El Camino – A Breaking bad movie (2019)

Por André Dick

Há uma tradição de séries tão bem-sucedidas que acabam virando filmes. Isso aconteceu, por exemplo, com  Twin Peaks e Arquivo X nos anos 90, utilizando os mesmos atores. Em outros casos, as séries são feitas numa década e transpostas para o cinema em outra, com elenco diferente, a exemplo de Sombras da noite, Os intocáveis, Miami Vice, Agente 86, As panteras e Anjos da lei. Outros filmes, por sua vez, dão origem a séries, no caso de Cobra Kai (estendendo o universo de Karatê Kid para a internet) e O cristal encantado, ou, no caso de Twin Peaks, voltam ao universo televisivo, todas, no entanto, com estilo cinematográfico. Não é, nesse sentido, inesperado que uma das séries mais festejadas dos últimos anos, Breaking bad, veiculada entre 2008 e 2012, ganhe um filme agora, sob a mesma direção do seu criador Vince Gilligan.

A história inicia com um flashback no qual Jesse Pinkman (Aaron Paul) e Mike Ehrmantraut (Jonathan Banks) discutem sobre sua saída dos negócios de Walter White (Bryan Cranston) e sobre  desejos futuros. Logo a história se transporta para o presente quando Jesse está fugindo da polícia a bordo do El Camino e vai parar na casa dos amigos Skinny Pete (Charles Baker) e Brandon “Texugo” Mayhew (Matt Jones). A partir daí, uma espécie de amizade enraizada e bem definida de Jesse com esses personagens, sobretudo com Skinny, o diretor desencadeia uma série de idas e vindas no tempo, primeiro com Jesse lembrando de Todd (Jesse Plemmons), supremacista branco que o prendeu e precisa de sua ajuda para se livrar de um problema em seu apartamento.
O diretor Vince Gilligan (produtor de Arquivo X) é um estilista notável, o que já se pronunciava na série. No filme, ele expande o estilo que influenciou Denis Villeneuve (Sicario) e Ridley Scott (O conselheiro do crime), focado em sua principais inspirações: os irmãos Coen de Onde os fracos não têm vez o David Lynch de Coração selvagem (levando-se em conta que há elementos de Twin Peaks – O retorno inspirados em Breaking bad) e o Tarantino de Kill Bill – Vol. 2. Sua maneira de filmar esse universo árido, com a ajuda da fotografia de Marshall Adams por meio da perspectiva de um homem acuado pelos erros do tempo, Jesse, é notável.

No entanto, sua efetividade não seria a mesma sem a atuação de Aaron Paul, verdadeiramente extraordinário na sua volta ao papel. O roteiro é encadeado por uma série de blocos muito bem definidos, que não tornam a narrativa rígida, pelo contrário extremamente fluida e necessária ao compor seus diálogos. Uma ida de Jesse ao apartamento de Todd é impecável na sua construção de suspense, assim como o encontro dele com Neil Kandy (Scott MacArthur), e seu parceiro de trabalho Casey (Scott Sheperd), numa reminiscência do primeiro episódio de Twin Peaks – O retorno, em que dois policiais se veem à volta com uma moradora de condomínio confusa. A pressão aumenta quando ele se encontra com Ed (Robert Forster), numa outra sequência de grande desenvolvimento em termos de diálogo e imprevisto.
Fala-se que Gilligan considera o filme pode não tão interessante para quem não acompanhou a série. É possível dizer que, exceto alguns detalhes (acompanhei a série de modo excessivamente fragmentado para me considerar conhecedor), ele se mantém perfeitamente como uma obra à parte. Não tem, por exemplo, a mesma ligação de Twin Peaks com a série ou os filmes do Arquivo X com o universo que os precedeu.

