Rambo – Até o fim (2019)

Por André Dick

O ator Sylvester Stallone conseguiu construir sua carreira principalmente em cima de dois personagens: Rocky Balboa, o lutador de boxe humilde da Filadélfia, e John Rambo, o veterano que voltou do Vietnã sem a guerra ter saído dele. No seu primeiro filme, Rambo – Programado para matar, ele colocava uma cidade do interior em polvorosa depois de um xerife arrogante tentar expulsá-lo do lugar. Era a oportunidade de Stallone mostrar uma vertente mais violenta do seu boxeador. E o filme era um dos grandes momentos do cinema dos anos 80. Na continuação, com roteiro de James Cameron, ele voltava de fato ao Vietnã para resgatar prisioneiros de guerra – e sua história pouco provável rendeu boas sátiras, como Top Gang, apesar de suas cenas de ação serem uma cortesia de George Pan Cosmatos. Nos episódios seguintes, ele ia ao Afeganistão combater os russos, numa das produções mais caras da história e com cenas de ação muito bem filmadas, e à Birmânia.

Em Rambo – Até o fim, o personagem cuida da fazenda herdada do pai em Bowie, Arizona, com a amiga Maria Beltrane (Adriana Barraza) e sua neta Gabrielle (Yvette Monreal) salvando pessoas de tormentas, montado em cima de um cavalo. Gabrielle fica sabendo notícias do paradeiro de seu pai (Marco de la O) por meio de uma amiga, Jezel (Feneza Pineda), mas, por ele tê-la abandonado, é impedida por sua avó. Rambo tenta protegê-la da maldade do mundo, sendo contrariado pelo ímpeto de quem deseja descobrir seus caminhos por si só. Ou seja, ele projeta a figura do cowboy norte-americano. Stallone escreve o roteiro com Matt Cirulnick, no entanto, com uma série de lugares-comuns, ele não consegue reproduzir o fechamento para seu personagem Rocky em 2006, o ótimo Rocky Balboa – embora ele voltasse na história de Creed em 2015. Isso talvez se deva não apenas a Stallone não ter mais encontrado o ponto de vista que fazia Rambo ser tão interessante na Guerra Fria, colocando-o numa paisagem evocando a dos dois Sicario, em meio ao cartel de drogas mexicano e à exploração de mulheres, assim como Onde os fracos não têm vez (no qual Stallone diz ter especialmente se inspirado). Rambo, apesar da violência que empreendia contra os inimigos, sempre possuiu uma faceta de tentativa de mudar o próprio mundo.

Este Rambo atual, que, na verdade, podia atender por outro nome (se não fosse a questão da guerra e o uso do arco e flecha), talvez por fazer parte de outra fase de vida de Stallone, não tem essas características Nisso, acaba se reproduzindo uma espécie de testamento sobre a falência da humanidade. Se a primeira parte é bastante previsível, com uma série de discussões que não encontram o ponto, sem dúvida a segunda parte é forte e conta com a presença de uma jornalista, Carmen (Paz Vega), a qual investiga o cartel. No entanto, o roteiro não constrói a passagem para o terceiro ato e a figura da jornalista, que seria muito interesse para desenvolver uma trama paralela, se torna pouco aproveitável. Os vilões pouco têm a dizer e não se constrói a expectativa de Rambo em enfrentá-los. Além disso, todo o trabalho de fotografia lembra o de um antigo telefilme, em contraposição, por exemplo, ao terceiro, que, com todos seus problemas narrativos, era um evento de luzes e sombras.

Não ajuda Adrian Grunberg ser um diretor muito inexperiente para lidar com um personagem de quase 40 anos, reduzindo-o praticamente a algumas cenas violentas (um elemento também dos outros da série, prejudicado especificamente por uma que, além do exagero, extrai do personagem sua humanidade presente principalmente no original de 1982), um tanto abruptas e sem a agilidade de um filme de ação. Também nos outros filmes, Rambo sempre agiu de maneira extrema, mas o roteiro entregava um desenvolvimento capaz de convencer o espectador de que havia mais do que um enfrentamento em jogo; aqui vemos um homem amargurado, à vontade apenas em construir túneis de guerra debaixo de uma fazenda, sem a necessária empatia, mesmo na sua preocupação paternal. Sobre o retrato que o filme oferece do México, mesmo cineastas naturais do país, como Amat Escalante no ótimo Heli, que, aliás, poderia ser uma prévia desse filme – melhorada –, costumam receber críticas pelo retrato que fazem dele. Não há nenhuma novidade no que é visto, com argumentos prós e contras. Ou seja, este Rambo pode não mostrar uma boa imagem dos mexicanos e é antecedido nisso por dezenas de obras, inclusive indicadas ao Oscar, a exemplo de Babel e Traffic. Talvez se possa dizer que as duas atuações mais dedicadas sejam justamente dos atores Sergio Peris-Mencheta e Óscar Jaenada nos papéis dos traficantes Hugo e Victor Martinez – ambos, apesar de pouco a dizerem, interpretam bem seus personagens. Quanto a Rambo e seus dilemas de guerra, é mais interessante voltar aos três filmes dos anos 80, quando ele não falava tanto de si mesmo, mas seu silêncio costumava indicar exatamente o que sentia.

Rambo – Last blood, EUA, 2019 Diretor: Adrian Grunberg Elenco: Sylvester Stallone, Paz Vega, Sergio Peris-Mencheta, Adriana Barraza, Yvette Monreal, Genie Kim, Joaquín Cosío, Oscar Jaenada, Marco de la O, Sergio Peris-Mencheta, Óscar Jaenada Roteiro: Matthew Cirulnick e Sylvester Stallone Fotografia: Brendan Galvin Trilha Sonora: Brian Tyler Produção: Avi Lerner, Kevin King Templeton, Yariv Lerner, Les Weldon Estúdio: Millennium Media, Balboa Productions, Templeton Media Distribuidora: Lionsgate

 

Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: