Maria e João – O conto das bruxas (2020)

Por André Dick

Os contos de fadas têm sido utilizados nos últimos anos das mais variadas formas, seja em séries de TV (Grimm), seja em obras que lidam com um tom mais juvenil (A garota da capa vermelha) ou uma vertente de humor e violência (João e Maria – Caçadores de bruxas), além de animações (a exemplo de A bela e a fera), considerando ainda o tratamento metalinguístico no interessante Os irmãos Grimm, de Terry Gilliam. Este filme de Oz Perkins recupera a conhecida fábula dos irmãos Grimm sob um ponto de vista diferente, mais próximo do suspense e do terror, com claros elementos de A bruxa e uma fotografia excelente de Galo Olivares, assistente direto de Alfonso Cuarón na concepção de Roma.
O filme inicia com um bebê ficando doente numa vila distante, o que remete a alguma influência de uma releitura bíblica, e é entregue a uma feiticeira (Jessica De Gouw) para que possa sobreviver. No entanto, isso forma uma ação inesperada sobre o povoado. Maria (Sophia Lillis) e João (Samuel Leakey) vivem no lugar e ela é incitada a trabalhar pela mãe (Fiona O’Shaughnessy). Depois de negar a proposta de um homem, Maria é expulsa de casa com seu irmão e ambos vão parar num bosque. Depois de serem ajudados por um caçador (Charles Babalola), encontram Holda (Alice Krige), uma mulher que os recebe em sua casa com muitos doces.

Perkins utiliza um visual onírico que por vezes evoca Jodorowsky, principalmente aquele de A montanha mágica, dando uma sensação constante de pesadelo, assim como trabalha com elementos do videoclipe de “Heart-shaped box”, do Nirvana, principalmente numa sequência que imagina o preparo de uma comida de maneira distinta. Os galhos longos das árvores do bosque também remetem ao ótimo A lenda do cavaleiro sem cabeça, assim como os ambientes rústicos têm bastante influência de A vila, de Shyamalan, do mesmo modo que certo trabalho de cores. Em um determinado momento, uma grande árvore recorda Tarkovsky e sua releitura feita por Iñárritu em O regresso. É um trabalho visual de raro cuidado.
Nesse ponto, a fotografia de Olivares se destaca ainda mais, fazendo uma mescla entre as folhas laranjas pelo chão de um outono próximo da loucura que pode ser imposta num confinamento. Maria e Joao passam a viver com Holda sem suspeitar que ela, na verdade, seja uma bruxa e tentam se acostumar ao fato de que ali podem ter diariamente um banquete bem provido, diferente do lugar de onde vieram, expulsos do núcleo familiar. Esse clima claustrofóbico tanto ajuda quanto prejudica: em alguns momentos a narrativa perde em termos de impacto, pois Lillis é filmada diante de discursos expositivos. Ainda assim, sua narração contribui e trata-se de uma boa atriz, o que já mostrou em It – A coisa.

No plano simbólico, igualmente, o roteiro de Rob Hayes se sustenta bem: o homem significa a tentativa de salvar a comunidade e, ao mesmo tempo, sua perdição; a comida significa a entrada num universo paralelo àquele enfrentado pelo povoado; os cogumelos no bosque também ajudam na alucinação de algo que não existe; o espelho multiplica uma infinidade de crianças abandonadas, o trabalho delas é uma obrigação para conseguirem viver, contrapondo-se à vida que a bruxa oferta. Tudo é composto de maneira ao mesmo tempo orgânica e artificial, como cada doce dado pela bruxa aos seus hóspedes, acentuado por uma trilha sonora atmosférica de Robin Coudert.
Fica clara a intenção de realizar um terror mais artístico, no entanto se depara com limitações. A história torna-se em parte antilinear, no que tem bons propósitos, mas com toques mais ágeis ganharia em ênfase. Ainda assim é um filme que provoca interesse e pode crescer numa revisão. Ele tem uma boa mescla de ideias à medida que a trama vai se concentrando num espaço único, para o espectador disposto a perceber detalhes a princípio desnecessários e que ajudam a contar a história desses personagens de maneira essencial.

Gretel & Hansel, EUA, 2020 Diretor: Oz Perkins Elenco: Sophia Lillis, Sam Leakey, Charles Babalola, Jessica De Gouw, Alice Krige,Fiona O’Shaughnessy Roteiro: Rob Hayes Fotografia: Galo Olivares Trilha Sonora: Robin Coudert Produção: Brian Kavanaugh-Jones e Fred Berger Duração: 87 min. Estúdio: Orion Pictures, Automatik Entertainment, Bron Creative Distribuidora: United Artists Releasing

Sonic – O filme (2020)

