Parasita (2019)

Por André Dick

O diretor sul-coreano Bong Joon-ho tem um clássico incontestável chamado Memórias de um assassino, de 2003, que inspirou diretamente Zodíaco, de David Fincher, assim como o filme Mother – A busca pela verdade, lançado no fim da década passada. Em Okja, exibido no Festival de Cannes sob protesto, em razão de ser distribuído pela Netflix, ele parecia querer uma mescla entre O hospedeiro, sua obra mais cultuada, e a fantasia de filmes norte-americanos, além de referências a animações orientais. Em 2013, com O expresso do amanhã, Joon-ho já tentava um salto para Hollywood, o que acontecia plenamente em Okja, apesar de não aparentar, extremamente comercial, e de modo algum é seu problema.

Parasita, vencedor do Festival de Cannes em 2019, é facilmente o seu melhor filme desde Memórias de um assassino e o melhor a receber o prêmio desde Winter sleep, de Ceylan. É meio insano, sem gênero definido, parecendo, às vezes, não dizer nada, mas sabe profundamente de seus temas. Joon-ho aprendeu com os erros de Okja e soube deixar as metáforas mais implícitas ao invés de tentar explicá-las para o espectador.
A história se passa em Seul. Kim Ki-jeong (Park So-dam) e seu irmão, Ki-woo (Choi Woo-shik), moram com seus pais, Ki-taek (Song Kang-ho), e Park Chung-sook (Jang Hye-jin), numa casa que mais parece um porão, em meio ao trabalho de dobrar caixas de pizza. Por indicação do amigo Min-hyuk (Park Seo-joon), Ki-woo começa a ensinar inglês para uma jovem ricaça, Da-hye (Jung Ji-so), da família Park, e nisso vislumbra uma chance para sua família experimentar outra vida. Ainda mais quando se arma um plano envolvendo a Sra. Park (Cho Yeo-jeong), esposa de Dong-ik (Lee Sun-kyun), e sua antiga governanta, Gook Moon-gwang (Lee Jung-eun), além do motorista, Yoon (Keun-rok Park). Aos poucos, a família de Ki-woo vai ocupando os espaços e as funções da casa dos Park, como se fossem, conforme aponta o título, “parasitas”.

Essa premissa simples é muito funcional e todos os personagens acabam tendo uma interação principalmente por causa da edição extremamente rápida. A história de cada um vai se interligando com a dessa família rica e o espectador, de repente, é inserido num universo aparentemente real e bastante inesperado. O humor é um tanto non-sense e mesmo os paralelismos entre a vida da família rica e da família pobre acabam tecendo um elo inteligente para os rumos da história, sem cair no mero paralelismo entre a situação de uma e de outra. Isso normalmente prejudicaria uma trama utilizada com o objetivo de aplicar uma lição de moral, entretanto o diretor é muito perspicaz em utilizar os diálogos e as ações em reflexos de uma sociedade de maneira ampla.
Como artista que é, Joon-ho não utiliza o seu filme para pregar um discurso; pelo contrário, ele deixa o espectador subentender, por meio de suas imagens, o que bem quiser. Em igual escala, a atmosfera criada trata dos próprios personagens: quando cai uma chuva torrencial, a família Kim está deslocada e sem espaço, ao contrário da família Park. As paredes da casa também passam a simbolizar para um outro universo, mesmo que dentro do mesmo espaço. Nisso, os cheiros e as roupas trazem uma espécie de aproximação e afastamento entre iguais. A arquitetura moderna da casa, deixando tudo à mostra, esconde, de maneira paradoxal, os sentimentos e intenções de cada um dos integrantes dessas famílias. Não está em jogo cada um mostrar o que é de fato e sim aquilo que esconde.

