Krull (1983)

Por André Dick

Os anos 80 foram profícuos em trazer fantasias, desde Fúria de titãs – trazendo a mitologia grega – e O cristal encantado, passando por A história sem fim, A lenda e Labirinto, até este Krull, normalmente esquecido. Um grande fracasso de público e crítica em sua estreia, ele traz na direção Peter Yates, que surgiu nos anos 60, Bullitt, e nunca seguiu um gênero determinado, alternando comédia (Nossa, que loucura!) e drama (O fiel camareiro, O vencedor). De certo modo, Krull não chega a ser apenas uma fantasia, e sim uma aventura com toques medievais e correspondência clara com O senhor dos anéis. Ele se cerca de correspondências com a cultura pop e literária de modo bastante particular, embora para muitos possa se situar de maneira menos inteligente do que seus parceiros cinematográficos.

No início, o espectador é avisado sobre uma profecia, de que uma jovem se tornará rainha e escolherá um rei, com o qual casará e cujo filho será o líder da galáxia. Num planeta chamado Krull, uma nave espacial ameaçadora, em forma de montanha – que remete imediatamente a O cristal encantado –, ou algo parecido, aterrissa. Esta fortaleza traz uma figura chamada a Besta (voz de Trevor Martin) com um exército de slayers, que utilizam armas a laser. Eles chegam à cerimônia de um casal, o príncipe Colwyn (Ken Marshall) e a princesa Lyssa (Lysette Anthony), que planeja se casar e fazer uma aliança entre reinos. Os slayers destroem o lugar, e sequestram Lyssa, enquanto Colwyn é encontrado por Ynyr (Freddie Jones), o Velho, uma mescla entre Gandalf e Obi-Wan Kenobi. Ele diz a Colweyn que existe uma chance contra a Besta: uma arma chamada “Glaive”, que lembra um bumerangue de alta tecnologia. Durante a jornada, os dois se juntam com o mago Ergo, o Magnífico (David Battley) e um grupo de nove bandidos, cujo líder é Torquil (Alun Armstrong) e entre os quais se encontra Kegan (um jovem Liam Neeson). Além disso, ele encontra o ciclope Rell (Bernard Bresslawl). Todos seguem até a casa do Emerald Seer (John Welsh) e seu aprendiz Titch (Graham McGrath). Emerald Seer consegue ver onde está a Fortaleza – que muda de lugar a cada nascer de sol – por meio de um cristal.

Nesse caminho, eles atravessam um pântano, que reúne talvez as imagens mais icônicas de Krull, dialogando com o planeta Dagobah, de O império contra-ataca (a fotografia é do mesmo Peter Suschitzky, especialista em dar um senso de escala ao que poderia ser comum), porém com uma eficiência particular em suas armadilhas, como uma areia movediça. Junto a isso, temos também o conhecimento de uma feiticeira que amava Ynyr e se encontra numa caverna onde há uma Aranha de Cristal.
Não fosse pelo par central, Krull possivelmente se sobressairia mais como filme. Marshall e Anthony possuem atuações no máximo medianas. No entanto, Yates consegue conservar, dentro de uma história bastante simples, elementos capazes de remeter a diferentes épocas da Terra: temos desde a pré-história, com a estranheza de vales inabitados e rochedos inalcançáveis, até a Idade Média, na figura dos castelos e das armaduras, até a era moderna, com a figura robótica dos slayers e suas armas a laser. Do mesmo modo, a arma “Glaive” é uma espécie de espada de Excalibur extraída por um rei que pode ser também Arthur, sendo que os bandidos aqui remetem aos cavaleiros da Távola Redonda. Ou seja, apesar de se passar em outro planeta, Krull representa a Terra, inclusive naquilo que há mais de natural dela, com árvores e rios. A proximidade com O senhor dos anéis – e antecipação no plano cinematográfico – se dá na utilização de cavernas misteriosas, feiticeiros, lagos cercados de bruma e pântanos intransponíveis, configurando um universo decisivamente fantástico para o espectador. Quando tomamos conhecimento do que trata o filme – da tentativa de reencontrar um amor –, não temos ideia do que vai acontecer para se chegar ali. E, enquanto a Besta tenta seduzir a princesa (antecipando A lenda, de Ridley Scott), é bastante cativante a interação entre os personagens secundários, como do velho Emerald, do Ciclope e do mágico, constituindo figuras completamente distintas entre si reunidas sob o mesmo manto fabular.

