Solaris (1972)

Por André Dick

Antes de assistir a esta obra clássica de Andrei Tarkovsky em Blu-ray da Criterion, eu certamente não a havia assistido como deveria. Lembro da cópia com cores apagadas pela qual conheci esta peça do grande cineasta russo, uma resposta dele a 2001, de Stanley Kubrick (o qual julgava frio e excessivamente espetaculoso em termos de efeitos visuais), e, associada ao ritmo lânguido, entendo que nada ajudava. Achei apenas maçante e longo, sem nenhum atrativo visual, apesar de entender as ligações filosóficas pretendidas por Tarkovsky. Mas é em Blu-ray majestoso que a fotografia de Vadim Yusov ganha vida: vemos realmente o amarelo, o vermelho, o verde, o prateado, o reflexo das luzes da espaçonave, o contraste de cores ganha vida e o design de produção relativamente inferior a 2001 não se sente mais tão incômodo. Esta é uma ficção científica que se parece mais com um drama situado em meio a falas sobre a vida espacial.

A trama, baseada num livro de Stanislaw Lem, mostra o psicólogo Kris Kelvin (Donatas Banionis), que passa seu último dia na Terra refletindo sobre sua vida à beira de um lago próximo da sua casa de infância, onde ainda mora o pai (Nicolai Grinko). Ele irá embarcar numa viagem até a estação espacial que orbita o planeta Solaris, com seu oceano infinito, e precisa avaliar a missão, que não tem mostrado avanço. Para isso, ele entra em contato com coordenadores da estação. Ao mesmo tempo, Henri Berton (Vladislav Dvorzhetsky), um ex-piloto, o visita, e ambos veem filmagens dele de um período em que esteve no espaço e passou por uma situação perturbadora.
Na chegada à estação, Kris fica sabendo que Dr. Gibarian (Sos Sargsyan), um amigo, se matou. Os dois pilotos, entre os quais Dr. Snaut (Jüri Järvet) e Dr. Sartorius (Anatoli Solonitsyn), que ficaram não estão muito interessados em conversar. O surpreendente é que aparece para ele a esposa já falecida, Hari (Natalya Bondarchuk), por um motivo-chave. Ela pode explicar por que o planeta influencia tanto as ondas cerebrais dos passageiros da nave. A imagem da esposa seria apenas resultado de sua imaginação? Os diálogos entre eles simbolizam um resquício do que poderia ter sido o casamento? Por meio de Solaris, o psicólogo estaria tentando superar traumas e possíveis sentimentos de culpa?

É a atuação de Natalya Bondarchuk o melhor elemento do filme, aquele que torna as tentativas de Tarkovsky no sentido filosófico em plausíveis. A sua figura traz, além do componente feminino para este universo focado predominantemente masculino, a sensibilidade e a lembrança de um amor vigoroso, quando ainda existia. Kris é um personagem inseguro diante dos acontecimentos e, de algum modo, Hari o conduz para a segurança de que o espaço sideral pode libertar seus sentimentos em relação ao que viveu e ainda não filtrou suficientemente.
Claro que tudo é um grande motivo para Tarkovsky expor uma narração sobre a filosofia do tempo e do amor (ainda que Nolan em Interestelar seja mais emotivo). Vejamos a sala onde acontecem as reuniões, onde aparecem pinturas, como “Os caçadores na neve” (1565), de Pieter Bruegel, o Velho: é como se Solaris e a nave representassem sempre uma extensão da verdadeira natureza humana, e as lembranças de Kelvin dialogam com essa imagem: a da criança no gelo, sobretudo. Os candelabros contrastam com o corredor tecnológico; o fogo da espaçonave contrasta com a fogueira que Kelvin usa para apagar objetos de seu passado; as pinturas são como sonhos imóveis (e a cena em que Kelvin e Hari gravitam pela sala é impecavelmente bem construída). Vencedor do Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes, não é um filme, particularmente, que se compare a 2001, contudo possui uma ressonância psicológica envolvente.

Como em O espelho e Nostalgia, Tarkovsky filma tudo de maneira bastante lenta, vendo mais os detalhes teatrais do que qualquer empuxe de aventura. Ele tem elementos que antecipam também a sensação apocalíptica que percorre o belo O sacrifício, em que uma árvore simbolizava a ligação dos tempos e a passagem dele por meio dos personagens. Em Solaris, testemunhamos a relação entre um casal e do filho com seu pai que resiste à viagem ao espaço e ao tempo linear. Tarkovsky adota uma interessante concepção de que a vida existe, antes de tudo, na memória das pessoas e que Solaris, o planeta, se encarregaria de despertá-la em forma de realidade, mesmo que já não exista. O final dessa ficção científica, a partir de tudo isso, particularmente, é um dos mais belos e significativos do cinema. O cineasta russo parece emparelhar a beleza plástica de 2001 com uma vigorosa alternativa de que somos todos conduzidos a um espaço que nos lembra da casa mais íntima: não se está tratando simplesmente da faceta subjetiva de cada um e sim de sua ligação incontornável com o outro, que nos lança para frente, sempre em busca de uma explicação. Solaris tem isso em seus melhores momentos: aqueles em que a humanidade se mostra cada vez mais humana.

Solaris, RUS, 1972 Diretor: Andrei Tarkovsky Elenco: Donatas Banionis, Natalya Bandarchuk, Nikolai Grink, Yuri Yarvet Roteiro: Andrei Tarkovsky, Friedrich Goreinstein Fotografia: Vadim Yusov Trilha Sonora: Eduard Artemiev Produção: Vadim Jusov Duração: 165 min. Distribuidora: Mosfilm

 

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