Infiltrado na Klan (2018)

Por André Dick

Lançado no Festival de Cannes de 2018, onde recebeu o Grande Prêmio do Júri, Infiltrado na Klan talvez seja a oportunidade de Spike Lee ficar mais próximo de um Oscar depois de concorrer pelo roteiro original de Faça a coisa certa. Depois de uma década de 1990 muito profícua, com exemplares como Mais e melhores blues, Malcolm X e Febre da selva, Lee arrefeceu um pouco neste século, dedicando-se a filmes menos ligados a seu estilo inicial, a exemplo de O plano perfeito e Oldboy (sua boa refilmagem pouco valorizada do original sul-coreano), embora pareça ter novamente investido nos seus temas prediletos em Verão em Red Hook e Chi-Raq.
Infiltrado na Klan mostra Ron Stallworth (John David Washington), contratado como o primeiro detetive negro no departamento de polícia de Colorado Springs. Junto com Flip Zimmerman (Adam Driver), de origem judaica, ele pretende desbaratar um grupo da Ku Klux Klan, mesmo sendo colocado num trabalho burocrático pelo chefe Bridges (Robert John Burke). Numa passagem pelo Black Student Union em que está presente o ex-líder dos Panteras Negras, Stokely Carmichael (Corey Hawkins), ele se interessa por Patrice Dumas (Laura Harrier). A história se passa em 1979, mas, ao longo de toda a narrativa, Spike Lee quer remeter a um diálogo com o seu país, os Estados Unidos, atual. Isso leva os personagens ligados à Ku Klux Klan, sobretudo, a adotarem algumas frases determinadas (e não cabem aqui spoilers).

Lee sempre foi muito provocativo, inclusive nos seus embates com cineastas como Quentin Tarantino. Depois de Django livre, ele se irritou com o fato de o cineasta de Pulp Fiction fazer seus personagens repetirem a palavra “nigger” centenas de vezes durante a metragem, o que lhe rendeu um bom espaço de debate em 2012. O curioso é que Infiltrado na Klan tem uma boa dose de memória desse projeto de Tarantino, não apenas na referência a Alexandre Dumas (lembrado também por Tarantino naquele filme, escritor de origem negra) no sobrenome da personagem Patrice, mas quando ele mostrava uma reunião de integrantes desse grupo racista incrustado na história norte-americana. E é o que seu filme tem de melhor: um humor que destrói, por si só, um discurso de preconceito, por meio da figura de David Duke (Topher Grace), que recebe telefonemas de Ron se passando por um propagador de ódio contra a comunidade negra e indiretamente tirando sarro de seu comportamento. Há, nisso, uma reunião memorável em que os integrantes da KKK são servidos por afro-americanos, e a fala de um desses é antológica, revelando o humor de Lee diante do absurdo da situação.

Com uma história assinada por Lee, David Rabinowitz, Charlie Wachtel e Kevin Willmott, baseada em livro de Stallworth, Infiltrado na Klan tem como seu destaque, na parte técnica, o diretor de fotografia Chayse Irvin, que extrai da atmosfera e das cores do figurino (principalmente casacos de cor marrom ou figurinos vermelhos) um retrato da década de 70 poucas vezes gravado no cinema. Como já referido, Lee não costuma ter grandes chances ao Oscar grande parte das vezes, porém esta produção vem agradando em geral, o que lhe oferece mais chances.
Cabe lembrar que Faça a coisa certa já tinha uma boa dose de polêmica nos anos 80. O mais marcante nele era o roteiro, determinando uma interpretação fora do série do elenco de negros e de Danny Aiello e a trilha assinada pelo pai de Spike, Bill Lee. O diretor mostra uma história passada no Brooklyn, em seu dia mais quente do ano, onde há uma pizzaria italiana coordenada por Sal (Danny Aiello), menosprezada pelos negros, onde trabalha o entregador Mookie (o próprio diretor). Como a temperatura está elevada, aumenta, também, o clima entre as pessoas, o que resulta num conflito entre os brancos italianos da pizzaria e os clientes de origem afro-americana. Neste filme, já havia todos os temas que podem ser retomados em Infiltrado na Klan, talvez mais associados à política. Já havia, inclusive, como pano de fundo as ideias de Malcolm X, sobre o qual Lee faria uma cinebiografia poucos anos depois, com Denzel Washington recebendo uma indicação ao Oscar e que também trazia, em determinado momento, a presença da KKK. Do mesmo modo, o delicado romance entre Ron e Patrice remete a Febre da selva.

Infiltrado na Klan é o projeto mais interessante de Spike Lee nos últimos anos em razão da sua tentativa de contextualizar os anos 70 de maneira fiel, inclusive no uso da trilha sonora de Terence Blanchard e nos cenários de subúrbios que parecem afastados da realidade e guardam uma ameaça corrente, ao mesmo tempo que faz referências a …E o vento levouO nascimento de uma nação, de D.W. Griffith, que tentava justificar esse movimento supremacista branco em 1915. Além disso, seu elenco é notavelmente talentoso: não apenas Driver, com sua discrição comprometida, mas também Harrier e John David Washington, filho de Denzel, numa atuação eficaz e, ao mesmo tempo, empática, fazendo uma boa ligação com todos. Apenas se lamenta que o roteiro bastante original tenha um terceiro ato, apesar de estabelecer os movimentos adequados, muito rápido em relação aos demais, conduzindo a um desfecho que não soa tão interessante quanto a sátira mordaz empregada por Lee a maior parte do tempo.

BlacKKKlansman, EUA, 2018 Diretor: Spike Lee Elenco: John David Washington, Adam Driver, Laura Harrier, Topher Grace, Alec Baldwin, Corey Hawkins, Robert John Burke Roteiro: Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmott, Spike Lee Fotografia: Chayse Irvin Trilha Sonora: Terence Blanchard Produção: Jason Blum, Spike Lee, Raymond Mansfield, Sean McKittrick, Jordan Peele, Shaun Redick Duração: 135 min. Estúdio: Blumhouse Productions, Monkeypaw Productions, QC Entertainment, 40 Acres and a Mule Filmworks, Legendary Entertainment, Perfect World Pictures Distribuidora: Focus Features

 

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