Rubens Ewald Filho

Por André Dick

Imagem: Marcos Alves (Agência O Globo)

O crítico Rubens Ewald Filho infelizmente faleceu aos 74 anos de idade. Para pessoas da minha idade que gostam de cinema, ele possivelmente fez parte da formação de leitura e escrita sobre a sétima arte. No meu caso, em um determinado período dos anos 80, havia três referências na crítica brasileira de filmes: SET, Cinemin e Rubens. Enquanto a SET e Cinemin trabalhavam com textos mais longos, alguns parecidos com ensaios (a SET por meio de, por exemplo, José Emilio Rondeau, José Geraldo Couto, Eugênio Bucci e Ana Maria Bahiana; a Cinemin, com Fernando Albagli e Hugo Sergio Sukman), Rubens era um mestre da crítica sintética, formato que escolheu certamente para poder tratar do número maior possível de produções. Lembro-me principalmente de um guia de filmes infantojuvenis que ele escreveu em meados dos anos 80 e de quantos deles vi a partir de então, a exemplo de Duna, De volta para o futuro e Indiana Jones e o templo da perdição. E também pude ler pela primeira vez textos sobre alguns que já tinha visto, como A história sem fim e Os Goonies.
Acabei depois assinando a Video News, na qual Rubens fazia críticas de filmes lançados em VHS. Era o auge das locadoras. Chegar da escola em determinada semana do mês, sabendo que a revista havia chegado, era uma alegria ímpar. Por anos, foi possível acompanhar Rubens também nos comentários da festa do Oscar. Talvez seja um lugar-comum, mas ele era uma enciclopédia. Suas observações no Oscar, quando passavam as imagens em memória aos que morreram, atestavam isso. É muito raro um crítico conhecer bem artistas de uma ou duas gerações: ele conhecia de várias. Tinha um conhecimento incontestável da história do cinema. E, apesar de lidar com lançamentos, também escreveu o essencial Dicionário de Cineastas, uma enciclopédia sobre diretores, até os mais desconhecidos. As notas que eu datilografava em determinada época sobre diretores que iam surgindo eram baseadas neste livro dele. E os guias com resenhas que eu xerocava e tentava empurrar a familiares e amigos traziam muito dessas leituras.
Claro que, como referência, fiquei chateado algumas vezes, como quando, num jornal da TV, ele anunciou Batman como o pior filme de 1989. Ou quando criticava o excesso de surrealismo em David Lynch (mesmo que admirasse especialmente Veludo azul). Em determinado momento, pode-se imaginar que nosso gosto será igual ao do crítico, porque apreciamos o que ele escreve. Quando um crítico que se admira pensa o contrário, gostaríamos que pensasse igual apenas para termos a certeza de que realmente determinada obra tem a qualidade que vimos nela. Mas críticos são vitais também para descobrirmos nossas próprias escolhas, sem que se diminua a importância deles. E Rubens também apresentava uma ótima característica: era imprevisível nas avaliações. Às vezes filmes bem recebidos eram bastante criticados por ele, e o contrário acontecia em igual escala. Outra grande característica: tendo lançado inúmeros guias de filmes em VHS e em DVD, referenciais para qualquer um que aprecie cinema, ele nunca lamentava quando determinadas plataformas iam perdendo vigor ou mesmo desaparecendo; sempre ia se acostumando a novas. Na verdade, ao que me parece, seu intuito sempre foi querer o acesso do cinema ao grande público, torná-lo sempre mais forte. Tenho a sincera impressão de que ele conseguiu isso com raro êxito. E, com sua dedicação a vida toda ao cinema, possivelmente seja sua maior realização.

Descanse em paz, Rubens Ewald Filho.

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3 Comentários

  1. Paula Rocha

     /  20 de junho de 2019

    Que ele descanse em paz!
    Como não tive acesso aos textos dele, seria interessante se você pudesse recomendar algumas leituras para nós. As que você gosta mais.

    Responder
    • André Dick

       /  21 de junho de 2019

      Prezada Paula,

      Além de Dicionário de Cineastas, há outras obras muito interessantes, como O Oscar e eu, os Guias de DVDs (de diferente anos da década de 2000), Os 100 maiores cineastas e Cult-movies do século 20. Espero que isso ajude na procura e que aprecie a leitura!

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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