Por André Dick

Os filmes baseados em videogame até algum tempo atrás não eram tão bem recebidos pelo público. Já nos anos 90, com Super Mario Bros, confirmava-se uma espécie de dificuldade de fazer o trânsito entre as duas linguagens. Talvez Angelina Jolie tenha conseguido algum efeito com sua versão de Lara Croft – Tomb Raider, reprisada por Alicia Vikander sem a mesma aceitação, no entanto nunca chegou a se caracterizar como uma referência. E, mesmo com a decepção nas bilheterias de Scott Pilgrim contra o mundo (este um filme fora de série de Edgar Wright) e Assassin’s creed  na década passada, tivemos alguns sucessos nessas adaptações, com boas ou excelentes bilheterias: Pixels – O filme, Rampage, Warcraft e Pokémon: Detetive Pikachu são alguns exemplos.
Com Sonic – O filme, ganhamos mais uma adaptação que tenta mesclar o tom infantil e o atrativo para um público mais adulto. Tendo na direção Jeff Fowler, em sua estreia, o roteiro é  de  Pat Casey e Josh Miller, baseados nos personagens de Yuji Naka, Naoto Ohshima e Hirokazu Yasuhara  Ben Schwartz faz a voz do personagem central, Sonic, um ouriço azul vindo de outro planeta capaz de correr numa ultravelocidade.

Ao não ouvir o seu guardião, Longclaw, e depois de ser atacado por uma tribo, Sonic recebe um punhado de anéis com poder de leva-lo para outros planetas. Ele acaba parando  perto de Green Hills, Montana, onde se torna admirador do xerife Tom Wachowski (James Marsden) e sua esposa Maddie (Tika Sumpt). O xerife tem uma vida tranquila: como o policial rodoviário de Missão madrinha de casamento, seu passatempo ideal é ver se algum carro passa acima da velocidade por seu carro de polícia. Sem que Sonic saiba, eles estão para se mudar para San Francisco.
E determinado momento, Sonic acaba criando uma interferência eletromagnética com sua velocidade, causando a queda da energia no noroente do Pacúfico. O cientista Doutor Robotnik (Jim Carrey), chamado pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, surge para tentar ver onde se originou essa questão, e passa a perseguir Sonic e quem estiver com ele.

É claro que essa premissa é simples e Sonic – O filme não foge a ela em nenhum momento. Isso leva em conta que a química entre os personagens, apesar de rápida e construída sem naturalidade, é agradável, tanto pela voz de Schwartz quanto pela presença despretensiosa de Marsden, ator que aparece em projetos, de X-Men, passando por Superman – O retorno, até A caixa e Encantada. Ao tentarem empreender uma fuga, o filme se torna um rápido road-movie, com elementos curiosos que remetem a uma entrada no espírito do interior norte-americano, com uma referência a Cowboy do asfalto, com John Travolta, dos anos 80.
A própria presença de Jim Carrey evoca uma nostalgia. Depois de uma década passada sem muitos filmes, como Os pinguins do papai e as desastradas sequências de Debi & Loide e Kick-ass, e uma participação na série Kidding, além do bom documentário Jim & Andy, Carrey retoma alguns momentos do Charada que fez em Batman eternamente, com um tom entre a psicopatia e a tentativa de soar bem-humorada, além de remeter à sua presença histriônica em Desventuras em série. É um ator tarimbado para a narrativa proposta e sua presença rouba a cena toda a vez em que aparece, embora pareça exagerada. É ele que consegue tornar uma ideia a princípio apenas descartável numa diversão moderadamente agradável, em seus conflitos com o agente Stone (Lee Majdoub).

O roteiro não chega a desenvolver os personagens do xerife e de sua esposa que embarcam nessa aventura com Sonic, mas este, com seu sentimento de solidão, afastado de seu lugar de origem, é certamente excêntrico o bastante para despertar interesse por suas falas e velocidade – uma espécie de The Flash animado e em forma de ouriço. Os efeitos visuais são competentes (lembre-se que os fãs reclamaram do primeiro trailer, e o diretor efetuou uma grande mudança no visual do personagem), e os drones que o cientista carrega empregam uma maneira interessante de desencadear as cenas de ação, em lugares abertos ou fechados. Algumas, mais ao final, tentam recuperar alguma inspiração de Batman – O cavaleiro das trevas ressurge, embora sem a mesma tentativa de ser épico. Não há muito roteiro a se explorar aqui, e os atos são divididos. De qualquer modo, Fowler consegue efetuar uma diversão para todas as idades, com bom visual e que não insulta o espectador, soando às vezes ingênuo e nostálgico, duas características às vezes em falta mesmo em obras mais despretensiosas.

Sonic the Hedgehog, EUA, 2020 Diretor: Jeff Fowler Elenco: James Marsden, Ben Schwartz, Tika Sumpter, Jim Carrey Roteiro: Pat Casey, Josh Miller Fotografia: Stephen F. Windon Trilha Sonora: Tom Holkenborg Produção: Neal H. Moritz, Toby Ascher, Toru Nakahara, Takeshi Ito Duração: 99 min. Estúdio: Sega Sammy Group, Original Film, Marza Animation Planet, Blur Studio Distribuidora: Paramount Pictures