Você nunca esteve realmente aqui (2017)

Por André Dick

Alguns filmes que surgem não necessariamente trazem elementos próximos do original. Talvez Você nunca esteve realmente aqui seja um desses casos. Sua influência é muito clara: Taxi Driver, de Scorsese, com a temática do submundo e de um homem que é levado a um comportamento extremado. Lançado no Festival de Cannes de 2017, esta peça de Lynne Ramsay, que dirigiu Precisamos falar sobre Kevin e é responsável por um estilo inovador, a começar por seu belo Morvern Callar, do início deste século, mostra a história de Joe (Joaquin Phoenix, premiado como melhor ator em Cannes), que age em casos de meninas raptadas e levadas para um mercado terrível de exploração. Ele cuida de sua mãe (Judith Roberts), no Queens, atravessando de trem uma Nova York que aparenta ser limpa apenas de dia. Perturbado por pensamentos relacionados à infância e pela guerra do Iraque, na qual combateu, Joe é um personagem típico da filmografia de Ramsay.

Levado por John McCleary (John Doman) a procurar um senador do estado de Nova York, Albert Votto (Alex Manette), que lhe pede para encontrar sua filha sequestrada, Nina (Ekaterina Samsonov), o detetive com métodos poucos convencionais, além de barbudo e temível, faz o planejamento para chegar ao motel onde se encontra a garota. Trata-se de um tipo de personagem complexo que poucos atores como Phoenix consegue desempenhar. Sua relação com a mãe doente é um dos toques emocionais que perduram ao longo da história. Ramsay chega a homenagear (embora o contexto seja diferente) Psicose, colocando um quadro com um pássaro na sala da casa onde eles moram. E a relação entre os dois – a mãe já doente e precisando ser cuidada – cria um contraponto com sua necessidade de salvar Nina, representando a juventude que se ausentou de seu olhar diante do mundo. Também parece ser o único sinal de otimismo em meio a um panorama de guerra, tanto do seu passado quanto de seu presente, e um sinal de que a próxima geração pode contornar a brutalidade da atual, na qual se insere e com quem desenvolve contatos. Joe está desesperado e coloca um saco plástico em sua cabeça, no entanto sabe que há coisas a serem resolvidas lá fora e dependem dele. É alguém prestes a desistir, mas cuja força vem justamente da sua desconfiança em prosseguir adiante.

Em Morvern Callar, tínhamos a figura de uma moça solitária (vivida por Samantha Morton). Joe é uma espécie de versão masculina dessa personagem, errante e desgovernado no mundo, embora querendo fazer as coisas certas. A julgar pelo título, ao mesmo tempo, ele não deixa de ser uma espécie de fantasma, coordenado por figuras muitas vezes ausentes e que precisa explorar um universo não visto pela maioria das pessoas. Boa parte da história se passa em corredores vazios, em hotéis onde parece não haver mais ninguém, em casas com aspectos ameaçador – e a do final é especialmente bem delineada, com uma espécie de recado no formato de suas janelas, vistas pelo lado externo, a um tema do qual o roteiro de Ramsay (vencedor do prêmio em Cannes), baseado em obra de Jonathan Ames, trata. A partir de determinado momento, cada situação possui uma faceta onírica (em Movern callar, a personagem principal costumava ver estranhos insetos).
De algum modo, o filme de Ramsay é um Bom comportamento que deu certo, numa Nova York perturbadora e ainda assim cheia de detalhes sonoros e visuais ressonantes, além da trilha de Jonny Greenwood pontuando a tensão, capaz de se equivaler aos melhores trabalhos que fez com Paul Thomas Anderson. Desenhando uma atmosfera que faz o espectador adentrar na história sem que haja um excesso de diálogos, a fotografia de Thomas Townend acompanha uma narrativa pode ser vista como uma extensão do minimalismo que caracteriza, neste século, principalmente o cinema de Refn, e Drive e Apenas Deus perdoa são, sem dúvida, influências no comportamento do personagem central.

