Alien – O oitavo passageiro (1979)

Por André Dick

Dirigido por Ridley Scott – que vinha de Os duelistas (1977) – Alien – O oitavo passageiro marcou o final dos anos 1970 como uma das ficções científicas mais originais até então feitas, com elementos de terror e visual repleto de jogos de luz. Apesar de revolucionário e ter influenciado dezenas de filmes em seguida, Alien surgiu da impossibilidade do roteirista Dan O’Bannon terminar um roteiro para a versão cinematográfica de Duna (que seria também filmado por Jodorowsky, depois por Ridley Scott e acabou sendo feito por David Lynch), e fez tanto sucesso que deu origem a uma franquia, que perdura até hoje, muito em razão também da sua sequência, Aliens, dirigida por James Cameron.
Os personagens estão em viagem espacial na Nostromo, um cargueiro de minério espacial. quando são acordados ao receberem sinais de vida vindos de um planeta. A bordo da espaçonave, estão o capitão Dallas (Tom Skerritt), os oficiais Kane (John Hurt) e Ripley (Sigourney Weaver), Lambert (Veronica Cartwright), o cientista Ash (Ian Holm) e dois engenheiros, Parker (Yaphet Kotto) e Brett (Harry Dean Stanton). Ao descerem no planeta de onde vêm os sinais, além de problemas estruturais, o principal: uma criatura fica grudada no capacete de Kane, com tentáculos agarrados em seu pescoço, deixando-o numa espécie de coma. Como deixá-lo vir a bordo trazendo uma potencial ameaça?

É nesse planeta que se destaca, além dos excelentes efeitos visuais (vencedores do Oscar), o desenho de produção fascinante de H. R. Giger. A maneira como se prepara o que irá acontecer, numa mesa de jantar, é definidora dos padrões de mescla entre terror e ficção científica que seria replicada com êxito por John Carpenter em O enigma de outro mundo (aliás, O’Bannon havia escrito Dark Star, de 1974, dirigido pelo próprio Carpenter).
Durante alguns anos, depois do sucesso de público e crítica de Os duelistasAlien e Blade Runner – o terceiro de forma tardia –, Ridley Scott tentou encontrar um novo rumo para sua carreira. Nos anos 80, depois de Blade Runner, realizou obras como A lenda, para chegar à consagração, nos anos 90, com Thelma & Louise, até chegar ao subestimado Gladiador, um dos melhores filmes já realizados sobre a Roma Antiga. Depois de fazer Falcão negro em perigo, com cenas de ação muito bem feitas, Hannibal (a sequência desagradável de O silêncio dos inocentes), Os vigaristas (mistura entre drama e comédia com Nicolas Cage), encadeou uma espécie de remake de Gladiador, o grandioso Cruzada, e alguns filmes com Russell Crowe: Um bom anoO gângsterRede de mentiras e Robin Hood – dos quais os dois primeiros se destacam, e nos últimos anos retomou a saga Alien, com os ótimos e subestimados Prometheus e Alien: Covenant.

É em Alien – O oitavo passageiro que Scott constrói a a premissa de sua trajetória elegante: um cineasta com primor visual, logo depois de Os duelistas (em seu diálogo com Barry Lindon), e que busca concentrar as ideias em narrativas aparentemente simples. O androide Ash antecipa David de Prometheus e Alien: Covenant, um parente próximo também de Roy Batty, feito por Rutger Hauer, em Blade Runner, à procura de uma explicação divina para a existência, ao mesmo tempo que parece se afastar dela ou mesmo colocá-la em dúvida. Será, afinal, que ele deseja conservar a vida eterna de seu pai? É este pai, responsável pela corporação à qual pertence a Nostromo, que lembra Tyrell, o criador dos replicantes de Blade Runner. O deuses – e os homens que se movem para descoberta –, são colocados em dúvida – mas aparecem a cada instante, na forma de conflitos e tentativa de persuadir o outro a caminhar rumo ao abismo. David é quem dá uma espécie de consistência existencial a Prometheus, e as partes de que participa são as melhores, seja no início, inspecionando os sonhos de Elizabeth, seja quando anda de bicicleta jogando basquete ou caminha de chinelo num ambiente asséptico – remetendo ao David Bowman de 2001.

Quando coloca um uniforme com capacete, logo é perguntado por que faz aquilo, já que é um androide. Ele responde que é porque foi feito para que não fosse diferenciado dos seres humanos. Ou seja, há uma espécie de consciência para David, disfarçada de desumanidade, e todas as suas ações são completamente mecânicas e calculadas. Ele se difere dos androides feitos por Holm e Henriksen nos dois primeiros filmes da série, pois se aproxima muito mais do homem – e se visualiza que aqueles foram criados como versões avançadas deste – em suas ações inexplicáveis e indefinidas mesmo por quem está, digamos, “acima” dele em hierarquia.
De qualquer modo, é justamente seu antecessor Ash, numa atuação brilhante de Ian Holm, que concede a faceta humana mais assustadora de Alien, pois ele, de fato, é uma criação do homem em que não se tem confiança alguma. Por mais que se distancie das atitudes que teria um ser humano comum, ou seja, baseado em fatos assustadores. Quando Ripley desconfia de seu comportamento, Scott oferece a guinada de seu filme, entre corredores escuros da Nostromo. Weaver, nesse sentido, tem uma atuação excepcional, oferecendo um tom preocupado singular, precursor das personagens de outro sucesso de Scott, Thelma & Louise. Em meio a um clima misterioso, a trilha sonora de Jerry Goldsmith concede um atrativo extra para compor uma atmosfera aterradora e que ainda pode sintetizar boa parte da trajetória do cineasta britânico. Veja-se, por exemplo, as sequências em que Brett procura por um gato pela nave espacial ou aquela na qual o capitão Dallas tenta usar um aparelho para saber da chegada de uma potencial ameaça. Além disso, a maneira como Scott liga Alien e Prometheus é um dos grandes achados do cinema recente, colocando em discussão temas como a exploração espacial e como a humanidade pode ser colocada em segundo plano em nome de possíveis descobertas científicas. Para Scott, o elemento mais assustador pode ser justamente a decisão sob influência da humanidade. Para combatê-la, é preciso certo heroísmo e seguir o caminho certo para a autodescoberta.

Alien, EUA/ING, 1979 Diretor: Ridley Scott Elenco: Tom Skerritt, Sigourney Weaver, Veronica Cartwright, Harry Dean Stanton, John Hurt, Ian Holm, Yaphet Kotto Roteiro: Dan O’Bannon Fotografia: Derek Vanlint Trilha Sonora: Jerry Goldsmith Produção: Gordon Carroll, David Giler, Walter Hill Duração: 117 min. Estúdio: 20th Century Fox e Brandywine Productions Distribuidora: 20th Century Fox

 

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