Destacamento Blood (2020)

Por André Dick

O diretor Spike Lee vem conseguindo manter uma média de filmes muito boa desde sua estreia em Ela quer tudo, em 1986. Depois do grande sucesso de Faça a coisa certa três anos depois, principalmente no Festival de Cannes, ele encadeou obras significativas para os anos 90, Mais e melhores blues, Febre da selva e Malcolm X. No entanto, a partir de meados dessa década, mesmo que tenhamos Irmãos do sangue e O verão de Sam, até o final dos anos 2000, Lee, refinando sua estética, basicamente reprisou os temas desses filmes, com uma breve interrupção no ótimo A última noite, sobre os efeitos do 11 de setembro. Depois de sua refilmagem mal-recebida de Oldbboy – com Josh Brolin –, ele voltou a fazer bastante sucesso com Infiltrado na Klan. Este novo filme seu, Destacamento Blood, lançado pela Netflix, vem exatamente reafirmar este novo momento.

Certamente interessado em recuperar vestígios de uma Guerra do Vietnã pouco abordada por cineastas negros, Spike Lee consegue situar os personagens de modo simples e eficiente.  Quatro veteranos de guerra afro-americanos, Paul (Delroy Lindo), intranquilo e às vezes agressivo, o tranquilo Otis (Clarke Peters), mais Eddie (Norm Lewis) e Melvin (Isiah Whitlock Jr.). estão em Ho Chi Minh, Vietnã, para uma missão: recuperar barras de ouro perdidas durante a guerra, quando se envolveram numa batalha ao lado de Stormin ‘Norman (Chadwick Boseman), que não está mais entre eles. Otis reencontra uma amante dos tempos de guerra, Tiên Luu (Y. Lan), enquanto Paul recebe a visita inesperada de seu filho David (Jonathan Majors). Depois de um encontro com um francês, Desroche (Jean Reno), negociante que pode ajudá-los a esconder o valor do ouro em contas no exterior, eles partem na missão com a ajuda de Vinh (Johnny Tri Nguyen)  – que não sabe exatamente o que estão fazendo ali. No caminho para o lugar almejado, David conhece um grupo formado por Bouvier (Mélanie Thierry), Simon (Paul Walter Hauser) e Seppo (Jasper Pääkkönen).

Destacamento Blood usa diferentes tipos de formato de tela: um para representar a pré-missão, quando os amigos saem inclusive para uma discoteca com um grande painel ao fundo de Apocalypse now, de Francis Ford Coppola, homenageado também quando embarcam numa navegação por um rio ao som de “Cavalgada das Valquírias”, outro quando mostra o passado, com o grupo no campo de batalha do Vietnã; e outro no presente quando estão em missão, quando o formato de tela se preenche totalmente. O talento da fotografia de Newton Thomas Sigel, acompanhado por uma trilha sonora de Terence Blanchard e canções de Marvin Gaye, evita com que isso pareça um mero maneirismo, fazendo bem o contraponto entre a tonalidade das imagens atuais e as dos anos 70 (granuladas, em 16mm), quando lembram uma espécie de documentário, na linha de Corações e mentes. É um trabalho brilhante em alguns momentos, esteticamente apurado e bem inserido.
O início do filme é repleto de informações históricas, uma característica de Spike Lee, mas aqui, embora ele tenha sempre uma certa vontade de trabalhar suas ideias políticas, ele parece liberar um lado mais humano desses personagens, sem exatamente escondê-los por trás de um discurso.