Mesmo a atuação de Phoenix dialoga com as de Gosling nessas obras de Refn, embora tenha toda a exatidão também já mostrada em Ela, O mestre e Vício inerente (do qual este filme parece uma extensão contemporânea e sob o olhar de uma Nova York soturna). No entanto, é quando a narrativa se encaminha para algo que lembra O profissional, dos anos 90, que começa a tomar um rumo imprevisto, embora marcado sempre por cenas delimitadas e eficazes. Nesse sentido, a atuação de Samsonov é surpreendente, situada entre o impacto pela agressão que sofre e um comportamento decisivo contra o mundo capaz de perturbar mesmo o homem mais preparado para o enfrentamento. Ramsay sabe, como Refn, extrair mesmo uma atmosfera de redescoberta de si mesmo dos momentos mais terríveis e que afligem o espectador, colocando os personagens em situações ímpares. A violência contra a infância é registrada aqui de maneira crua, assim como era no filme anterior de Ramsay, opondo-se, em momentos-chave, à cor rosa de quartos e a balas dentro de um pote.
Com pelo menos duas cenas antológicas, uma mais ao final, quando Joe se depara com uma situação realmente decisiva e mergulha num lago, simbolizando uma espécie de morte e renascimento de quem foi e passa a ser, esta obra de Ramsay é realmente aberta a interpretações. Bastante sintético em sua duração e montagem, as imagens de Você nunca esteve realmente aqui se movimentam de forma abrangente e elegante, com uma competência poucas vezes vista no cinema contemporâneo.

You were never really here, FRA/EUA/Reino Unido, 2017 Diretora: Lynne Ramsay Elenco: Joaquin Phoenix, Ekaterina Samsonov, Alex Manette, John Doman, Judith Roberts Roteiro: Lynne Ramsay Fotografia: Thomas Townend Trilha Sonora: Jonny Greenwood Produção: Rosa Attab, Pascal Caucheteux, James Wilson, Lynne Ramsay Duração: 90 min. Estúdio: Film4 Productions, British Film Institute, Why Not Productions, Page 114 Distribuidora: Amazon Studios

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4 Comentários

  1. Anônimo

     /  13 de agosto de 2018

    Filme foda, q fotografia e atuação do JP!!!
    Ótima critica!

    Responder
    • André Dick

       /  13 de agosto de 2018

      Prezado(a),

      agradeço por seu comentário generoso! Este filme é realmente marcante e Joaquin Phoenix comprova seu grande talento.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  2. Ótima crítica, realmente pensei nesses filmes que vc citou.

    Joaquin Phoenix talvez seja o melhor ator de sua geração, a Academia um dia vai ter que lhe dar um Oscar.

    (spoiler abaixo)

    Curioso o fim do filme na casa de campo, onde há uma quebra de expectativa e o clímax ocorre de forma bem diferente do que vemos no final de Taxi Driver, em que o Scorsese não poupa o espectador de assistir por inteiro as cenas sangrentas, além da garota deste longa reagir de forma bem diferente ao da garota do filme de Ramsay.

    Responder
    • André Dick

       /  16 de agosto de 2018

      Spoilers abaixo

      Prezado Alan,

      agradeço por seu comentário generoso sobre a crítica. Também acho que Joaquin Phoenix é o melhor ator de sua geração, e não ter ganho o Oscar por O mestre me parece uma das grandes injustiças da Academia nesta década (além de não ter sido indicado por Ela e Vício inerente).

      O seu comentário sobre a diferença, no ato final, do filme de Ramsay em relação ao de Scorsese é muito interessante. Realmente parece que a casa de campo é um contraponto à cidade e ao ritmo urbano da maior parte da história. E, mesmo com vários momentos de violência, Ramsay deixa tudo mais subentendido nesta parte da história, apesar de colocar a personagem da garota sequestrada como o oposto daquela feita por Jodie Foster. O comportamento dela pareceu mais associado a um filme de Nicolas Refn. Aliás, Ramsay consegue um bom equilíbrio com essas influências, sem renegar o próprio estilo. Espero que ela faça mais filmes.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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