As golpistas (2019)

Por André Dick

Há alguns anos, Adam McKay apresentou uma visão interessante sobre a crise econômica que se abateu nos Estados Unidos em A grande aposta. Para isso, ele lidava com um panorama no qual tínhamos integrantes de Wall Street ligados ao caos financeiro ocorrido a partir de 2008. Alguns anos depois, McKay, junto com Ferrell e alguns outros nomes, produzem o que seria uma expansão de um determinado segmento daquele filme: a ligação, proposital ou não, entre strippers e executivos que passavam suas noites gastando dinheiro em boates.
Em As golpistas, a diretora Lorene Scafaria mostra uma jovem, Dorothy (Constance Wu), chamada por Destiny na noite, que começa a trabalhar no Moves, e se torna amiga de Ramona Vega (Jennifer Lopez), uma das principais dançarinas, ambas ganhando muito dinheiro. No entanto, Dorothy tem uma filha e acaba seguindo outro caminho, até que problemas financeiros a trazem novamente para Nova York, onde vai reencontrar a antiga amiga.

De certo modo, Scafaria mostra essas personagens femininas ligadas por uma necessidade de dinheiro mais do que, inicialmente, por uma amizade, embora Ramona se mostre como uma pessoa experiente e, na medida do possível, aja como uma espécie de figura materna. Novamente com problemas financeiros, Dorothy se depara com a antiga boate quase vazia e repleta de garotas russas, elas acredita que não vai conseguir retomar os antigos tempos e decide seguir um plano de Ramona: começar a enganar executivos durante a noite para extrair deles informações capazes de lhes render dinheiro. Tudo isso é parte de um relato a uma jornalista, Elizabeth (Julia Stiles), levando-se em conta que o filme se baseia na matéria “The Hustlers at Scores: The Ex-Strippers Who Stole From (Mostly) Rich Men and Gave to, Well, Themselves”, de Jessica Pressler.
Elas se juntam a Mercedes (Keke Palmer) e Annabelle (Lili Reinhart) e passam a circular na noite em busca de possíveis vítimas de seus golpes. As golpistas, de certo modo, é uma espécie de versão de As viúvas situada num universo que remete a Spring breakers. A maneira como Scafaria filma as ações tem uma influência clara de Terrence Malick,, principalmente do segmento de Cavaleiro de copas em que o roteirista do filme (Christian Bale) se envolve com uma stripper (Teresa Palmer), também no modo como a câmera transita pelos cenários vazios ou cheios.

A maneira como a riqueza é enfocada, justamente por meio de cenários grandiosos de casas ou pequenos, mostrando certa falência financeira, denota uma necessidade clara de se fazer um cinema calcado em ideias mais do que a princípio se anuncia. As golpistas, em seu ato inicial, parece uma sucessão de imagens adequadas a um videoclipe, com personagens entrando e saindo de cena sem a devida ênfase, com uma necessidade de destacar o visual, mas, aos poucos, ele começa a fazer sentido quando a personagem de Dorothy toma a dianteira – e a atuação de Cosntance Wu se mostra sólida. Lopez nunca teve muitas oportunidades em sua trajetória como atriz de demonstrar uma variação de sentimentos, e consegue, em As golpistas, fazê-lo. Vão anos desde a sua exposição excessiva em comédias românticas, que acabaram por impedi-la de se tornar uma atriz com tanto êxito como teve em sua trajetória musical.
Quando há uma transição do segundo para o terceiro ato, e Ramona se mostra uma personagem com mais nuances, a direção de Scafaria cresce e As golpistas se torna um retrato sobre um mundo feminino abandonado pelo masculino, mas que dele tenta se nutrir. Por que os executivos que levaram os Estados Unidos a um período tão conturbado da economia não são punidos?

Esse, curiosamente, é o dilema de Ramona exposto para Dorothy e no meio se situam as figuras de mães, avós e filhas. Tudo se compõe como um universo feminino que quer sobreviver sem a figura do homem, pois este se mostra distante ou não tem nenhuma segurança. O apartamento cheio de peles de animais para comemorar o Natal é apenas o ponto máximo desse desejo.
Curiosamente, As golpistas obtém certa influência não apenas de A grande aposta, em relação ao qual é levemente superior, mas também da Sofia Coppola de Bling Ring, com a obsessão das mulheres em conseguir comprar bens, roupas, joias, no que vai dialogar justamente com os homens dos quais tentam extrair dinheiro durante a noite. A diretora Scafaria, de certo modo, toma um caminho menos arriscado quando as cenas de dança parecem robotizadas, a fim de não tornar essa visão do submundo tão impactante ou explícita, evitando também incorrer em problemas de censura. Nisso, As golpistas perde um pouco do realismo, no entanto não sem retribuir em estilo: é difícil ver um filme tão bem fotografado (por Todd Banhazl), em detalhes e nuances capazes de sempre atrair a atenção do espectador, embora a história pareça até mesmo superficial ou linear, a partir do ponto de que se trata de uma narrativa baseada em depoimentos.

Hustlers, EUA, 2019 Diretora: Lorene Scafaria Elenco: Constance Wu, Jennifer Lopez, Julia Stiles, Keke Palmer, Lili Reinhart, Lizzo, Cardi B. Roteiro: Lorene Scafaria Fotografia: Todd Banhazl Produção: Jessica Elbaum, Will Ferrell, Adam McKay, Elaine Goldsmith-Thomas, Jennifer Lopez Duração: 110 min. Estúdio: Gloria Sanchez Productions, Nuyorican Productions, Annapurna Pictures Distribuidora: STXfilms

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2 Comentários

  1. Pablo Luis Caldas

     /  7 de dezembro de 2019

    Na minha opinião esse filme é uma das maiores surpresas do ano, pois quando você lê a sinopse e vê que a atriz principal é Jennifer Lopez, você já fica com uma pulga atrás da orelha, mas quando você assisti ao filme e entende todo o contexto da história, você é brindado com um grande filme, com excelentes atuações e uma história que de tão real você fica se perguntando se isso foi verdade!
    Eu to indicando para todo mundo que eu conheço, pois vale muito a pena assisti-lo.

    Responder
    • André Dick

       /  8 de dezembro de 2019

      Prezado Pablo,

      sem dúvida, é uma das surpresas do ano. No início, a estética mais de videoclipe não me agradou muito, pois pareceu excessiva e mesmo a atuação de Lopez soa dispersa. No entanto, aos poucos, as peças vão se encaixando e o roteiro flui melhor, principalmente, a meu ver, por causa de Constance Wu. Espero que ele seja lembrado pelas premiações de modo geral.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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