Com uma luz natural, ele parece se inspirar na filmografia do tailandês Apichatpong Weerasethakul para mostrar uma selva vietnamita ameaçadora, mas ao mesmo tempo com templos; ainda presa ao passado, mas já com vontade de esquecer a tragédia. Porem, para Spike Lee, o que esse grupo vai procurar não é exatamente o ouro e sim o acerto de contas com seu passado. Parecem atraídos pelo sentimento de culpa, que a selva não ajuda a atenuar. E o ouro, sobretudo a partir de determinada sequência, é uma extensão da perda, do que já não pode ser recuperado – um passado feito de discursos, ouvidos no início e no final. Isso é feito sobretudo pela figura de Paul, numa atuação magnífica de Delroy Lindo, e sua relação conflituosa com o filho. Apesar de Lee não consiga trabalhar da melhor maneira os outros personagens, é possível visualizar neles de fato um grupo efetivo, com verdadeiras ligações.
Destacamento Blood é um filme raro sobre a Guerra do Vietnã porque faz dele uma espécie de memória viva de seus personagens, e nunca torna os personagens estáticos: eles mudam conforme o grau de tensão do qual vão se aproximando. Nesse sentido, se eles chegam ao Vietnã apenas com o ouro em mente, aos poucos eles vão se deparando com os efeitos da guerra também nas pessoas que ali moram – e uma discussão entre Paul e um vendedor num barco é emblemática disso. A violência vivenciada pelos negros provoca uma reação de quem também a sofreu, e a culpa parece compartilhada. Para os integrantes do grupo, a guerra foi traumatizante: eles a levaram embora, mas também mantiveram seus resquícios ali. Lee trabalha isso de maneira interessante, tornando os diálogos fluidos e as situações bastante realistas.

Se em Infiltrado na Klan havia uma certa homenagem singela ao cinema dos anos 70, aqui o objetivo não é o mesmo e, com elementos pop, o antigo companheiro é visto como uma espécie de Pantera Negra, não à toa interpretado por Chadwick Boseman, fazendo da selva uma espécie de mapa da insegurança. Pode também o efeito da “febre do ouro”, e Lee introduz isso de maneira curiosa, com uma espécie de quebra da quarta parede e alguns monólogos explicando reações anteriores.
De modo geral, Destacamento Blood é uma grande realização na trajetória desse cineasta e, se o fim não faz jus ao restante, como já havia acontecido em Infiltrado na Klan, tentando reduzir uma história complexa por meio de uma síntese de palavras e declarações excessivamente rápidas, é bem verdade que talvez seja isto que atraia os olhares para o cinema de Spike Lee. Como em Faça a coisa certa, parece que o melhor do cinema dele é o conflito. Não é. Quando o espectador percebe que ele trata de um universo mais denso, é interessante voltar a ele: há algo profundamente humano e inexplicado por qualquer discurso no roteiro de Destacamento Blood.

Da 5 Bloods, EUA, 2020 Diretor: Spike Lee Elenco: Delroy Lindo, Jonathan Majors, Clarke Peters, Norm Lewis, Isiah Whitlock Jr, Mélanie Thierry, Paul Walter Hauser, Jasper Pääkkönen, Jean Reno, Chadwick Boseman Roteiro: Danny Bilson, Paul De Meo, Spike Lee, Kevin Willmott  Fotografia: Newton Thomas Sigel Trilha Sonora: Terence Blanchard Produção: Jon Kilik, Spike Lee, Beatriz Levin, Lloyd Levin Duração: 155 min. Estúdio: 40 Acres and a Mule Filmworks, Rahway Road, Lloyd Levin/Beatriz Levin Production Distribuidora: Netflix

Melhores filmes de 2020 (até agora)

Por André Dick

O Cinematographe publica uma lista pessoal dos melhores filmes até agora lançados internacionalmente em 2020, nos cinemas, VOD e streaming. Não inclui filmes lançados internacionalmente em 2019 e que chegaram ao Brasil este ano. Não sabia se seria possível fazer uma lista antecipada por motivos evidentes, como é de costume a cada ano neste espaço. São incluídos dois curta-metragens, um de David Lynch e outro de Olivia Wilde, pela qualidade. A lista será atualizada à medida que forem sendo vistas novas produções, algumas delas lembradas abaixo, se não houver novos adiamentos.

