O mito da liberdade (2010)

Por André Dick

O diretor David Robert Mitchell se tornou conhecido por seu brilhante suspense Corrente do mal. No entanto, sua estreia atrás das câmeras havia acontecido alguns anos antes com este O mito da liberdade, uma tradução um pouco problemática em relação ao original. Se há algum filme que soube conservar alguns elementos das experimentações de Linklater de início de carreira (em Jovens, loucos e rebeldes) e trazer sua própria visão, chegando a antecipar algumas abordagens, como as de As vantagens de ser invisível e Palo Alto, mais do que exatamente Harmony Korine, é este. Numa semana em que o filme mais recente de Mitchell, Under the Silver Lake, foi o mais vaiado até agora do Festival de Cannes, é importante retomar uma trajetória que parte do cinema underground dos Estados Unidos com talento poucas vezes visto. Há oito anos, O mito da liberdade estreava justamente no Festival de Cannes.
A história segue um grupo de jovens de um subúrbio de Detroit, que pretende aproveitar seu último dia de verão para, principalmente, chegar a algumas conquistas. Nada muito diferente dos filmes sobre jovens, adolescentes e a dificuldade de entrar na vida adulta. Mas Mitchell, como em Corrente do mal, possui uma visão poética dos detalhes que cercam a adolescência: em seu filme, tudo é discreto (talvez o contrário do que vemos em Linklater) e mesmo sem humor, fazendo com que o espectador nunca chegue muito próximo dos personagens (há poucos diálogos), no entanto nunca deixe de senti-los como reais.

Amanda Bauer é Claudia, uma corredora, um tanto interessada em provocar o namorado de uma amiga; Marlon Morton é Rob Salvati, que se apaixona por uma menina no supermercado e passa a procurá-la depois disso; Brett Jacobnsen é Scott Holland, irmão de Jen (Mary Wardell), que, ao olhar alguns álbuns de fotos, redescobre subitamente um interesse por duas irmãs gêmeas do colegial, Ady Abbey (Nikita Ramsey) e Anna Abbey (Jade Ramsey); e Claire Sloma é Maggie, uma menina que se interessa pelo rapaz que trabalha na piscina onde vai durante o verão, enquanto se dedica à dança. Todos esses personagens serão mostrados vagando à noite pelas calçadas do subúrbio, entrando e saindo de casas onde há reuniões, seja de rapazes ou moças.
Interessante como Mitchell privilegia um olhar melancólico, diferente do olhar de John Hughes em seus projetos iniciais, embora Clube dos cinco antecipe parte dessa reflexão juvenil, e mais ainda Superbad, embora Mottola desenhe para seus personagens uma descaracterização do adolescente comum. É um diretor que consegue extrair boas atuações, discretas e concisas, de um elenco inexperiente e que consegue ser efetivo. Ele tem uma ambientação muito bem feita, assim como Corrente do mal, até mesmo com elementos do outro filme (os lugares são quase sempre escuros e abandonados). Trata-se de uma espécie de despedida de uma fase, com mais sensibilidade do que costumamos ver. O último dia de verão e a noite que segue a ele podem definir o rumo de cada um.

O roteiro não tem um desenvolvimento complexo, mas a maneira como Mitchell filma essa noite (com a “festa do pijama” a que remete o título original) parece traduzir a sensação do verão e das descobertas de uma maneira que leva ao comedimento, não apenas com Maggie dançando em meio a uma festa, como também Scott tentando reviver uma nostalgia do colegial, e Rob querendo encontrar a menina que pode ser a sua futura namorada. Os olhares e toques importam mais do que a sensação de envolvimento, e pode-se ver também o quanto há cenas que inspiraram filmes mais pop, como Cidades de papel e Homens, mulheres e filhos (o casal se encontrando à janela). A fotografia de James Laxton, que se tornaria mais conhecido por seu trabalho em Moonlight – Sob a luz do luar, é verdadeiramente delicada, alternando a claridade ofuscante do dia com o mistério da noite que significa um rito de passagem para esses jovens enfocados.
O cenário do subúrbio dialoga, desse modo, com o sentimento dos personagens: as ruas vazias, algumas meninas andando de bicicleta, o barulho da festa, alguns adolescentes nadando num lago, meninas reunidas ao redor de uma mesa de sala, os rapazes jogando papel higiênico nas árvores (lembrando o videoclipe “1979”, do Smashing Pumpkins), o jovem que aprecia uma menina (Amy Seimetz) limpando o carpete da casa para depois encontrá-la, surpreso, numa banheira, o seu amigo que não consegue entender por que ele busca a mesma menina do supermercado. Mesmo em relação a uma série sobre essa fase, Freaks and geeks, O mito da liberdade se sente introspectivo, como se apenas mostrasse detalhes do cotidiano que irremediavelmente irão marcar a vida dos personagens-chave, mesmo que eles não deem a importância necessária ou mesmo não queiram saber. Mitchell se apresenta como um diretor e roteirista à altura desta visão realmente importante para o gênero.

The myth of the american sleepover, EUA, 2010 Diretor: David Robert Mitchell Elenco: Claire Sloma, Marlon Morton, Amanda Bauer, Brett Jacobsen, Nikita Ramsey, Jade Ramsey, Amy Seimetz Roteiro: David Robert Mitchell Fotografia: James Laxton Trilha Sonora: Kyle Newmaster Produção: Justin Barber, Michael Ferris Gibson, Adele Romanski, Cherie Saulter Duração: 93 min. Distribuidora: IFC Films

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