Creed II (2018)

Por André Dick

A primeira parte da série Rocky, de 1976, recebeu os Oscars de melhor filme e direção e o segundo veio na esteira, tendo praticamente o mesmo estilo. Já Rocky III e Rocky IV foram feitos sob o influxo da estética do videoclipe dos anos 80, com belas canções, montagem acelerada, mas com o intuito da diversão. No quarto, especificamente, o lutador enfrentava Ivan Drago (Dolph Lundgren), boxeador russo treinado em laboratórios, depois de ele matar seu amigo Apollo Creed numa luta-evento. É justamente com este quarto filme da série que Creed II estabelece mais contato.
Michael B. Jordan regressa como Adonis, filho de um relacionamento extraconjugal de Apollo, que passou um bom tempo no reformatório até ser buscado pela esposa dele, Mary Anne (Phylicia Rashad), com quem possui um relacionamento baseado na confiança.

Depois de derrotar Danny “Stuntman” Wheeler (Andre Ward) e se tornar campeão mundial, ele é procurado por um agente, Buddy Marcelle (Russell Horsnby) para lutar com Viktor Drago (Florian Munteanu), filho de Ivan (mais uma vez  Lundgren), que matou seu pai em Rocky IV. Sem o apoio de Rocky para a nova empreitada, ele se muda para Los Angeles, onde vai treinar sob o comando de Tony “Little Duke” Evers (Wood Harris), filho do treinador de seu pai. No entanto, não apenas esses personagens atuam em sintonia, como também Tessa Thompson, na persona de Bianca Taylor, namorada de Creed. O romance entre os dois remete ao de Rocky e Adrian – e a personagem de Bianca é sensível na medida em que atinge notas conseguidas antes na série justamente apenas por Talia Shire, principalmente em Rocky II, com o qual este filme tem muitas semelhanças também. Aqui o casal em início de vida conjunta precisa estabelecer uma nova estrutura para que cada um possa se realizar em sua área: Bianca é uma música, com problemas auditivos.
Stallone está mais uma vez excepcional como um personagem que não tem mais a esposa e os amigos à sua volta e se volta à tentativa colocar Adonis como uma espécie de substituto para a paternidade falha que teve com Robert.

As nuances que Stallone entrega para seu personagem diferem daquelas exibidas em Rocky Balboa, no qual era mais bem-humorado e com uma ironia cáustica; a partir do primeiro Creed ele parece conduzir seu limite pessoal a um enfrentamento com o destino, e não é diferente aqui. Neste, a família Drago chega à Filadélfia com o objetivo de modificar a mitologia de turistas indo visitar a estátua de Rocky. Há um ressentimento de Ivan ao relação ao boxeador que o derrotou três décadas atrás, e uma tentativa de usar o filho de Creed para uma vingança pessoal. Os personagens são interdependentes. Deve-se dizer que o quinto filme, que tinha novamente John G. Avildsen na direção (como o primeiro) já apresentava um estilo que está sendo trabalhado na série Creed: embora com resultado irregular, era soturno, mais denso, mostrando a interrupção da carreira de Rocky (em razão da quantidade de socos que recebeu na cabeça), a volta para a Filadélfia (em razão de um contador desonesto) e o início de treino de um jovem com talento.
Mais do que sobre lutas, Creed, como Rocky, fala da passagem de tempo, de como os personagens submergem de seus conflitos pessoais e de como as histórias podem criar vínculos a distância, desenhando vínculos familiares. Neste sentido, apesar das devidas diferenças, o jovem diretor Steven Caple Jr. consegue realmente dar sequência à história iniciada pela figura de Rocky Balboa. Como John G. Avildsen no original, Stallone em Rocky II e Rocky Balboa e Coogler em Creed, o cineasta está interessado sobretudo nos personagens e a carga dramática que ele imprime ao filme está longe de ser superficial. Mesmo que não consiga atingir o punch de Coogler do primeiro, por contar com um roteiro mais didático e expositivo (Juel Taylor, que o assina com Stallone, é um estreante), ele extrai novamente ótimas atuações de todos (B. Jordan está novamente num dos melhores momentos de sua carreira) e encadeia a narrativa de maneira ágil do início ao fim. A sequência está no seu melhor quando mostra situações familiares de Creed, principalmente quando se vê diante de uma situação-chave em sua vida. E algumas sequências são, além de bem filmadas, simbólicas, como aquela em que o personagem central, sentindo-se destruído, tenta buscar um novo horizonte embaixo d’água, com imagens que remetem a cruzes no fundo de uma piscina, indicando vida e morte.

É uma pena que Stallone não tenha se dedicado mais em sua trajetória a obras como esta, em que encobre suas limitações com uma composição bem feita. Caple Jr. não coloca em nenhum momento a estética de videoclipe, mas mostra uma rotina de boxeador mais contida. Creed passa a viver com a namorada num apartamento vazio em Los Angeles, a academia onde treina tem uma imagem de seu pai Apollo que parece pesar sobre seus ombros; as ruas da Filadélfia e o restaurante de Rocky parecem desolados. A própria vida do filho e do pai Drago, na Ucrânia, embora não explorada como iria sugerir um roteiro superior, se dá num ambiente desolador, quase pós-guerra, com uma fotografia mais propensa a uma obra como Foxtrot, o que não deixa de ser curioso, pois Rocky IV era basicamente um documento cinematográfico da Guerra Fria nos anos 80. No entanto, o lutador pode trazer essa vida de volta – e ele traz, mas sem a alegria desenfreada da montagem fragmentada e sim sob o aspecto da fotografia e da trilha sonora casadas de maneira efetiva. A analogia que Caple Jr. faz entre os Balboa, os Creed e os Drago mostram, mais do que uma vida dedicada à luta, uma superação diária de traumas insolucionáveis, que devem ser enfrentados mesmo assim. Para esses personagens, apesar de existirem o medo e o ressentimento, não pode haver meio-termo; é preciso enfrentá-los.

Creed II, EUA, 2018 Diretor: Steven Caple Jr. Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Wood Harris, Phylicia Rashad, Dolph Lundgren, Russell Horsnby, Florian Munteanu Roteiro: Juel Taylor e Sylvester Stallone Fotografia: Kramer Morgenthau Trilha Sonora: Ludwig Göransson Produção: Sylvester Stallone, Kevin King-Templeton, Charles Winkler, William Chartoff, David Winkler, Irwin Winkler Duração: 130 min. Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer, New Line Cinema, Warner Bros. Pictures, Chartoff-Winkler Distribuidora: Metro-Goldwyn-Mayer (Estados Unidos), Warner Bros. Pictures (Internacional)

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