1. Pinóquio (Matteo Garrone)
2. Wendy (Benh Zeitlin)
3. Capone (Josh Trank)
4. Má educação (Cory Finley)
5. O chalé (Veronika Franz e Severin Fiala)
6. A vastidão da noite (Andrew Patterson)
7. Devorar (Carlo Mirabella Davis)
8. Emma (Autumn de Wilde)
9. Vivarium (Lorcan Finnegan)
10 Dois irmãos – Uma jornada fantástica (Dan Scanlion)
11. A última coisa que ele queria (Dee Ress)
12. Ya no estoy aquí (Fernando Frias)
13. Aves de Rapina – Arlequina e sua emancipação fantabulosa (Cathy Yan)
14. O caminho de volta (Gavin O’Connor)
15. O pássaro pintado (Václav Marhoul)

Menções honrosas: 16. Troco em dobro (Peter Berg) 17. O chamado da floresta (Chris Sanders) 18. Big time adolescence (Jason Orley) 19. Wake up (Olivia Wilde) 20. Maria e João – O conto das bruxas (Osgood Perkins) 21. Um crime para dois (Michael Showalter) 22. What did Jack do? (David Lynch) 23. Sonic – O filme (Jeff Fowler) 24. Ameaça profunda (William Eubank) 25. SCOOBY! O filme (Tony Cervone)

Filmes a serem vistos: Mulan (Niki Caro), Duna (Denis Villeneuve), Mulher-Maravilha 1984 (Patty Jenkins), Amor, sublime amor (Steven Spielberg), The French dispatch (Wes Anderson), Destacamento Blood (Spike Lee), Tenet (Christopher Nolan), Viúva Negra (Cate Shortland), Top Gun: Maverick (Joseph Koskinki), The new mutants (Josh Boone), Um lugar silencioso – Parte II (John Krasinski), Greyhound (Aaron Schneider), Free Guy – Assumindo o controle (Shawn Lewy), Soul (Pete Docter, Kemp Powers), Mank (David Fincher), 007 – Sem tempo para matar (Cary Joji Fukunaga), The last planet (Terrence Malick)

Má educação (2020)

Por André Dick

Em 2017, o diretor Cory Finley se destacou no cinema independente com Puro-sangue, um duo entre duas ótimas atrizes, Olivia Cooke e Anya Taylor-Joy, como figuras que pretendiam concretizar um plano capaz de assustador mesmo o espectador mais exigente. Em 2020, estreou no Festival de Tribeca Má educação – mesmo nome de um filme de Pedro Almodóvar, de 2004 –, que tem como espaço principal a Roslyn High School.
Baseado numa história real, com roteiro de Mike Makowsky a partir do livro “The Bad Superintendent”, de Robert Kolker, Finley utiliza seu mesmo talento para a composição de imagens de seu filme anterior, mas amplia o escopo ao introduzir uma série de personagens que acabam formando um grande panorama. Desde o início, ele acompanha Francis A. Tassone (Hugh Jackman), superintendente do Roslyn High School. Ele recebe em sua sala uma aluna, Rachel Bhargava (Geraldine Viswanathan), que trabalha para o jornal de estudantes, liderada por Nick Fleischman (Alex Wolff).

A menina se mostra despretensiosa e ouve um conselho dele: transformar sua matéria em algo mais instigante do que pretende. Esse início demonstra exatamente o que Má educação acaba se transformando: a princípio um retrato normal de um local onde circulam jovens alunos, mistura-se depois a uma visão sobre como o ensino interfere na vida deles, mesmo que de forma indireta e com detalhes financeiros.
Tassone é muito amigo de sua assistente Pamela Gluckin (Alisson Janney), que, no entanto, esconde um segredo. Tasssone e  Big Bob Spicer (Ray Romano) tentam a princípio abafar a questão, no entanto ela é incontornável para que a escola continue buscando uma boa pontuação e levando cada vez mais seus alunos a universidades de respeito. Com isso, Tasson busca uma saída para o problema com o auditor (Jeremy Shamos), enquanto Glummick tem problemas com o filho James D. McCarden (Jimmy Tatro), que deixa rastro de algo comprometedor. A aluna Bhargava passa a investigar o que está sendo investido e descobre uma passarela milionária, enquanto o prédio tem goteiras. Isso é uma ideia inicial da teia que alimenta uma série de comportamentos questionáveis.

