Embriagado de amor (2002)

Por André Dick

Continuar a carreira iniciada com um filme sobre artistas pornôs e, decisivamente, sobre ser solitário nos anos 1970 (em Boogie Nights) com um filme interligando várias histórias, nos moldes de Robert Altman em Short Cuts, é para poucos diretores, inclusive para os mais firmados. Paul Thomas Anderson faz exatamente isso em Magnólia, em que o ponto-chave é a relação entre um senhor que está morrendo, Earl Partridge (Jason Robards), assessorado por sua jovem mulher, que se casou por dinheiro, Linda (Julianne Moore), bem mais jovem e seu enfermeiro, Phil Parma (Philip Seymour Hoffman), e um conselheiro de sexo, Frank Mackey (Tom Cruise).
Mas, em meio a essa história, temos um flashback, com a história de um menino, Stanley Spector (Jeremy Blackman), que deseja ser ganhador de um programa de perguntas e respostas, cujo apresentador, Jimmy Gator (Philip Baker Hall), sofre de câncer, e uma trilha saborosamente setentista; um policial, Jim Kurring (John C. Reilly), que se apaixona por uma das vítimas que visita etc.; um homem, Donnie Smith (William H. Macy), apaixonado por um atendente de bar e com planos de assaltar sua empresa. Apresentando movimentos de câmera que complementam a história, ou seja, não mostram apenas virtuosismo, Magnólia é um filme de roteiro (indicado ao Oscar) e elenco completos.

Nele, existe o desespero existencial que caracteriza Anderson, assim como a dualidade entre a amoralidade ligada a problemas familiares e a obsessão pela conquista do dinheiro. No entanto, a base é a mesma: a constituição e genética de uma família, a relação conflituosa entre pais e filhos; o peso do passado sobre o presente e o reflexo no futuro. Temos o apresentador de TV e o idoso na cama, enigmático, como Bowman em frente ao monolito, que caracterizam essa falha diante dos bens materiais, quando por trás se esconde várias peças não resolvidas – Cruise falando de sexo para uma jornalista o leva para o lado oposto do personagem de De olhos bem fechados – e um cosmos todo ampliado de sensações que vagam a cada corte, com a trilha incessante de fundo.
Há algumas cenas enigmáticas (como a conhecida chuva de rãs, com fundo bíblico) e, por mais que o próprio título não chega a se explicar totalmente (a não ser por uma ligação geográfica), é difícil encontrar um elenco coadjuvante tão à altura do desafio – temos William H. Macy em momento especialmente bom; também Reilly, quando seu tipo não havia cansado, e, reitera-se, um surpreendente Cruise, além das habituais atuações convincentes de Moore, Seymour Hoffman e Robards.

Se Magnólia é o registro do potencial de Anderson para focalizar a comunidade, na sua peça seguinte, Embriagado de amor, o personagem vivido por Adam Sandler, Barry Egan, representa um salto para a estranheza e a solidão. Com um comportamento violento em momentos-chave, atenuado pelo amigo Lance (Luis Guzmán), Egan tem uma súbita transformação em razão do interesse amoroso que tem por Lena Leonard (por Emily Watson, sempre discreta e eficiente), amiga de sua irmã Elizabeth (Mary Lynn Rajskub). E isso vem acompanhado pelo conflito que tem com o chefe de um telessexo, Dean Trumbell (Philip Seymour Hoffman, às vezes aterrorizador), que pretende extrair dele o máximo de dinheiro, por chantagem, porque quer encobrir uma ligação num momento em que começa a descobrir o mundo do amor. Há muito de Uma mulher é uma mulher, de Godard, sobretudo no uso do figurino dos personagens.
É bem verdade que some, aos poucos, a impressão de que estamos diante de uma comédia – expectativa causada pela presença de Sandler. É mais um drama amargo, agricoce, com pontos de humor aqui e ali e uma tensão permanente no ar, talvez por falta do que se dizer em muitos momentos, próximo de um filme de terror, com sons asfixiantes ao fundo. Numa sequência, acontece um acidente perto do lugar onde o personagem de Sandler trabalha e também aparece um piano, como se saído do imaginário do personagem, que passa a ir ao supermercado comprar um determinado produto a fim de adquirir milhas de viagem aéreas (e o ambiente lembra o do videoclipe “Fake plastic trees”, do Radiohead). Ver Sandler pulando em meio a prateleiras de produtos coloridos caracteriza algum espírito ao mesmo tempo rebelde e conservador deste início de século. Seu personagem é um neurótico, e o ator oferece essa dimensão mesmo sem o auxílio de muitas falas no roteiro: Egan é quase insuportável em seus maneirismos e irritações, preso a seu mundo de trabalho. No entanto, Anderson o visualiza como uma representação do amor que deseja mostrar. Sem sua existência, talvez não tivéssemos os homens deslocados de Sangue negro, O mestre, Vício inerente e Trama fantasma.

Por isso, o roteiro tem uma certa ideia metafórica do amor: os cenários são sempre extensos e é difícil passar por eles, como sentimentos, sendo preciso esperar por um breve encontro num lugar que traz certa fantasia romântica, como é o Havaí. Depois, é preciso enfrentar os vilões que desejam atrapalhá-lo, numa perseguição por uma noite escura. Trata-se de uma espécie de Kubrick falando de romantismo, e muitas cenas se mostram enigmáticas, mas às vezes sem a sutileza que caracteriza o trabalho de Anderson (vencedor do prêmio de diretor em Cannes por este trabalho). O personagem deve ser como é: alguém problemático, em certos momentos transtornado (como quando quebra um banheiro de restaurante), mas ao mesmo tempo calmo e tímido. Ele veste um terno azul, enquanto a personagem Emily gosta de vermelho.
Toca, em determinado ponto, “He ned’s me”, que Shelley Duvall, como Olívia Palito, cantava em Popeye. Todas as cores são trabalhadas para que no intervalo apareçam aquelas que remetem a algum ponto perdido dos anos 1950. E Phillip Seymour Hoffman grita ao telefone querendo mais dinheiro de Barry Egan, assustando o espectador. São nuances interessantes, e o diretor Anderson tem talento para travellings estilísticos (que se acentuariam em sua obra-prima Sangue negro), mas aqui não resolve totalmente as ligações, como havia mostrado em seus filmes anteriores, transformando sua peça mais numa metalinguagem definida como tal. Barry Egan diz que descobriu um amor, mas não se sente uma paixão surgindo (como, diante deste, o linear e clássico Antes do pôr do sol), e sim Anderson querendo veicular a imagem que ele tem do amor por meio de cenários e comportamentos.

Punch-drunk love, EUA, 2002 Diretor: Paul Thomas Anderson Elenco: Adam Sandler, Emily Watson, Philip Seymour Hoffman, Luis Guzmán, Mary Lynn Rajskub Roteiro: Paul Thomas Anderson Fotografia: Robert Elswit Trilha Sonora: Jon Brion Produção: JoAnne Sellar, Daniel Lupi, Paul Thomas Anderson Duração: 95 min. Estúdio: Revolution Studios, New Line Cinema Distribuidora: Columbia Pictures

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