Turma da Mônica – Laços (2019)

Por André Dick

O cinema brasileiro naturalmente busca dialogar com a tendência de adaptações de quadrinhos e animações para o cinema. Nos anos 90, houve a versão em filme do livro de Menino maluquinho, com tom infantojuvenil, também presente em sua sequência, e agora há a adaptação da Turma da Mônica, de Maurício de Sousa, nesta obra dirigida por Daniel Rezende. Conhecido por ser um exímio editor, de filmes como Cidade de Deus, A árvore da vida, Na estrada, Tropa de elite e RobCop (ou seja, uma trajetória de talento comprovado), Rezende estreou como diretor em Bingo – O rei das manhãs. Dono de uma visão interessante, com visual apegado ao jogo de cores, Rezende fez de Bingo um sucesso, embora seja mais do que superestimado, baseado na exitosa atuação de Vladimir Brichta.

Este novo experimento dele, no universo infantil, possui como base personagens que marcaram a infância de milhões de brasileiros. Temos Cebolinha (Kevin Vechiatto) e Cascão (Gabriel Moreira) fazendo brincadeiras em seu bairro e sendo perseguidos por Mônica (Giulia Benite) e seu coelho Sansão – e eventualmente com a amiga Magali (Laura Rauseo). Esses personagens têm características definidas: Cebolinha troca o “r” pelo “l”, Mônica costuma ficar irritada quando provocada por ele, Cascão não gosta de tomar banho e Magali se alimenta compulsivamente. Tudo isso poderia soar exageradamente rotulável ou mesmo sem vida necessária no filme. Não é o que acontece. Turma da Mônica – Laços é o tipo de filme que possui um coração definido, e ele está exatamente em imagens e passeios que remetem à infância. Rezende utiliza a extraordinária fotografia de Azul Serra para fazer um diálogo dela com os figurinos dos personagens e deixar a imagem de modo geral alaranjada, com um aspecto de infância eterna e de certa melancolia. Seu trabalho tem como base evidente o de Bruno Delbonell para Jeunet em O fabuloso destino de Amélie Poulain, embora menos saturado.

Os pais dos personagens ficam alheios às aventuras, e só se preocupam quando eles desparecem à procura de Floquinho, o cão de Cebolinha, que aqui parece pintado com spray verde.  Os principais são o Sr. Cebola da Silva (Paulo Vilhena) e Dona Cebola (Fafá Rennó), Onde está Floquinho? O que teria acontecido com ele? O roteiro, escrito por Thiago Dottori, baseado em história de Vitor Cafaggi, Lu Caffagi e Mauricio de Sousa, se baseia nessa premissa que dialoga com Super 8 para desenvolver a amizade entre os integrantes da turma, quando ingressam na mata à procura de um sequestrador. Turma da Mônica – Laços não procura exatamente subtramas e envolvimento de muitos personagens, embora haja a participação curiosa de Rodrigo Santoro em determinado momento, e sim apenas um elo essencial sobre o que é importante na infância, nesse caso o cão que faz companhia à turma e à família. Trata-se obviamente de um caminho que não renderia um filme interessante, mas Rezende está tão certo de que seus personagens conversam com a plateia que ele não tem essa preocupação. Um acampamento noturno dos amigos tem uma atmosfera de perigo e, ao mesmo tempo, acolhedora, e o amanhecer em meio às árvores desperta um sentimento de que a infância vai se desapegando da casa para um conhecimento de mundo, no que dialoga com uma determinada sequência do belo Conta comigo, dos anos 80.

Com atores não excelentes, mas convincentes, Turma da Mônica tem seu elo de ligação principal em Mônica, feita por Giulia Benite, e Cebolinha, feito por Kevin Vechiatto. São eles que acabam traduzindo essa sensação de que os quadrinhos ganham vida na tela, junto com a fotografia em conversa com o design de produção de Cassio Amarante (Central do Brasil, Abril despedaçado, Bingo e As melhores coisas do mundo) que reproduz o Bairro do Limoeiro como uma espécie de viagem a um lugar reconhecível e distante, com suas enormes árvores, além do uso das cores dos figurinos dos personagens nas casas, carros, bicicletas e objetos de casa. E é evidente que Rezende recolhe alguns toques dos gramados da casa que deram tanto êxito a Terrence Malick em sua obra-prima A árvore da vida sob um enfoque mais infantojuvenil, mas que também irá agradar a plateia adulta. A sensação é de ver uma história sem época definida, ou melhor, a sua época é a da infância universal.

Turma da Mônica – Laços, BRA, 2019 Diretor: Daniel Rezende Elenco: Kevin Vechiatto, Giulia Benite, Gabriel Moreira, Laura Rauseo, Paulo Vilhena, Fafá Rennó, Rodrigo Santoro Roteiro: Thiago Dottori Fotografia: Azul Serra Produção Bianca Villar, Cássio Pardini, Charles Miranda, Cao Quintas, Karen Castanho, Fernando Fraiha Duração: 97 min. Estúdio: Biônica Filmes, Quintal Digital, Latina Estúdio, Maurício de Sousa,  Produções Paris Filmes Distribuidora: Paris Filmes, Downtown Filmes

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