Tassone se mostra um ex-professor dedicado ao ofício e preocupado, quando também reencontra um antigo aluno Kyle Contreras (Rafael Casal ) numa viagem a Las Vegas. A partir daí, Finley ingressa numa espécie de estudo de personagem. O roteiro de Mike Makowsky colabora para atingir o objetivo – tendo sido ele, inclusive, aluno da Roslyn High School quando aconteceu o que Má educação revela.
Para que este estudo se concretize, Hugh Jackman parece mostrar a grande atuação de sua carreira, um pouco além de outras, como aquela de Os miseráveis. Há uma série de modulações em seus gestos e tom de voz que captam cada objetivo do diretor a fim de que a narrativa se destine a pontos até então imprevistos. Jackman, em parceria com Janney e Romano, também, mostra como um ator pode se moldar a seu tempo, apresentando um talento às vezes insuspeito em outros papéis. Mais conhecido por ter interpretado Wolverine, Jackman atinge a maturidade de sua trajetória, não temendo se mostrar envelhecido e num papel polêmico.

Muitas vezes inspirado na filmografia de Alexander Payne, especialmente Eleição, no qual um professor tinha problemas exatamente com alunos candidatos a liderar seus colegas numa escola, Má educação mostra a ambição num universo visto como de respeito e dedicação ao ensino – e lida com os personagens e seus erros de maneira humana, sem impedir o espectador de acessar o sentimento deles, de os outros perceberem suas trapaças ou simplesmente a angústia provocada pela situação em que se envolveram. Esses professores se dedicam à escola, querem torná-la respeitada, tanto pelos alunos quanto pelo corpo de pais, no entanto isso a custo de uma ambiguidade manifesta nos diálogos de Mike Makowsky. Como lidar com figuras tão contraditórias é uma questão que permeia a narrativa, com uma indefinição entre tentativa de alcançar a felicidade ou apenas sentir um alívio diante da culpa pelos atos. Há uma sensibilidade latente no conjunto de cenas entre Jackman e Janney, por exemplo, quando suscitam uma amizade que pode ser emperrada por algo maior. Finley constrói alguns planos simetricamente, como fazia em Puro-sangue, mas sem tantos maneirismos, embora continue utilizando a trilha sonora para pontuar bem suas escolhas. Como um filme que poderia ficar restrito a um universo mais indie, Má educação atinge o público de maneira universal a partir do espaço de uma escola.

Bad education, EUA, 2020 Diretor: Cory Finley Elenco: Hugh Jackman, Allison Janney, Geraldine Viswanathan, Alex Wolff, Rafael Casal, Stephen Spinella, Annaleigh Ashford, Ray Romano Roteiro: Mike Makowsky Fotografia: Lyle Vincent Trilha Sonora: Michael Abels Produção: Fred Berger, Brian Kavanaugh-Jones, Julia Lebedev, Mike Makowsky, Oren Moverman, Eddie Vaisman Duração: 108 min. Estúdio: Automatik, Sight Unseen, Slater Hall Distribuidora: HBO Films

Maria e João – O conto das bruxas (2020)

Por André Dick

Os contos de fadas têm sido utilizados nos últimos anos das mais variadas formas, seja em séries de TV (Grimm), seja em obras que lidam com um tom mais juvenil (A garota da capa vermelha) ou uma vertente de humor e violência (João e Maria – Caçadores de bruxas), além de animações (a exemplo de A bela e a fera), considerando ainda o tratamento metalinguístico no interessante Os irmãos Grimm, de Terry Gilliam. Este filme de Oz Perkins recupera a conhecida fábula dos irmãos Grimm sob um ponto de vista diferente, mais próximo do suspense e do terror, com claros elementos de A bruxa e uma fotografia excelente de Galo Olivares, assistente direto de Alfonso Cuarón na concepção de Roma.
O filme inicia com um bebê ficando doente numa vila distante, o que remete a alguma influência de uma releitura bíblica, e é entregue a uma feiticeira (Jessica De Gouw) para que possa sobreviver. No entanto, isso forma uma ação inesperada sobre o povoado. Maria (Sophia Lillis) e João (Samuel Leakey) vivem no lugar e ela é incitada a trabalhar pela mãe (Fiona O’Shaughnessy). Depois de negar a proposta de um homem, Maria é expulsa de casa com seu irmão e ambos vão parar num bosque. Depois de serem ajudados por um caçador (Charles Babalola), encontram Holda (Alice Krige), uma mulher que os recebe em sua casa com muitos doces.

