Nasce uma estrela (2018)

Por André Dick

A nova versão de Nasce uma estrela, apesar de ser a quarta, depois da primeira em 1937, com Janet Gaynor e Fredric March e da segunda em 1954, estrelada por Judy Garland e James Mason, dialoga muito com a terceira, de 1976, com Barbra Streisand e Kcaris Kristofferson. Não se diz isso tendendo a desvalorizar o filme de Bradley Cooper, sua estreia como diretor, e sim como um mérito. Apesar de ter sido mal recebida em sua estreia, a versão dos anos 1970 conseguia captar o universo de música country daquele período, assim como o agito mais contemporâneo do surgimento de uma estrela. Cooper, sem imitar Kristofferson, mas se baseando nele e na sua persona de cinema mais recente, Jeff Bridges (Coração louco), faz um astro da música country, Jackson Maine, que tem problemas com bebida e um problema de audição cada vez mais frequente, atingido por acufenos.

Determinada noite, depois de um show, ele sai com o motorista de limousine Wolfe (Michael Harney), pelas ruas da cidade, até encontrar um bar. Nele, acaba conhecendo uma cantora, Ally (Lady Gaga), que trabalha como atendente também num restaurante, amiga de Ramon (Anthony Ramos). Ambos imediatamente se aproximam e Jackson identifica um talento nela até então não descoberto por nenhum outro, nem pelo pai dela, Lorenzo (Andrew Dice Clay), que tentou ser cantor e brinca sempre dizendo que amigos o apontavam como melhor do que Frank Sinatra.
A referência a um passado nostálgico e do universo nova-iorquino permeia esta versão de Nasce uma estrela, com sua infinitude de estradas e shows a se perderem de vista. O roteiro de Cooper escrito com Eric Roth e Will Fetters é exemplar na passagem de tempo, sem ficar atento demais a pequenas minúcias, mas inserindo tudo numa espécie de mosaico sonoro e contemporâneo. Jackson ajuda Ally a surgir como cantora, assim como compõe com ela músicas que fazem sucesso. Porém, é sua sensibilidade no primeiro encontro, quando vai ao camarim dela, que torna esse o registro de um homem que deseja encontrar na figura feminina uma maneira de entender melhor suas ausências pessoais. Quando ele a convida para adentrar o palco, a fim de cantarem juntos uma nova música feita por ela no estacionamento de um supermercado, além de lembrar a atmosfera de Quase famosos, muito convincente, ajuda a entrelaçar épocas distintas.

De certo modo, Bradley Cooper, ator que se projetou com a trilogia Se beber, não case!, apanha a faceta do trabalho de Todd Phillips (um dos produtores desta sua estreia como diretor), carregada de cenários reais, e oferece um verniz onírico com a contribuição da fotografia de Matthew Libatique, habitual colaborador de Darren Aronofksy. Ele se baseia na iluminação de um dos melhores filmes sobre o universo musical, The Runaways, com uma grande concentração da cor vermelha nos bastidores, em contraponto à claridade do deserto e do sonho americano.
O que Nasce uma estrela tem de melhor, além da química entre Cooper e Lady Gaga, é a relação que ele mostra entre o sonho idealizado e o sonho a ser atingido por meio do marketing. Ally é uma cantora de uma nova geração e não tarda a seguir passos que, para Jackson, não são os mais corretos – ela de fato se torna uma artista parecida com Lady Gaga –, influenciada pelo oportunista Rez Gafron (Rafi Gafron). Ele é auxiliado pelo irmão, também seu empresário, Bobby (Sam Elliott, com participação menor do que poderia), com quem se desentende em relação à figura paterna. Cooper consegue trazer os cenários dos shows para a frente da plateia como se fizessem parte da composição desses personagens e os torna realistas, a exemplo da passagem pelo Saturday Night Live. Malick havia conseguido isso em De canção em canção, no ano passado, embora com um tom mais poético na captação de imagens, próprio do diretor de A árvore da vida. Cooper concentra esse realismo de modo a expandir a relação entre Jackson e Ally, abdicando do desenvolvimento, inclusive, de outros personagens, que só aparecem para fortalecer essa relação.

As cenas em que estão na sua casa demonstram isso de maneira exata, e Gaga consegue alcançar uma atuação que já se entrevia em seu documentário excelente, Gaga: five foot two, no qual, sendo exibida nos bastidores de seu novo projeto musical (iniciado, inclusive, com uma parabenização pelo papel conseguido para este filme), já se mostrava boa atriz. Sem recursos excessivos de maquiagem ou figurino excêntrico, Gaga se mostra uma estrela no cinema maior do que aquela com a qual é comparada inúmeras vezes, Madonna, a qual nunca atingiu notas dramáticas no cinema como sua colega de música faz neste projeto. Cooper, por sua vez, é uma espécie de solitário, e demonstra isso muito bem quando domina a maior parte das cenas. Seu drama pessoal, tocado pelo problema alcóolico, pode ser tematicamente previsível, porém consegue se estabelecer de modo vital para o funcionamento da engrenagem, sobretudo numa cena em que partilha alguns diálogos com um pai de família dedicado e melhor amigo, Noodles (Dave Chappelle). Perceba-se, em igual intensidade, como Cooper torna a narrativa repleta de espelhos ou de imagens espelhadas em molduras, e ao final mostra a antítese disso. Não há nada especialmente novo na história: a tentativa de fazer sucesso, como chegar lá, as consequências e os caminhos a seguir depois de tudo são alguns dos percalços de Nasce uma estrela. No entanto, tudo é conduzido com rara habilidade.

Há, por trás da narrativa, um diálogo com New York, New York, de Scorsese, com a diferença de que Jackson é um personagem simpático e afetuoso, ao contrário daquele saxofonista feito por De Niro no filme referido. Não apenas há traços melhor elaborados do que o filme de 1976 com a aversão de Jackson ao caminho seguido pelo amada, como também uma homenagem derradeira lembra muito a de Liza Minnelli. Como diretor, além da atuação com mais nuances do que a de Kristofferson, da versão dos anos 70, fazendo deste o seu melhor trabalho desde O lado bom da vida, Cooper compõe vinte minutos finais especialmente belos, reunindo sentimentos e conflitos que não podem ser sintetizados por palavras, apenas por imagens. Vem dessa parte final a grandeza desta versão de Nasce uma estrela: em seu tempo de viagem, conta mais o que percebemos no interior dos personagens e o que permanecem são os momentos mais afastados do grande público e que impulsionam esse casal atrás de um sonho, como na melhor canção do filme, “Shallow”. Temos aqui um exemplo de filme que capta parte da vida e de sentimentos ligados a ela muitas vezes esquecidos e que permanecem fortes independente do que aconteça.

A star is born, EUA, 2018 Diretor: Bradley Cooper Elenco: Bradley Cooper, Lady Gaga, Andrew Dice Clay, Dave Chappelle, Sam Elliott, Anthony Ramos, Rafi Gavron Roteiro: Eric Roth, Bradley Cooper, Will Fetters Fotografia: Matthew Libatique Produção: Bill Gerber, Jon Peters, Bradley Cooper, Todd Phillips, Lynette Howell Taylor Duração: 135 min. Estúdio: Warner Bros. Pictures, Live Nation Productions, Metro-Goldwyn-Mayer Pictures, Gerber Pictures Peters Entertainment, Joint Effort Distribuidora: Warner Bros. Pictures

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4 Comentários

  1. Fui ver ontem: um excelente filme!

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  2. Paula Rocha

     /  10 de março de 2019

    Um dos mais belos dramas que vi recentemente. Sua análise faz jus à grandiosidade do filme. A sensibilidade da história, o carisma dos atores, o figurino, a fotografia e a atuação de Gaga e, em especial a de Cooper criaram uma narrativa belíssima e ao mesmo tempo surpreendente no final. Muito emocionante!

    Responder
    • André Dick

       /  10 de março de 2019

      Prezada Paula,

      agradeço por seu comentário generoso e fico feliz que também tenha gostado deste filme, particularmente o melhor de 2018, por todos os elementos que você pontua, especialmente a parceria exitosa de Lady Gaga e Bradley Cooper, infelizmente não traduzida em mais premiações. Ele tem em torno de 20 minutos finais especialmente belos (para não dizer arrebatadores), mostrando uma capacidade de atuação e direção de Cooper muito promissora para uma longa carreira!

      Volte sempre!

      Grande abraço,
      André

      Responder

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