Superman – O filme (1978)

Por André Dick

O cineasta Richard Donner foi, por algum tempo, um artesão capaz de fazer filmes divertidos e com viés comercial, mas sem menosprezar a inteligência do espectador. O primeiro Superman é  superior às sequências, capaz de, ao mesmo tempo, mostrar a origem do herói e sua transformação em algo maior sem perder parte da ingenuidade saudável que necessitamos numa história do gênero, baseada nos quadrinhos de Joe Shuster e Jerry Siegel. Para o papel principal, foi escolhido Christopher Reeve (que faria ainda, em seguida, o belo Em algum lugar do passado), e, para seu pai, Jor-El, Marlon Brando, em interpretação marcante, apesar de curta.
(Daqui em diante, spoilers.) O filme mostra o herói ainda bebê sendo mandado por Jor-El e sua mulher Lara (Susannah York)  para a Terra porque seu planeta de origem, Krypton, está sendo destruído. Ele embarca numa espécie de cápsula que lembra o cesto de Moisés, e depois de anos chega à Terra. A cápsula cai à beira de uma estrada no interior do Kansas, como se fosse um meteoro, e abre um buraco enorme, e o Superman já criança é encontrado por aqueles que se transformam em seus pais adotivos, Jonathan e Martha Kent (Glenn Ford e Phyllis Thaxter), da pequena cidade de Smalville.

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A relação do Superman com seu pai terráqueo, assim como com sua mãe, é memorável, e as paisagens tristes do interior se projetam na própria vida daquele que esconde no celeiro parte da solução do mistério. “Sempre soubemos que ia partir”, diz Martha, e Donner consegue realmente desenhar uma relação humana sem recorrer à excessiva dramaticidade, o que rende a sequência mais melancólica da série, com a despedida dele ao universo que também lhe trouxe uma admiração especial por Lana Lang (Diane Sherry), que regressaria em Superman III. Clark segue para o Ártico, onde irá fundar uma espécie de extensão de Krypton, tentando descobrir as origens de sua genética e o rosto familiar que até então não conhecia, e o ator que faz o herói nesta etapa, Jeff East, empresta um caminho de afastamento de tudo e de todos, oferecendo um sentido de solidão que seria reproduzido por Zack Snyder em O homem de aço.
Clark Kent cresce (quando é interpretado por Reeve) e se transforma num jornalista do Daily Planet, sob a chefia de Perry White (Jackie Cooper) e com a companhia do fotógrafo Jimmy Olsen (Mark McClure) e da jornalista Lois Lane (Margot Kidder), por quem é apaixonado (interessante o clima do escritório, em diálogo direto com Todos os homens do presidente). Ainda indefinido entre a persona humana e a de herói, logo ele precisa tomar como rumo o enfrentamento com uma série de criminosos. À frente deles, está Lex Luthor (Gene Hackman, excepcional), acompanhado de Otis (Ned Beatty) e Eva Teschmacher (Valerie Perrine), que ameaça a Terra com uma ogiva nuclear. É Luthor que consegue desenhar, nos subterrâneos de Metrópolis, um vilão perverso (sobretudo quando o herói se depara com uma kryptonita), e, para isso, Hackman tem uma grande contribuição.

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Se os efeitos especiais estão um tanto ultrapassados (mas em nenhum momento decepcionantes, e receberam o Oscar), a direção de arte (de Krypton, sobretudo) é fascinante e a trilha de John Williams continua memorável, a melhor dos filmes de super-heróis. Além disso, Metrópolis é uma espécie de Nova York, captada de forma nostálgica pela ótima fotografia de Geoffrey Unsworth (2001), com grandes letreiros de jornal (evocando os anos 40 ou 50) e muitos bandidos sem tanto tato para o crime, além de abrigar várias cenas de ação do herói, que inspirariam, sobretudo, as adaptações de Homem-Aranha (na franquia de Sam Raimi). As transformações do Superman (em cabines giratórias) guardam um resquício do humor bem dosado por Donner, sem cair numa espécie de pastelão cômico efetuado por Richard Lester depois, sobretudo no terceiro. E os encadeamentos da história de Mario Puzo, autor de O poderoso chefão, são sempre interessantes, mesmo às vezes previsíveis, com o roteiro desenvolvido, entre outros, por Robert Benton (que dirigiu o vencedor do Oscar em 1979, Kramer vs Kramer).

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Especialmente porque Donner é uma diretor especialista em cenas de ação que misturam drama e comédia, o que pode ser constatado em obras como Os Goonies, Máquina mortífera, Ladyhwake e no faroeste dos anos 90 Maverick, ele não desaponta nunca em Superman; pelo contrário, ele estabelece um padrão para o que viria na década seguinte, com o Batman de Tim Burton, e com o bom humor recente e vertiginoso tanto de Homem-Formiga quanto de Thor e Os vingadores, de Joss Whedon. O Superman de Reeve, e isso se deve sobretudo à visão de Donner, é, sobretudo, alguém indefinido entre tempos diferentes: ao mesmo tempo que conserva um ar dos anos 40, ele consegue efetuar uma transição para os momentos em que precisa enfrentar Luthor de maneira plausível. Em igual escala, Kidder é adorável na persona de Lois Lane.
Aqui, o super-herói é humano e por vezes trágico, não com rompantes para o humor exagerado. Não que Richard Lester não perceba a essência dele nas sequências, mas Donner certamente a desenha da maneira mais adequada, assim como sua relação conflituosa com o pai que não conheceu e com a dualidade entre alguém de outro planeta e o humano. É exatamente isto que falta na versão de 2006, feita por Bryan Singer, e sobra na versão de Zack Snyder para o personagem em O homem de aço, Batman vs Superman e Liga da Justiça, na qual se trata de todos os elementos familiares e de apego a um passado já inexistente, mas ainda forte. Por isso e outros detalhes, mesmo depois de vários anos, é esse Superman aquele filme que ainda serve de referência maior para o seu gênero. Uma verdadeira obra-prima.

Superman, ING/EUA, 1978 Diretor: Richard Donner Elenco: Marlon Brando, Gene Hackman, Christopher Reeve, Ned Beatty, Jackie Cooper, Glenn Ford, Trevor Howard, Margot Kidder, Susannah York, Jack O’Halloran, Terence Stamp, Sarah Douglas Roteiro: Mario Puzo, Robert Benton, David Newman, Leslie Newman Fotografia: Geoffrey Unsworth Trilha Sonora: John Williams Produção: Pierre Spengler Duração: 144 min. Estúdio: Alexander Salkind / Dovermead Film / Film Export A.G. / International Film Production Distribuidora: Warner Bros.

 

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