Roma (2018)

Por André Dick

Depois de Amor em tempo de histeria, o mexicano Alfonso Cuarón se dividiu entre uma carreira em Hollywood, realizando um episódio da série Harry Potter, o ótimo A princesinha e o subestimado Grandes esperanças, além de Filhos da esperança, e uma trajetória mais voltada a seu país de origem, com E sua mãe também. Com Gravidade, em 2013, recebeu o Oscar de melhor diretor reunindo um orçamento alto e estrelas conhecidas, George Clooney e Sandra Bullock. Chamava a atenção a estética voltada para o uso da câmera, outro trabalho do grande Emmanuel Lubezski, colaborador de Terrence Malick. É justamente pelo trabalho de fotografia, mas também o de efeitos especiais e de ambientação, mesclando os melhores ganhos trazidos por ficções mais reflexivas, como 2001 e Os eleitos – o grande filme de Philip Kaufman do início dos anos 80 –, que Gravidade ganha seu primeiro impulso.
E é por meio do trabalho de fotografia em preto e branco assinado pelo próprio Cuarón que Roma também oferece seu primeiro atrativo. Produção da Netflix vencedora do Leão de Ouro de melhor filme no Festival de Veneza, é um dos principais títulos da temporada do Oscar. Nele, Cuarón faz o mesmo movimento que efetuou depois de sua versão de Grandes esperanças em 1998 em Hollywood, voltando à época ao México para filmar E sua mãe também, que, em sua superfície, apresenta um material tipicamente de saída da adolescência. Porém, Cuarón trabalha, como na cena das folhas de outono na piscina, a passagem dessa fase com uma sensibilidade estranha e impactante. Para isso, colaboram Gael García Bernal e Daniel Giménez , como dois jovens, Julio e Tenoch, que saem em viagem com Ana Morelos (Ana López Mercado), e esta jornada, mais do que um road movie, trata de uma autodescoberta, com um roteiro aparentemente disperso e diálogos próximos do improviso, entretanto ainda assim acertados.

Seguindo a linha dessa obra do início do século, Roma também mostra um retrato da sociedade do país de Cuarón. A história foca Cleo (Yalitza Aparicio), de origem indígena, que trabalha como empregada doméstica para uma família de classe média moradora do bairro Colonia Roma (ou simplesmente Roma), na Cidade do México na passagem de 1970, quando ocorreu a Copa do Mundo no país (um adesivo dela aparece num armário), para 1971. A empregada, ao lado de Adela (Nancy Garcia), cuida da casa e dos filhos de um casal em crise, Sofia (Marina de Tavira) e Antonio (Fernando Grediaga). Na casa também mora a mãe de Sofia, Teresa (Verónica García). Ao mesmo tempo, Cleo se envolve com um homem, Fermín (Jorge Antonio Guerrero), primo de Ramón (José Manuel Guerrero Mendoza), namorado de Adela, e os dois casais se distraem indo ao cinema.
Cuarón inicia a história com uma movimentação de câmera circular, representando a rotina de Cleo, em meio aos momentos em que precisa limpar a sujeira deixada pelo cão da casa, e as brincadeiras com os filhos. Em certas sequências, como diretor de fotografia iniciando sua empreitada, fica um pouco autoindulgente e mesmo próximo de certas técnicas de Wes Anderson (também quando sai às ruas).

No entanto, aos poucos, quando Cuarón leva a história a seu núcleo e torna a atmosfera uma experiência imersiva, Roma representa uma espécie de mescla entre o melhor Antonioni (de A noite e O eclipse) com elementos de Carlos Reygadas (Batalha no paraíso), Tarkovsky, Fellini (especialmente A doce vida e 8 ½) e Pawlikoswki (Ida), mas, sobretudo, com o melhor Cuarón. Se o seu filme anterior se passava no espaço sideral, não deixa de ser curioso que coloque um dos filhos de Sofia vestido de astronauta atravessando um pequeno riacho, assim como em determinado momento, numa ida ao cinema, mostre uma obra de ficção científica.
Do mesmo modo que a personagem central de Gravidade, Cleo se vê às voltas com uma situação definidora para sua vida e que lida também com a morte. No início a atuação de Aparicio soa um pouco contida demais (ela é uma atriz estreante), contudo, aos poucos, ela vai dominando o espaço de tela, até eclodir numa grande emoção. O comportamento de Sofia algumas vezes entra em atrito com o de Cleo, e talvez a passagem que melhor simbolize isso seja aquela em que tenta passar com seu carro por dois veículos sem ter passagem para isso, igual à garagem apertada de casa. Tudo mostra uma espécie de personagens buscando seu espaço, a fim de se libertarem de uma tradição patriarcal.

Para Cuarón, nesse sentido, a família se firma como uma base sólida longe de lideranças, no entanto sempre necessitando de um afeto inabalável. Em seus melhores momentos, Roma consegue elevar o cinema contemporâneo a uma visão bastante polida e mesmo direta de um momento-chave conturbado para uma personagem, sem nunca abdicar de uma certa complexidade de pano de fundo no retrato do amor (Roma também é palíndromo de “amor”). Muito interessante como o diretor utiliza a imagem da estátua de um pequena Buda num dos cômodos da casa, em contraponto aos conflitos que emergem, também presente na espaçonave de Bullock em Gravidade. Cuarón trabalha seu estilo contido e, ao mesmo tempo, grandioso, principalmente numa cena de embate entre a população num centro urbano, que leva a uma das cenas mais impactantes da narrativa, tudo sem uso de trilha sonora, apenas com sons ambientais. Do mesmo modo, Cuarón libera um espaço para o uso da luz e de paisagens que evocam um certo enigma, como o lugar onde a família vai passar as festas no fim do ano e que em determinado momento lembram um pouco O regresso, de Iñárritu, ou um enorme campo de areia a céu aberto com um viés um tanto surreal e onírico, com beleza plástica indiscutível e marcante. Se ele começa mostrando Cleo lavando a garagem, e a água espelha o céu acima, é notável que tenhamos o mar em outro momento mostrando a força da maternidade. Não raramente, o espectador se sente inserido na narrativa: a experiência de Cleo passa a ser universal, daí a vitalidade surpreendente de Roma. Ao final, como a personagem, ele quase parece atingir o céu.

Roma, MEX/EUA, 2018 Diretor: Alfonso Cuarón Elenco: Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Fernando Grediaga, Verónica García, Jorge Antonio Guerrero, José Manuel Guerrero Mendoza, Nancy Garcia Roteiro: Alfonso Cuarón Fotografia: Alfonso Cuarón Produção: Alfonso Cuarón, Gabriela Rodriguez, Nicolas Celis Duração: 135 min. Estúdio: Participant Media, Esperanto Filmoj Distribuidora: Netflix

Post seguinte
Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: