Aves de Rapina: Arlequina e sua emancipação fantabulosa (2020)

Por André Dick

Com o sucesso de bilheteria de Esquadrão suicida em 2016, a personagem que mais se destacou foi a de Arlequina, feita por Margot Robbie, embora o Pistoleiro, interpretado por Will Smith, também tivesse uma presença acentuada. Aproveitando uma passagem da DC, como alguns dizem, mais soturna, planejada por Zack Snyder, para outra mais descompromissada e com elementos mais de humor, Arlequina recebeu seu filme solo, com coadjuvantes. Aves de Rapina: Arlequina e sua emancipação fantabulosa é precedido por alguns dos maiores sucessos da DC, Mulher-Maravilha, Aquaman e Coringa – este sem fazer parte do universo estendido –, além do familiar e divertido Shazam!, o que constitui um desafio: tentar se equilibrar entre dois tons.
Ao contar logo no início sobre o rompimento de Arlequina com Coringa – entendido como o rompimento de Jared Leto com a DC –, a diretora Cathy Yan mostra a personagem desolada num clube noturno, cujo dono é o terrível gângster Roman Sionis. No lugar, ela conhece a cantora Dinah Lance (Jurnee Smollett-Bell), uma espécie de protegida de Sionis, cujo braço direito, Victor Zsasz (Chris Messina), gosta de cometer crimes em profusão.

O ambiente é propício para Arlequina, que se sente ainda parte das escolhas do ex-namorado, uma das ameaças a Gotham City. A maneira como Arlequina lembra dele, assim como do seu passado trabalhando como psiquiatra no Asilo Arkham, recorda substancialmente o filme de David Ayer – aqui um dos produtores executivos – e se destaca como o enfoque neste universo não tem relação com o de Todd Phillips, uma saída encontrada pela Warner/DC para a abordagem de cada um, e isso pode ser sentido também no nome que Arlequina dá a uma hiena que adota.
Depois de uma de suas estripulias (homenageando de forma criativa Thelma & Louise), acentuada por uma narração tentando aproximar tudo de um universo lúdico – mesmo quebrar braços e pernas – e lembrando, pelas cenas iniciais, os Looney Tunes, Arlequina passa a ser perseguida por Renee Montoya (Rosie Perez), detetive da polícia. As coisas se complicam quando a menina órfã Cassandra Cain (Ella Jay Basco) rouba um diamante precioso de Zsasz. Até esse momento, a diretora costura uma sucessão de flashbacks, com gráficos apresentando os personagens que dialogam com os de Esquadrão suicida e uma trilha sonora de músicas pop. Funciona às vezes, quando a edição fica menos sobrecarregada de idas e vindas.

Se Margot Robbie ressalta uma nova visão de Arlequina mais frenética, diferente do filme de Ayer, no qual alternava alegria desenfreada e certa tristeza, Roman Sionis é um vilão bastante desagradável, feito com receio e certo constrangimento por Ewan McGregor, deslocado em pelo menos três cenas excessivas, mas salvo pela presença de Messina. A narrativa ganha mais peso de entretenimento e mesmo emocional quando começa a dar espaço para outras personagens, como o da órfã ou o de Helena Bertinelli (Mary Elizabeth Winstead), que passou por um grande problema quando criança, tirando o foco de Arlequina e de Sionis. A diretora se sente à vontade, inclusive, para prestar homenagem a um determinado filme de Quentin Tarantino, assim como a clássicos dos anos 50, Os homens preferem as loiras e A dama e o vagabundo. E o título original, com os parênteses, é uma clara referência a Birdman, de Iñárritu. Também parece que vai havendo, ao longo da trama, uma predisposição em fazer os figurinos de Arlequina se encaixarem mais com o ambiente e o design de produção.

São elas, ao mesmo tempo, que trazem Arlequina de volta para a narrativa, depois de um início trepidante, e fazem Robbie diminuir o overactring do primeiro ato e voltar a certa carga mais dramática. Igualmente é muita boa a atuação de Jurnee Smollett-Bell, aproveitando os poucos diálogos que recebe do melhor modo. Os personagens dos homens representam o que há de pior na sociedade, e em algum momento Arlequina brinca que eles só querem violência – é justamente o elemento oferecido pelo filme em larga escala, aliado ao bom humor de determinadas situações. Algumas cenas de ação em câmera lenta dialogam bem com o estilo da DC, embora algumas vezes não fosse necessário adotá-lo.
Preponderantes do início ao fim, as lutas são coreografadas com competência, principalmente quando vai se aproximando o final, com uma sucessão de cortes apoiados na fotografia exitosa de Matthew Libatique, habitual colaborador de Darren Aronofsky, como em Cisne negro e mãe!. Com isso, Aves de Rapina: Arlequina e sua emancipação fantabulosa tem uma boa dose de entretenimento e funciona bem dentro do seu universo, fazendo uma apresentação coerente com a proposta e as personagens.

Birds of Prey (and the fantabulous emancipation of One Harley Quinn), EUA, 2020 Diretora: Cathy Yan Elenco: Margot Robbie, Mary Elizabeth Winstead, Jurnee Smollett-Bell, Rosie Perez, Chris Messina, Ella Jay Basco, Ali Wong, Ewan McGregor Roteiro: Christina Hodson Fotografia: Matthew Libatique Trilha Sonora: Daniel Pemberton Produção: Margot Robbie, Bryan Unkeless, Sue Kroll Duração: 109 min. Estúdio: DC Films, LuckyChap Entertainment, Kroll & Co. Entertainment, Clubhouse Pictures Distribuidora: Warner Bros. Pictures

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