Pérolas no mar (2018)

Por André Dick

Lançado recentemente no Brasil por sua distribuidora Netflix, Pérolas no mar (um título menos interessante que o original Nós e eles) fez um grande sucesso de bilheteria, tendo chegado, até agora, a 209 milhões de dólares apenas na China, seu país de origem. Ele é dividido em capítulos, cada um representando um novo Ano Novo chinês. Começa em 2007, quando Jian Qing (Jing Boran) e Xiao Xiao (Zhou Dongyu) se encontram num trem que sai de Pequim para a cidade natal. Eles começam a estabelecer uma relação. Mais adiante, Jian passa a se apaixonar por Xiao, enquanto dividem um lugar apertado na cidade de Pequim, para onde voltam, a fim de trabalharem em diversos lugares, enquanto Qing desenvolve um video game.
Toda essa história transcorre em cores, porém se trata de um flashback do presente, dez anos depois, quando o casal se encontra depois de um voo cancelado em Pequim. Eles vão para um hotel e lembram do passado. Esta parte curiosamente é filmada em preto e branco.

À frente da direção de Pérolas no mar está a estreante Rene Liu, de Taiwan. Ela é conhecida por seu trabalho como atriz e cantora, e aqui se mostra uma diretora não promissora e sim com um olhar já firmado. São claras suas influências: ela mistura um pouco de Richard Linklater, principalmente Antes do amanhecer, o filme que deu início à trilogia em 1995, o esquecido, mas sensível, De repente é amor e os trabalhos de Jia Zhangke e Wong Kar-Wai. Ela, inclusive, utiliza o mesmo diretor de fotografia Mark Lee Ping Bin, colaborador de Hsiao-Hsien Hou (A assassina) e de Kar-Wai (Amor à flor da pele), referenciais no cinema oriental e que comparece com outro trabalho extraordinário, numa mescla de cores e movimentos de câmera que lembram Enter the void, de Noé, assim como por meio do preto e branco confere um sentimento de solidão inabalável, próximo daquele que vemos na Nova York de Manhattan.

No entanto, ao contrário dos peças orientais menos inclinadas ao sentimentalismo, Pérolas no mar é afetivamente pop, com o uso de algumas canções e uma emoção transparente que lembra muito o de filmes ocidentais. Liu desenvolve, principalmente nas duas primeiras partes, as melhores da obra, essa relação dos jovens de maneira sincera, em meio às dificuldades da vida e sonhos de se estabelecer. A cineasta tem um olhar muito afetuoso em relação aos personagens, tornando-os próximos do espectador. Enquanto o jovem procura desenvolver seu video game, que pode lhe trazer dinheiro, a companheira se envolve com homens de mais idade, a fim de conseguir uma tranquilidade financeira. As conversas que ambos têm sobre a possibilidade de conseguirem algo juntos são muito sensíveis e algumas bem-humoradas, flertando com a possibilidade de uma construção familiar (a cena em que Qing mostra o apartamento onde está pelo celular para a filha pequena é notável pela simplicidade eficaz). É como se eles representassem a modernidade, a tentativa de sair da casa dos pais, e conquistar uma nova vida, separando-se da tradição – e talvez por isso a obra tenha feito tanto sucesso. E, de certo modo, há ingredientes em sua estrutura de Pais e filhos, talvez o filme mais comercial de Hirokazu Koreeda (diretor que venceu o Festival de Cannes este ano).

A convivência entre os dois é profunda e ressoa de maneira verdadeira, no kitchenette em que vão morar, trazendo lembranças do cenário introspectivo de Felizes juntos, uma ótima realização de Kar-Wai dos anos 90. Faz lembrar diretamente também As montanhas se separam, de Jia Zhangke, que acompanha os efeitos de uma relação ao longo de várias décadas. Os jovens se mostram arrependidos, mas, ao mesmo tempo, conscientes de que a vida vai se movimentando independente da vontade deles ou de seus sonhos se realizarem ou serem interrompidos. É uma tradição do cinema oriental conseguir retratar de modo verdadeiro esse sentimento de casais, o que vemos, de forma metalinguística, por exemplo, na obra de Hong Sang-soo. Em grande parte de Pérolas no mar, esse sentimento é autêntico e há uma sobreposição de tempos na memória do espectador, mesmo quando cada época é bem definida pelo trabalho de fotografia, por mais que Liu se entregue, em sua parte final, a uma sucessão de lugares-comuns e mesmo a uma quebra de quarta parede que não acrescenta ao que o filme já apresenta por si só. Ou seja, o espectador parece levado a entender de maneira didática o que a narrativa em si já deixa bem entendido.

Nada desgasta a atuação de Tian Zhuangzhuang, como pai de Jing Qing, apesar de aparecer em breves cenas, com uma presença notável, fazendo com que a história adquira um sentido de circularidade bastante convincente. É ele que tece uma ligação entre o filho e sua amada, mesmo que de maneira aparentemente distante. O atrito que possui com o filho é apenas parte de um componente maior, de um mosaico que trata da própria tradição oriental. Como cozinheiro de seu restaurante, ele vai costurando essa aproximação por meio de cada ano novo. E a fotografia de Lee Bin traz algumas de suas sequências de maior fôlego nos passeios noturnos em cada ano novo: há uma exatamente em frente a fogos no artifício no horizonte que é irretocável. Esse clima da noite se contrapõe às sequências diurnas, criando um enlace interessante também neste sentido. Já o casal, feito por Jing Boran e Zhou Dongyu, é tão realista que se aproxima daquele de Ethan Hawke e Julie Delpy na trilogia de Linklater, no entanto mais simpático, pois suas conversas se situam numa linha de pensamento mais despretensiosa. Cada passeio que fazem evoca um relacionamento próximo do não fictício, quando, ao mesmo tempo, a fotografia nos lembra se tratar de um filme e da história também de cada espectador em busca de seu amor.

Hou lai de wo men, China, 2018 Diretora: Rene Liu Elenco: Jing Boran, Zhou Dongyu, Zhuangzhuang Tian, ​​Qu Zheming, Zhang Zixian Roteiro: An Wei, He Xinming, René Liu, Pan Yu, Yuan Yuan Fotografia: Mark Lee Ping Bing Trilha Sonora: George Chen Produção: Patricia Cheng, Dong Ping, Zhang Yibai, Zheng Zhihao Duração: 119 min. Distribuidora: Netflix

 

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2 Comentários

  1. Bela crítica! A melhor que vi na rede sobre esse filme maravilhoso hahaha. E de quebra ainda peguei mais sugestões de filmes para assistir. Sou um pouco leigo no cinema oriental ainda.

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    • André Dick

       /  10 de fevereiro de 2019

      Prezado João,

      agradeço por seu comentário generoso sobre a crítica e fico feliz que ela tenha trazido sugestões do cinema oriental, já que pretende conhecê-lo mais. É uma filmografia muito rica. Além desses autores contemporâneos, certamente uma grande referência de todos é Akira Kurosawa, de Dersu Uzala e Sonhos, por exemplo.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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