Climax (2018)

Por André Dick

O diretor franco-argentino Gaspar Noé sempre foi conhecido por seus filmes polêmicos, a começar por Sozinho contra todos, mas, principalmente, por Irreversível, desde o seu lançamento em Cannes. O Festival francês costuma ser o palco da estreia de seus filmes, e o mesmo ocorreu com Enter the void, em 2009, e Love em 2015 – em ambas as ocasiões sem receber nenhum prêmio ou mesmo ter um destaque especial. Se Enter the void tornou-se, com o tempo, numa obra referencial – e parece, em retrospectiva, o melhor trabalho de Noé –, com Love (lançado nos cinemas em 3D) não aconteceu o mesmo, mas se manteve cult, tratando de uma história sobre um triângulo amoroso que se depara com uma determinada realidade capaz de levá-lo a um extremo por vezes conflitante e desagradável, mesmo em meio a cores brilhantes.

Em Climax, seu novo filme, também lançado em Cannes, acompanhamos alguns dançarinos que se reúnem para ensaiar, com o objetivo de fazerem uma turnê na França e nos Estados Unidos. Depois de assistirmos cada um deles em vídeos de audição, Noé mostra todos dançando num espaço iluminado nos moldes das suas peças anteriores. Os movimentos de dança belíssimos e bem coreografados são ousados, frenéticos e compõem uma sequência que antecede os créditos, já aos 45 minutos de narrativa. A divisão clara do filme indica que Noé, no princípio, continua brincando com a linguagem cinematográfica, assim como em Love, com seu 3D pouco habitual. Seus jovens, depois de falarem para a câmera a fim de conseguirem suas participações no grupo, são filmados de frente, como se estivessem num documentário, compartilhando impressões sobre alguns temas. Sob certo ponto de vista, este é o momento em que mais Noé presta homenagem a Jean-Luc Godard, sobretudo aquele de A chinesa ou Made in U.S.A., dos anos 60, com o uso de uma certa câmera estática, mas sem exatamente congelar o que está mostrando e também sem o mote político.

Quando todos estão flertando uns com os outros, eles bebem a sangria que a líder da companhia, Emmanuelle (Claude Gajan Maull), fez. A mistura entre bebida e frutas, além de proporcionar as cores buscadas por Noé, acentua também o lado enigmático da obra. Os efeitos dela contribuem para o que Noé mostra a seguir, continuando suas experimentações principalmente de Enter the void, com a sua câmera acompanhando os personagens pelas costas, num trabalho de fotografia notável novamente do habitual parceiro, Benoît Debie. Entre os personagens que acompanhamos, estão David (Romain Guilermic), Selva (Sofia Boutella) e Daddy (Kiddy Smile), este o DJ da festa. Os personagens vão se revelando e as inter-relações, apesar de continuarem confusas, se mostram mais evidentes. A principal atriz é Boutella, que surgiu no blockbuster Kingsman e depois esteve em A múmia, sendo no mínimo uma presença curiosa e mainstream nesta obra underground e entregando certamente a sua melhor atuação até agora, embora esteja muito bem em Atômica, ao lado de Charlize Theron.
Mas o apanhado é de horror, uma espécie de Birdman de Iñárritu situado às portas do inferno de Dante Alighieri, e é curioso que a personagem se chama Selva (remetendo a “selva oscura” da Divina Comédia: “Nel mezzo del cammin di nostra vita / Mi ritrovai per una selva oscura”). Em Enter the void, sabemos que se trata, do ponto de vista de alguém que faz uma passagem pelo inferno e purgatório até chegar ao paraíso – uma possível outra vida. É uma viagem quase dantesca, e nela temos cenas singulares a Noé: cenas graficamente densas e violência. Esse lado mais denso pode, por outro lado, reservar um escapismo e a compreensão do maior significado da vida, no fundo a base para se entender a trajetória de Noé.

Porém, também temos, ao mesmo tempo, uma ligação com o personagem central de Enter the void, que carregava todos os elementos: havia referências ao fogo, à água, à terra e ao ar (sobretudo num momento surpreendente, em que Noé lança seu personagem para acima da cidade de Tóquio, como se fosse um anjo de Asas do desejo). Se o personagem morria em posição fetal no banheiro da The Void, aqui Selva é abalada pela bebida e logo em seguida mesmo as paredes adquirem imagens que lembram um espaço à parte. Noé emplaca um clima de tensão e horror, com sua inevitável reflexão sobre vida e morte, contrapondo a leveza da música da primeira parte à opressão da segunda. Ainda assim, ele parece dialogar mais com o Fellini de Satyricon, principalmente no surrealismo subterrâneo, do que qualquer outro cineasta produzindo nos dias de hoje. E, se normalmente ele costuma ser extremamente negativo em relação à realidade, aqui não parece ser diferente, com um toque, ao final, de David Lynch. Para Noé, os anjos podem vir salvar, afinal, um espaço perturbador. O resultado é, no mínimo, interessante e mantém Noé entre os nomes de grande talento do cinema contemporâneo.

Climax, FRA/BEL, 2018 Diretor: Gaspar Noé Elenco: Sofia Boutella, Kiddy Smile, Roman Guillermic, Souheila Yacoub, Claude Gajan Maull, Giselle Palmer, Taylor Kastle, Thea Carla Schott Roteiro: Gaspar Noé Fotografia: Benoît Debie Produção: Edouard Weil, Alice Girard, Vincent Maraval Duração: 96 min. Estúdio: Rectangle Productions, Wild Bunch, Arte France, La Cinémas de la Zone, Eskwad, KNM, Arte France Cinéma, Artemis Productions, Vice Studios, Arte France, VOO, Be TV, Shelter Prod, Taxshelter.be, ING, CNC, La Sacem, Cineventure 3 Distribuidora: O’Brother (Bélgica) e Wild Bunch (França)

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