Perkins utiliza um visual onírico que por vezes evoca Jodorowsky, principalmente aquele de A montanha mágica, dando uma sensação constante de pesadelo, assim como trabalha com elementos do videoclipe de “Heart-shaped box”, do Nirvana, principalmente numa sequência que imagina o preparo de uma comida de maneira distinta. Os galhos longos das árvores do bosque também remetem ao ótimo A lenda do cavaleiro sem cabeça, assim como os ambientes rústicos têm bastante influência de A vila, de Shyamalan, do mesmo modo que certo trabalho de cores. Em um determinado momento, uma grande árvore recorda Tarkovsky e sua releitura feita por Iñárritu em O regresso. É um trabalho visual de raro cuidado.
Nesse ponto, a fotografia de Olivares se destaca ainda mais, fazendo uma mescla entre as folhas laranjas pelo chão de um outono próximo da loucura que pode ser imposta num confinamento. Maria e Joao passam a viver com Holda sem suspeitar que ela, na verdade, seja uma bruxa e tentam se acostumar ao fato de que ali podem ter diariamente um banquete bem provido, diferente do lugar de onde vieram, expulsos do núcleo familiar. Esse clima claustrofóbico tanto ajuda quanto prejudica: em alguns momentos a narrativa perde em termos de impacto, pois Lillis é filmada diante de discursos expositivos. Ainda assim, sua narração contribui e trata-se de uma boa atriz, o que já mostrou em It – A coisa.

No plano simbólico, igualmente, o roteiro de Rob Hayes se sustenta bem: o homem significa a tentativa de salvar a comunidade e, ao mesmo tempo, sua perdição; a comida significa a entrada num universo paralelo àquele enfrentado pelo povoado; os cogumelos no bosque também ajudam na alucinação de algo que não existe; o espelho multiplica uma infinidade de crianças abandonadas, o trabalho delas é uma obrigação para conseguirem viver, contrapondo-se à vida que a bruxa oferta. Tudo é composto de maneira ao mesmo tempo orgânica e artificial, como cada doce dado pela bruxa aos seus hóspedes, acentuado por uma trilha sonora atmosférica de Robin Coudert.
Fica clara a intenção de realizar um terror mais artístico, no entanto se depara com limitações. A história torna-se em parte antilinear, no que tem bons propósitos, mas com toques mais ágeis ganharia em ênfase. Ainda assim é um filme que provoca interesse e pode crescer numa revisão. Ele tem uma boa mescla de ideias à medida que a trama vai se concentrando num espaço único, para o espectador disposto a perceber detalhes a princípio desnecessários e que ajudam a contar a história desses personagens de maneira essencial.

Gretel & Hansel, EUA, 2020 Diretor: Oz Perkins Elenco: Sophia Lillis, Sam Leakey, Charles Babalola, Jessica De Gouw, Alice Krige,Fiona O’Shaughnessy Roteiro: Rob Hayes Fotografia: Galo Olivares Trilha Sonora: Robin Coudert Produção: Brian Kavanaugh-Jones e Fred Berger Duração: 87 min. Estúdio: Orion Pictures, Automatik Entertainment, Bron Creative Distribuidora: United Artists Releasing

Sonic – O filme (2020)

Por André Dick

Os filmes baseados em videogame até algum tempo atrás não eram tão bem recebidos pelo público. Já nos anos 90, com Super Mario Bros, confirmava-se uma espécie de dificuldade de fazer o trânsito entre as duas linguagens. Talvez Angelina Jolie tenha conseguido algum efeito com sua versão de Lara Croft – Tomb Raider, reprisada por Alicia Vikander sem a mesma aceitação, no entanto nunca chegou a se caracterizar como uma referência. E, mesmo com a decepção nas bilheterias de Scott Pilgrim contra o mundo (este um filme fora de série de Edgar Wright) e Assassin’s creed  na década passada, tivemos alguns sucessos nessas adaptações, com boas ou excelentes bilheterias: Pixels – O filme, Rampage, Warcraft e Pokémon: Detetive Pikachu são alguns exemplos.
Com Sonic – O filme, ganhamos mais uma adaptação que tenta mesclar o tom infantil e o atrativo para um público mais adulto. Tendo na direção Jeff Fowler, em sua estreia, o roteiro é  de  Pat Casey e Josh Miller, baseados nos personagens de Yuji Naka, Naoto Ohshima e Hirokazu Yasuhara  Ben Schwartz faz a voz do personagem central, Sonic, um ouriço azul vindo de outro planeta capaz de correr numa ultravelocidade.