Yates consegue algumas proezas por meio dos efeitos especiais de Derek Meddings – que colaborou nos de Superman e, um ano depois, de Duna – e por isso mesmo satisfatórios, longe do excesso de CGI. O ingresso na caverna da Aranha de Cristal se torna realista, assim como temos uma grande efetividade no duelo final e na cena do pântano, quando os slayers surgem repentinamente, escondidos atrás de árvores. Se o cenário aqui é mais artificial – a sequência foi filmada nos lendários estúdios Pinewood, na Inglaterra –, suscita um plano ainda mais intenso de conto de fadas ou fábula futurista. Quando o filme vai se encerrando e os personagens completam sua trajetória, há uma interação surpreendente entre o visual fantasioso e a trilha sonora de James Horner, principalmente na corrida dos cavalos que produzem um rastro de fogo inimaginável. Se a ação filmada por Yates não se corresponde à agilidade daquela que mostrou no antológico Bullitt, ela nunca deixa a obra esmorecer, compondo uma interessante ligação com o imaginário dos anos 80 e uma sensação incontestável de nostalgia de um cinema blockbuster que também recriava, por meio de seu diálogo com outras obras, uma nova visão de cinema. Ao final, a constatação é que há poucos filmes como este capazes de reunir uma porção de referências e gêneros diferentes e colocá-los numa narrativa única.

Krull, EUA/ING, 1983 Diretor: Peter Yates Elenco: Ken Marshall, Lysette Anthony, Freddie Jones, Francesca Annis, David Battley, Alun Armstrong, Liam Neeson, Bernard Bresslawl, John Welsh, Graham McGrath Roteiro: Stanford Sherman Fotografia: Peter Suschitzky Trilha Sonora: James Horner Produção: Ron Silverman Duração: 121 min. Estúdio: Barclays Mercantile Industrial Finance Distribuidora: Columbia Pictures

Anúncios
Post anterior
Deixe um comentário

4 Comentários

  1. Quando penso em filmes de fantasia dois estão na ponta da língua: A Lenda e Krull

    Responder
    • André Dick

       /  23 de agosto de 2018

      Prezado Rubens,

      são duas referências realmente notáveis e que inspiraram dezenas de filmes produzidos depois.

      Um abraço,
      André

      Responder
  2. Fernando

     /  31 de agosto de 2018

    André, parabéns pela crítica!

    Krull foi um dos filmes mais fantásticos da minha adolescência. Na época, em que informações sobre cinema eram mais escassas, tudo o que se passasse no espaço e não fosse mais “sério” como 2001 – Uma Odisseia no Espaço, pertencia de alguma forma ao universo de Star Wars. Caravana da Coragem? Star Wars. Mercenários das Galáxias? Star Wars. Krull? Star Wars. kkkkkkk

    Hoje sei que foi por orçamento, mas na época, a Besta me dava muito medo justamente pelo fato de nunca ser mostrada claramente, sempre com distorções de lente e reflexos!

    É incrível como algumas partes, como o sacrifício do Cíclope e a cavalgada de fogo marcaram tanto que me lembro nitidamente das cenas, mesmo não vendo o filme a décadas!

    Quem nunca arremessou um disquinho imaginando que fosse a Glaive?

    Responder
    • André Dick

       /  31 de agosto de 2018

      Prezado Fernando,

      agradeço novamente por sua mensagem generosa e por falar do quanto este filme marcou também a sua adolescência. Quando o assisti, minhas referências eram justamente ligadas ao universo de Star Wars. No entanto, Krull parecia ligado também a outro universo, que eu desconhecia na época, o do Tolkien de O senhor dos anéis.

      Revendo a obra, percebe-se o quanto ela influenciou a trilogia de Jackson, claro que em escala menor e com efeitos visuais longe de qualquer tecnologia mais elaborada. É isto, no entanto, que oferece as melhores qualidades dela. Ele se esforça em mostrar um universo à parte sem o que um cineasta teria a partir deste século: uma parte técnica que sobrepuja a narrativa e, muitas vezes, a prejudica. A Besta, especificamente, não me assustava como a figura do mal de A lenda, por aparecer em distorções de lente e reflexo, como observa, e talvez por isso mesmo funcione – por ser uma ameaça não visível exatamente, mas sempre próxima dos personagens.

      Ao rever este filme, essas cenas a que se refere se mantêm atuais e plasticamente sem data de validade. A sequência do pântano continua notável, levando o espectador a outro universo.

      Quanto ao Glaive, eu não tenho dúvida que o disco do Tron – Uma odisseia eletrônica, de um ano antes, o influenciou, embora eu ache que é uma Excalibur do futuro 🙂

      Volte sempre!

      Grande abraço,
      André

      Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: