Cemitério maldito (2019)

Por André Dick

O cinema vem adaptando obras de Stephen King em larga escala desde os anos 70, quando livros como Carrie, a estranha e Os vampiros de Salem, se transformaram em filmes (o de Hooper feito inicialmente para a TV, mas depois lançado no cinema em circuito restrito, pela qualidade). No entanto, foi nos anos 80, com peças como O iluminado, Fog, Christine – O carro assassino, Conta comigo e A hora do lobisomem, que King chegou as maiores plateias. Em Creepshow ele participou, inclusive, como ator numa das histórias. No final dessa década, foi lançada a primeira adaptação de Cemitério maldito, mais exatamente em 1989. Desde lá, as adaptações do escritor não cessaram, inclusive algumas indicadas ao Oscar de melhor filme (Um sonho de liberdade, À espera de um milagre). Apenas em 2017 foram lançados It – A coisa e Jogo perigoso.
Desta vez, temos uma nova versão da mesma obra de King, como antes já aconteceu com o próprio It, O iluminado e Carrie, entre outros. Ele mostra a chegada de Louis Creed (Jason Clarke), médico de Boston, que se muda para a cidezinha de Ludlow, Maine, com sua esposa Rachel (Amy Seimetz) e seus dois filhos pequenos, Ellie (Jeté Laurence) e Gage (os gêmeos Hugo e Lucas Lavoie).

Além disso, há o gato de Ellie, chamado “Church”. A câmera sobrevoando uma estrada em meio a florestas obviamente lembra o filme de Kubrick do início dos anos 80, no entanto não existe aqui, exatamente, um tom grandioso. Tudo vai se situar num determinado espaço. Logo na chegada, Ellie vai até o bosque, onde vê crianças com máscaras levando um animal a um cemitério chamado “Pet Sematary”, onde conhece o vizinho Jud Crandall (John Lithgow), que avisa sobre o perigo do lugar.
Desde o início, a dupla de diretores Kevin Kölsch e Dennis Widmyer tenta escapar da versão de 1989, com toda a atmosfera daquela década e a canção-título numa versão antológica dos Ramones (que mais tornou o filme conhecido), com uma fotografia mais soturna. Eles também acentuam o clima pesado e cadavérico dos personagens. Todos eles parecem ter sido afetados pelo conceito de morte, não apenas o médico, como sua esposa, que não quer falar sobre um determinado acontecimento em sua vida.

O mais interessante nessa história é que, para personagens que não conseguem enfrentar a ideia de morte, esta se aproxima cada vez mais, seja por meio de visões estranhas, seja por meio de uma determinada situação envolvendo o gato de Ellie. Este é o momento em que a história é conduzida para um ambiente fantástico, principalmente por meio de uma neblina noturna e por meio de passeios no bosque perto de casa que não parecem exatamente reais, contudo repletos de uma sensação onírica. De certo modo, há uma influência decisiva do excelente Hereditário, nos cenários apertados da casa, além de um diálogo aberto com No cair da noite, embora sem a mesma sensação de claustrofobia, e com O ritual nas cenas de sonho. Também há influências de Twin Peaks e Shyamalan quando os diretores filmam as folhas das árvores do bosque, e de Boa noite, mamãe no uso de crianças com máscaras assustadoras.
Os diretores privilegiam as atuações de Clarke, Seimetz e Lithgow, além da revelação Laurence, verdadeiramente efetiva nos melhores momentos. Kölsch e Widmyer, com um cuidado extremo, fazem da história de terror de King uma análise sobre a constituição familiar e de como os personagens dependem uns dos outros para que um certo padrão predomine.

É o tema principal da obra de King, principalmente em clássicos como O iluminado: a ligação entre os pais e como elas se projetam nos filhos, sobretudo ainda crianças. Em Cujo, por exemplo, uma mãe tenta defender seu filho de um cachorro da raça São Bernardo, que fica com raiva depois de ser mordido por um morcego. O roteiro de Jeff Buhler consegue sintetizar essas ideias de King num roteiro bastante sintético, porém sem os exageros de adaptações recentes do escritor que se pretendem épicas e soam vazias. Há alguns lapsos na narrativa, com certeza, no entanto nunca se mostram prejudiciais para o todo e, mesmo que a fotografia de Laurie Rose se sinta um tanto sem inspiração na paleta de cores, há uma movimentação de câmera interessante. Quando a violência cresce em proporção, ela não soa exagerada e sim cabível no contexto – e alguns instantes realmente assustam. É só comparar esta adaptação com outras de King que envolvem gatos (por exemplo, Sonâmbulos) para ver o quanto ele é superior e aborda de modo eficaz seus temas, além de entregar momentos decisivamente temíveis, a exemplo daqueles que envolvem uma estrada que está perto da nova casa da família e já constituíam também os melhores da versão anterior.

Pet sematary, EUA, 2019 Diretor: Kevin Kölsch e Dennis Widmyer Elenco: Jason Clarke, Amy Seimetz, John Lithgow, Jeté Laurence, Hugo Lavoie, Lucas Lavoie Roteiro: Jeff Buhler Fotografia: Laurie Rose Trilha Sonora: Christopher Young Produção: Lorenzo di Bonaventura, Mark Vahradian, Steven Schneider Duração: 101 min. Estúdio: Di Bonaventura Pictures Distribuidora: Paramount Pictures

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