O cristal encantado (1982)

Por André Dick

Nos anos 1980, o gênero de fantasia se tornou mais popular com a segunda parte da série Star Wars, O império contra-ataca, também uma ficção científica de ponta. Participava dela um personagem chamado Yoda, criado por Frank Oz, o mesmo dos Muppets. Dois anos depois, ele lançou seu próprio filme, ao lado de Jim Henson, O cristal encantado. Tratava-se de uma fantasia com o intuito de se comunicar não apenas com crianças, como também com os adultos. Dotada de um visual impressionante, com uma compreensão de cenário minuciosa, é possível dizer que se trata do prenúncio de filmes que seriam lançados nos anos seguintes, a exemplo de Krull, A lenda e A história sem fim mais diretamente. Alguns cenários evocam também aqueles que Lucas e Marquand apresentariam no Planeta Tatooine em O retorno de Jedi, assim como David Lynch no Planeta Arrakis de Duna e Goddard no Planeta Greyskull de Mestres do universo.

A história é bastante simples. Depois que um cristal mágico se partiu, duas raças apareceram no Planeta Thra: Skeksis, criaturas maléficas, que usam o “cristal negro” para se perpetuar, e os Mistics. Jen é um Gelfling, que depois de seus pais serem mortos foi criado pelos Mistics. Ele descobre que para estabelecer o cristal original há uma parte com o astrônomo Aughra.
Basicamente, o roteiro mostra a jornada dele atrás de Aughra. Ele precisa fazer isso antes que haja um alinhamento dos três sóis de Thra, o que permitirá aos Skeksis um poder eterno. Esses vivenciam uma troca de comando, havendo um embate entre Chamberlain e o General. Jen acaba por conhecer Kira, outra Gelfling, sendo que até então achava ser o único de sua raça. Enquanto são perseguidos por Garthim, criaturas imensas que lembram aranhas com a capa de um escaravelho, a aventura se desenha mais difícil do que o esperado.
Em primeiro lugar, os Skeksis são criaturas bastante aterradoras. Com o bico lembrando o formato de um pássaro, seu tamanho e suas garras lembram mais alguma figura de filme de terror, e, ao se alimentarem  da energia de suas vítimas, colocam certamente medo em crianças. Há também temas mais adultos, como o da solidão de Jen no mundo, pouco propício a um universo infantil, assim como sua tentativa de amadurecer junto a um interesse amoroso em sua jornada rumo a salvar o planeta Thra.

Diante disso, lembro de ter ido assisti-lo no cinema ainda criança, levado pelo meu pai, e ter me assustado, pedindo para sair do cinema – devido, justamente, aos Skeksis. Hoje, décadas depois, ao finalmente terminar de assisti-lo, principalmente como espetáculo visual, é que O cristal encantado se destaca. É um primor visual a combinação que faz entre cenários reais, de estúdio, coma s criaturas e seus figurinos. Os dois Gilflings podem parecer bonequinhos de massa, no entanto. São mais propensos a um universo de Wes Anderson do que ao de Jim Henson, com sua excentricidade aterradora nesta história especificamente.
Diante do cenário atual do cinema, em que se destaca o uso de efeitos especiais muitas vezes inconvincentes e um CGI perturbador, é notável o que fazia Henson no início dos anos 80. Ele repetiria os caminhos exibidos aqui em Labirinto – A magia do tempo, desta vez com a figura de uma menina deixada em casa pelos pais com o irmão bebê, que é sequestrado por um ser ameaçador de um universo fantástico, interpretado por David Bowie. Há um sentido palpável nesse universo, uma textura realmente fantástica em todos os quesitos, acentuada pelo roteiro delirante de David Odell, que nos anos 80 escreveria também Supergirl e Mestres do universo.

Vencedor dos prêmios de melhor filme de fantasia no Saturn Awards e do Festival de Avoriaz, também uma referência do gênero, além de indicado na categoria de efeitos especiais do BAFTA, O cristal encantado surpreendentemente não recebeu um sequer aceno do Oscar. Tendo estreado no mesmo período de E.T. – O extraterrestre, é justificável que ele não tenha tido grande bilheteria. Foi relançado nos cinemas dos Estados Unidos este ano, com uma nova cópia, assim como recebeu um lançamento em Blu-ray 4K (que, se espera, chegue ao Brasil). É uma das raras obras de fantasia que merecem um olhar à parte. Há algo nele profundamente atemporal, com uma narrativa que flui do melhor modo possível, quase que sem necessitar dos seus diálogos. Ele projeta as imagens como se fossem o verdadeiro desenvolvimento de seu tema e os personagens ganham uma projeção visual muito interessante no espaço em que foram filmados.

The dark crystal, EUA, 1982 Diretores: Jim Henson e Frank Oz Elenco: Stephen Garlick, Lisa Maxwell, Billie Whitelaw, Percy Edwards, Barry Dennen Narração: Joseph O’Conor Roteiro: David Odell Fotografia: Oswald Morris Trilha Sonora: Trevor Jones Produção: Jim Henson e Gary Kurtz Duração: 93 min. Estúdio: Henson Associates e ITC Entertainment Distribuidora: Universal Pictures

Anúncios
Post anterior
Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: