1917 (2019)

Por André Dick

Em 1999, o diretor inglês Sam Mendes estreava na direção com Beleza americana, sobre um pai de família descontente com o casamento que resolve deixar seu emprego para tentar uma volta à adolescência. Ele tem uma filha, admirada por um jovem vizinho sempre em conflito com o pai. Este fio de história não esclarece o que acontecerá, mas guarda um senso estranho de visão sobre a sociedade norte-americana. E já guarda uma ideia de guerra (entre familiares) que tomaria proporções diferentes na carreira do cineasta: sob a ótica dos gângsteres (Estrada para perdição), de um casal (Foi apenas um sonho) e mesmo militar (Soldado anônimo). Esta ideia de guerra (desta vez contra o terrorismo) foi explorada literalmente por Mendes em seus dois 007, alguns dos melhores de toda a série, e regressam em 1917.

Com o auxílio notável da fotografia de Roger Deakins, querendo adotar um plano-sequência com poucos cortes evidentes, Mendes coloca o espectador num campo de batalha da Primeira Guerra Mundial. Um jovem cabo, Blake (Dean-Charles Chapman), é chamado pelo General Erinmore (Colin Firth), a fim de levar uma mensagem ao Segundo Batalhão do Regimento de Devonshire. O aviso a ser transmitido  para o tenente Joseph Blake (Benedict Cumberbatch) é de que as tropas inglesas não devem avançar num terreno determinado, arriscando a vida de mais de 1.600 homens, porque isso seria uma cilada dos alemães. O soldado escolhe como parceiro de missão o amigo Schofield (George MacKay).
E esta premissa é motivo para Mendes exercer uma proeza técnica junto com Deakins numa tentativa de plano-sequências semelhante àquela que Iñárritu empreendeu com Emmanuel Lubezki em Birdman. Se no filme do cineasta mexicano esse plano se passava nos bastidores de um teatro da Broadway, e às vezes ia para as ruas de Nova York, Mendes filma os dois soldados caminhando em trincheiras e cenários devastados de guerra, até descampados.

Isso, no início, é bastante funcional, principalmente quando Mendes empreende alguns diálogos perto de uma fazenda perdida em meio ao cenário de guerra e, finalmente, depois de uma sequência fortíssima, aos poucos o filme vai retrocedendo até que a proeza técnica se constitua em si quase o único atrativo.
Não ajuda o fato de haver tão poucos diálogos para os personagens centrais, nem que as participações especiais se sintam engessadas, pelo formato, o que não acontecia em Birdman – quando a câmera de Lubezki buscava a expressão dos personagens e o plano-sequência, como em 1917, era um truque técnico, e muito bem realizado. Por meio de um design de produção meticuloso de Dennis Gassner, Mendes, de qualquer modo, insere o espectador a um cenário de Primeira Guerra, evocando em seus melhores momentos O resgate do soldado Ryan e Nascido para matar, além de Glória feita de sangue, os dois últimos de Kubrick, além, evidentemente, de Dunkirk, de Nolan (e, como este, 1917 é para ser visto na tela grande, com o melhor som possível, mas com o critério de que isso não torna um filme isento de falhas).

Mendes gosta muito de lidar com personagens que se sentem desamparados no mundo. Em Beleza americana, eles estavam perdidos, mas isso fazia com que, em algum momento, tentassem se encontrar. O roteiro ia delineando essas figuras com algum interesse pelo seu fim, sobretudo o vizinho, que filma um sacola voando ao vento. A violência em sua casa é apenas para o jovem que não pode se mover, sob o silêncio da mãe. Na outra, a mãe, trabalhando com vendas de imóveis, quer envolvimentos fora do casamento. Em 1917, a figura da mãe é decisiva para compreender a intimidade dos dois personagens centrais – e, mesmo distante, é afetuosa.
Para Mendes, o enfrentamento continua representando um pesadelo, e Beleza americana, ao contrário das belas rosas vermelhas que mostra (dialogando com David Lynch), apresenta mais espinhos. Em seu filme de guerra, os jovens soldados tranquilos embaixo de uma árvore, tendo ao fundo uma paisagem cheia de flores ao fundo, logo estão em meio ao barro, lama, cinza e marrom dos uniformes. Não há vida para Mendes aqui a não ser o heroísmo dos personagens. Ele também mostra uma árvore seca em meio à paisagem desolada num determinado momento, mostrando a progressão da narrativa. O que falta a Mendes, no entanto, apesar de uma sequência-chave angustiante, seguida de outra mais adiante depois de uma passagem de tempo que contraria a tentativa de realismo da narrativa (e, particularmente, me tirou em parte do filme, pois não tem a ver com o seu objetivo central) é justamente uma emoção: em certos momentos os personagens parecem, por meio de diálogos, reproduzirem etapas de um jogo: “Você quer voltar?”, pergunta um deles, aos 30 minutos do filme. Ou: “Eu preciso chegar a determinado lugar em X tempo”.

Boa parte dos poucos diálogos é excessivamente expositiva, mesmo que não se desprendam da realidade – e uma entrada numa das passagens escuras é notável. Do mesmo modo, algumas soluções se revelam apressadas demais e, pela dificuldade da filmagem, os atores dão a sensação de insegurança em expressar de maneira mais enfática seus diálogos, com o risco de terem de refilmar o que fizeram (embora antes tenham acontecido, claro, cortes que a montagem esconde). Ainda assim, Chapman (que faz o irmão de Chalamet em O rei) e MacKay (a grande revelação de Capitão Fantástico) são bons atores e fazem o possível com o roteiro. A trilha sonora de Thomas Newman no início é discreta e eficiente, no entanto aos poucos vai se tornando intrusiva e tentando impor uma emoção difícil de ser notada. E, finalmente, há uma sequência impecável de batalha, mas que indica o mais falho em 1917: a necessidade de chama a atenção para a câmera de Deakins, com um soldado correndo de maneira a ressaltar o que se passa ao fundo. É magistral do ponto de vista técnico; como função narrativa, é evidentemente forçoso. A ação se baseia basicamente em corridas, para que a câmera possa ir atrás dos personagens – no início funciona, depois cansa. A passagem de tempo se torna estranhamente sem ritmo, como se fosse um encadeamento apenas de passagens que precisassem retratar a guerra, porém sem qualquer contato verdadeiro com as situações, tornando-se tudo muito ligeiro e até sem criar expectativa.
De certo modo, 1917 é um filme que pela técnica merece ser visto e apreciado em escala, no entanto parece estar longe de mostrar o melhor de Mendes e Deakins em termos de funcionalidade narrativa Como virtuose, este talvez seja o auge deles– como artistas, possivelmente lhes falte ainda outro projeto mais interessante. 1917 está muito interessado em demonstrar técnica quando lhe falta um pouco de originalidade e um roteiro não tão focado apenas na ação de seus personagens.

1917, EUA/ING, 2019 Diretor: Sam Mendes Elenco: George MacKay, Dean-Charles Chapman, Mark Strong, Andrew Scott, Richard Madden, Claire Duburcq, Colin Firth, Benedict Cumberbatch Roteiro: Sam Mendes e Krysty Wilson-Cairns Fotografia:Roger Deakins Trilha Sonora: Thomas Newman Produção: Sam Mendes, Pippa Harris, Jayne-Ann Tenggren, Callum McDougall, Brian Oliver Duração: 119 min Estúdio: DreamWorks Pictures, Reliance Entertainment, New Republic Pictures, Mogambo, Neal Street Productions, Amblin Partners Distribuidora: Universal Pictures (Estados Unidos), eOne (Reino Unido), Reliance Entertainment (Índia)

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4 Comentários

  1. Pablo Caldas

     /  28 de janeiro de 2020

    André. eu gostei muito do filme, não acho que merece ganhar o Oscar de Melhor filme nem ter tido tantas indicações como teve, mas como a academia tem uma queda por filmes de guerra, esse conquistou os votantes porque além da temática tem um diretor muito querido por todos nós.
    O que eu achei mais sensacional no filme foi aquele sequência a noite quando ele luta por sua vida e ao fundo vemos as explosões da batalha, parecia que ele estava num teatro pelo forma como foi feita a sequência.
    Agora temos que concordar que George MacKay é uma das grandes revelações dessa nova safra de ator e consegue carregar o filme mesmo com um roteiro algumas vezes vago.