O diretor utiliza alguns símbolos, como a tenda de índios da filha da família Park, para tratar da tentativa de se dominar uma cultura, assim como faz críticas corrosivas à Coreia do Norte utilizando os cômodos de uma casa belíssima. Também insere os meios tecnológicos (telefones, interfones, internet, Wi-Fi) como extensões de cada ação. Para isso, o diretor de fotografia Hong Kyung-pyo assegura os movimentos de câmera para fazer o espectador se inserir dentro dos ambientes. É uma espécie de jornada por uma sociedade em construção ou desconstruída, nunca previsível. Não há lados distintos: apenas um amontoado de pessoas com receio de sair de onde estão e, quando saem, perseguidas pela própria condição original. Todos aqui, independentes da situação, desejam sair do esconderijo. Daí o ato final pendendo para certa melancolia.
Além disso, o elenco é, de forma uniforme, excelente. Quem se destaca é a de Song Kang-ho, ator extraordinário, situado entre o cômico e a angústia, ajudado por um ótimo roteiro, encadeado por uma aparente sucessão de sketches, no entanto costuradas de modo ao mesmo tempo ágil e concisa. Não há aqui o labirinto narrativo de Memórias de um assassino e Mother, e sim uma sucessão de pistas falsas sobre o que está acontecendo aos personagens. Bong Joon-ho tem um humor excêntrico em seus filmes e não era diferente em Okja. No entanto, o diretor não conseguia mesclar, em algumas de suas obras, o pano de fundo sério com a comédia. Ao reunir drama e humor em Parasita ele acerta na medida exata, lembrando exatamente os melhores momentos de sua obra-prima de 2003, um dos grandes momentos do cinema neste século.

기생충, Coreia do Sul, 2019 Diretor: Bong Joon-ho Elenco: Park So-dam, Choi Woo-shik, Song Kang-ho, Jang Hye-jin, Park Seo-joon, Jung Ji-so, Cho Yeo-jeong, Lee Sun-kyun, Lee Jung-eun,  Keun-rok Park Roteiro: Bong Joon-ho, Han Jin-won Fotografia: Hong Kyung-pyo Trilha Sonora: Jeong Jae-il Produção: Bong Joon-ho, Kwak Sin-ae, Moon Yang-kwon, Jang Young-hwan Duração: 132 min. Estúdio: Barunson E&A Corp Distribuidora: CJ Entertainment (Coreia do Sul)

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4 Comentários

  1. Rogério

     /  12 de novembro de 2019

    Ótima crítica. Para mim é o melhor filme de 2019 e mereceu ganhar em Cannes.

    Responder
    • André Dick

       /  12 de novembro de 2019

      Prezado Rogério,

      agradeço pelo comentário generoso e, dos filmes exibidos em Cannes a que assisti, considero o melhor, embora em goste muito também de “O farol”.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  2. Pablo Caldas

     /  20 de novembro de 2019

    Quando eu li a história do filme não me atraiu muito, ai resolvi assisti porque muita gente estava elogiando e eu queria saber o motivo. Comecei a assistir o filme e fiquei rindo de como a família de larápios conseguiu se infiltrar naquela mansão, mas quando veio o ato final do filme ai eu fiquei chocado.
    Ao mesmo tempo em que ele é cômico, é também um soco na nossa cara, mas o que faz a gente parar e refletir sobre o filme depois de assisti-lo é justamente a história tão incomum e a forma como os personagens e o diretor conseguem conta-la.
    Acho que por sem tão diferente e por poder ser comparado com a nossa sociedade atual, ele se transformou nesse cult… não que eu esteja menosprezando o filme, longe disso, eu achei muito interessante e divertido, não sei se foi o melhor filme que eu vi esse ano, mas está entre os melhores.

    Responder
    • André Dick

       /  21 de novembro de 2019

      Prezado Pablo,

      Agradeço por seu comentário sobre o que achou de Parasita. A minha reação foi semelhante quando li a sinopse depois da premiação em Cannes. Estava ainda desconfiado porque o trabalho anterior do diretor considero muito irregular. E, quando se começa a assisti-lo, pode-se sentir realmente essa confusão, principalmente em relação a seu gênero: seria um drama, uma comédia, uma farsa? Parece que reside aí a sua particularidade, incluindo esse impacto que causa no espectador, brincando, também, com a situação da sociedade contemporânea, não de um modo puramente discursivo, mas com mais nuances. Os personagens são bons ou maus? Não há certeza sobre isso, e certamente isso o torna complexo. Além disso, ele sabe captar o estilo de diretores como Wes Anderson, com aquela movimentação meio nonsense dos filmes de Chaplin, numa situação completamente realista, sem pender para a diluição em nenhum momento. É uma grande obra e me parece o maior acerto de Cannes nos últimos anos.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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