Projeto Gemini (2019)

Por André Dick

Projeto Gemini é uma espécie de mistura entre thriller e ficção científica na qual Will Smith interpreta Henry Brogan, um experiente assassino do governo dos Estados Unidos, que precisa matar um homem identificado como terrorista num trem bala. Essa cena inicial é tão parecida com aquela que introduz Floyd Lawton, o Pistoleiro, em Esquadrão suicida, também interpretado por Smith, que se pode lembrar que Ang Lee trabalhou no gênero de adaptações de quadrinhos com Hulk. Trata-se da sequência mais tensa do filme, com uma agilidade de enquadramento e de disposição dos elementos em cena.pela fotografia de Dion Beebe, responsável pelos trabalhos de 13 horas – Os soldados secretos de Benghazi e No limite do amanhã, duas peças de ação compacta.

E este é o ponto de partida de uma obra que vai levar Brogan a conhecer Danny Zakarweski (Mary Elizabeth Winstead), que trabalha alugando barcos, antes de saber que a pessoa que ele matou era inocente. Ele se torna um alvo pelo ocorrido, inclusive de Clay Varris (Clive Owen), responsável por uma unidade secreta de biotecnologia que atende pelo nome Gemini. O nome, propriamente, é um aviso: há uma figura gêmea na história, a partir do DNA. Para ajudá-los, aparece Baron (Benedict Wong).
Lee sempre foi um exímio diretor de cenas de ação, como vemos em O tigre e o dragão e, mais recentemente, no ótimo e menosprezado A longa caminhada de Billy Lynn. Também é um diretor que concentra talento para interações dramáticas, desde Tempestade no gelo, passando por O segredo de Brokeback Mountain, até As aventuras de Pi. Lee se destacou no campo da fantasia justamente com Pi e depois disso quis jogar com o 3D em Billy Lynn e a movimentação maior de 120 quadros por segundo, o que se repete aqui (mas em raríssimos cinemas mesmo nos Estados Unidos; no Brasil pode-se encontrar versões com até 60 quadros por segundo).

Nada disso indica que o roteiro, inexplicavelmente rodando em Hollywood desde o final dos anos 90, deveria ser colocado em segundo plano, pois ainda estamos tratando de um filme e não de um experimento puramente técnico – e mesmo este não se dá pela velocidade da imagem e sim pelo talento do diretor de fotografia em reunião com o diretor, ou seja, se um filme precisa de uma determinada composição para ser bom ele, definitivamente, não é. Não se está aqui menosprezando a técnica e sim a sua aceitação como ponto primordial para que outros elementos de uma obra não sejam desenvolvidos. Se muitos viram em Gravidade apenas um experimento de efeitos visuais, talvez não foram receptivos à ideia de que a história mostra, de maneira enfática, a aceitação de uma mulher no espaço sobre as perdas em sua vida e o possível reencontro com uma nova oportunidade. Em Projeto Gemini, Lee pode estar ecoando ainda certos temas de seu filme anterior, sobre um jovem soldado, mostrando que a guerra humana se reciclasse sem interrupção, inclusive em seres humanos completamente idênticos. Há algumas mudanças de cenário próprias de uma obra que pretende inaugurar uma franquia, porém sem o devido interesse estético, mesmo com as boas locações. Em meio a isso, o interesse em contar uma história de maneira autoral parece menos interessante a Lee.

Assinado por David Benioff, Billy Ray e Darren Lemke, este é o elemento mais complicado de Propjeto Gemini. Se Smith até consegue transparecer um certo conflito no papel central, finalizando seu bom ano iniciado pela atuação como Gênio em Aladdin, mas a boa atriz Mary Elizabeth Winstead se mostra um pouco deslocada e a figura mais jovem de Brogan – um Will Smith rejuvenescido por computador e com uma certa ênfase em maneirismos que poderia lembrar Zoolander (o melhor rejuvenescimento do cinema ainda é o de Robert Downey Jr. em Capitão América – Guerra civil, e que O irlandês traga boas novas) – não tem muito a fazer, além de o vilão ser esquecível. Falta um tratamento dramático, mesmo inserido na ação, capaz de oferecer a Smith a oportunidade de entregar uma atuação como a de Beleza oculta. A tentativa de desenvolver um romance entre Henry e Danny se sente, a partir de determinado momento, apenas para preenchimento de diálogos soltos. No entanto, Lee é um hábil diretor de imagens requintadas, e Projeto Gemini se sente o tempo todo um thriller elegante, com certas cenas de ação que remetem a Matrix reloaded, no entanto que no fim das contas são boas e efetivas embora sem o mesmo realismo do mais recente Missão: impossível, por exemplo. Do mesmo modo, há algumas boas ideias sobre clonagem de humanos, ainda que sem o desenvolvimento necessário para que o roteiro se desprenda da ideia de ser mais uma obra de ação contemporânea sem uma proposta exatamente nova.

Gemini man, EUA, 2019 Diretor: Ang Lee Elenco:  Will Smith, Mary Elizabeth Winstead, Clive Owen, Benedict Wong Roteiro: David Benioff, Billy Ray, Darren Lemke Fotografia: Dion Beebe Trilha Sonora: Lorne Balfe Produção: Jerry Bruckheimer, David Ellison, Dana Goldberg, Don Grangerim Squyres Duração: 117 min. Estúdio: Skydance Media, Jerry Bruckheimer Films, Fosun Pictures, Alibaba Pictures
Distribuidora: Paramount Pictures

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