A vastidão da noite (2020)

Por André Dick

Lançado pela Amazon Prime, A vastidão da noite acompanha dois personagens desde o momento em que estão no ginásio da pequena cidade onde moram, Cayuga, nos anos 50, na qual vai acontecer um jogo de basquete: a operadora de telefonia Fay Crocker (Sierra McCormick) e o DJ de rádio Everett (Jake Horowitz). Eles saem para seus respectivos trabalhos em seguida. Surge um som estranho tanto na mesa de telefonia quanto na rádio, ao mesmo tempo que acontece um jogo de basquete. O diretor estreante Andrew Patterspn situa a história como um episódio de  Paradox Theatre , uma série de TV nos moldes de Além da imaginação, ou seja, seu filme parte da ideia de que estamos vendo um episódio independente, apostando numa certa metalinguagem.

Nesse sentido, A vastidão da noite é um filme para quem gosta de experimentos na linha dessa série antológica e de Histórias maravilhosas, a série de Spielberg, assim como No limite da realidade, versão em longa-metragem da primeira série. É conciso, bem escrito e tem ótima atmosfera, com o acréscimo de uma movimentação de câmera notável Começa de maneira lenta, acompanhando esses dois personagens caminhando pelas ruas da cidade quando cada objeto luminoso, principalmente as lâmpadas da rua, parecem lembrar OVNIs. Nesse ritmo, Patterson vai construindo uma atmosfera acolhedora e, ao mesmo tempo, ameaçadora, assim como lida muito bem com certo design de época, que remete a Loucuras de verão de George Lucas e Zodíaco, de Fincher. Os personagens falam sobre assuntos triviais, mas o espectador tem sempre a sensação de algo está para acontecer.

Vai crescendo com sucessão de referências a um acontecimento numa cidadezinha, mas tudo muito íntimo, nada espetacular. A primeira conversa de Everett com um senhor que diz que sabe de histórias relacionadas a disco voadores é, em sua simplicidade, uma grande arte na maneira de prender o espectador a um tema já explorado quase de forma incansável em outros filmes – e o primeiro que vem à mente é justamente Contatos imediatos do terceiro grau. Num momento também em que mistérios ligados ao espaço sideral já foram todos trabalhados por uma série como Arquivo X, A vastidão da noite injeta nessa simplicidade, sem grandes adereços, justamente sua personalidade.
O uso de efeitos sonoros e da trilha sonora de Erick Alexander e Jared Bulmer é bem feito, moldando momentos de tensão que parecem surgir do nada. Trata-se de uma obra que pode ser prejudicada pelo hype inicial que está tendo, mas, dentro do que se propõe, é efetiva. Lembra um cinema mais modesto, sem grande orçamento, baseado em pequenos gestos e truques de iluminação, quase caseiro em alguns momentos, sem deixar de ser rico no design de produção. Passado no Novo México e com referência à rua Sicômoro, típica de Twin Peaks, de David Lynch, onde mora uma senhora que também tem informações sobre possíveis criaturas do espaço, Não entraria em detalhes sobre aspectos da trama; o que se pode dizer é que o cineasta consegue, por meio de vários monólogos, extrair uma trama e uma tentativa de explicação para os fatos encadeados.

A vastidão da noite pode ser também entendido sob a luz do episódio 8 magnífico do retorno da série do cineasta de Cidade dos sonhos. Nesse episódio 8, que contava, depois da explosão de uma bomba atômica no deserto, vinham almas do espaço (ou do além) abordar uma rádio – afetando os habitantes de uma cidadezinha apenas por meio do que uma delas dizia no microfone da rádio. Patterson utiliza essa ideia de Lynch para expandir seu universo e também se pode, no ato final, lembrar de certos elementos de Veludo azul, na figura curiosa de Kyle MacLachlan sobre o que acontece em sua cidadezinha Lumberton; Não apenas uma sequência passada num carro lembra isso, como também uma que se desloca para o meio de uma floresta. É interessante imaginar como seria se Lynch voltasse a fazer uma ficção científica, como realiza no episódio 8 inspirador de Twin Peaks – O retorno, sem a grandiosidade de Duna dos anos 80, mais introspectiva. Se não vemos isso, pelo menos conhecemos algo parecido: o que Patterson faz, com inegável brilho, numa estreia mais do que promissora.

The vast of night, EUA, 2020 Diretor: Andrew Patterson Elenco:  Sierra McCormick, Jake Horowitz, Gail Cronauer, Bruce Davis, Cheyenne Barton, Gregory Peyton, Mallorie Rodak, Mollie Milligan, Ingrid Fease, Pam Dougherty Roteiro: James Montague e Craig W. Sanger Fotografia: M.I. Littin-Menz Trilha Sonora: Erick Alexander e Jared Bulmer Produção: Andrew Patterson, Melissa Kirkendall, Adam Dietrich Duração: 88 min. Estúdio: GED Cinema Distribuidora: Amazon Studios

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