan Metter), Histórias reais (David Byrne), Labirinto (Jim Henson), A mosca (David Cronenberg), Daunbailó (Jim Jarmusch), O massacre da serra elétrica 2 (Tobe Hooper), Um vagabundo na alta roda (Paul Mazursky), Conta comigo (Rob Reiner), Fievel – Um conto americano (Don Bluth), Crocodilo Dundee (Peter Faiman), O destemido senhor da guerra (Clint Eastwood), Invasores de Marte (Tobe Hooper), A morte pede carona (Robert Harmon), A garota de rosa shoking (Howard Deutch), O castelo no céu (Hayao Miyazaki), O raio verde (Eric Rohmer), Momo e o senhor do tempo (Johannes Schaaf), A noite das brincadeiras mortais (Fred Walton), Jean de Florette (Claude Berri)

Melhores filmes.1987.Cinematographe 9

1. Os intocáveis (Brian De Palma)
2. Baleias de agosto (Lindsay Anderson)
3. Império do sol (Steven Spielberg)
4. Nascido para matar (Stanley Kubrick)
5. RoboCop (Paul Verhoeven)
6. Arizona nunca mais (Joel e Ethan Coen)
7. Abaixo de zero (Marek Kanievska)
8. Asas do desejo (Wim Wenders)
9. Adeus, meninos (Louis Malle)
10. O siciliano (Michael Cimino)

Menções honrosas: A festa de Babette (Gabriel Axel), Os garotos perdidos (Joel Schumacher), Bom dia, Vietnã (Barry Levinson), A ladrona (Hugh Wilson), Wall Street (Oliver Stone), Presente de grego (Charles Shyer), Roxanne (Fred Shepisi), Máquina mortífera (Richard Donner), Tal pai, tal filho (Rod Daniel), Feliz ano velho (Roberto Gervitz), Te pego lá fora (Phil Joanou), S.O.S. – Tem um louco solto no espaço (Mel Brooks), Alguém muito especial (Howard Deutch), Feitiço da lua (Norman Jewison), O milagre veio do espaço (Matthew Robbins), Uma noite alucinante II (Sam Raimi), Barfly (Barbet Schroeder), Atirando para matar (Roger Spottiswoode), Mestres do universo (Gary Goddard), Bagdad Café (Percy Adlon), Ishtar (Elaine May), A grande cruzada (Franklin J. Schaffner), O escondido (Jack Sholder), As amazonas na lua (Joe Dante, Carl Gottlieb, Peter Horton, John Landis, Robert K. Weiss, Robert Weiss), O predador (John McTiernan), Os rivais (Barry Levinson), Terror na ópera (Dario Argento), Uma janela suspeita (Curtis Hanson), A hora do pesadelo III – Os guerreiros do sono (Chuck Russell), As bruxas de Eastwick (George Miller), Uma noite de aventuras (Chris Columbus), Antes só do que mal acompanhado (John Hughes), O último imperador (Bernardo Bertolucci), Um hóspede do barulho (William Dear), A era do rádio (Woody Allen)

Melhores filmes.Cinematographe.1988 1. Pelle, o conquistador (Bille August)
2. Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore)
3. O elo perdido (David Hughes e Carol Hughes)
4. Willow (Ron Howard)
5. O urso (Jean-Jacques Annaud)
6. Não amarás (Krzysztof Kieślowski)
7. Clara’s heart (Robert Mulligan)
8. Para sempre na memória (Marisa Silver)
9. Uma cilada para Roger Rabbit (Robert Zemeckis)
10. Uma secretária de futuro (Mike Nichols)

Menções honrosas: A última tentação de Cristo (Martin Scorsese), Duro de matar (John McTiernan), O preço do desafio (Ramón Menéndez), Os safados (Frank Oz), O grande mentecapto (Oswaldo Caldeira), Mississipi em chamas (Alan Parker), Palco de ilusões (David Seltzer), As aventuras do Barão de Münchausen (Terry Gilliam), Tucker – Um homem e seu sonho (Francis Ford Coppola), Ligações perigosas (Stephen Frears), O jovem Einstein (Yahoo Serious), Loucas tentações (William Schreiner), A bolha assassina (Chuck Russell), Os fantasmas contra-atacam (Richard Donner), Far North (Sam Shepard), Rain Man (Barry Levinson), Os fantasmas se divertem (Tim Burton), Na montanha dos gorilas (Michael Apted), Corra que a polícia vem aí (David Zucker), Quero ser grande (Penny Marshall), Uma noite com o rei do rock (Chris Columbus), Ela vai ter um bebê (John Hughes), Inferno vermelho (Walter Hill), Gêmeos – Mórbida semelhança (David Cronenberg), Cuidado com as gêmeas (Jim Abrahams), A insustentável leveza do ser (Phillip Kaufman), A hora do espanto 2 (Tommy Lee Wallace), O turista acidental (Lawrence Kasdan), Uma fazenda do barulho (George Roy Hill), Medeia (Lars von Trier), Um príncipe em Nova York (John Landis), Short Circuit II (Kenneth Johnson), Meu amigo Totoro (Hayao Mivazaki), Sorte no amor (Ron Shelton), Heathers – Atração mortal (Michael Lehmann)

1. Batman (Tim Burton)
2. Pecados de guerra (Brian De Palma)
3. O segredo do abismo (James Cameron)
4. Sociedade dos poetas mortos (Peter Weir)
5. Nascido em 4 de julho (Oliver Stone)
6. Faça a coisa certa (Spike Lee)
7. Indiana Jones e a última cruzada (Steven Spielberg)
8. Drugstore cowboy (Gus Van Sant)
9. Meu mestre, minha vida (John G. Avildsen)
10. De volta para o futuro II (Robert Zemeckis)

Menções honrosas: Santa Sangre (Alejandro Jodorowsky), Conduzindo miss Daisy (Bruce Beresford), Tempo de glória (Edward Zwick), O tiro que não saiu pela culatra (Ron Howard), Máquina mortífera 2 (Richard Donner), Faca de dois gumes (Murilo Salles), Não somos anjos (Neil Jordan), Jesus de Montreal (Denys Arcand), Harry & Sally – Feitos um para o outro (Nora Ephron), Digam o que quiserem (Cameron Crowe), Os caça-fantasmas 2 (Ivan Reitman), A pequena sereia (Ron Clements, John Musker), Vítimas de uma paixão (Harold Becker), Um toque de infidelidade (Joel Schumacher), Shirley Valentine (Lewis Gilbert), Campo dos sonhos (Phil Alden Robinson), Festa (Ugo Giorgetti), Flores de aço (Herbert Ross), 007 – Permissão para matar (John Glen), Meu pai – Uma lição de vida (Gary David Goldberg), O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante (Peter Greenaway), Meu pé esquerdo (Jim Sheridan), Dias melhores virão (Cacá Diegues), Meus vizinhos são um terror (Joe Dante), Ilha das flores (Jorge Furtado), Além da eternidade (Steven Spielberg), Sexo, mentiras e videotape (Steven Soderbergh)

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