Desobediência (2018)

Por André Dick

O diretor chileno Sebastián Lelio já havia lançado Uma mulher fantástica, vencedor do Oscar de filme estrangeiro e que estreou no Festival de Berlim, quando também estava finalizando a produção de Desobediência, seu ingresso em Hollywood, com Rachel McAdams e Rachel Weisz. É interessante como Lelio constrói as cenas iniciais do seu filme premiado, aliando drama, romantismo e suspense, principalmente porque nunca indica o que irá acontecer depois que o personagem namorado de uma mulher transexual se sente combalido, rompendo a tradição.
Em Desobediência, que também estreou no ano passado no Festival Internacional de Toronto ele se baseia de outro modo na tradição. Com roteiro escrito em parceria com Rebecca Lenkiewicz a partir de um romance de Naomi Alderman, ele mostra uma mulher, Ronit Krushka (Rachel Weisz), que regressa à sua comunidade judaica londrina depois da morte de seu pai Rav (Anton Lesser), um rabino, e encontra Esti Kuperman (Rachel McAdams), casada com Dovid (Alessandro Nivola), o seu amigo de infância e sucessor do seu pai como rabino. Esti também manteve um triângulo amoroso com a amiga e o agora marido.

Para os olhos alheios, eles seguem as normas dessa comunidade, da qual Ronit não quer mais fazer parte, tendo se tornado uma respeitável fotógrafa em Nova York. Os tios de Romit, Fruma (Bernice Stegers) e Moshe (Allan Corduner), a recebem com solicitude, no entanto com certa desconfiança e temor de revisitar o passado. Há um acontecimento específico que tentará justamente fugir às regras impostas, não apenas pela comunidade, como também, por habitual, pela sociedade. O casamento se transforma no símbolo dessa permanência de sentimentos, e Lelio filma a relação entre Esti e Dovid de maneira simétrica, com enquadramentos minuciosos.
Uma mulher fantástica é uma espécie de thriller disfarçado a partir de um acontecimento central que desencadeia todos os fatos. Há uma espécie de fantasma que ronda o tempo todo a personagem central sem que ela possa se defender à altura do comportamento que recebe das pessoas em torno. Já Desobediência parece bem menos tenso, mantendo quase uma frieza do espectador em relação ao trio principal, nunca se decidindo exatamente por um caminho. Talvez esta ambiguidade seja exatamente seu atrativo, ao lado das belas atuações de Weisz e McAdams, esta uma atriz múltipla, capaz de passar do malickiano Amor pleno para A noite do jogo sem que se note a diferença, pois seu talento transita de gênero para gênero.

Enquanto em Uma mulher fantástica, Lelio utilizava imagens por vezes reais, por vezes líricas, com um bom aproveitamento da fotografia, e nunca se torna condescendente com a situação, tentando mostrá-la da maneira mais incisa o possível, em Desobediência ele se fixa na realidade de modo preponderante. O diretor não joga os sentimentos de acordo com intenções meramente sociais e sim sentimentais, equivalendo, da melhor maneira, o objetivo de representar um drama autêntico e a tentativa de colocá-lo como um símbolo de um discurso à margem. A amizade que transcende a época entre Ronit e Estit se consolida em todos os aspectos por meio de imagens poéticas, com um jogo de luzes da fotografia bem acentuado, além de uma sequência ousada para as duas atrizes, revelando uma intensidade poucas vezes vista. Lelio se mostra um grande condutor de elenco, extraindo, desse dueto, ainda uma atuação à margem de Nivola, ator que vem se tornando referência em papéis indecisos, como aquele professor universitário que se envolve com uma aluna em Almas secas, e se parecendo, nesse sentido (não apenas fisicamente), com Michael Fassbender.

Há uma atmosfera interessante de tradição seguida à risca em todo o filme, no que se corresponde com o recente Noviciado e o já clássico Dúvida, que trata do catolicismo, principalmente pela figura de Nivola, mas sobretudo por aquela de McAdams, que trabalha como professora e parece temer qualquer passo que desvie do caminho que foi estabelecido para sua vida. Nesse sentido, Romit é como se fosse o símbolo da libertação desse universo, daquilo que ela gostaria de ter sido, fugindo ao que foi imposto. De certo modo, é este mote que oferece a transição de todo o ato final, com um paralelismo notável entre o que deve permanecer para esses personagens e, ao mesmo tempo, se transformar com a passagem do tempo. Não parece descompromissado o fato de Romit ser uma fotógrafa. Cada instante desta narrativa lembra um postal tentando encontrar o olhar do outro, com um sentimento, a começar pelo desencadeamento da história, de luto e sobrevivência ao que se foi e se tenta ser. As velas sendo acesas em diferentes sequências representam essa tentativa de cada um se autoiluminar. Vários filmes tratam de uma tradição mais vigorosa e centrada nos papéis de seus integrantes, porém Desobediência possivelmente seja o exemplo mais claro dos últimos anos, desempenhando esse esforço com uma competência narrativa que não foge a pontos já previstos, ainda que sempre com o intuito de apresentar ao espectador uma visão interessante.

Disobedience, EUA/ING/IRL, 2018 Diretor: Sebastián Lelio Elenco: Rachel Weisz, Rachel McAdams, Alessandro Nivola, Anton Lesser, Bernice Stegers, Allan Corduner Roteiro: Sebastián Lelio e Rebecca Lenkiewicz Fotografia: Danny Cohen Trilha Sonora: Matthew Herbert Produção: Frida Torresblanco, Rachel Weisz, Ed Guiney Duração: 114 min. Estúdio: LC6 Productions, Braven Films, Element Pictures, Film4 Productions, FilmNation Entertainment Distribuidora: Curzon Artificial Eye, Bleecker Street

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