O amante duplo (2017)

Por André Dick

Exibido pela primeira vez no Festival de Cannes de 2017, O amante duplo é o filme mais recente de François Ozon, o diretor francês com mais lançamentos nos últimos anos. Ele vem fazer companhia a Frantz, obra mais clássica do diretor lançado no primeiro semestre do ano passado, fotografado em um preto e branco excepcional. Mais clássica também porque O amante duplo recupera as características do cineasta exibidas principalmente no fascinante Swimming Pool – À beira da piscina, de 2003, com Charlotte Rampling no papel de uma escritora que vai para uma casa de campo tentar escrever uma obra quando se vê cercada por um mistério em torno da filha de seu editor (Ludivine Sagnier). Nessa peça que já completou 15 anos, vemos o estilo de um novo diretor se sustentar pela originalidade.
Chloé Fortin (Marine Vacth) é uma jovem com características depressivas que passa a se tratar com o psicanalista Paul Meyer (Jérémie Renier, um dos atores favoritos dos irmãos Dardenne). Ela é uma ex-modelo de 25 anos que deseja fazer com que desapareça uma determinada dor em seu corpo. Isso é o início de um relacionamento nebuloso, em que Ozon utiliza uma simbologia entre a psicanálise e a figura do gato. Ele desenha analogias interessantes, quando Chloé vai trabalhar num museu – e este representa, algumas vezes, sua própria personalidade, ligada a um sexo instintivo.

Poucas vezes o cenário de um museu é tão bem utilizado aqui: além do cuidado cenográfico, com uma composição de obras que tratam não apenas do lugar enfocado, como também da personagem, Ozon ingressa num labirinto humano, no qual a personalidade de uma mulher vai sendo desenhada tanto pela criação artística quanto pela criação que surge de sua faceta psicanalítica. Certamente há muito de Freud e Lacan nas imagens colecionadas pelo diretor, numa história que coloca o sexo como ponto de partida para solucionar questões existenciais persistentes.
Ozon faz uma espécie de drama mesclado com thriller de voltagem erótica, lembrando em alguns pontos Gêmeos, de Cronenberg, e Elle, de Verhoeven, mas com uma sensação ainda maior de vazio, como é de praxe em sua obra. Vacth (estrela de Jovem e bela, outro filme de Ozon) tem uma atuação surpreendente e se entrega ao papel com vulnerabilidade, protagonizando cenas difíceis e nas quais Ozon chega a comparar o olhar com o sexo feminino, com um requinte visual de fazer inveja aos melhores diretores de cinema de arte. Uma fotografia decisivamente bela de Manu Dacosse entrega não apenas ao museu uma representação da duplicidade que persegue esses personagens. Veja-se a cena em que Chloé adentra um espaço em que sua imagem é multiplicada por vários espelhos, ou como a Ozon enquadra seu rosto para se assemelhar a uma figura felina (e outras vezes andrógina).

O mais interessante é como Ozon deixa em suspenso qualquer tipo de explicação mais definida, a exemplo de algumas personagens femininas que vão surgindo para preencher lacunas. O passado, nesse meio campo, se torna uma referência para que possamos descobrir o que está acontecendo (ou não) aos personagens. Nunca se tem certeza sobre o que está ocorrendo; a cada momento em que a trama avança, parece que o espectador precisa retomar passos que já pareciam deixados para trás.
Chloé lembra muito as personagens de um filme de De Palma, embora muito mais complexa em determinados pontos também porque o roteiro navega por um jogo menos intenso com a metalinguagem e mais com a perturbação emocional capaz de conduzir a lugares diferentes. Se em obras como Dublê de corpo De Palma presta uma clara homenagem a Hitchcock, Ozon deixa seus caminhos mais nublados, fazendo uma contraposição entre o dia claríssimo no museu e a noite na qual as relações se mostram estranhamente confusas. Há muito, nisso, claro, de um estilo que pode ser interpretado como apenas palatável para as plateias, sem o intuito exatamente de chocar.

No entanto, há algo sempre onírico rondando essa trama, independente do que leva Chloé a se locomover em busca de uma explicação para o que está de fato sentindo, o que leva ao encontro de De olhos bem fechados, obra derradeira de Kubrick que estabelecia a ligação da noite com o dia de maneira única, mais do que toda a história mostrada de maneira irretocável. Desse modo, ele dialoga abertamente, ao mesmo tempo, com o estilo de Olivier Assayas, outro cineasta francês da nova geração, com muito talento. Embora recebido com certa insatisfação, O amante duplo é um belíssimo filme que vem sendo subestimado de maneira geral desde sua exibição em Cannes. Ele é tudo o que gostaria de ter sido a trilogia baseada nos romances de E. L. James, sobre o comportamento da mulher diante de uma relação notadamente arriscada. E não fala apenas dela: trata dos sentimentos do espectador de maneira enviesada, trazendo uma interpretação para a busca de uma identidade nem sempre capaz de libertá-la.

L’amant double, FRA/BEL, 2017 Diretor: François Ozon Elenco: Marine Vacth, Jérémie Renier, Jacqueline Bisset, Myriam Boyer, Dominique Reymond Roteiro: François Ozon Fotografia: Manuel Dacosse Trilha Sonora: Philippe Rombi Produção: Éric Altmayer e Nicolas Altmayer Duração: 110 min. Distribuidora: California Filmes

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