Não apenas Paul tem uma ótima atuação, como também MacArthur, Sheperd e Robert Forster, infelizmente no seu papel derradeiro. Todos desempenham seus personagens de maneira destacada num universo caracterizado pela solidão e por uma certa falta de esperança, na maneira como Gilligan amplia o campo de visão de cada cenário, deixando seus personagens minúsculos diante da natureza.
Como a série, porém ainda com mais apuro, isto se parece com um faroeste contemporâneo, igual a alguns dos melhores momentos da obra dos irmãos Coen, e há uma determinada solução que aponta para esse caminho. Jesse é um homem que vem de um quase desaparecimento para uma tentativa de desaparecer totalmente do Novo México e do rastro da polícia e do passado que o envolveu numa série de castigos. Gilligan exerce essa visão de maneira visualmente atrativa, parecendo coloca-lo em cenários abandonados e nunca mais visitados. Mesmo uma conversa ao telefone com seus pais é cercada de ilusões sobre o que poderia ter sido, não tivesse acontecido exatamente o contrário. Desse modo, o filme El Camino – A Breaking bad movie é uma das grandes surpresas desta temporada do Oscar que se aproxima, com grande efeito em quem viu ou não a série. Um exemplo de como lidar com um personagem principalmente em diferentes linguagens, muitas vezes inseparáveis.

El Camino – A Breaking bad movie, EUA, 2019 Diretor: Vince Gilligan Elenco: Aaron Paul, Jonathan Banks, Bryan Cranston, Robert Forster, Charles Baker, Matt Jones, Jesse Plemmons, Scott MacArthur, Scott Sheperd Roteiro: Vince Gilligan Fotografia: Marshall Adams Trilha Sonora: Dave Porter Produção: Mark Johnson, Melissa Bernstein, Charles Newirth, Vince Gilligan, Aaron Paul Duração: 122 min. Estúdio: Sony Pictures Television, Gran Vía Productions, High Bridge Productions Distribuidora: Netflix

 

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2 Comentários

  1. Paula Rocha

     /  22 de outubro de 2019

    Obrigada por nos trazer uma resenha deste filme! Achei que você não iria falar a respeito da obra. Assisti a série 2 anos atrás por indicação de uma amiga e para mim, que não tenho muito hábito de assistir séries, esta merece todos os prêmios que recebeu. A meu ver, esta série é extraordinária, uma verdadeira obra-prima! Além disso, lançou atores que talvez de outra forma não teriam possibilidade de mostrar o seu talento, como Bryan Cranston e Aaron Paul. Como você citou que viu de forma fragmentada, vale muito a pena vê-la com mais calma e na ordem certa.
    Quando saiu a notícia de que um filme da continuação da série seria lançado fiquei receosa por achar que não teria a mesma qualidade da série, mas Vince Gilligan realmente soube respeitar o universo que criou e todos os elementos continuaram ali. O filme entrega um fim que os aficionados pela série sempre quiseram.

    Responder
    • André Dick

       /  24 de outubro de 2019

      Prezada Paula,

      agradeço por sua mensagem. e fico feliz com ela Eu realmente estava esperando o filme para ver se teria possibilidade de escrever sobre ele, já que acompanhei a série de maneira dispersa. No entanto, acredito que seja um filme praticamente independente de sua origem, mesmo que cresça para quem a conheça de maneira detalhada, o que é o seu caso. Eu sempre considerei que Cranston teve sua grande chance como ator em Breaking bad, pois em filmes, apesar de algumas boas obras, e mesmo indicado a prêmios, ele nunca, infelizmente, se firmou. Já Aaron Paul é decisivamente excepcional. Como sugere, eu pretendo ver todos os episódios numa maratona, tendo mais clareza sobre sua sequência de acontecimentos. É interessante que considere que Gilligan respeite o universo que criou, pois vejo alguns fãs desapontados com o resultado, mesmo que a boa recepção predomine. Eu não posso afirmar, claro, se o filme supera a série, mas, como obra única, achei bem filmada como poucas. Lembra, como observo na crítica, Sicario e O conselheiro do crime, com a vastidão de paisagens áridas e de uma solidão do personagem central. Isso havia nos episódios que vi, no entanto não, ao que me parece, com a mesma ênfase, levando em conta também as diferenças de linguagem. Se não tivesse sido lançado com mais marketing pela Netflix, teria chance na temporada de prêmios, mas acho difícil (embora possa vir ainda a ser indicado), o que se lamenta, pois mereceria ser visto e discutido em grande escala durante toda a temporada de fim de ano e não apenas em seu lançamento. PS: muito grato pela observação da mensagem original!

      Volte sempre!

      Grande abraço,
      André

      Responder

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