    Responder
    • André Dick

       /  29 de janeiro de 2020

      Prezado Pablo,

      Fico feliz que tenha gostado mais de 1917. Depois de assisti-lo, fui logo revê-lo, pois minha impressão poderia ter sido precipitada. Concordamos que ele não merece o Oscar de melhor filme e até considero que, exceto nessa categoria e nas de direção e roteiro, é merecedor de lembrança e muitos elogios (sua parte técnica é excepcional). O marketing em torno do plano-sequência parece ter sido definidor para ganhar tanto destaque, além do potencial de atrair grande bilheteria e ser considerado em parte artístico, o que agrada aos acadêmicos.

      A sua observação sobre uma determinada parte lembrar um teatro também é precisa e ajuda a entender melhor o filme de Mendes. É esta característica, que o agradou, que me parece deslocada da intenção inicial de realismo. Mendes, nessas passagens a que se refere, junto com Deakins, parece tentar algo de Tarkovsky. No entanto, o cinema de Tarkovsky me parece necessitar de cortes, para enquadrar as imagens como quadros. Se Mendes tivesse feito isso, me parece que teria sido mais efetivo. No entanto, talvez não tivesse o destaque que está tendo.

      E a respeito de MacKay eu concordo: ele consegue extrair mais do que o roteiro lhe oferece. Ele fazia o mesmo em Capitão Fantástico. Imagino que, num filme com Colin Firth e Benedict Cumberbatch, Mendes esteja apontando o próximo ator inglês a se destacar, muito possivelmente o futuro 007, talvez, vá saber, com Mendes de novo.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  2. Gilson Medeiros da Silva

     /  2 de fevereiro de 2020

    Acabei de assistir esse belíssimo filme, tecnicamente quase impecável, os planos sequências do filme são impressionantes, comentei com minha esposa durante a exibição o quão difícil deve ter sido gravar, me lembrei de Filhos da Esperança que tem um plano sequência de uns 15 minutos brilhante, já esse tem uns 4 planos sequências enormes o que tecnicamente falando deve o premiar no Oscar na parte técnica, mas em termos de roteiro o filme me pareceu raso e apressado em algumas situações e devagar demais em outras, faltou equilíbrio talvez, e o final faltou a emoção, o ápice, mas num todo, pela beleza da fotografia e de toda atuação dos dois soldados (cabo) somadas a filmagem tecnicamente brilhante tornam o filme como quase obrigatório só amante da sétima arte, esse filme deve ser visto no cinema numa sala moderna pois acredito que na TV perde muito do seu impacto, um ótimo filme, só acho exagerado as 10 indicações, (o Caso Richard Jewell para mim foi até mais emocionante e merecia mais indicações nas atuações além da competente Kathy Bates; Sam Rockwell e Paul Walter Rauser mereciam ser lembrados pela academia), enfim, pra mim 4 estrelas…

    Grande Abraço André, sou fã de carteirinha do seu trabalho

    Responder
    • André Dick

       /  4 de fevereiro de 2020

      Prezado Gilson,

      Agradeço por suas palavras! Fico muito feliz! Agradeço também por comentar sobre o que achou do filme. Você lembra bem a inspiração original de Lubezki para Birdman; seu trabalho com Cuarón em Filhos da esperança tem planos-sequências muito bem trabalhados. Certamente seu trabalho é a inspiração para Mendes e Dedkins e costumo considerar essa tentativa de colocar a técnica em primeiro lugar não incômoda quando o roteiro tem mais elementos. Infelizmente, para mim, e pelo que diz também considera o mesmo, o filme não trabalho seu roteiro do melhor modo. Até a metade ele desenvolve o conceito de maneira competente, depois ele, pessoalmente, se perde, com essa pressa, que tira o realismo e a tensão. Essa falta de emoção a que se refere é bastante clara mais ao final, quando os atores parecem com receio até de errar os diálogos, para não estragar, possivelmente, os planos de filmagem. Neste sentido, me parece que a técnica aqui é excessiva.

      Ainda assim, concordo que os admiradores de filmes precisam assisti-lo, principalmente para analisar esses elementos, com efeitos diferentes em cada espectador. Das 10 indicações, considero que todas as técnicas sejam merecidas. Também considero o filme de Clint Eastwood muito injustiçado. Lembraram de Bates, mas Hauser merecia ser considerado. Rockwell está ótimo, mas a categoria de atores coadjuvantes era forte. De modo geral, eu teria nomeado O caso Richard Jewell ou O farol na décima vaga ou no lugar de 1917.

      Obrigado mais uma vez e volte sempre!

      Grande abraço,
      André

      Responder

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