Ao não ouvir o seu guardião, Longclaw, e depois de ser atacado por uma tribo, Sonic recebe um punhado de anéis com poder de leva-lo para outros planetas. Ele acaba parando  perto de Green Hills, Montana, onde se torna admirador do xerife Tom Wachowski (James Marsden) e sua esposa Maddie (Tika Sumpt). O xerife tem uma vida tranquila: como o policial rodoviário de Missão madrinha de casamento, seu passatempo ideal é ver se algum carro passa acima da velocidade por seu carro de polícia. Sem que Sonic saiba, eles estão para se mudar para San Francisco.
E determinado momento, Sonic acaba criando uma interferência eletromagnética com sua velocidade, causando a queda da energia no noroente do Pacúfico. O cientista Doutor Robotnik (Jim Carrey), chamado pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, surge para tentar ver onde se originou essa questão, e passa a perseguir Sonic e quem estiver com ele.

É claro que essa premissa é simples e Sonic – O filme não foge a ela em nenhum momento. Isso leva em conta que a química entre os personagens, apesar de rápida e construída sem naturalidade, é agradável, tanto pela voz de Schwartz quanto pela presença despretensiosa de Marsden, ator que aparece em projetos, de X-Men, passando por Superman – O retorno, até A caixa e Encantada. Ao tentarem empreender uma fuga, o filme se torna um rápido road-movie, com elementos curiosos que remetem a uma entrada no espírito do interior norte-americano, com uma referência a Cowboy do asfalto, com John Travolta, dos anos 80.
A própria presença de Jim Carrey evoca uma nostalgia. Depois de uma década passada sem muitos filmes, como Os pinguins do papai e as desastradas sequências de Debi & Loide e Kick-ass, e uma participação na série Kidding, além do bom documentário Jim & Andy, Carrey retoma alguns momentos do Charada que fez em Batman eternamente, com um tom entre a psicopatia e a tentativa de soar bem-humorada, além de remeter à sua presença histriônica em Desventuras em série. É um ator tarimbado para a narrativa proposta e sua presença rouba a cena toda a vez em que aparece, embora pareça exagerada. É ele que consegue tornar uma ideia a princípio apenas descartável numa diversão moderadamente agradável, em seus conflitos com o agente Stone (Lee Majdoub).

O roteiro não chega a desenvolver os personagens do xerife e de sua esposa que embarcam nessa aventura com Sonic, mas este, com seu sentimento de solidão, afastado de seu lugar de origem, é certamente excêntrico o bastante para despertar interesse por suas falas e velocidade – uma espécie de The Flash animado e em forma de ouriço. Os efeitos visuais são competentes (lembre-se que os fãs reclamaram do primeiro trailer, e o diretor efetuou uma grande mudança no visual do personagem), e os drones que o cientista carrega empregam uma maneira interessante de desencadear as cenas de ação, em lugares abertos ou fechados. Algumas, mais ao final, tentam recuperar alguma inspiração de Batman – O cavaleiro das trevas ressurge, embora sem a mesma tentativa de ser épico. Não há muito roteiro a se explorar aqui, e os atos são divididos. De qualquer modo, Fowler consegue efetuar uma diversão para todas as idades, com bom visual e que não insulta o espectador, soando às vezes ingênuo e nostálgico, duas características às vezes em falta mesmo em obras mais despretensiosas.

Sonic the Hedgehog, EUA, 2020 Diretor: Jeff Fowler Elenco: James Marsden, Ben Schwartz, Tika Sumpter, Jim Carrey Roteiro: Pat Casey, Josh Miller Fotografia: Stephen F. Windon Trilha Sonora: Tom Holkenborg Produção: Neal H. Moritz, Toby Ascher, Toru Nakahara, Takeshi Ito Duração: 99 min. Estúdio: Sega Sammy Group, Original Film, Marza Animation Planet, Blur Studio Distribuidora: Paramount Pictures