22 de julho (2018)

Por André Dick

Não chega a ser o forte de Greengrass a discussão que repercute do relato contado, mas em Voo United 93 tínhamos uma concepção visual de suspense, para a qual convergia o fato histórico. Capitão Phillips, seu filme indicado ao Oscar, também não parece funcionar exatamente como ação. Contado como uma espécie de documentário, salvo a presença de Hanks e de Barkhad Abdi (excelente), não há movimento além daquele empregado pela montagem – e um filme que pretende manter 100% de tensão acaba por vê-la diluída, fazendo de sua metade final um momento estafante. A emoção costuma surgir de personagens, e não de uma ação e de uma montagem que tenta trazer a emoção: o que parece inexistir em Capitão Phillips é exatamente a ligação entre os personagens, a qual se tenta preencher com movimento, um traço bastante explorado em Voo United 93, mesmo com personagens a princípio reunidos por uma situação calamitosa.

Em Capitão Phillips, ele mostra uma direção com uma variação de movimentos de câmera, tentando, de certo modo, se desvencilhar da dificuldade em lidar com os temas, sejam políticos ou sociais, que pretende colocar como pano de fundo. É difícil imaginar o que Greengrass quis nesta mistura de fatos reais com elementos do que existe de mais questionável nessa forma de cinema: a maneira patriótica e agressiva como ele filma ou a maneira de manipulação que ele lança sobre esses personagens, principalmente sobre os piratas da Somália. Segundo Greengrass, o objetivo desses piratas por meio do roubo seria viajar para os Estados Unidos. Os Estados Unidos permitirão isso? Greengrass tem todas as fontes para responder, mas parece uma difícil escolha.

Já em 22 de julho, amadurecido com a passagem dos anos e já afastado da série que o revelou, do personagem Bourne, Greengrass, baseado no livro One of Us: The Story of a Massacre in Norway – and Its Aftermath, de Åsne Seierstad, retoma esse traço documental com impressionante sobriedade. A história começa mostrando o responsável pelo massacre de centenas de pessoas na Noruega em 2012: Anders Behring Breivik (Anders Danielsen Lie), que ataca tanto com uma bomba lançada perto do escritório do primeiro-ministro Jens Stoltenberg (Ola G. Furuseth), quanto assassina jovens na ilha de Utoya. Greengrass desenha essa escala de violência mostrando a preparação de Beivik, em direção a essa ilha, pretendo assinalar sua loucura. Sua concepção dada ao caminho dele lembra aquela que Gus Van Sant oferece aos jovens de Elefante, influenciado por um antissemitismo flagrante e praticante de xenofobia – que fazem figuras psicopatas tentarem justificar sua própria loucura.

O advogado de Breivik, Geir Lippestad (Jon Øigarden) não quer defender o assassino, mas se impõe como parte de uma defesa constrangida. No entanto, o grande destaque é o foco dado a um dos sobreviventes, Viljar Hanssen (Jonas Strand Gravli), que fica com fragmentos de uma bala em seu crânio e a cegueira de um olho, enquanto ajuda seu irmão, também testemunha do acontecimento, Torje (Isak Bakli Aglen).
22 de julho se constitui num dos filmes mais particulares da filmografia de Greengrass e possivelmente o mais autoconsciente de seus caminhos. Com um estilo europeu e uma fotografia belíssima de Pål Ulvik Rokseth, ele contrasta o ataque feito ao país à tentativa de Viljar superar a violência em sua recuperação diária. A atuação de Gravli é espetacular, talvez a mais contida até agora do ano e ainda assim altamente impactante, assim como Anders Danielsen Lie, ator preferido de Joachim Trier, é de uma frieza controlada e angustiante no papel do homem que procura deixar uma espécie de legado da distorção da realidade. 22 de julho poderia servir para apresentar um discurso político por trás de suas ideias, mas como em Voo United 93, Greengrass mostra a humanidade resistente das vítimas de um psicopata.

Ao contrário de outro filme lançado este ano sobre esse acontecimento, este no festival de Berlim, Utoya, 22 de julho, Greengrass não se foca apenas no acontecimento que dá resultado ao restante. Não tenta criar atenção com a figura do assassino caçando jovens pela ilha de maneira claustrofóbica, embora certamente crie um mal-estar, e sim expande a noção de um país voltado para suas camadas sociais mal resolvidas, embora apenas implicitamente. Filmes com essas temáticas costumam ser recebidos muito bem ou de maneira enviesada, observando apenas seus problemas ou sua tentativa de reproduzir a dor. Greengrass estabelece uma relação indireta entre a situação do assassino, do menino que se recupera e do advogado em meio à turbulência de defender um criminoso declarado e que passa a sofrer ameaças, junto com sua família, e recebe o convite de tirar sua filha do colégio onde ela estuda. Ele não está interessado exatamente em revelar como esse assassino interfere na sociedade norueguesa, e sim como esta responde a um acontecimento que transtorna todos. Para Greengrass, a superação humana absorve toda a mudança guardada depois de um acontecimento dessa natureza e, sem tentar explicá-lo, o coloca em observação sob vários ângulos.

22 july, EUA, 2018 Diretor: Paul Greengrass Elenco: Anders Danielsen Lie, Jonas Strand Gravli, Jon Øigarden, Isak Bakli Aglen, Maria Bock, Thorbjørn Harr, Seda Witt, Ola G. Furuseth, Hilde Olausson Roteiro: Paul Greengrass Fotografia: Pål Ulvik Rokseth Trilha Sonora: Sune Martin Produção: Scott Rudin, Eli Bush, Gregory Goodman, Paul Greengrass Duração: 143 min. Estúdio: Scott Rudin Productions, Netflix Distribuidora: Netflix

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